03 maio 2026

Vou te receitar um gato

Muitos leitores acreditam que para uma narrativa ser boa basta ela manter o seu ritmo. Desculpe-me discordar daqueles que pensam dessa maneira, mas na minha opinião para uma narrativa conseguir prender a atenção de um leitor ela tem que ser instável e não do tipo: “coloque em quinta marcha e siga em frente; meta o pau”. Quando “escrevo” instável estou querendo “dizer” inconstante, ou seja, uma narrativa que mude o seu ritmo com uma certa frequência, que não seja estável e sem oscilações.

Uma narrativa tem que ter os seus momentos de adrenalina, mas também tem que ter os seus momentos de mansidão. Quando o leitor pensa que a história caiu na mesmice, pimba! Chega aquele impacto que esse leitor não esperava. Resumindo: uma narrativa, mais ou menos assim... do tipo montanha-russa. E é nesse ponto que Vou te receitar um gato da escritora japonesa Syou Ishida acaba pecando.

O livro engata uma quinta marcha e segue sem mudanças, sem oscilações. Você acompanha a narrativa sabendo que ela não terá alterações significativas em seu contexto. Em certo momento da história, cheguei a exclamar: - Putz, parece que estou lendo algo pré-moldado! – Vejam bem, não estou criticando o livro, mesmo porque, ele não é ruim, estou apenas afirmando que por ser constante, chega um certo ponto que a história começa a enjoar. Me diga uma coisa: qual é o ser humano que não gosta de chocolate (rs)? Mas agora procure comer um tipo de chocolate várias vezes por dia e diariamente. Cara, tá na cara que você vai enjoar.

O plot de Vou te receitar um gato é muito bem feito mas foi explorado de uma maneira que cansa o leitor. Imagine uma clínica psiquiátrica misteriosa e com um médico psiquiatra mais misterioso ainda que aplica em seus pacientes uma metodologia de tratamento se não estranha, pelo menos sui generis. Para curar problemas emocionais como depressão, ansiedade, além de reveses na vida familiar ou profissional, além de grandes decepções; o tal “psiquiatra” ao invés de recitar remédios ou pelo menos conversar com o paciente, ele receita um gato. Isto mesmo, um gato! O animal acaba influindo de várias maneiras – influindo positivamente – na vida dessa pessoa. Quando o “tratamento” chega ao fim, o paciente devolve o gato para a clínica.

Legal né galera? Não há como negar que o plot da narrativa é diferente e com potencial para ser explorado. A escritora optou por contar a história de cinco pacientes; cada um deles apresentando um problema em sua vida que acaba sendo solucionado graças a intervenção de um gato. Quando o paciente número um consegue resolver o seu problema, ele pega o gato e devolve para a clínica misteriosa. Então, quando o paciente número dois, também se livra de sua preocupação, lá vai ele devolver o gato para a clínica. E assim vai se desenrolando a história.

No início, até concordo, é algo diferente e que prende a atenção, mas depois cai na rotina como se a história caminhasse no ritmo de um relógio com o leitor já sabendo qual horário os ponteiros irão marcar na sequência.

Pontos importantes deixaram de ser explorados no enredo como por exemplo a origem dessa clínica misteriosa – Ishida dá apenas pequenas e muito pequenas pinceladas sobre a origem tanto da clínica como de seu médico. O surgimento da enigmática Chitose, a recepcionista da clínica psiquiátrica também foi muito mal explorada, confundindo o leitor que ficou sem saber o que aquele mulher era, de fato.

Acredito que a autora quis guardar esses segredos para serem revelados aos poucos nos outros dois livros da série: Vou te receitar outro gato e Que tal mais um gato. Mas no meu modo de pensar, essa opção acabou deixando o primeiro volume da série cansativo. Se todos esses segredos fossem esclarecidos logo no primeiro volume, com certeza, teríamos um livro fantástico.

Agora, basta que vocês leiam os comentários sobre o livro na Amazon ou no Skoob para ver que estou nadando contra a maré já que a maioria desses comentários são altamente positivos, do tipo cinco estrelas com os leitores derramando elogios para Vou te receitar um gato, mas... fazer o que, estou apenas sendo sincero, expressando a minha opinião.

Mas, vamos com uma breve sinopse do livro de Ishida. No final de um beco escuro, há um prédio antigo onde funcionam vários estabelecimentos. Um deles é a Clínica Kokoro, um lugar que apernas as almas que mais precisam de ajuda conseguem encontrar. A misteriosa clínica oferece um tratamento exclusivo – e um tanto estranho – para aqueles que vão até lá: gatos.

Os pacientes muitas vezes ficam intrigados com essa prescrição nada convencional, mas quando “tomam” o animal pelo período recomendado, testemunham profundas transformações em suas vidas.

Enfim galera, é isso aí.

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