30 julho 2011

O segredo do abismo

Capa do livro de Orson Scott Card
Nunca pensei que um dia iria elogiar a novelização de um filme. Aqueles que acompanham o blog sabem da minha ojeriza por esse tipo de literatura, a qual reputo da mais baixa qualidade, escrita por “autores caça-níqueis”. Estes pseudo-escritores são capazes de escrever, ou melhor, “chupar” a história de um roteiro cinematográfico para as páginas do seu livro em poucos dias. Depois disso, só resta encher os bolsos de dinheiro, porque, infelizmente essas porcarias acabam vendendo e bem...
O dilema do escritor que adapta um filme para um livro é que a história já existe. Outra pessoa escreveu. Portanto, o escritor não passa de um mero tradutor.
Pronto! Fui desabafando e acabei dando uma divagada deixando de lado o tema proposto para esse post que é o livro “O Segredo do Abismo”, de Orson Scott Card, que achei “divinamente” fantástico. Verdade! Acabei de afirmar para quem quiser ver que achei a novelização de um filme espetacular. Meu Deus! Isso é incrível!
Após ler o livro, passei horas e horas pesquisando na Internet detalhes sobre o trabalho de Card e então entendi o porque do sucesso de sua novelização. O primeiro ponto que considerei decisivo para o êxito do livro foi a declarada aversão que Orson Socott Card tem contra as novelizações. Êpa! Mas espera aí? O sujeito tem aversão por esse tipo de trabalho, mas acaba fazendo algo semelhante?! Ok. Vou tentar explicar. Card relutou muito em aceitar escrever a novelização do blockbuster “O Segredo do Abismo”. James Cameron, o diretor do filme, teve de intervir pessoalmente nas negociações e chegou a manter vários encontros com o escritor na esperança de convencê-lo a mudar de idéia, mas ele estava irredutível: “novelização jamais”, dizia.
Acontece que o diretor James Cameron queria uma novelização de seu filme de qualquer jeito e não abria mão de Scott Card para escrevê-la. Seria ele ou ele. O respeito e a simpatia de Cameron pelo trabalho do escritor de ficção científica norte-americano surgiu depois que ele leu “O Jogo do Exterminador” e “Orador dos Mortos, diga-se de passagem, duas obras primas da literatura de ficção científica. Depois disso, o conhecido diretor de Hollywood se tornou um fã confesso de Scott Card. Assim, ao surgir a idéia de fazer uma novelização de “O Segredo do Abismo”, em 1989, Cameron tentou de todas as formas seduzir o escritor de “O Jogo do Exterminador”.
Scott Card só aceitou escrever o livro do filme depois que várias de suas exigências foram aceitas. Primeira delas: que ele tivesse liberdade total para desenvolver a "novelização" da maneira que achasse melhor. E diga-se que esse “da maneira que achasse melhor” significava mudar destino de personagens, acrescentar detalhes extras no final da história, além de incluir fatos e explicações impossíveis apresentar no filme. E pediu mais! Ter acesso irrestrito as filmagens enquanto escrevia o livro. Isto deixou evidente que Scott Card exigiu escrever o livro ao mesmo tempo em que o filme “O Segredo do Abismo” era rodado, porque só assim livro e filme seriam lançados juntos. Enfim, para aceitar escrever um livro sobre um filme, o escritor fez um “caminhão” de exigências. E todas elas foram aceitas por James Cameron e também pelos produtores da 20th Century Fox.. Pronto! Está explicado porque a novelização de “O Segredo do Abismo” se transformou num verdadeiro sucesso de crítica e leitores.
Filme e livro contam a história de uma equipe de mergulhadores que trabalham numa plataforma civil de exploração de petróleo. De repente, eles se vêem envolvidos em uma missão de resgate do submarino nuclear Montana que afundou misteriosamente com 156 tripulantes e, após o ocorrido, não houve mais contato. A plataforma é usada para a operação que visa resgatar a tripulação do Montana, pois apesar de saberem onde está o submarino, um furacão se aproxima e, assim, a Marinha não teria tempo hábil de chegar ao local. Com isso, a equipe da plataforma se torna a melhor opção para realizar o salvamento, ficando acertado que o tenente Coffey supervisionará as operações. Entretanto, Buddy Brigman, um mergulhador que chefia a plataforma, diz aos militares responsáveis pela operação que a sua equipe não foi treinada para esse tipo de serviço e se posiciona contra os seus superiores. Mesmo assim, todos da plataforma acabam sendo obrigados a trabalhar nessa missão, colocando as suas vidas em risco. O que eles não sabem é que o fundo do mar guarda um segredo assustador e surpreendente que mudará a vida de todos.
Cena do filme de James Cameron
Li o livro de Scott Card e posso garantir que é bem mais interessante do que o filme, a começar pelos personagens; passando pelas cenas de ação e terminando com a emoção e dramaticidade final, quando os personagens após passarem por tantos perigos acabam por descobrir qual é o segredo do abismo.
Algo que o filme não mostra, mas que é explorado à exaustão no livro é o desenvolvimento do trio de personagens principais: Buddy (mergulhador e chefe da plataforma), Lindsey (projetista da plataforma de exploração conhecida por Deepcore ) e Coffey (Seal que é enviado à plataforma para coordenar o trabalho de resgate da tripulação do submarino Montana). O autor do livro caprichou e fez um trabalho perfeito na composição do trio central de personagens do romance.  Os leitores tem a oportunidade de conhecer a infância, adolescência e a fase adulta dos três. Os conflitos familiares que acabaram moldando a personalidade de alguns, para melhor ou para pior; enfim, depois dos três primeiros capítulos, já estava familizarizado com Budy, Lindsey e Coffet, conhecendo as suas virtudes,  fraquezas e defeitos.
O autor esclarece o que levou Budy a se tornar um mergulhador profissional de alta profundidade, logo ele, que na infância quase morreu afogado enquanto brincava na praia, passando a carregar um grande trauma na sua fase pré-adolescente. Tomamos conhecimento, ainda,  que esse fato viria a marcar para sempre a família de Buddy, já que uma pessoa por demais querida acabou perdendo a vida para salvar o garoto. Com um estilo ágil e nada cansativo, o escritor nos mostra também o início do relacionamento entre Budy e Lindsey; como eles se conheceram e se apaixonaram. O que levaria duas pessoas com personalidades tão distintas a se casarem? E quanto ao divórcio? Qual foi o fator preponderante para isso? Orson Scott Card dá detalhes dessas passagens na vida do personagem.
Quanto a Lindsey, considerada uma das engenheiras mais respeitadas do mundo e considerada a “mãe” da plataforma Deep Core, ficamos sabendo de sua infância sofrida por causa da rejeição da mãe que sempre deu mais atenção para as outras filhas. Lindsey era tida como uma criança estranha e esquisita que não gostava de bonecas, balé e de brincar com outras meninas de sua idade. O seu principal passatempo era montar quebra cabeças ou então gerir jogos táticos, já antecedendo o seu futuro brilhante na área da engenharia submarina. A relação conflituosa entre ela e Buddy, enquanto casados, também é mostrada em detalhes pelo autor.
Já, Hiram Coffey teve uma infância nada agradável. Foi abandonado pelo pai e viveu para proteger a mãe, até o momento em que ela se casou com um homem que não podia ver o pequeno Coffey em sua frente. Sua infância pobre e cheia de humilhações contribuiu para transformá-lo no mais perfeito e implacável dos SEALs, a elite da elite das Forças Armadas Americanas. Um assassino oficial, frio e cruel; capaz de passar por cima de tudo e de todos pelo seu País.
“O Segredo do Abismo” gira, basicamente, em torno desses três personagens e das situações vividas por eles. Scott Card criou personagens tão complexos e completos que acabou influenciando na produção do filme de James Cameron.
Ao ler os três primeiros capítulos do livro que apresentava Buddy, Lindsey e Coffey; o diretor Cameron ficou tão impressionado que decidiu entregá-los aos atores Ed Harris, Mary Elizabeth Mastrantonio e Michael Biehn, no intuito de ajudá-los na composição de seus personagens.
A cena em que Buddy, ao explorar um abismo oceânico,  decide utilizar um fluido respiratório para altas profundidades é uma jóia rara para o leitor, principalmente para aquele que é bem detalhista. Enquanto no filme, é dada uma explicação  mais do que rápida sobre o fluido que permite ao mergulhador respirar líquido normalmente e assim poder atingir profundidades marinhas jamais imaginadas pelo homem, no livro, o autor é meticuloso ao comentar sobre a descoberta do fluido pela marinha norte-americana e também das primeiras experiências com roedores e seres humanos. Tomamos conhecimento, por exemplo, que as experiências com roedores envolvendo o fluido conhecido por “Deep Suit” começaram na década de 60, mas foi somente em 1973 que um pesquisador da marinha americana, pela primeira vez, conseguiu que um ser humano respirasse dentro do líquido – uma solução salina oxigenada hiperbaricamente - testada em apenas um pulmão, uma vez que, se uma experiência com os dois pulmões fracassasse, certamente a cobaia morreria. Scott Card deixa claro em seu romance que tal fluido existe e é utilizado pela marinha americana em mergulhos sigilosos de alta profundidade.
A descoberta do segredo que está guardado há tempos no abismo explorado por Buddy faz com que o leitor reveja todos os seus conceitos que foram sendo formados durante a leitura do romance. Outro momento que vale à pena ser registrado, tanto no livro quanto no filme, é a hora em que Buddy – utilizando o Deep Suit – decide explorar o abismo oceânico onde o submarino caiu. Sacott Card e Cameron registram através das páginas e das telas a tensão da descida do mergulhador. Num determinado trecho, devido a profundeza do abismo que parece não ter fim, Buddy chega a conclusão que a sua viagem é apenas de ida, já que não tem oxigênio suficiente para retornar. É neste instante que é revelado o segredo do abismo. Algo, como eu já escrevi, que irá mudar todos os conceitos do leitor formados ao longo do romance.
É isso aí! Leiam, porque vale a pena!

27 julho 2011

Livros raros: quem tem sinta-se feliz, quem não tem apenas sonhe um dia tê-los

“Se você os tiver guarde a sete chaves, se não os tiver apenas sonhe, pois dificilmente os terá um dia”. A resposta para essa charada, com certeza, é: “livros raros”. Ontem, enquanto reorganizava a minha estante de livros parei para pensar no sacrifício que tive de fazer para conseguir adquirir algumas obras. Quantas peripécias literárias! Posso assegurar que se tivesse adiado a aquisição desses livros raros; deixado para hoje, por exemplo, não conseguiria mais comprá-los. Por outro lado, me arrependo de ter postergado a compra de livros que poderia ter obtido com um pouco mais de empenho, mas o comodismo fez com que eu perdesse essa oportunidade rara. Hoje, tenho consciência que jamais conseguirei tê-los em minha estante, pois a maioria encontra-se com a edição esgotada.
Viram só amigos? Uma simples faxina numa estante de livros acabou rendendo assunto para um post neste blog. Vou escrever sobre os romances raros que um tinha sonhei ter, mas acabei perdendo a oportunidade; e de outros que após muito sacrifício, consegui “conquistá-los”.
Os Livros de Bachman (Stephen King / Richard Bachman)
À esta obra de Stephen King podemos aplicar a velha máxima: “quem tem tem, quem não tem chupa o dedo”. O livro reúne os quatro primeiros romances escritos Stephen King sob o pseudônimo de Richard Bachman: “Fúria”, “A Longa Marcha”, “A Auto-Estrada” e “O Sobrevivente”. O livro com a coletânea foi lançado pela editora Francisco Alves em 1992 e depois disso não teve mais nenhuma edição.
O que faz “Os Livros de Bachman” se tornar uma obra ainda mais rara é o conto “Fúria” que chegou a ser banido pelo próprio autor, após Michael Carneal, um garoto de apenas 14 anos, ter descarregado uma pistola calibre 22 em um grupo de estudantes no Colégio Heath, em Paducah, Kentucky. Na ocasião, três garotas morreram e outras cinco ficaram feridas. O crime aconteceu em 1997 e após os disparos, Carneal simplesmente deixou cair a arma no chão e não esboçou nenhuma reação ao ser preso. Ele disse aos policiais que o deteve: “"Mate-me, por favor. Eu não posso acreditar que fiz isso." Após vaculharem o armário do homicida no colégio, a polícia encontrou uma cópia do livro “Fúria” (“Rage”). Antes dessa tragédia, supostamente, o livro teria inspirada outras duas ações trágicas. Na primeira delas, em 1989, um aluno do Colégio Jackson County, em Kentucky, apareceu na escola armado com uma espingarda e duas pistolas e manteve toda a turma de alunos e o professor reféns durante a aula de álgebra. Para o bem de todos, após negociação com os policiais, o garoto se rendeu sem matar ou ferir ninguém. O livro “Fúria” foi encontrado em seu quarto. Já o caso posterior, ocorrido em 1996, não teve um final feliz. Um outro estudante, chamado Barry Loukaitis, também fez sua turma e seu professor de refém, durante a aula de álgebra. Após matar dois colegas e o seu professor, acabou sendo rendido por um professor de educação física. Barry foi condenado à dupla pena de prisão perpétua, mais 205 anos sem fiança. E prá variar, à exemplo dos casos anteriores, a polícia também encontrou uma cópia de "Rage" no quarto do aluno.
Capa americana de "Fúria" (Rage)
Após esses fatos, Stephen King ficou muito chocado e disse em uma entrevista que os seus livros não eram para matar, mas para divertir. Por isso, tomou uma atitude drástica, decidindo recolher, na época, todos os exemplares de “Fúria” e também proibir novas edições do mesmo. King chegou a chamar “Rage” de uma “coisa maldita” que precisava ser banida. Ocorre que a coletânea “Os Livros de Bachman” foi publicada pela editora Francisco Alves antes da proibição, por isso, esta é a única maneira de se ler "Fúria", que certamente nunca mais será publicada novamente.
Confiram uma sinopse dos quatro contos que compõem “Os Livros de Bachman”... Em “Fúria”, que abre a coletânea, King conta a história de Charlie Decker, um garoto problemático que não se entende com os seus pais. Ele está a beira da insanidade e acredita que todos de sua cidade estão contra ele, criticando o seu modo de vida. O tempo vai passando, os problemas vão crescendo e após uma sucessão de eventos, Charlie acaba pirando. Ele apanha uma arma e segue para a aula, matando a sua professora de álgebra, e mais outro professor, enquanto mantém a sala de refém. A partir daí, tem início um jogo psicológico mortal entre Charlie e seus colegas. Os segredos íntimos de cada um dos reféns são revelados e a ansiedade atinge o clímax na sala de aula.
No segundo conto do livro intitulado “A Longa Marcha”, todos os anos , um certo governo futurista reúne cem adolescentes para participarem de uma competição macabra. Eles disputam uma corrida sem fim onde o vencedor é aquele que consegue terminar a prova sozinho. Os competidores que ao longo do trajeto forem se cansando e por isso desistindo da prova são mortos com um tiro por fiscais que ficam espalhados ao longo do percurso. Antes de serem eliminados, eles recebem três tiros de advertência (para o alto). No quarto disparo dão adeus a vida. O vencedor da prova tem o direito de pedir o que quiser.
Dos quatro contos de "Os Livros de
Bachman", somente "O Sobrevivente"
ganhou um livro próprio no Brasil. A
obra foi relançada como "O Concorrente"
Em “A Auto-Estrada”, após perder o filho e se separar da esposa, o pacato Bart Dawes, está prestes a perder a sua casa depois que a Prefeitura da cidade decide demoli-la para que uma auto-estrada passe pela propriedade. Mas a casa de Bart guarda muitas recordações inesquecíveis e ele não quer deixar o local por isso recorrerá a medidas extremas. Munido com armas e coragem, o outrora pacato homem chega a conclusão que não tem nada a perder.
Capa do livro "O Sobrevivente"
lançado nos EUA

O último conto que fecha a obra se chama “O Sobrevivente” que, inclusive, já foi tema de um dos posts desse blog. É a história de Bem Richards que para salvar a vida de sua filhinha decide participar de um estranho e fatal reality show futurista. Ele tem que fugir de um grupo de caçadores que tem ordem para matá-lo. Quanto mais tempo ele permanece vivo, mais dinheiro fatura. Esta caçada humana macabra é transmitida pela televisão. O conto foi adaptado para o cinema, em 1987, numa bomba sem precedentes tendo no papel principal o brucutu Arnold Schwarzenegger. Das quatro novelas contidas em “Os Livros de Bachman”, apenas “O Sobrevivente” foi relançada no Brasil pela Editora Objetiva. Na reedição teve seu título alterado para "O Concorrente". O livro também traz uma introdução de King onde ele explica porque adotou o pseudônimo de Richard Bachman para escrever algumas obras.
A Hora do Lobisonem (Stephen King)
Se “Os Livros de Bachman” estão praticamente esgotados, só podendo ser encontrados por um verdadeiro milagre; com a “A Hora do Lobisomem”, por enquanto ainda é possível sonhar, mas não por muito tempo. Visitei os milhares de sebos e livreiros particulares do país que estão cadastrados no portal www.estantevirtual.com.br e consegui encontrar o livro em apenas um vendedor, e a peso de ouro: R$ 95,00. Dei ainda uma sondada no Mercado Livre e encontrei dois exemplares: um por R$ 120,00 e outro mais barato, por R$ 90,00. Lembrando que “A Hora do Lobisomem”, foi lançado pela editora Francisco Alves, em 1984, no formato pocket, ou seja, livro de bolso. As páginas são de papel jornal e de baixa qualidade. Mesmo assim, como pude constatar, aqueles que quiserem ter um exemplar terão de desembolsar uma quantia considerável. O livro se tornou raro porque depois de seu lançamento em 1984, jamais teve uma reedição, o que justifica os altos valores pedidos por sebos e livreiros.
Cartaz do filme "Bala de Prata"
baseado no livro "A Hora do Lobisomem" 
O enredo de “A Hora do Lobisomem” é arrepiante, daqueles de tirar o sono. Como estava “durango” sem nenhum centavo para compra-lo, acabei optando em fazer o download pela Internet, mesmo sendo contra esse procedimento, já que para mim livro tem que ser livro, daqueles que você pega nas mãos e pode folheá-los à vontade. Mas sabe como é, desta vez se tratava de uma raridade de Stephen King, por isso... bem, acabei passando por cima dos meus princípios e convicções. E valeu à pena. Li a história em um dia, inclusive passei uma noite em claro lendo... e tremendo, de medo.
King narra o drama dos moradores da pequena cidade de Tarker's Mill que nas noites de lua cheia passa a ser assolada por uma besta diabólica que esparrama um banho de sangue, matando sem piedade vários moradores. O lobisomem leva o pânico para a cidade, já que ninguém desconfia de quem possa ser o monstro. Dessa maneira, todos os cidadãos de Tarker’s Mill passam a desconfiar um do outro. No caminho da besta está um menino paraplégico de 11 anos. Marty, em sua cadeira de rodas não teme o lobisomem e decide investigar, juntamente com alguns amigos, quem poderia estar se transformando no bicho sanguinário durante as noites de lua cheia.
“A Hora do Lobisomem” também deu origem ao filme “Bala de Prata (Silver Bullet), que ao contrário de “O Sobrevivente”, foi muito elogiado pela crítica, com alguns chegando a afirmar que a produção cinematográfica superou o livro em qualidade.
O Planeta dos Macacos (Pierre Boulle)
Edição rara de "O Planeta dos
Macacos", do francês Pierre Boulle
De todos os filmes de ficção científica que assisti em minha vida, aquele que mais me impressionou foi “O Planeta dos Macacos” que estreou nos cinemas em 1968. E a cena final teve grande responsabilidade nisso. Ela é  arrepiante. Apesar de ainda ser, na época, um pré-adolescente, a cena em que acontece o encontro revelador entre o personagem de Charlton Heston e a Estátua da Liberdade semi-enterrada na praia não sai da minha cabeça. E assim, fiquei fã da franquia. Não perdi nenhum dos filmes que passaram no cinema e muito menos a série televisiva que foi um grande sucesso na década de 70.
Quando atingi a maioridade, esse interesse continuou arraigado em mim, mas sob a forma de curiosidade. Eu queria saber quem tinha sido o roteirista do filme e foi com grande surpresa que há algum tempo descobri que a história foi baseada em um livro escrito por um francês, Pierre Boulle.
Cena que marcou época: O reencontro do personagem
de Charlton Heston com a Estátua da Liberdade destruída
e enterrada na praia.
Passei a visitar sebos e mais sebos em busca do livro e depois da criação do portal da estante virtual, me transformei num rato de sebos virtuais. Após uma incessante procura consegui encontrar uma reedição da obra antológica de Pierre Boulle por um preço razoável. Não acreditei em minha sorte! E é claro comprei correndo.
Vou me eximir de comentar o livro de Boulle, pois ainda não o li. Estou guardando esta raridade em minha estante como um vinho de safra especial e que será aberto também numa ocasião especial.
Deixa-me Entrar (John Ajvide Lindqvist)
Capa da edição sueca
Este livro do escritor sueco John Ajvide Lindqvist foi lançado em seu país no ano de 2007 e se transformou num estouro de vendas. Um ano depois seria lançado o filme suéco “Deixa Ela Entrar” baseado na obra literária e que também arrebataria críticas mais do que positivas da imprensa, tornando-se “cult” num curto espaço de tempo. Em 2008, o livro de Lindqvist seria lançado em terras americanas e para não fugir da rotina, se transformaria num Best-seller da noite para o dia. E a ascenção do romance de John Ajvide Lindqvist não pararia por aí, já que a a toda poderosa indústria cinematográfica de “Tio Sam” não resistiria aos encantos da obra e acabaria por comprar os seus direitos de exibição. No final de 2010 estreiaria nos cinemais do mundo todo o remake do filme sueco que receberia o nome de “Deixe-me Entrar”.
Capa da edição americana
Depois de tanto estratalhaço em torno do livro do escritor sueco seria natural que o mesmo também tivesse sido lançado no Brasil, afinal de contas já se passaram quase quatro anos de seu lançamento original na Suécia. Mas, por incrível que pareça, o tal livro não foi lançado aqui na terrinha, pelo menos por enquanto; e para ser sincero... nem sei se será lançado um dia.
Como consolo, a editora Contraponto (filial de Portugal) lançou o livro em terras lusitanas e os interessados podem compra-lo em alguns sites internacionais. Lembrando que esses sites exiogem que o pagamento deve ser feito em euros.
Capa do livro lançado em Portugal
“Deixa-me Entrar” conta a história de dois adolescentes: Oskar e Eli. De maneiras muito diferentes, ambos são vítimas. É por isso que, contra todas as probabilidades, eles se tornam amigos e passam a depender um do outro para viverem. Oskar é um menino de 12 anos e vive com sua mãe em um humilde conjunto habitacional localizado na beira da cidade.
Oskar sonha com seu pai ausente, é intimidado na escola, sofrendo bullying diariamente dos seus colegas, correndo como um ratinho assustado para não ser espancado ou então sofrer humilhações morais. Do outro lado está Eli, a recém vizinha de de Oskar. Ela não vai à escola e nunca deixa o apartamento durante o dia, pois é um vampiro de 200 anos de idade, para sempre congelado na infância, e condenada a viver em uma dieta de sangue fresco. O destino dos dois jovens se cruzam e eles se tornam grandes amigos.
Cena do filme "Deixa-me Entrar" lançado em 2010
Assisti ao filme no início desse ano e agora estou louco para ler o livro. Espero que não fique somente na loucura...
Angústia (Stephen King)
Talvez, “Louca Obsessão” com o James Caan e a Khaty Bates tenha sido o melhor filme de suspense que assisti nos últimos 20 anos. Lembro-me que vi o filme tão logo foi lançado em videocassete – em 1990 nem passava pela minha cabeça que um dia veria filmes numas “rodinhas pequenas” que viriam a ser conhecidas, cinco anos depois como DVD’s. A locadora da “dona Sônia” ficava encostada em minha casa, e assim, era só abrir a janela e pedir a “fita” desejada. Tinha o hábito de fazer uma listinha com os filmes que seriam lançados dentro de algumas semanas e “Louca Obsessão” estava entre os escolhidos.
Tempos depois fiquei sabendo que o filme que me impressionou tanto tinha sido baseado num livro do mestre do terror Stephen King, chamado “Angústia”. É a história de um famoso escritor, Paul Sheldon (esse nome lembra alguém? –rs) que após sofrer um acidente enquanto dirigia sob uma intensa nevasca, acaba sendo socorrido por uma enfermeira que o leva para a sua casa isolada nas montanhas. A mulher se declara fã incondicional do escritor, principalmente da série de livros denominada “Misery”. Mas ao ler os originais do novo livro de Paul Sheldon, percebe que a personagem principal de Misery, a sua predileta, será morta, fazendo com que sua personalidade doentia se revele. A partir daí, a enfermeira enlouquecida transforma a vida do escritor num inferno, obrigando-o a reescrever a história, mudando o destino da personagem. Sem poder se locomover, Sheldon se vê à mercê das loucuras da "fã".
Cena antológica da "marreta" no filme "Louca Obsessão"
Todos nós que assistimos filmes de terror temos uma determinada cena que marca a nossa vida e então, passam-se os anos e a tal cena continua. Sei que a maioria dos cinéfilos não consegue esquecer aquele momento terrível em que a pequena Reagan vira a cabeça para trás – num giro de 360 graus – na cena de exorcismo no blockbuster “O Exorcista”. Mas no meu caso, a cena que mais marcou faz parte do longa-metragem “Louca Obsessão”. O momento em que a personagem psicótica de Khaty Bates separa a duas pernas de Sheldon que está imobilizado na cama, calcula a distância dos tornozelos e depois apanha uma marreta e... Cara, não quero lembrar disso não.... Recordei essa cena somente para que o leitor do post entenda como o filme é “barra pesada”.
Resumindo: após ver o filme fiquei desesperado para ler o livro de Stephen King. Naquela época não tínhamos a facilidade dos sebos virtuais e muito menos dos sebos tradicionais que ainda eram em pequeno número. Mesmo assim, tinha uma banca de revista há duas quadras de casa que também vendia alguns livros usados. Mas o bunda mole aqui, simplesmente perdeu a oportunidade de sua vida numa segunda à tarde quando viu um exemplar de “Angustia” exposto na prateleira da banca. Fiz o que não devia e perdi o livro para um outro sujeito que foi bem mais esperto. Putz!! Essa mancada dói no coração até hoje.
Conclusão
“Os Livros de Bachamn”: Me interessei pelo livro há “uns” dois anos. Estava à procura de “A Longa Marcha” mas não encontrava essa história de King em lugar nenhum, então fiquei sabendo que existia um livro que reunia quatro contos do mestre do terror na época em que assinava as suas obras como Richard Bachman. A “Longa Marcha” fazia parte dessa antologia. Desde então estou “caçando” o livro em sebos reais e virtuais. Mas quer mesmo a minha sinceridade? Não tenho muito esperança em encontrá-lo, porque como já disse no início desse post, “Os Livros de Bachman” se tornou um artigo em extinção. “Fúria”, conto que abre o livro foi banido pelo escritor e tachado de “maldito” pelo próprio King que proibiu a sua reedição. Isto faz com que a obra se torna ainda mais rara e difícil de encontrar. Apesar disso, continuo na caça.
“A Hora do Lobisomem”: Não adquiri o livro, ainda, por causa da minha situação financeira que ficou bem “apertadinha”. Troquei de carro (o anterior estava dando muitos problemas), reformei parte da casa (a coisa tava feia mesmo, principalmente o telhado) e decidi mudar as estantes da minha “humildizinha” sala de leitura. Quando vi, o meu orçamento havia estourado para meses! Por isso não tenho condições, no momento, de desembolsar aproximadamente R$ 100,00, sem contar o frete, para adquirir “A Hora do Lobisomem”. Sei que irei me arrepender mais tarde, mas paciência.
“O Planeta dos Macacos”: Viva! Viva! Esse eu tenho! E acredite se quiser: paguei uma bagatela pela obra: R$ 12,00. Hoje, os preços dos poucos exemplares existentes – que se transformaram em “peças” de colecionador – variam de R$ 49,00 a R$ 99,90. Com um detalhe: livros bem antigos e por isso em condições, apenas, regulares de conservação, em papel jornal e no formato de bolso.
“Deixa-me Entrar”: Com relação ao romance vampiresco de  John Ajvide Lindqvist sonho com o dia que uma editora brasileira decida lançar o livro por aqui. Por enquanto temos apenas a edição portuguesa colocada no mercado lusitano pela Contraponto. Sonhar nesse caso, faz bem...
“Angústia”: Realmente, é uma angústia perder uma preciosidade dessas por pura negligência, lapso, falta de atenção, descuido; sei lá, entenda como quiser. Ao passar pela banca de revistas e ver o exemplar de “Angústia” exposto ali, bonitinho, me chamando para levá-lo para casa, o esperto aqui, simplesmente deiciu apanhá-lo depois que saísse do serviço, como se o livro fosse esperar a minha vontade. E não esperou. Quando passei na fatídica banca, “Angustia” não estava mais lá...
Para finalizar gostaria de lembrar que se você tem algum desses  livros considerados verdadeiras raridades, parabéns. Saiba que tens em  mãos uma jóia lapidada.
Inté!

23 julho 2011

Judas estará em novo livro de Dan Brown


Escritor Dan Brawn

Em 2006, quando a revista National Geographic publicou um manuscrito de quase dois mil anos, que estava perdido nas areias do Egito e que ficou conhecido como o “Evangelho de Judas Iscariotes”, ‘tava na cara’ que o assunto seria explorado a exaustão por escritores sérios e também pelos charlatões. E não deu outra. Depois da repercussão mundial da reportagem da National Geographic, surgiu um verdadeiro batalhão de livros sobre o assunto. A maioria deles de tão sensacionalistas chegavam a cair no ridículo.
Acredito que uma avalanche de escritores, após a descoberta do manuscrito perdido enxergaram a oportunidade de enriquecer facilmente, mas para isso precisavam ser rápidos, ou seja, não podiam perder tempo com pesquisas, o importante era ser o primeiro a lançar um livro sobre o assunto, bem antes dos concorrentes. E assim, no mesmo ano em que o “Evangelho de Judas” foi descoberto, já começaram a surgir os primeiros livros sobre o assunto. Dentro de pouco tempo, as prateleiras das livrias estavam abarroradas dessas publicações.
Aqueles que pensavam que tudo isso não passaria de um modismo se enganaram, porque até hoje, continuam sendo lançadas obras sobre o tema, provando que escrever verdades ou mentiras sobre Judas, realmente dá dinheiro... muito dinheiro. A cada dia, vemos uma nova obra sobre o assunto. E prá ser sincero, já está cansando. Bateram tanto na mesma tecla, escreveram tantas barbaridades, que uma descoberta que poderia ser tão bem explorada por mãos e cérebros competentes acabou ficando maculada.
E para não fugir da rotina, depois de tantos escreventes, surge um novo “aventureiro” decidido a explorar o já esgotado tema. Estou falando de Dan Brown que ficou milionário com os Best-sellers “O Código da Vinci”, “Anjos e Demônios” e “O Símbolo Perdido”.
De acordo com mensagem publicada no twitter do escritor, o seu novo livro vai tratar da lenda que gira em torno da figura de Judas, de que o mesmo não seria o grande traidor, mas uma pessoa que abriu mão de sua dignidade em nome de Jesus.
Se em “Anjos e Demônios”, Dan Brown escreveu sobre a ordem dos  Illuminati, um grupo criado por Galileu Galilei e que planejava um golpe audacioso contra a Igreja Católica Romana; agora, sem seu novo livro sobre Judas, ele abordará sobre a lenda dos Jandes. Trata-se de um grupo formado por fanáticos religiosos responsáveis por esconder de todos a verdadeira localização das moedas pelas quais Judas se vendeu. O grupo foi extinto em 1854 e desde então virou assunto proibido pela igreja, mas agora o autor resolveu trazer a tona em seu novo livro.
Para aqueles que desejarem conhecer mais detalhes sobre o lançamento de Brown, infelizmente, a Internet traz poucos subsídios sobre a obra, o que leva a crer, que foi montada uma autêntica “operação de guerra” para evitar o vazamento de informações importantes sobre o livro.
Surgiram boatos na rede de que o livro seria lançado em junho, mas junho se foi e nada da obra. O que há de concreto é que Dan Brown vai mesmo escrever um livro sobre o polêmico personagem bíblico. Alguns sites publicaram que a obra já teria um nome: “Judas Judiado”, este seria o título traduzido para o português.
Não aprecio muito as obras de Dan Brown. Nada contra, mas simplesmente não faz o meu gênero. Li  “Anjos e Demônios”, “O Símbolo Perdido” e “Ponto de Impacto”. Quanto aos dois primeiros não gostei, inclusive, achei que em “O Símbolo Perdido”, Brawn perdeu a mão e viajou “profundo” em algumas parte do livro. Quanto a “Ponto de Impacto”, considero apenas regular.
Vamos ver agora, como a autor se sairá em “Judas Judiado”. Espero que ele não “viaje” muito como outros escritores fizeram chegando ao ponto de  publicar que Jesus poderia ser neto de Herodes. É mole ou quer mais?
Ah! Antes que me esqueça. Ainda não há nenhuma data definitiva para o lançamento da obra; dizem apenas que o livro virá este ano.


Zorro – começa a lenda

Há mais de sete anos, quando os jornais e a Internet começaram a divulgar, com freqüência, que o novo livro de Isabel Allende seria sobre o mito mascarado Zorro, confesso que fiquei com um pé atrás. Não que eu duvidasse da capacidade dessa grande jornalista e escritora chilena. Longe disso! É que a autora iria explorar um campo bem diferente do que estava acostumada. Eu conhecia a Allende dos livros “Eva Luna”, “Meu País Inventado” e “A Casa dos Espíritos”; obras fortes que eu li há vários anos e que me marcaram muito. Obras dramáticas, introspectivas e até mesmo um pouco filosóficas. Então eu parei para pensar. Espera aí?! Uma autora acostumada a escrever livros com essas características, de repente resolve reescrever uma obra prima do gênero capa e espada?! Não vai dar certo.
Via Allende como um marinheiro que estava acostumado a navegar em certas águas que conhecia na palma de sua mão, mas agora, havia decidido explorar outros mares que desconhecia e por isso mesmo não os dominava.
Então quando o livro foi lançado em 2005 e a crítica internacional esparramou elogios para todos os lados, percebi como havia sido injusto com Isabel Allende, pois tinha duvidado da sua capacidade de readaptação, ou seja, de escrever enredos diferentes do seu estilo habitual. Mesmo assim, precisava ver com os meus próprios olhos como o Zorro da escritora havia saído. Só pude fazer isso em 2006 quando o livro foi traduzido para o português e lançado aqui na terrinha pela editora Bertrand Brasil.
Li e amei a versão de Allende que foge totalmente da história original “A Marca do Zorro” escrita na década de 20 por Johnston MacCulley.
O livro de MacCulley omite totalmente a infância e adolescencia do herói mascarado, mostrando apenas o lado aventureiro do alter-ego de  Don Diego De La Vega. A vantagem dessa obra – a qual, brevemente, estarei fazendo um post – é a sua adrenalina pura. Considero “A Marca do Zorro” um típico livro de aventuras... e muito bem escrito, do tipo que prende o leitor da primeira a última página como se o arrastasse para uma montanha russa. O lado negativo, é a superficialidade do enredo que por focar somente na aventura, se esquece completamente de explorar detalhes relacionados a origem do herói. “Don Diego tinha mãe?” “Como era o seu relacionamento com ela?” “Como foi a infância de Don Diego?” “Como ele se tornou um mestre na esgrima?”, “O que o levou a se transformar no Zorro?”. O livro “Zorro – Começa a Lenda”, de Isabel Allende esclarece todas essas dúvidas. Hoje entendo o quanto a escritora chilena foi inteligente ao decidir escrever uma obra sobre um herói considerado um verdadeiro ícone da cultura pop e que não tinha um passado. Posso afirmar com convicção que a autora deu uma infãncia para Zorro, e se MacCulley foi o pai do herói, Allende pode ser considerada a sua mãe.
Se você que acompanha esse post esta afim de ler um livro de aventuras sobre o Zorro onde prevalecem duelos e mais duelos de espadas, lutas e desafios fuja da obra de Allende, mas se o que o leitor procura, de fato, é se aprofundar no passado de Don Diego De la Vega e também do seu Zorro, não pense duas vezes, cmpre logo o livro.
Escritora chilena Isabel Allende

Na primeira parte intitulada “Califórnia” que vai do período de 1790 a 1810 acompanhamos em detalhes a infancia de Diego; época em que nem sonhava que um dia viria a se transformar no herói mascarado. Allende nos conta como o pai de Diego conheceu a bela india guerreira, de apenas 20 anos, chamada Toypurnia e como eles iniciaram um relacionamento apaixonado, apesar das diferenças sociais de ambos. O nascimento do pequeno Diego, a sua infãncia agitada de menino mais do que peralta e a formação da sua personalidade forte e corajosa, são muito bem explorados por Allende.
A amizade entre Diego e Bernardo, seu fiel escudeiro, é outro ponto alto do livro. Os dois rapazes apesar de terem personalidades distintas acabam se tornando amigos inseparáveis, verdadeiros irmãos.
Na  segunda e terceira parte da obra chamada Barcelona, a escritora escreve sobre o embarque de Diego e Bernardo a Barcelona. O pai do pequeno Don Diego decide dar uma educação européia ao seu filho e com todos os requintes. Dessa forma, aos 16 anos, o futuro Zorro e seu inseparável amigo Amigo Bernardo apanham um navio e seguem viagem para o seu destino.
Nesta parte do livro, Allende aproveita para passar alguns conhecimentos históricos ao leitor como por exemplo, a ocupação da Espanha pelos franceses liderados por Napoleão Bonaparte. É nesse contexto que Diego vive boa parte de suas aventuras e amores.
Em Barcelona, ele recebe aulas de esgrima com um dos mais famosos mestres do mundo naquela época, tornando-se um exímio espadachim. É o tal mestre que inicia Don Diego em uma irmandade secreta formada por grandes espadachins espalhados pelo mundo que tem a missão de ajudar e proteger o povo mais pobre, sofrido e injustiçado. Começa assim, a nascer a lenda do herói mascarado.
Já no final do romance, Diego descobre que seus familiares e pessoas amigas, que o ajudaram em sua educação - enquanto se encontrava em Barcelona - estavam sofrendo nas mãos de um tirano. Então, ele decide retornar para a sua terra natal afim de proteger esses moradores.  
A transformação completa de Don Diego em O Zorro só acontece nas últimas páginas da obra de Allende, o que deixa os leitores com um gostinho de “quero mais”.
Um livro que recomendo sem medo de errar: para devorar numa tacada só. Os fãs de carteirinha do Zorro terão a oportunidade de conhecer detalhes importantes da infância e adolescenciaa do herói nesta obra antológica de Isabel Allende.
Sem dúvida, vale a pena!  
 

19 julho 2011

Os contos do livro "O Incrível Homem que Encolheu"

Decepcionante. Esta é a definição certa, com raríssimas exceções, para o conjunto de nove contos escritos por Richard Matheson e que fazem parte do livro “O Incrível Homem que Encolheu”, relançado pela editora Novo Século. Pois é, jamais pensei que um dia fosse escrever algo assim sobre qualquer trabalho de Matheson, um escritor que eu considero tão mestre do terror quanto Stephen King. Mas como sempre tem a primeira vez...
Os contos de “O Incrível Homem que Encolheu” me ensinaram uma lição  por deveras importante: “que jamais devemos criar muitas expectativas sobre determinada obra, mesmo sabendo que o seu autor faz parte do chamado top-line de escritores mundiais”. Escritor é como qualquer outra profissão e por isso, estão sujeitos a – de vez em quando – errar a mão. E foi o que aconteceu com as “mini-histórias” criadas por Matheson e selecionadas pela Novo Século para completar o livro onde a grande vedete é o conto “O Incrível Homem que Encolheu”.
Excetuando “Pesadelo a 20.000 pés”, “O Teste” e “Encurralado”, a obra relançada pela Novo Século só vale, mesmo, pela brilhante história de “O Incrível Homem que Encolheu”. Esta sim, uma verdadeira obra prima.
Pesadelo a 20.000 pés
Cena do remake "Pesadelo a 20.000 pés" que
passou nos cinemas em 1983
Conto que vem logo depois de “O Incrível Homem que Encolheu”. A história segura o ritmo do livro dando a falsa impressão ao leitor que os próximos contos serão fantásticos. Matheson relata o drama de Arthur Jeffrey Wilson que após pegar um avião comercial percebe em pleno vôo, a existência de uma criatura horripilante – parecido com um duende ou um gremlin – na asa do avião tentando sabotar a turbina e assim, provocar a queda da aeronave. Mas toda vez que ele chama a aeromoça para ver o horroroso ser, ele simplesmente desaparece o que a leva a pensar que o Sr. Wilson estaria tendo alucinações. Um dos momentos que certamente irá arrepiar os leitores é quando o pobre homem, após ter fechado a cortina da janela do avião para “abafar” o seu medo, resolve abri-la de repente para verificar se o duende é, de fato, produto de sua imaginação. Então.... Arrrghhh... Arrepio só em lembrar.
Este conto foi adaptado para o seriado clássico “Além da Imaginação”, em 1963, tendo no papel principal o ator William Shatner, em sua fase pré-capitão James T. Kirk. O mesmo episódio ganhou um excelente remake para o cinema que recebeu o nome de “Além da Imaginação: O Filme”, em 1983. Achei a criatura do remake bem mais assustadora do que a da série clássica de TV. Para aqueles que ficaram curiosos não só em ler como também em assistir esse conto aconselho acessar o youtube que traz as duas histórias na íntegra. A primeira dublada e o remake em inglês.
O teste
Juro que ao terminar de ler esse conto fiquei numa angustia terrível. Acredite, “O teste” tem tal poder. Matheson foi muito sensível ao abordar a situação dos idosos num futuro distante e nos alerta para os problemas enfrentados pela terceira idade como a dependência familiar e o pouco caso dos filhos.
Tom Parker tem 80 anos e vive com o filho, a nora e o neto. O velhinho é ignorado por todos, principalmente pela nora que não vê a hora dele ser reprovado no teste. Deixe-me explicar melhor: nesse futuro sombrio, o governo criou um teste exclusivo para as pessoas que se aproximam dos 80 anos. Para efeito de controle populacional, eles são obrigados a passar por uma avaliação física e mental e os reprovados, simplesmente são eliminados. Isso mesmo, eles são mortos com uma injeção letal. Mas antes de serem levados para a câmara da morte, os velhinhos reprovados ainda ganham um “bônus” com 30 dias de vida para desfrutá-los ao lado de seus familiares. Cara! Vai me dizer que isso não é o tipo de leitura angustiante?! Mas o esperto Tom Parker prepara uma surpresa inesquecível para a sua família. Confesso que por pouco não chorei com o final da história.
O homem dos feriados
Após a leitura dos três contos – “O Incrível Homem que Encolheu”, “pesadelo a 20.000 pés” e “O Teste” – já estava chegando a conclusão que havia adquirido um verdadeira obra prima, ou seja, uma mina de contos antológicos de Matheson. Mero engano. As próximas histórias foram um poço de decepção, exceto “Encurralado”, como já disse no início desse post.
“O homem dos feriados”, com o perdão da palavra é “um pé no saco”. Acreditem: não posso publicar muita coisa sobre a história, pois estaria revelando o seu final. O autor escreve sobre um sujeito que trabalha numa agência que faz estatísticas sobre o número de pessoas que serão mortas nos feriados. O tal funcionário tem um método sui generis para descobrir com exatidão quantas vítimas morrerão, fazendo assim, uma previsão sem margem de erros. Um conto com menos de três páginas... antes não tivesse nenhuma...
Montagem
Imagine se você pudesse transformar a sua vida num filme, onde os fatos ruins passassem rapidamente ou até mesmo fossem eliminados. Quanto aos bons momentos; esses sim, seriam vividos intensamente. Bom não mesmo? Errado. Isto é péssimo e pode se transformar num verdadeiro pesadelo. Foi o que aconteceu com um jovem e desconhecido escritor que após um pacto incomum conseguiu concretizar esse desejo. Resultado: a sua vida se transformou num verdadeiro pesadelo. Detalhe: o personagem se esqueceu que um filme passa rapidamente, durando em média pouco mais de duas horas. Só o conto que não passa; quanto mais você lê, a história nunca termina. Então bate o desespero – já que sou do tipo de leitor que não gosta de abandonar um livro pela metade, mesmo sendo ruizinho – e a cada página lida, começo contar quantas ainda faltam para terminar o conto. O final é simplesmente risível. Uma errada de mão feia de Matheson.
O distribuidor
Um aparentemente ingênuo cidadão se muda para uma cidadezinha tranqüila e começa a fazer amizade com os seus vizinhos. Todos o recebem muito bem e dessa maneira ele passa a conhecer alguns segredos dessas pessoas. Então, a sua verdadeira personalidade vem à tona. É quando o Sr. Theodore Gordon começa a usar esses segredos para jogar um vizinho contra o outro causando um verdadeiro pandemônio no bairro e com conseqüências trágicas. Mas afinal, de contas, quem é na realidade o Sr. Gordon e porque ele age dessa maneira? Só mesmo lendo para saber. Li e não gostei.
Apenas com hora marcada
Não chega a ser ruim, digamos que seja apenas mediano. E coloca mediano nisso! Vale mesmo pela conclusão da história que chega a ser hilária. Um barbeiro e uma manicure nada convencionais recebem os seus clientes da maneira mais natural possível. Tudo correria muito bem se os dois não tivessem uma sociedade “pra lá” de curiosa com um médico fracassado. O curioso é que todos os clientes que vão fazer barba, cabelo e unhas saem ou chegam ao salão com uma dorzinha no corpo. Para saber a causa dessa dorzinha, só mesmo lendo o conto, que como disse, é apenas mediano.
A caixa
"A Caixa" (The Box) com Cameron Diaz foi baseado no conto
escrito por Richard Matheson
Não se iluda pensando que o conto de Matheson é semelhante ao filme com a Cameron Diaz exibido nos cinemas em 2009. Os dois são tão diferentes como água e vinho. No filme existe uma família formada por esposo, esposa e filho; já no livro no qual a produção cinematográfica foi baseada há apenas um casal. O filme de 2009 modificou totalmente a história escrita por Matheson, incluindo pitadas sobrenaturais e seres fantásticos que poderiam ser anjos ou demônios sob a forma humana. Tudo isso misturado com uma alta dose de ficação científica. Já o conto que está no livro “O Incrível Homem que Encolheu” é seco e objetivo, sem nenhuma firula. Mesmo assim, gostei muito mais do filme. Achei o conto simplório demais. Um casal do subúrbio recebe uma caixa de madeira com um grande mistério. A caixa possui um botão, que se pressionado, da direito à família de ganhar um milhão de dólares. Mas existe um preço para isso: no momento que o botão for apertado, uma pessoa de qualquer parte do mundo e que o casal não conhece irá morrer. Marido e mulher tem 24 horas para decidir de pressionam o botão ou não.
Encurralado
"Encurralado": Conto e filme podem ser
considerados verdadeira obras primas
No momento em que o desânimo estava tomando conta de mim por causa dos contos frustrantes do livro lançado pela Novo Século, eis que surge um verdadeiro “oasis” no meio do deserto arenoso de histórias de Matheson: “Encurralado”. Quem assistiu ao filme de 1971, dirigido por Steven Spielberg sabe do que estou falando... ou melhor, escrevendo.
O conto prende o leitor do início ao fim, principalmente aqueles que não tiveram a oportunidade de assistir ao filme e por isso mesmo, desconhecem a história. Matheson narra o drama de um homem de negócios dirigindo sozinho por uma estrada deserta e de repente se vê perseguido pelo motorista de um caminhão. Depois de algum tempo, ele chega a conclusão de que o misterioso caminhoneiro – que em nenhum momento mostra o seu rosto - quer matá-lo.
Xô, mosca!
Prefiro não comentar nada sobre esse conto; aliás, estou custando a acreditar que realmente foi Richard Matheson que o escreveu. Falar o que de um personagem que destrói o seu escritório tentando matar uma mosca que o estaria infernizando? Onde está o terror, o suspense, as reviravoltas no enredo? Onde?
O consolo para aqueles que decidirem comprar o livro da editora Novo Século é que “O Incrível Homem que Encolheu” é o maior dos 10 contos, tendo em média 200 páginas. Quanto aos demais são bem curtinhos, e por isso terminam logo...

12 julho 2011

Novo livro de Stephen King será sobre o assassinato de John F. Kennedy

Sou fã de carteirinha de Stephen King. Prova disso é o blog criado pelo “rapaz” aqui. É só vocês vasculharem os assuntos postados nesta página que chegarão a tal conclusão, aliás muito óbvia. E para não fugir da velha rotina, vem aí mais um post sobre a obra do mestre do terror.
Hoje quero escrever sobre o novo livro de King que está previsto para ser lançado em novembro de 2011.  A obra – que deverá ser prima – irá se chamar 11/22/63. O título do livro se refere ao dia, mês e ano em que o presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy foi morto após três disparos no momento em que participava de um desfile em carro aberto no centro de Dallas.
O livro terá viagens no tempo, romance e aventura. Êpa! Cadê o terror? Espera aí, uma obra de Stephen King sem nenhuma pontinha daquele terror que provoca calafrios na base da espinha e depois vem subindo, subindo até chegar no “pé” da nuca para provocar um arrepio incontrolável? Pois é, taí, o motivo pelo novo livro do mestre do terror ter me deixado tão curioso.
O enredo da obra que vinha sendo guardado a sete chaves por produtores e ditora acabou vazando na internet e provocou um verdadeiro frisson na galera fissurada nas histórias de King.
Pelo que pesquisei, a história é sobre um sujeito que descobre no porão de seu restaurante um portal do tempo. Então, ele comunica esse fato para um professor, amigo seu chamado Jake Epping, que decide entrar no portal e viajar para o ano de 1958. O que ele mais deseja é reencontrar o grande amor de sua vida, uma linda bibliotecária, que por um capricho do destino acabou ficando com uma outra pessoa. Agora, Epping quer corrigir o erro cometido e que acabou culminando com a separação, por isso, não pensa duas vezes em embarcar nessa aventura.
Ao chegar em 1958 é que “cai a sua ficha”, pois é nesse ano que o presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy foi assassinado. “Então, porque não evitar essa tragédia, já que ele sabe de todos os detalhes, ou seja, quem irá atirar, de onde o disparo será feito, quantos tiros serão dados, etc, etc. Assim, o professor passa a correr contra o tempo para evitar o assassinato do lendário presidente americano, mesmo que essa atitude traga conseqüências imprevisíveis para o futuro.
Com certeza o livro terá muitas teorias de conspiração, reviravoltas no enredo – que só mesmo King sabe fazer com maestria – traições, suspense e muito mais. Por tudo isso, acredito que mesmo que o terror venha em doses homeopáticas, não deixaremos de ser brindados com uma história eletrizante.
11/22/63” tem previsão de lançamento para 8 de novembro e deverá ter aproximadamente 1.000 páginas, mas algumas reportagens dão como certas 800 e poucas páginas. Não importa, de uma forma ou de outra a obra será um verdadeiro “calhamaço”, do tipo “A Coisa”, cujo número de páginas chega bem perto.
Portanto, está aí! Agora só resta esperar contando nos dedos o lançamento de “11/22/63”. E que venha King!

06 julho 2011

O Destino do Poseidon

Todos nós devoradores de livros, ratos de biblioteca, leitores inveterados, sei lá, chamem-nos do que quiserem – o que importa é que amamos ler – temos um livro considerado o nosso amuleto. Aquela obra que guardamos com todo o carinho num lugar de destaque em nossa estante e que não emprestamos à ninguém. Quase sempre, esse “objeto de paixão” é  aquele exemplar raro que vínhamos tentando adquirir a anos ou décadas,  sem sucesso, mas num belo dia... pimba! Conseguimos! Então comemoramos com foguetório, churrasco e outras coisas mais, porque finalmente vamos saciar a nossa fome de leitura que já estava nos matando.
Exagero? Nenhum. Mas só quem ama ler vai entender o que representa esse frenesi, esse vício gostoso e salutar.
No meu caso, o livro que guardo como uma verdadeira relíquia chama-se: “O Destino do Poseidon”, de Paul Gallico. Lembro que na época, pelejei muito para conseguir um exemplar e só fui realizar o meu sonho após manter contato com um livreiro numa comunidade do Orkut. Ele conseguiu um exemplar à peso de ouro, mas mesmo assim, não pensei duas vezes e comprei o livro.
Porque queria tanto esse romance? É que na minha pré-adolescência já era apaixonado por livros que “emprestavam as suas histórias” (como eu costumava dizer naquele tempo) para o cinema. E me recordo que fiquei fissurado num filme onde um enorme transatlântico, após ser atingido por um vagalhão, virava de cabeça para baixo, fazendo com que um grupo de sobreviventes lutasse para chegar ao casco antes que a embarcação afundasse. Apesar de ser apenas um crianção naquela época, recordo que no filme tinha um pastor atlético que assumia o papel de líder do grupo; um tira grosseiro casado com uma mulher loira, mimada e mal educada; além de uma senhora gorda e simpática que no meio do filme, num gesto heróico colocava a vida em risco para salvar os seus companheiros.
No dia seguinte, após ter assistido ao filme, fui correndo até a biblioteca da minha escola e passei horas e horas lendo o livro e admirando as suas ilustrações. Acabei me apaixonando pelos personagens.  Anos depois, já adulto, o tal do livro voltou a minha memória reativando toda aquela vontade louca de relê-lo. Pronto, e lá vai este blogueiro de primeira viagem atrás da obra de Paul Gallico.
Hoje, tenho a edição de bolso, surrada, de “O Destino do Poseidon”, publicada pela Edibolso em 1978, como o meu talismã. E posso garantir que valeu a pena todo o sacrifício para adquiri-lo, pois foi um dos livros que mais me tocou, chegando ao ponto de me obrigar dar um tempo na leitura dos contos de “O Incrível Homem que Encolheu”, somente para reler a obra de Gallico. E olha que eu dei um “breque” numa obra de Richard Matheson! Para que você veja a importância desse meu talismã que guardo em minha estante como uma jóia lapidada.
“O Destino do Poseidon” conta a história de uma catástrofe em alto mar que prende o leitor da primeira a última página. O S.S. Poseidon, um antigo e gigantesco transatlântico convertido em navio de cruzeiro, transportando mais de 500 passageiros numa viagem de réveillon, é atingido por uma gigantesca onda que acaba virando o navio de cabeça para baixo. No meio dessa tragédia temos dois grupos de sobreviventes: um composto por pessoas conformadas que preferem aguardar o salvamento no meio dos destroços e outro grupo formado por aventureiros que decidem encarar uma viagem cheia de perigos até o casco do navio que se encontra na superfície. O livro é sobre esses aventureiros. Suas vitórias, derrotas, tristezas, alegrias, desentendimentos, traições, provas de amizade e coragem, durante essa jornada suicida.
Contextualizando dessa maneira, sei que passo a impressão de “O Destino do Poseidon” ser uma história com foco direcionado exclusivamente para a aventura e nada mais. Pois é mero engano. Paul Gallico foi inteligente o suficiente para não transformar a sua obra apenas num festival de pirotecnia com múltiplas explosões, inundações, turbinas e geradores pendendo de cabeça para baixo, aço retorcido e navio se desintegrando aos poucos. Ele deu “alma” a sua história. “O Destino do Poseidon” é antes de tudo, um livro que mostra o valor da amizade e do amor. Um livro que desnuda a alma dos seus personagens, expondo os seus medos, as suas virtudes e também os seus defeitos. Quanto a aventura, é evidente que tem, e em abundância, mas não é tudo.
Outra coisinha. Muitas pessoas deixaram de ler a obra de Gallico porque já haviam assistido aos filmes - ou com o Gene Hackman, em 1972 ou então aquela bomba monstruosa de 2006 com o Josh Lucas e o Kurt Russel - pensando que livro e filme são iguais. Outro engano. Os enredos são totalmente antagônicos. Muitos personagens do livro não foram incluídos na super-produção cinematográfica de 72, além do final ser bem diferente. Quanto ao remake “Poseidon”, de 2006, me recuso a tecer qualquer comparação com o livro, pois o filme dirigido por Wolfgang Petersen não é merecedor sequer de ser citado neste espaço, já que “assassinou” história e personagens da obra de Gallico que deve ter se revirado no túmulo quando soube do morticínio que praticaram com a sua obra de arte.
Um dos motivos que me levou a reler esse livro várias vezes, inclusive agora, foi a complexidade dos personagens. Imagine um Big Brother dentro de um navio de cabeça para baixo e prestes a afundar de vez. Como essas pessoas se comportariam numa situação de risco? É dessa forma que vejo o livro de Gallico.
O leitor vai conhecer o líder que assume a responsabilidade pelo bem estar do grupo, além do compromisso de retirá-los daquela situação de risco; a egoísta que só pensa nela, colocando a sua vida acima de todas as outras, sendo capaz de empurrar alguém no abismo somente para salvar a própria pele; o submisso que mesmo sendo humilhado e achincalhado está sempre do lado da sua “algoz” para o que der e vier; o gênio que tem idéias brilhantes nos momentos de perigo, quando todos acreditam que as esperanças já chegaram ao fim; além de muitos outros personagens complexos.
Do grupo dos 15 aventureiros que decidem iniciar a escalada até o casco do navio, quatro merecem atenção: Frank Scott, Belle Rosen, James Martin e Linda Rogo. O primeiro pela sua liderança que às vezes “beira” as raias da insanidade. Para padre Frank Scott – jogador de baseball aposentado - o que importa é conseguir salvar o maior número de pessoas, contando com ele, é claro. Por isso, o reverendo “joga duro” para conseguir o seu intento, nem que para isso, tenha que abandonar – sem nenhum remorso – os feridos ou então aqueles que se perdem ao longo da jornada. Para estimular os seus seguidores a chegarem até o casco do Poseidon vale tudo: elogios, críticas ou xingamentos. Uma liderança que após várias releituras aprendi a definir como “liderança visceral”. Um personagem que em alguns momentos da narrativa você ama e em outros, você odeia.
Belle Rosen é a matrona gorda e bonachona que na maior parte do tempo é um empecilho para o grupo. Por causa da sua obesidade, ela não consegue escalar as plataformas e as escadas que estão invertidas, obrigando o grupo a improvisar meios que a façam vencer os obstáculos. Nessa hora vale tudo, desde amarrar cordas em sua cintura e puxá-la para cima até empurrá-la por trás quando fica “entalada”. E no meio do livro, quando você já se habitua a ver a mulher bonachona como uma pedra na vida do grupo de aventureiros, eis que surge uma situação inesperada que pode colocar toda a missão em risco; um obstáculo que para todos os integrantes do grupo se torna intransponível, menos para Rosen, que após superá-lo com muita coragem passa a ser vista com outros olhos por todos, como uma verdadeira heroína.
Spoiller!: Quanto ao tímido, calado e insignificante, James Martin, a surpresa é ainda maior. Após a morte de Frank Scott, o pacato  Martin surpreende à todos reivindicando o papel de líder e passando a comandar o grupo com toda segurança e autoridade. Nem mesmo o brutamontes Mike Rogo ouça contradizê-lo, resignando-se a submeter-se ao seu comando.
Quanto a Linda Rogo, pode ser vista como a autêntica vilã do grupo. Egoísta, ardilosa, dissimulada, hipócrita e falsa. Junte todos esses ingredientes e tempere com muita maldade e você terá uma Linda Rogo. O seu egocentrismo atinge um nível tão alto que a vida dos seus colegas de jornada passa a não ter importância nenhuma. No seu amplo egoísmo o que interessa é salvar a sua vida, os outros que se danem.
Prepare-se também para ler trechos emocionantes e de muita ação, como o momento em que o navio vira após receber o impacto da onda gigante. Paul Gallico descreve em detalhes o que ocorre com o antigo transatlântico na hora do impacto. É algo de tirar o fôlego.
Então, esta aí! Um livro que merece ser lido e relido várias vezes. Agora, se você deseja adquiri-lo, mas está com receio de não encontrá-lo em nenhum lugar por se tratar de uma obra rara. Fique tranqüilo, desde o advento da implantação do portal Estante Virtual (www.estantevirtual.com.br) , “O Destino do Poseidon” deixou de ser considerado uma obra rara. Acesse o portal e você verá que vários sebos disponibilizam o produto. E o melhor... à preços módicos.
Então, só resta dizer: embarquem nessa aventura e boa leitura!

02 julho 2011

O incrível homem que encolheu

Antes de tudo quero parabenizar a Novo Século pela iniciativa de publicar os antigos clássicos de Richard Matheson, considerado, por mim, um dos gênios da literatura de terror. Se não fosse essa editora, com certeza, estaríamos privados de verdadeiras obras primas como “Eu Sou a Lenda” e “O Incrível Homem que Encolheu”. Para você ter uma noção da importância dessa idéia da Novo Século, basta dizer que o livro “Eu Sou a Lenda”, publicado pela editora Francisco Alves há 30 anos se tornou uma autêntica “peça” de colecionador. Quanto ao “Incrível Homem que Encolheu”, pode esquecer, pois desconheço alguém que tenha o livro antes do lançamento por parte da Novo Século.
Mas vamos ao que interessa: “O Incrível Homem que Encolheu”. Acabei de ler o romance há menos de dois dias, agora estou devorando os outros nove contos que completam a obra. Fiquei tão impressionado com a história de Socott Carey que nem esperei terminar a leitura do livro em seu todo, ou seja, com os outros contos. Quero dividir com vocês a impressão que tive dessa história fantástica; depois farei um novo post opinando sobre os outros nove contos do livro, assim como fiz com “Os Contos Fantásticos de Eu Sou a Lenda”.
Uma história angustiante, claustrofóbica e aflitiva. É dessa forma que defino as 203 páginas da sofrida saga de Scott Carey, popularmente conhecido como “O Incrível Homem que Encolheu”. À cada página virada sentia um aperto no peito e juro que após terminar a narrativa fiquei muito impressionado, aliás, impressionado demais. Tanto é, que cheguei até medir a minha altura “umas” duas vezes. Aha, aha, aha, aha... Você está rindo é? Debochando? Ok, ok.... então lhe convido a encarar a leitura do livro. Depois me escreva se tenho ou não razão.
Imagine alguém que após uma combinação de dois acidentes descobre que vem perdendo exatos três milímetros por dia. O infeliz sujeito tenta de todas as maneiras reverter essa situação, mas nenhum médico ou pesquisador consegue solucionar o problema. E assim, a sua via crucis vai prosseguindo até culminar, quem sabe, no fim de sua existência quando atingir a marca de zero milímetro.
Sei que à primeira vista pode parecer difícil algum leitor se impressionar com um enredo tão inverossímil como este. Mas não se esqueça que o autor da história é o mestre Richard Matheson, capaz de transformar uma idéia banal num verdadeiro pesadelo kafkiano.
Matheson escreveu o seu romance em dois atos que se cruzam durante toda a história. No primeiro ato, ele nos mostra a luta do personagem principal em tentar encontrar uma solução que o faça parar de encolher. Essa parte da história é angustiante; muito mais do que o segundo ato, que mostra as aventuras do personagem já numa altura milimétrica, enfrentando um gato, uma aranha “viúva negra” e um pardal, além de tentar escalar, no porão de sua casa, cadeiras e armários com uma linha de costura (que para ele seria o mesmo que uma corda bem grossa) em busca de comida.
Achei o primeiro ato da história mais impressionável porque expõe ao máximo todo sofrimento de Carey. Ele sabe que vai acordar cada dia menor e isso dá uma aflição enorme em quem lê o romance. Matheson desnuda sem nenhuma piedade essa agonia do personagem. Primeiro ele perde o respeito da mulher e depois da filha que é apenas uma criança. Isso fica evidente num trecho do romance: “portanto, quando ele deixou de medir um metro e oitenta e dois e sua voz deixou de ser a voz que ela conhecia. Beth deixou de enxergá-lo como seu pai... e foi isso o que aconteceu: o respeito da menina foi se desvanecendo mais e mais. Sobretudo, quando o nervosismo de Scott começou a lhe provocar acessos de raiva. Ela não podia compreender ou apreciar... E naquele momento, ele não passava de um horrível anão que gritava e esbrabejava com uma voz muito divertida. Para ela, deixara de ser um pai e se transformara numa esquisitice”.
Quanto ao sofrimento relacionado a sua esposa, Scott Carey desce ao fundo do poço quando descobre que não pode mais satisfazê-la como homem e tão pouco sentir prazer. Por isso quando fica menor do que um anão, ele chega ao ponto de se apaixonar platonicamente pela babá de sua filha, uma moça gorda, atarracada e medindo menos de um metro e meio. É uma das poucas passagens cômicas do livro. Scott, escondido atrás da janela do porão, passa a contar os minutos para “engolir” a babá com os olhos, satisfazendo assim, os seus desejos secretos.
Outra situação humilhante mas ao mesmo tempo dramática, é o momento em que o incrível homem que encolheu implora para que a sua esposa Louise o deixe passar uma noite com uma anã que trabalha num circo. Cara! Juro que fiquei emocionado nesta parte do livro. Coloquei-me no lugar do personagem principal e pude sentir toda a sua angustia. Scott diz à Louise que conheceu uma mulher de sua estatura e quando é contestado pela esposa, ele retruca respondendo, quase a beira das lágrimas que não lhe resta coisa alguma e que dentro de pouco tempo aquela anã será uma gigante para ele. “A única coisa que posso esperar do futuro é a desintegração. Continuarei assim, dia após dia, cada vez menor e estarei sozinho. Mesmo essa mulher (anã) estará fora do meu alcance. Mas agora, Lou, por hora, ela é companhia, afeto e amor”.... “Você ainda pode ter quem você quiser, e quanto a mim?”.... Isso é apenas uma pequena parte do diálogo que compõe a cena dramática entre Scott e sua esposa Louise.
Mas “O Incrível Homem que Encolheu” não se resume somente a drama e angústias; brinda também os seus leitores com muita ação, aliás, cenas antológicas, como o embate mortal entre o milimétrico Scott e a aranha viúva negra que habita no porão. É de prender a respiração do leitor. A perseguição do pardal que ataca o infortunado personagem também é outra parte do livro que vale a pena. Quanto a luta com o gato, é outro momento antológico.
E prepara-se para o final do livro que rompe todos os paradigmas que você construiu durante a leitura. O que quero dizer é que Matheson, inteligentemente, preparou o leitor – durante toda a história – para um final óbvio, que inclusive o próprio personagem aguardava de maneira resignada.  Então... então... bem... chega né, senão vou transformar esse post num festival de spoilers.
Mas preste atenção no final da história; com certeza você que não conhece o livro, nem o filme baseado na obra, terá um choque.
E para finalizar, quero registrar a maravilhosa arte da capa da obra. De fato, a editora Novo Século caprichou. Foi muito feliz.
“O Incrível Homem que Encolheu” é o tipo de leitura que posso definir como obrigatória para os fãs do gênero fantástico com pitadas de terror e drama. Vale à pena!
Voltarei nos próximos post escrevendo o que achei dos nove contos que completam o livro. Adianto que já li “Pesadelo a 20.000 pés” e “O Teste”... por enquanto estou gostando. Inté!

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