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20 outubro 2026

Mistério em Cinnamon Falls

Acabei, neste instante, de ler “Mistério em Cinnamon Falls” e... gostei muito, mas muito, de verdade. Se eu tivesse que definir a obra da escritora Necole Ryse, ou melhor, R.L. Killmore, que é o pseudônimo usado por ela, eu ‘diria’ que o livro tem fofura, romance, drama, suspense e aventura na medida certa. Nenhum desses ‘ingredientes’ ultrapassa a medida de um grama que seja e, com isso, o resultado final só poderia ser um bolo delicioso para ser devorado.

Que eu me lembre, até agora não havia lido nada de cozy mystery (mistério aconchegante), mas, depois da narrativa de “Mistério em Cinnamon Falls”, passei a incluir esse gênero literário na minha lista de preferidos.

Um Enredo Perfeitamente Equilibrado

Como escrevi acima, o livro de Killmore não ultrapassa a medida dos ingredientes. Com certeza há leitores que não gostam de enredos muito melados e grudentos, onde o casal de protagonistas passa a maior parte da narrativa se pegando, se grudando, dizendo "te amo, te adoro, te quero" a cada página virada ou então não sai da cama onde vive fazendo amor. Depois, quando brigam ou se desentendem, a desavença se arrasta por mais páginas e páginas.

Da mesma forma, há aqueles leitores que não têm paciência para encarar tensões, perseguições e suspense num ritmo frenético perto do exagero. Acredito que “Mistério em Cinnamon Falls” cairá como uma luva para esses leitores. Os leitores que gostam de uma história, vamos dizer... equilibrada, irão adorar o livro.

Personagens Reais e Carismáticos

Outro ponto forte do enredo criado por Killmore são os personagens carismáticos. Por que eles são carismáticos e conseguem ganhar a simpatia dos leitores? Simples: eles se parecem com pessoas normais, com muitas qualidades, mas também defeitos. São personagens que erram feio, mas se arrependem desses erros e conseguem dar a volta por cima. Enfim, não são artificiais; pelo contrário, se parecem comigo ou com você. Na minha opinião, o carisma deles reside nessas virtudes e também nesses defeitos.

Amei a personagem Nia Bennet. A sua resiliência e coragem para recomeçar são animadoras. Após passar por uma humilhante desilusão amorosa na cidade grande, Nia não se deixa derrotar. Ela retorna à sua cidade natal para se reestruturar e enfrentar de cabeça erguida o recomeço. Ela se importa verdadeiramente com os moradores de Cinnamon Falls. Quando a tranquilidade do local é ameaçada por um crime, ela se envolve ativamente na investigação não por ego, mas pelo desejo de proteger e apoiar as pessoas ao seu redor.

Um detalhe importante que torna Nia uma personagem parecida comigo ou com você, muito longe da artificialidade, é que ela não se apropria da imagem da heroína inabalável. Nia chega a Cinnamon Falls se sentindo perdida, magoada e com a sensação de que sua vida é uma "bagunça", o que faz o leitor se identificar imediatamente com ela.

Jesse é outro personagem que ganha os leitores. Como responsável pela segurança na pequena cidade de Cinnamon Falls, ele carrega um senso de dever genuíno. Ele não é o policial durão e insensível de thrillers pesados; sua autoridade é exercida com cuidado, paciência e respeito pela comunidade. Por trás do uniforme, Jesse é um homem carinhoso, capaz de gestos sutis e protetores que encantam o leitor sem soar meloso ou forçado — o que se encaixa perfeitamente na medida certa do livro.

Poderia passar grande parte do meu tempo escrevendo sobre outros personagens do romance como Rose, Morgan, Nills, entre outros; mas basta ‘dizer’ que eles estão longe de ser caricaturais.

O Mistério de Cinnamon Falls

O enredo do livro nos apresenta, logo de início, a personagem Nia Bennet que, após um término de romance traumático e doloroso na cidade grande, decide que é hora de recomeçar. Seu plano era simples: voltar para Cinnamon Falls — a pequena cidade onde nasceu e passou grande parte de sua infância e juventude — para organizar a própria vida e reconquistar a paz de espírito.

Porém, a tranquilidade do lugar é interrompida justamente durante as preparações do famoso Festival de Outono. Um assassinato chocante acontece no coração da cidade — e, para complicar ainda mais as coisas, o responsável por liderar a investigação oficial é ninguém menos que Jesse, o policial local e seu inesquecível primeiro amor.

Dividida entre a dor do passado, a faísca reacendida por Jesse e sua própria curiosidade incontrolável, Nia acaba se envolvendo na busca pela verdade. Afinal, em uma cidadezinha onde todos se conhecem, qualquer vizinho, comerciante ou amigo pode estar escondendo um segredo sombrio.

Enfim, galera, é isso aí. Recomendo a leitura!

26 setembro 2026

Eu ia falar de outros livros, mas “Mistério em Cinnamon Falls” me fisgou

“Mistério em Cinnamon Falls”. Taí um livro que vem aguçando a minha curiosidade. Culpa dos “TikToks, Facebooks e Instagrams da vida”. Quase todos os dias – com ênfase para os finais de semana – tenho o hábito de ganhar (não perder) algumas horas zapeando nas redes sociais – principalmente nas três que citei acima – para acompanhar as opiniões sobre alguns livros. Faço isso, principalmente, quando quero comprar alguma obra, para saber como está a chamada ‘vibe popular’ do livro que pretendo adquirir. Como estou namorando as narrativas de Cixin Liu e do jornalista Fabricio Mazocco: “Terra à deriva: contos” e “Esse tal de rock'n'roll: 50 histórias essenciais do rock brasileiro”, lá vou eu fuçar nas opiniões dos leitores.

Enquanto lia e refletia sobre essas opiniões, lembrei-me de que tenho em minha estante um livro que recebi promocionalmente da Editora Record. Como se chama? “Mistério em Cinnamon Falls”. Pois é, sabem daqueles livros que você, ao bater os olhos na capa, já fica com uma vontade enorme de lê-los? A obra de R.L. Killmore, lançada recentemente pela Verus Editora, que pertence ao Grupo Record, tem esse poder. Costumo dizer para amigos que sua capa enfeitiça qualquer um.

Como o meu cartão só fecha no final do mês, só vou poder desfrutar da “companhia” de Liu e Mazocco daqui a algum tempinho; então, por que ficar sofrendo ou, como diz o velho ditado popular, “vendo com os olhos e lambendo com a testa”? Assim, tomei uma decisão: parei, temporariamente, de namorar “Terra à deriva” e “Esse tal de rock’n’roll” e comecei a ver algumas opiniões e informações de “Mistério em Cinnamon Falls”, que estão aqui, tão pertinho de mim.

Galera! Me surpreendi com tantas opiniões positivas, com destaque especial no Instagram e no TikTok. Os leitores e criadores de conteúdo destacam como pontos fortes da obra a vibe aconchegante e outonal, que é frequentemente comparada a produções como Gilmore Girls, misturando o clima acolhedor de cidade pequena, festividades locais (como o festival de outono) e romance com um toque aconchegante.

Os leitores elogiam também a mistura entre o suspense de uma investigação de assassinato e o romance de segunda chance com o ex-namorado (que é policial na cidade). E, por fim, elogiam a protagonista forte, apontada como determinada e corajosa após voltar para sua cidade natal para superar uma desilusão.

Na mesma hora exclamei: “Epa! Tinha esse tesouro em mãos e não sabia?!

Decidi, então, ir mais a fundo e fiquei sabendo que o livro faz parte de uma série chamada “Cinnamon Falls”, que foi planejada originalmente como uma quadrilogia baseada nas estações do ano. Cada livro acompanha uma protagonista diferente na mesma cidadezinha charmosa e traz um mistério cozy com uma pitada de romance. Para aqueles que não estão familiarizados com o gênero, “mistério cozy” ou mistério aconchegante é um subgênero de histórias policiais e de suspense focado em quebra-cabeças lógicos, mas sem violência gráfica, sangue ou terror.

Mas vamos voltar à origem da série Cinnamon Falls. Como disse acima, a série foi planejada para ser uma quadrilogia baseada nas estações do ano. Dos quatro livros, dois já foram lançados no Brasil: “Mistério em Cinnamon Falls” e “Morte na Pousada dos Narcisos”. O primeiro, que representa a estação Outono e abre a série, acompanha a protagonista Nia, que volta para sua cidade natal após ter o coração partido. Ela chega bem na época do famoso Festival de Outono, mas o clima festivo acaba quando uma moradora querida é encontrada morta com um bilhete ameaçador. Nia decide investigar o crime e, no processo, precisa lidar com a reaproximação de seu ex-namorado, o policial Jesse.

“Morte na Pousada dos Narcisos”, representando a estação da Primavera(que também acabei de receber), é focado na personagem Morgan Taylor (que é a melhor amiga de Nia). Durante o Jubileu dos Narcisos na pousada da família dela, um dos convidados é assassinado no labirinto de plantas do jardim. Morgan assume o papel de detetive amadora ao lado de Will, um atraente pai solo local.

No mercado internacional, a série continua com as próximas estações (Verão e Inverno), mas os livros ainda não ganharam tradução oficial em português. O terceiro volume da série se chama The Maple Bakery Murder (na tradução ao pé da letra: “O Assassinato na Padaria Maple”), que é ambientado no inverno. O quarto livro tem o título original de Mystery at the Cherry Pie Café (“Mistério no Café Tortas de Cereja”), ambientado no verão.

Os casos de assassinato de cada livro são independentes e começam e terminam no mesmo volume. Porém, como as protagonistas são amigas e os personagens secundários reaparecem, o mais recomendado é ler na ordem certa para acompanhar a evolução dos relacionamentos da aconchegante cidadezinha do interior.

Que coisa, né? Comecei essa postagem com a proposta de escrever sobre “Terra à deriva: contos” e “Esse tal de rock’n’roll” e acabei mudando o foco completamente e “falando” sobre um outro livro de gênero completamente diferente. Mas valeu a pena.

 

20 setembro 2026

O casal que mora ao lado

— Não acredito que você vai nadar novamente contra a maré após ter lido esse livro!

— Acho que vou.

— Mas eu li e gostei muito.

— Pois é, mas eu achei a narrativa morna e, muitas vezes, cansativa. Sem contar o final chocho.

— O quê?! Chocho?! Ih!! Pirou de vez.

Galera, taí uma parte do diálogo que eu tive com a Lulu logo após ter lido O Casal que Mora ao Lado, da conhecida escritora canadense Shari Lapena. A Lulu amou; eu não gostei. Confesso que pelejei para terminar a leitura.

A narrativa se torna lenta em diversos trechos, o que me fez abandonar temporariamente a história várias vezes até que o desejo de retornar à leitura voltasse. Achei as interações do detetive Rasbach com os personagens do enredo demoradas e cansativas. Ele é o policial que investiga o sequestro de uma bebê e cada vez que confrontava um suspeito, era um “Deus nos acuda”, já que quebrava o ritmo da narrativa.

Outro detalhe que prejudicava a fluidez eram os diálogos entre os dois personagens principais, Anne e Marco, que muitas vezes fugiam do foco principal da história. E, por fim, achei os personagens centrais sem carisma; sei lá... mornos. Anne e Marco, Cynthia e Graham, Richard, além do detetive Rasbach, não tiveram o carisma necessário para segurar o meu interesse. Aliás, é muito difícil se conectar profundamente com Anne, Marco ou os vizinhos. Quando não conseguimos torcer ou ter empatia real pelos personagens, acompanhar o sofrimento deles por tantas páginas se torna uma tarefa cansativa.

Outro ponto é que o livro se passa em grande parte dentro de ambientes fechados (a casa do casal, a delegacia). Como a polícia e os pais passam muito tempo sem pistas concretas do sequestro no início, os diálogos e interrogatórios acabam parecendo repetitivos, dando a sensação de que a história não sai do lugar.

Com certeza um grande número — e bota grande nisso! — de leitores deve estar me “excomungando” neste momento, porque, de acordo com os comentários nas redes sociais literárias e também nos portais de livrarias virtuais (entre os quais o da Amazon), o livro de Lapena é quase uma unanimidade ou, se preferirem, um cânone dos thrillers de suspense. Mas, no meu caso, repito: não gostei pelos motivos que expus acima.

Lulu, sei que você ficou inconformada comigo. Te conheço muito bem para saber que não irá aceitar de maneira alguma os meus argumentos, então... aceite, pelo menos, as minhas desculpas, porque tenho certeza que você amou o livro.

O Casal que Mora ao Lado narra o drama de Anne e Marco Conti. Eles parecem ter a vida perfeita, até que em uma noite tudo desmorona. Convidados para um jantar na casa dos vizinhos ao lado, eles decidem deixar a filha bebê em casa, levando apenas a babá eletrônica e checando o berço a cada meia hora. Mas, ao retornarem no fim da noite, as portas estão abertas e o berço está vazio.

A partir do desaparecimento da criança, uma investigação policial minuciosa começa a desenterrar os segredos sombrios que cercam não apenas o crime, mas o próprio casamento de Anne e Marco.

Entre acusações mútuas, memórias confusas e vizinhos misteriosos, o livro é um suspense doméstico focado em aparências e nas verdades desconfortáveis escondidas por trás das portas fechadas de um bairro de classe alta.

Acho que é isso. Se contar mais, acabo liberando spoilers para aqueles que pretendem ler o livro e, se você faz parte desse grupo, de coração, espero que goste da obra, assim como a Lulu gostou — gostou, não: amou.

08 agosto 2026

Ala D

Várias pessoas que conheço – todas leitoras de carteirinha – me disseram que Ala D é o melhor livro de Freida McFadden. Não concordo. Na minha opinião, os melhores continuam sendo os três volumes que formam a trilogia A Empregada (A Empregada, O Segredo da Empregada e A Empregada Está de Olho). Eles são fantásticos e seguem no topo do cardápio literário de McFadden — e diga-se de passagem, um excelente cardápio, já que todos os seus livros (pelo menos os que li) são muito bons.

Com relação a Ala D, que acabei de ler: mesmo não superando a saga A Empregada, o livro é muito, mas muito bom! É o tipo de leitura que fisga o leitor logo nas primeiras páginas. O plot twist principal, então (sim, há mais de um), é daqueles no padrão McFadden: de cair o queixo do leitor mais precavido. Esta reviravolta bombástica acontece perto do final da trama, quando a narrativa entra em seu clímax. Confesso que, ao ler obras de um autor conhecido por incluir grandes reviravoltas, tenho o hábito de tentar descobrir o segredo logo nos primeiros capítulos. A reviravolta de Ala D, de fato, me surpreendeu. Criei várias expectativas e elaborei teorias – por algumas, inclusive, quase cheguei a colocar a mão no fogo (rs) –, mas, no final, errei feio! Não esperava de maneira alguma por aquele segredo, que mudou todo o curso da trama.

Classifico Ala D como o thriller psicológico mais claustrofóbico que Freida já escreveu. Ufá! Sabe aquele tipo de história que te oprime, aperta o peito e dá angústia? Pois é, Ala D se enquadra perfeitamente nessa categoria. Praticamente toda a trama se passa na unidade psiquiátrica de um hospital. Conforme a leitura avança e as páginas viram, a angústia só cresce. Enquanto lia, eu me sentia dentro da própria Ala D ao lado de Amy. À medida que a história se aprofunda, os medos, as dúvidas, os receios e a angústia da personagem passam a ser sentidos também pelo leitor. Freida é uma das poucas escritoras que têm o dom de transportar o público para dentro da história, fazendo com que a gente se sinta o próprio personagem.

Como se não bastasse a história mexer com os nervos, a obra conta ainda com aquela capa igualmente claustrofóbica selecionada pela editora Record. Confesse... a capa impressiona, não é?

Em seu novo thriller, Freida narra a saga da estudante de medicina Amy Brenner, que é escalada para o plantão noturno na Ala D — a unidade psiquiátrica fechada do hospital — e, com isso, passa a viver o seu pior pesadelo. Além do desconforto natural do ambiente, Amy carrega um medo profundo e um segredo do passado que a conecta diretamente àquele lugar isolado por portas trancadas.

O que deveria ser apenas um turno obrigatório de doze horas logo se transforma em uma contagem regressiva claustrofóbica. Conforme a noite avança, incidentes estranhos começam a acontecer e as luzes falham, deixando claro que algo está terrivelmente errado e que os perigos vão muito além do que a mente humana pode explicar.

Trancada em um labirinto de corredores escuros, Amy percebe que a Ala D esconde ameaças invisíveis e que ninguém está seguro. Neste suspense psicológico, a grande questão que fica logo nas primeiras horas é: será que todos os monstros estão realmente atrás das grades?

Enfim, galera, só posso contar até aqui para não dar spoilers. Quanto aos dois plot twists finais – um revelado ainda dentro da Ala D e o outro fora dela –, preparem-se! Como já escrevi, são de derrubar o queixo de qualquer um.

Boa leitura para todos que pretendem ingressar na temível Ala D!

30 junho 2026

Sem volta

Se você gostou de “Thelma e Louise” com Susan Sarandon e Geena Davis, dirigido pelo gênio Ridley Scott, com certeza irá amar Sem Volta, de Emily Henry e Brittany Cavallaro. O porquê? Tá bem, eu conto: simplesmente, filme e livro compartilham a mesma essência do subgênero road movie, além de celebrar a força feminina. Classifico o romance de Henry e Cavallaro como um “Thelma e Louise” para o público jovem, “coisa” do tipo young adult. Mas e aqueles leitores que ainda não tiveram a oportunidade de assistir ao filme, será que também irão gostar do livro? Se eles estiverem à procura de um young adult com enredo focado no amadurecimento dos personagens principais e na superação do controle familiar — que muitas vezes se aproxima do controle obsessivo —, também irão amar a história. No meu caso – terminei a leitura na semana passada –, não cheguei a amar, mas gostei, sim, do livro.

Uma dica para aqueles que pretendem ler a obra é que se soltem um pouco das “amarras” da realidade e deixem-se embalar pelas aventuras e peripécias de duas amigas inseparáveis que resolvem “cair” na estrada. Se fizerem isso, a leitura se tornará fluida e prazerosa.

Estas duas amigas se chamam Winona e Lucille. Elas têm vidas muito diferentes, mas também têm algo em comum: estão de saco cheio de homens controladores e dispostas a tudo para fugir. Ao se livrarem das amarras que as sufocam, elas pisam fundo no acelerador, numa aventura em busca de quem são e da liberdade de poder viver a própria vida longe dessas amarras.

Agora, você que assistiu a “Thelma e Louise” e está pensando que ler Sem Volta será uma grande perda de tempo, já que ambos têm enredos semelhantes, pode começar a mudar de ideia porque a realidade é bem diferente. Apesar de livro e filme terem as suas semelhanças, as diferenças também existem e são bem distintas. Por exemplo, na produção cinematográfica de 1991, a tensão surge a partir da violência real e sistêmica (uma tentativa de estupro e o histórico de um casamento abusivo). Já no livro de Henry e Cavallaro, a opressão é internalizada nos laços familiares. Winona é sufocada pelo controle abusivo do pai, enquanto Lucille é refém, financeira e emocionalmente, de uma mãe negligente e de um irmão problemático.

Cena do filme Thelma e Louise (1991) com Geena Davis e Susan Sarandon 

Outro detalhe que deixa evidente a diferença entre os dois é que o filme tem um tom de thriller policial e comédia de humor ácido que culmina em um desfecho trágico e poético, onde o mergulho no penhasco simboliza o triunfo máximo sobre a opressão. Por sua vez, o livro mantém uma veia de comédia sombria, mas opera sob uma ótica otimista. A dinâmica entre Winona e Lucille foca na cura emocional e no empoderamento mútuo, caminhando para um final de redescoberta pessoal, laços fortalecidos e esperança no futuro, afastando-se do tom fatalista do filme.

Na minha opinião, toda a rebeldia das duas personagens de Sem Volta é uma fuga adolescente em busca de autonomia e emancipação, enquanto no filme, a dinâmica gira em torno da luta de Thelma e Louise pela sobrevivência contra instituições e situações aparentemente dominadas por homens.

Quanto às semelhanças, você que assistiu ao filme, fique tranquilo porque elas não irão atrapalhar em nada a história do livro. Existem semelhanças, sim, mas todas elas longe de queimar o enredo com spoilers ou então de influenciar negativamente o desenvolvimento da trama das duas escritoras.

Tanto no livro quanto no filme, a narrativa começa com duas mulheres que decidem dar um basta na vida que levam e partem em uma viagem de carro em busca de independência. A jornada na estrada é o cenário central da história, servindo como uma metáfora para o autodescobrimento e a quebra de paradigmas.

O pilar do que rola tanto nas telonas quanto nas páginas é a cumplicidade e a lealdade incondicional entre duas mulheres que se apoiam para enfrentar um mundo hostil e patriarcal. Semelhanças, repito, que em nada atrapalham quem assistiu ao filme e agora planeja ler o livro, ou vice-versa.

Ah! Antes que me esqueça: assisti ao filme – ainda na época do VHS – e gostei; e acabei de ler o livro recentemente e também gostei.

Inté, galera!

 


03 maio 2026

Vou te receitar um gato

Muitos leitores acreditam que para uma narrativa ser boa basta ela manter o seu ritmo. Desculpe-me discordar daqueles que pensam dessa maneira, mas na minha opinião para uma narrativa conseguir prender a atenção de um leitor ela tem que ser instável e não do tipo: “coloque em quinta marcha e siga em frente; meta o pau”. Quando “escrevo” instável estou querendo “dizer” inconstante, ou seja, uma narrativa que mude o seu ritmo com uma certa frequência, que não seja estável e sem oscilações.

Uma narrativa tem que ter os seus momentos de adrenalina, mas também tem que ter os seus momentos de mansidão. Quando o leitor pensa que a história caiu na mesmice, pimba! Chega aquele impacto que esse leitor não esperava. Resumindo: uma narrativa, mais ou menos assim... do tipo montanha-russa. E é nesse ponto que Vou te receitar um gato da escritora japonesa Syou Ishida acaba pecando.

O livro engata uma quinta marcha e segue sem mudanças, sem oscilações. Você acompanha a narrativa sabendo que ela não terá alterações significativas em seu contexto. Em certo momento da história, cheguei a exclamar: - Putz, parece que estou lendo algo pré-moldado! – Vejam bem, não estou criticando o livro, mesmo porque, ele não é ruim, estou apenas afirmando que por ser constante, chega um certo ponto que a história começa a enjoar. Me diga uma coisa: qual é o ser humano que não gosta de chocolate (rs)? Mas agora procure comer um tipo de chocolate várias vezes por dia e diariamente. Cara, tá na cara que você vai enjoar.

O plot de Vou te receitar um gato é muito bem feito mas foi explorado de uma maneira que cansa o leitor. Imagine uma clínica psiquiátrica misteriosa e com um médico psiquiatra mais misterioso ainda que aplica em seus pacientes uma metodologia de tratamento se não estranha, pelo menos sui generis. Para curar problemas emocionais como depressão, ansiedade, além de reveses na vida familiar ou profissional, além de grandes decepções; o tal “psiquiatra” ao invés de recitar remédios ou pelo menos conversar com o paciente, ele receita um gato. Isto mesmo, um gato! O animal acaba influindo de várias maneiras – influindo positivamente – na vida dessa pessoa. Quando o “tratamento” chega ao fim, o paciente devolve o gato para a clínica.

Legal né galera? Não há como negar que o plot da narrativa é diferente e com potencial para ser explorado. A escritora optou por contar a história de cinco pacientes; cada um deles apresentando um problema em sua vida que acaba sendo solucionado graças a intervenção de um gato. Quando o paciente número um consegue resolver o seu problema, ele pega o gato e devolve para a clínica misteriosa. Então, quando o paciente número dois, também se livra de sua preocupação, lá vai ele devolver o gato para a clínica. E assim vai se desenrolando a história.

No início, até concordo, é algo diferente e que prende a atenção, mas depois cai na rotina como se a história caminhasse no ritmo de um relógio com o leitor já sabendo qual horário os ponteiros irão marcar na sequência.

Pontos importantes deixaram de ser explorados no enredo como por exemplo a origem dessa clínica misteriosa – Ishida dá apenas pequenas e muito pequenas pinceladas sobre a origem tanto da clínica como de seu médico. O surgimento da enigmática Chitose, a recepcionista da clínica psiquiátrica também foi muito mal explorada, confundindo o leitor que ficou sem saber o que aquele mulher era, de fato.

Acredito que a autora quis guardar esses segredos para serem revelados aos poucos nos outros dois livros da série: Vou te receitar outro gato e Que tal mais um gato. Mas no meu modo de pensar, essa opção acabou deixando o primeiro volume da série cansativo. Se todos esses segredos fossem esclarecidos logo no primeiro volume, com certeza, teríamos um livro fantástico.

Agora, basta que vocês leiam os comentários sobre o livro na Amazon ou no Skoob para ver que estou nadando contra a maré já que a maioria desses comentários são altamente positivos, do tipo cinco estrelas com os leitores derramando elogios para Vou te receitar um gato, mas... fazer o que, estou apenas sendo sincero, expressando a minha opinião.

Mas, vamos com uma breve sinopse do livro de Ishida. No final de um beco escuro, há um prédio antigo onde funcionam vários estabelecimentos. Um deles é a Clínica Kokoro, um lugar que apernas as almas que mais precisam de ajuda conseguem encontrar. A misteriosa clínica oferece um tratamento exclusivo – e um tanto estranho – para aqueles que vão até lá: gatos.

Os pacientes muitas vezes ficam intrigados com essa prescrição nada convencional, mas quando “tomam” o animal pelo período recomendado, testemunham profundas transformações em suas vidas.

Enfim galera, é isso aí.

09 abril 2026

Os Humanos

Os Humanos de Matt Haig foi meu companheiro de quarto durante o meu processo de recuperação após a temida cirurgia de hemorroidectomia. Aquele extraterrestre odiável no início, complicado e indeciso no meio trama, mas adorável no final; esteve ao meu lado durante o meu pós operatório – doido e sofrido – no hospital e depois em minha casa.

Confesso que não foi o melhor livro que já li, mas não há como negar que  o seu enredo prende muito a atenção, principalmente pelo carisma do personagem principal: um ET que vem ao planeta Terra para dizimar toda a sua população, mas conforme vai vivendo em nosso meio e conhecendo os hábitos da população, a criatura vai mudando de opinião colocando em risco a sua missão.

Enquanto lia Os Humanos, me coloquei, muitas vezes, no lugar daquele ET. Imaginei estar de passagem em um outro planeta completamente diferente do meu com muitos hábitos estranhos, alguns até mesmo reprováveis. Mas então, durante a minha convivência com os moradores desse planeta desconhecido e distante vou compreendendo que os seus hábitos estranhos não tem absolutamente nada de reprováveis, pelo contrário, alguns deles são até... amáveis.

É esta percepção que o personagem principal do livro de Haig sente ao chegar em nosso planeta e começar a conviver com todos nós terráqueos.

Ele se sente enojado pela aparência dos humanos, pelo que eles comem e por sua capacidade de matar e guerrear. Mas, à medida que o tempo passa, ele começa a perceber que pode haver mais coisas nessa espécie do que havia pensado. Disfarçado de um ser humano, ele cria laços com a família de um homem e começa a ver esperança e beleza na imperfeição humana, o que o faz questionar a missão.

O extraterrestre vai perceber que existem as pessoas más, mas também existem as pessoas boas de coração. Ele vai mais a fundo e descobre o significado de gestos e atitudes como o perdão, o arrependimento, a reação diante de uma perda e assim por diante. A cada descoberta sua, os leitores vão se apaixonando por esse ET.

Por essa abordagem do autor, Os Humanos é um livro bem profundo, até mesmo filosófico em algumas partes, mas muito gostoso de se ler. Como já foi dito, não foi o melhor livro que li, mas certamente, foi um dos melhores.

No enredo de Os Humanos, o professor Andrew Martin, um brilhante matemático da Universidade de Cambridge, faz uma descoberta que pode mudar para sempre o destino da humanidade. Algo que, para uma espécie tão primitiva e cheia de falhas como a nossa, é perigoso demais. Por isso, uma raça alienígena “pacífica” de um planeta distante, envia um emissário para a Terra.

Quando um visitante extraterrestre, frio e puramente lógico, assume a identidade do professor, sua missão é clara: destruir as evidências da descoberta e garantir que a Terra permaneça no seu patamar de insignificância cósmica. Mas aos poucos, o emissário, isento de emoções, é modificado pela própria humanidade que veio aniquilar.

Taí um breve resumo do enredo da obra. Enfim galera, recomendo a leitura de “meu companheiro de quarto”. Acredito que vocês irão gostar muito.

Ah! É importante lembrar que Os Humanos foi publicado originalmente em 2013, mas só chegou ao mercado literário brasileiro em 2017 através da editora Jangada. Agora, aproveitando o embalo dessa onda “pró Matt Haig” que está varrendo a Net graças ao sucesso de A Biblioteca da Meia-Noite

e a expectativa em torno do lançamento de O Trem da Meia-Noite; a editora Bertrand Brasil decidiu relançar Os Humanos com um novo projeto gráfico.

28 março 2026

Seis meses para casar

Imagine só essa situação. Você está prestes a se casar, ama o seu namorado e já pensando nos preparativos de seu casamento decide pedir demissão do seu emprego. Isso mesmo! E mais: todos que trabalham com você, incluindo o seu chefe, sabem que você está deixando a empresa onde trabalha para se casar. Então, num belo dia quando você está se levantando da cama de seu futuro marido, o que é que você encontra??? Hãaa??? Me diga. Simplesmente, você encontra uma calcinha usada de uma outra mulher. No início, o seu noivo ainda tenta disfarçar dizendo que havia comprado aquela calcinha para lhe presentear ou então não sabe como ela foi parar ali. Do funcho de seu coração, você ainda tem a esperança de que ele se arrependa, mas aí chega a bomba: ele olha pra você e diz que não quer mais se casar. Buuuummmm! O seu mundo desaba.

É essa a situação ou melhor, o pesadelo vivido por Sayaka Kukori no romance Seis meses para casar. Faltando três meses para o casamento, marcado para o dia de seu aniversário de trinta anos, e logo após pedir demissão de seu emprego para cuidar da cerimônia, ela descobre que está sendo traída e que seu noivo Kazuya, não quer mais nada com ela.

Com os poucos ienes que tem na conta, humilhada e com apenas um restinho de dignidade, Sayaka consegue uma colocação num outro departamento da Revista onde trabalhava, com um chefe auto-centrado que adora se exibir. Ele exige que Sayaka se case em seis meses enquanto escreve reportagens sobre konkatsu que é a arte da busca por um marido, um costume tradicional no Japão,

Taí galera, a partir desse momento começa a via crucis da nossa Sayaka que se envolve em ‘poucas e boas’; verdadeiras peripécias amorosas que acabam conquistando os leitores.

Gostei muito de Seis meses para casar. Li o livro que tem pouco mais de 200 páginas rapidinho. O romance de estreia de Kosuke Ohashi, constrói uma narrativa que mistura comédia romântica, drama contemporâneo e crítica social. O autor conseguiu transformar algo absurdo em um enredo leve recheado de muito humor e ironia mas também com doses significativas de drama e crítica social.

Ao transformar a busca amorosa em uma espécie de experimento jornalístico, a narrativa coloca Sayaka em situações que expõem as suas inseguranças. Um dos pontos fortes do enredo é a força que brota na personagem que consegue transformar essas inseguranças em combustível para superar as dificuldades que vão surgindo ao longo de seu caminho enquanto tenta cumprir essa missão até certo ponto estranha e bizarra.

Destaque para Usami, o excêntrico chefe de Sayaka que tira suas teorias mirabolantes sobre casamento das histórias de marcas de luxo, como Louis Vuitton, Prada e Givenchy. Podemos definir Usami como um personagem emblemático muito importante na trama. Com certeza, a galera irá gostar.

Vocês devem estar se perguntando: - “E aí? Vale a pena ler Seis meses para casar? Sim, vale muito a pena. Principalmente, os leitores que estão procurando uma narrativa leve, divertida, mas ao mesmo tempo reflexiva.

 

 

03 março 2026

Mulher em queda

Se eu tivesse que definir Mulher em Queda, livro que Colleen Hoover escreveu após ter ficado três anos sumida do mercado editorial, eu utilizaria a frase de um comentário que li no portal Skoob. A leitora escreveu mais ou menos assim: “O livro tem várias páginas girando em torno da mesma coisa, com excesso de palavras e pouca profundidade real!”. Cara, essa é a definição perfeita e objetiva para o novo livro de Hoover.

A autora enrolou muito, mas muito, de fato. A descrição de um beijo toma duas páginas; uma simples reflexão entre dois personagens consome mais duas páginas; uma revelação que caberia dentro de um ‘eu te amo’ ou ‘você é muito importante pata mim’, engole mais paginas; e por aí a narrativa vai se arrastando tornando grande parte a história rasa e sem profundidade. Acredito que toda essa enrolação seja num dos maiores ‘pecados’ de Mulher em Queda.

Há ainda um outro pecado, talvez até mais grave do que toda essa ‘enrolação’; vou revelar qual é: ele se chama engodo. Quando ‘digo’ engodo estou me referindo ao chamado ‘marketing popular’ que vários blogs e canais no Youtube fizeram, publicando postagens e vídeos onde revelavam que Mulher em Queda teria a mesma vibe do megassucesso Verity, primeiro thriller psicológico escrito pela autora e que explodiu em vendas, tornando-se um grande fenômeno no mercado editorial. E quer saber? Até o “Livros e Opinião” cometeu esse pecado (vejam aqui).

Verity foi publicado originalmente em 2018 nos Estados Unidos e dois anos depois no Brasil pela Galera Record. Para se ter uma ideia do tamanho do sucesso desse livro, basta expor que mesmo após mais de cinco anos de seu lançamento no Brasil, ele continua ocupando os primeiros lugares nas listas de livros mais vendidos; além de ter ‘virado’ um filme que deve estrear nos cinemas em outubro de 2026. Somado a toda essa expectativa, os meios de comunicação começaram a associar Mulher em Queda com Verity afirmando que que o primeiro também era um thriller psicológico nos mesmo moldes de Verity.

Pronto! Estava formada a tempestade perfeita com os seguintes elementos: o lançamento de um livro com a mesma premissa de outro que havia se transformado no passado, num fenômeno editorial; e o retorno de sua autora famosa, após ter ficado três anos sem ter escrito absolutamente nada.

Mas acontece que o enredo Mulher em Queda não tem nenhuma semelhança com Verity, passando muito longe de ser um thriller psicológico. O que estou querendo explicar é que o mais recente lançamento de CoHo se enquadra no gênero ‘dark romance’ que apesar de ser um gênero literário em ascensão, muitos leitores ainda não se adaptaram a ele.

Não são enredos adolescentes. Requerem “muita reflexão”, além de experienciar emoções fortes. É um gênero que está começando a romper a bolha recentemente e que não desfruta de um grande número de seguidores. Agora, voltando a nossa ‘tempestade perfeita’ junte aos elementos dessa tempestade um gênero literário não tão popular. Entenderam o porque da decepção dos leitores CoHo? Eles, com certeza, não são adeptos do ‘dark romance’ que geralmente começa com um vilão ou um anti-herói: um stalker, narcotraficante, um homem da máfia. Depois, junta-se a violência e a adrenalina a uma narrativa moralmente ambígua, onde os limites entre o certo e o errado são testados a cada página. Se identificarmos pelo menos um destes sinais, podemos ter a certeza que estamos perante um livro desse gênero.

Da mesma forma que a autora foi muito feliz, há sete anos, quando estreou no thriller psicológico com Verity, um gênero muito diferente do qual estava acostumada; agora, ao se arriscar – mesmo sem querer – no estilo dark romance, não teve a mesma receptividade.

Em Mulher em Queda, uma escritora famosa chamada Petra Rose que já arrebatou multidões e dominou as listas de livros mais vendidos, passa a sofrer de um bloqueio literário após ter sido muito criticada pela adaptação de uma de suas obras para o cinema. O ódio viral da internet a transformou em alvo fácil, e cada página em branco a qual não consegue escrever por causa de seu bloqueio é mais um lembrete de que a sua carreira pode estar chegando ao fim.

Desesperada para se reerguer, Petra se refugia numa cabana a beira de um lago, determinada a concluir o suspense que pode salvar sua vida profissional. Ela acredita estar sozinha, mas então...

Taí galera; quem sabe aqueles leitores que apreciem o gênero dark romance, possam acabar amando a história? Afinal de contas, não existem opiniões literárias unânimes. E isso serve também para Mulher em Queda, já que também li nas redes sociais alguns comentários de leitores que amaram a história. Não muitos, mas li.

Inté!

 

 

28 janeiro 2026

A inquilina

Desta vez Freida McFadden deu dois tapas – e muito bem dados – em nossa cara. Daqueles que acertam em cheio. Entendam esses “tapas” como plot twists capazes de derrubar os nossos queixos. Aliás, a ‘médica-escritora’ é especialista nisso. Quem já leu alguns de seus livros, incluindo a famosa trilogia A Empregada – sabe do que estou “falando”.

A Inquilina tem apenas duas reviravoltas – uma depois da metade do enredo e a outra no epílogo, mas valem a pena. Apesar de alguns leitores terem comentado no portal Skoob que os dois plots do livro eram muito manjados e que já haviam descoberto bem antes da revelação; não vejo dessa forma. No meu caso, confesso que tive uma baita surpresa com os dois plot twists

Creio que o autor não pode simplesmente jogar na cara do leitor um plot twist. Coisa do tipo: “Toma aí que o filho é seu!”. Pelo contrário: o clima de suspense tem que ser preparado e ir crescendo aos poucos. Vou explicar com um exemplo fora da literatura que farão com que vocês entendam o que estou querendo “dizer”. Vamos lá. Exemplificarei tomando por base o filme “O Silêncio dos Inocentes” naquela cena em que o Dr. Hannibal Lecter é apresentado para a agente do FBI Clarice Starling interpretada pela Jodie Foster. Cara, ver a agente do FBI descendo as escadas daquela prisão tétrica onde se está encarcerado o “Dr. Lecter Canibal”, com o diretor da prisão caminhando ao seu lado, enquanto explica todas as normas de segurança que devem ser seguidas para que ela saia viva desse encontro; cria toda uma expectativa, diga-se, uma grande expectativa de como será esse encontro. Esta expectativa enorme deixaria de existir se Jonathan Demme, diretor do aclamado filme, cortasse esse preparativos e já antecipasse a edição, “pulando” direto para o momento em que a agente Starling e Haniball se conhecem.

Freida McFadden

Não sei ser consegui ser claro, mas muitos autores não gostam de preparar aquele clima de tensão, mistério ou suspense antes de anunciarem uma reviravolta na trama, deixando o plot twist... sei lá... acho que xôxo. Na primeira reviravolta de A Inquilina, McFadden cria toda uma aura de suspense e mistério quando um personagem decide ir conhecer a mãe de um outro personagem para esclarecer algumas situações digamos que... esquisitas. Ao invés de dar o doce rapidamente para os leitores provarem, a autora só aproxima a guloseima da boca desses leitores e depois retira (que maldade – rs). Então, no momento em que ela dá o doce, ou seja, ‘solta’ o plot twist, a galera se lambuza. É mais ou menos isso que acontece na primeira reviravolta que acontece logo depois do meio da trama. Já na segunda e última que ocorre somente no Epilogo, ela chega voando e na lata. Em aproximadamente duas páginas, McFadden solta a “bomba” e encerra a sua história. Apesar de rápido, esse último plot twist também surpreende.

Em A Inquilina, o personagem Blake Potter tem a vida perfeita: o emprego dos sonhos, uma noiva e uma casa no lugar mais chique da cidade. No entanto, tudo começa a desmoronar após ele ser demitido do cargo de vice-presidente na agência de markerting. A partir disso, uma sensação amarga toma conta do chamado “Lar doce lar” de Potter.

Desempregado, Blake  não conseguirá manter as parcelas do financiamento da moradia. A única solução para quitar as contas é alugar um dos quartos. Após tantas tentativas falhas para encontrar o inquilino ideal, o casal encontra Whitney

De todos, ela é quem mais se destacou com seu jeito simpático, educado e sem frescuras. Parecia ser exatamente quem eles procuravam. Só que... assim que ela se muda para a sua casa, coisas sinistras começam a acontecer. A cozinha exala um cheiro de comida podre, mesmo após várias faxinas. Barulhos estranhos acordam Blake no meio da noite; além de outras coisas estranhas que começam a acontecer em seu lar.

De repente, Blake passa a desconfiar que o perigo passou a morar em sua casa.

Gostei muito do livro de McFadden: leitura fluída – o que já se tornou uma característica da autora – momentos de muita tensão e dois plot twists surpreendentes. Sem contar a capa hiper-caprichada. Apesar do lançamento em brochura, os nomes da autora e da obra foram publicados em letras brancas em alto relevo combinando com o fundo rosa e matizes vermelhas. Ah! E tem ainda aquela mão tétrica saindo de um vão da porta com respingos de sangue.

Enfim, recomendo a leitura.

 



23 outubro 2025

O Meu Pé de Laranja Lima: a relação de amizade entre Zezé e o Português me fizeram, novamente, reler a obra e... chorar

Olha galera, quero avisar já de antemão que esse post terá alguns spoilers que talvez possam fazer com que a leitura perca um pouco de seu impacto, principalmente para aqueles que ainda não leram a obra de José Mauro de Vasconcelos ou então não assistiram as suas adaptações no cinema e na TV. Mas prometo que tentarei ser o mais discreto possível, mesmo assim serei obrigado a dizer escrever: “leiam por conta e risco”.

Bem, vamos lá. Já tinha lido e relido O Meu Pé de Laranja Lima e amado de paixão a história daquele menino travesso – e ‘bota’ travesso nisso -, sonhador e carinhoso chamado Zezé e de seu pé de laranja lima. Gostei tanto que acabei escrevendo uma resenha que publiquei há pouco mais de oito anos (veja aqui).

A prova de que amei a história de Zezé foi a de que, novamente, bateu uma vontade enorme de reler o livro e foi isso que eu fiz. Um dos momentos mais emocionantes do enredo e confesso que chorei, chorei mesmo, foi o capítulo envolvendo Zezé e Manoel Valadares, mais conhecido pelo seu apelido de Português. 

A relação de amor e respeito entre esses dois personagens é uma das ‘coisas’ mais lindas de O Meu Pé de Laranja Lima. Este relacionamento nos ensina o que é a amizade incondicional, ou seja, aquela amizade que não impõe condições – por menores que sejam. Ela é baseada num único elemento, no amor. O tipo da amizade na qual caberiam frases como: “Por você eu faria qualquer sacrifício”, “você é muito importante para mim” e principalmente: “eu te amo”.

Quando comecei a reler, pela segunda vez, a obra de Vasconcelos tinha a intenção de reler apenas os capítulos em que apareciam Zezé e o Português (a quem Zezé chamava carinhosamente de ‘Portuga’) mas acontece que o enredo do livro é tão viciante que acabei relendo todas as suas páginas quarta vez. E querem saber? Chorei, novamente, quarta vez.

Cara, aliás, não tem como não chorar no momento em que a ‘tesoura do destino’ corta o fio dessa amizade de uma maneira tão trágica e marca profundamente a vida de um menino, incompreendido até mesmo pelos seus pais e irmãos e que havia encontrado no ‘Portuga’ tudo o que ele necessitava: amor, carinho, compreensão e principalmente correção fraterna, sem surras, mas com palavras e gestos que valem muito mais do que palmadas ou tapas.

O protagonista Zezé tem 6 anos de idade e mora num bairro modesto, na zona norte do Rio de Janeiro. O pai está desempregado, e a família passa por dificuldades. O menino vive aprontando, se jamais se conformar com as limitações que o mundo lhe impõe – viaja com a sua imaginação, brinca, explora, descobre, responde aos adultos, mete-se em confusões, causa pequenos desastres.

As surras que lhe aplicam seu pai e sua irmã mais velha são o seu suplício, a ponto de fazê-lo querer desistir da vida. Tudo isso muda quando o “Portuga” entra em cena. A sensação que tive ao concluir a leitura de O Meu Pé de Laranja Lima foi a de que o Português foi um anjo muito especial aqui na terra e que após cumprir a sua missão...

Encerro, convidando a galera para que leiam o livro. Se você ainda não conhece a história de Zezé, com certeza, entrará para o meu time; o time daqueles que jamais irão se cansar de reler esse enredo fantástico.

19 outubro 2025

O Massacre da Família Hope

Levei três pedradas na cabeça e confesso que demorei para me recuperar. O que foi aquilo? Caráculas! Dessas três pedradas, a primeira foi a mais doída, a mais atordoante. Estas pedradas nada mais são do que os três plot twists principais do thriller de suspense O Massacre da Família Hope de  Riley Sager. É importante frisar que o livro não se resume a essas três reviravoltas; tem muitas outras, mas muitas de fato. Parece um pouco – não com relação à história, mas sim com a quantidade de plot twists - com Eles Merecem a Morte de Peter Swanson, outro livro fantástico que li há algum tempo (veja resenha aqui). A diferença é que as reviravoltas de Eles Merecem a Morte são distribuídas de maneira uniforme no romance fazendo com que os leitores tenham tempo para respirar (cá entre nós, eu prefiro assim); já as reviravoltas do romance de Sager acontecem  numa “pancada só” deixando o leitor praticamente sem fôlego.

O primeiro plot twist acontece somente após a leitura de aproximadamente 80% da história, ou seja, próximo do seu final. A partir daí, esse twists começam a “cair” em cascata, um após o outro, deixando o galera completamente estonteada. Como expliquei acima, O Massacre da Família Hope não se prende em apenas três grandes reviravoltas; há também outras surpresas pequenas ou médias, todas perto do final.

Já estou pensando na pergunta que muitos de vocês que leem esse post agora, devem estar fazendo: “A leitura desses 80% do enredo, até a chegada dos plot twists, é maçante?”. Eu respondo: “por incrível que pareça não é”. Sager “mandou bem” o que admitamos é algo incomum. Imagine um autor escrevendo uma obra de aproximadamente 400 páginas deixando todas as grandes surpresas para o final. Cara, o sujeito teria que suar e sofrer muito para conseguir a proeza de prender a atenção dos leitores. Pois é... Sager conseguiu isso.

Até a chegada “do mar” de plot twists, a história de O Massacre da Família Hope prende, sim, a atenção dos leitores. Sager criou um clima de mistério e suspense em torno de uma família sombria e misteriosa: os Hope formada pelo casal Winston e Evangeline Hope, as filhas Lenora e Virginia e todo o seu ‘staff’: a governanta Sra. Baker, o cheef Archie, a faxineira Jessie, a enfermeira Mary, além de outros que vão se juntando ao núcleo no decorrer da trama. Cada um deles com os seus segredos, alguns bem sombrios e que servem para amarrar os plot twists finais, o que Sager fez muito bem; não deixando nenhum desses plot ‘jogados ao leu’.

Escritor Riley Sager

A revelação, aos poucos, dos segredos dos Hope, principalmente aqueles envolvendo a filha Lenora consegue prender a atenção dos leitores até a chegada da primeira pedrada, considerada a maior e a mais doida que acontece na última linha do capítulo 36. A partir daí, prepare o seu coração para as reviravoltas que virão uma atrás da outra.

O enredo fictício de O Massacre da Família Hope gira em torno de um crime bárbaro que aconteceu na década de 1920 no estado do Maine: a família Hope foi brutalmente assassinada, restando apenas a filha mais velha Lenora, que acabou se tornando a principal suspeita. Apesar de todos acreditarem que a garota foi a responsável pelo massacre, a polícia jamais encontrou provas disso. Daquele dia em diante, Lenora nunca mais falou sobre aquela noite e permaneceu isolada em Hope’s End, a famosa mansão onde o crime ocorreu.

Décadas depois, Kit McDeere é designada como cuidadora de Lenora Hope, após a fuga da antiga enfermeira que abandonou a mansão, às pressas, fugindo de madrugada e deixando para trás roupas, uniformes e demais pertences.

Aos 70 anos e confinada a uma cadeira de rodas, Lenora perdeu a capacidade de falar, devida a uma série de derrames, e só consegue se comunicar com Kit datilografando frases em uma velha maquina de escrever. Até que, numa noite, Lenora escreve uma frase inesperada: “eu quero te contar tudo”.

A história é narrada em primeira pessoa: ora por Kit, ora por Lenora, duas personagens que passam longe do status: “desinteressantes, chatas e estressantes”; pelo contrário, achei que as duas foram muito bem elaboradas pelo autor.

Enfim, é isso aí galera. Recomendo muito a obra e... se preparem para as três pedradas que, certamente, irão doer muito; mas a primeira delas... My God!

24 setembro 2025

Atmosfera

 


- “Hã, tá bom”.

- “Me desculpa, foi sem querer”.

- “Tá”.

- “Sim”.

Cara, Joan Goodwin é uma das personagens mais chatas da literatura. Juro que fiquei admirado com a composição dessa personagem por Taylor Jenkins Reid. Puxa vida, afinal de contas ela criou duas personagens antológicas da literatura de ficção: Evelyn Hugo e Daisy Jones. E por “falar” nisso, como eu amei essas duas mulheres de OsSete Maridos de Evelyn Hugo e Daisy Jones & The Six: Uma História de Amor e Música. Mas tudo bem, o assunto do post, agora, é a nada inspiradora Joan Goodwin e Atmosfera.

Joan concorda com tudo, aceita tudo e como não bastasse ainda é capacho de Bárbara, a sua irmã mais nova e intragável. Tudo o que Bárbara manda, ela faz: “cuida da minha filha”, “faz isso”, “faz aquilo”, “hoje eu não estou afim disso, por isso, você faz”.  Galera, é o tipo do diálogo em mão única”: eu mando e você faz.

Me desculpem aqueles que gostaram da personagem; aqueles acharam Joan de uma poesia pura, educada, inteligente e outras coisas mais. Eu não gostei. Para mim foi uma personagem sem sal e sem açúcar e que contribuiu para transformar Atmosfera num romance sem sal e sem açúcar. Cara, não acredito que estou escrevendo isso de um livro de Jenkins Reid, pois é, mas infelizmente estou.

A personalidade que falta em Joan Goodwin, por outro lado, sobra em Vanessa Ford. Esta personagem sim, fantástica. Adorei Vanessa. Firme quando tem que ser firme, carinhosa quando tem que ser carinhosa, educada quando tem que ser educada, e chutar o balde quando esse balde tem que ser chutado. Pena que ela é somente uma personagem de apoio; tudo bem que seja uma personagem importante para a trama, mas sem direito ao protagonismo que foi parar “nas mãos” de... Arghhhhh!... Joan.

Como já expliquei acima, esta falta de empatia com Joan foi um dos pontos principais de não ter gostado de Atmosfera, mas tiveram outros, também.

O plot principal da história é o romance entre dois personagens; um romance, diga-se de passagem, bem complicado e desafiador. Complicado e desafiador porque acontece dentro do contexto da Nasa dos anos 80, por isso, um relacionamento onde os personagens principais enfrentam muitos obstáculos.

As subtramas que giram em torno desse plot são muito fracas e não prendem a atenção do leitor que fica dependente da trama principal, torcendo pela sua chegada nas páginas – e quando digo torcendo pela sua chegada, estou querendo ‘dizer’ torcendo pela chegada das atitudes de Vanessa Ford... esqueça a patética Joan Goodwin.

Fazem parte dessas subtramas o relacionamento conflituoso de Joan com a sua irmã Bárbara; o relacionamento amorfo de Joan com a sua sobrinha Frances; o núcleo de personagens amigos de Joan e Vanessa que estão na mesma turma de treinamento de astronautas na Nasa e os seus conflitos familiares; o treinamento dos astronautas novatos e por fim, a viagem espacial da qual participará grande parte desses personagens. O problema é que esses plots paralelos não conseguem prender a atenção dos leitores.

O livro é escrito em dois tempos: presente e passado. Atmosfera começa com tudo: uma perigosa e arriscada missão espacial que não saiu como o previsto, colocando em perigo a vida de todos os participantes. Este capítulo “turbinado” é mesclado com outros capítulos bem mornos e que apresentam as ações que acontecem no passado dessa turma de astronautas amigos, bem antes dessa missão espacial. Estres trechos que ocupam ‘graaaaannnnde’ parte da obra, envolvem o treinamento desses mesmos astronautas e os seus conflitos familiares.

Quando li o primeiro capítulo, pensei comigo: “Uhauu! Esta história vai pegar!!”; mas não pegou. Ela só voltou a “pegar” no epílogo quando a autora retoma a ação inicial vivida no tempo presente; ação que também aparece em “conta-gotas” em capítulos curtos e esporádicos no meio da trama.

Para finalizar, creio que a história terminou de uma maneira abrupta deixando desamarrado o relacionamento dos dois personagens principais. Creio que a maioria dos leitores ficou com aquela pergunta trradicional presa na garganta: - “Mas o que aconteceu depois?”

Ok; vamos com um pequeno resumo de Atmosfera. Joan Goodwin é obcecada pelo Universo desde que se entende por gente. Atenciosa e reservada, está satisfeita com a vida de professora universitária até deparar com o anúncio da Nasa à procura de mulheres cientistas interessadas em participar do projeto do primeiro programa de ônibus espacial. De repente, o que Joan mais quer é ser uma das poucas pessoas a ir para o espaço.

Entre milhares de candidatas, ela acaba sendo selecionada e assim, inicia o seu treinamento. Dentro da Nasa ela faz amizade com um grupo de pessoas que também foram selecionadas. Enquanto os astronautas aprofundam os laços de amizade e se preparam para os primeiros voos, Joan descobre uma paixão e um amor que nunca imaginou viver.

Agora, para fechar mesmo, só uma pequena observação: novamente o "menino", aqui, nadou contra a maré porque a maioria das pessoas que leram o novo livro de Jenkins Reid amaram a história. Basta consultar o Skoob e outras plataformas literárias. Mas acho que a diversidade de opiniões, sem extremismo e intolerância, é bem-vinda porque nos conduz a escolhas melhores. 

Por hoje é só.

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