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22 agosto 2026

6 livros de terror assustadores (mas não grotescos) para ler no 2º Semestre de 2026

Vamos “falar” de terror? Mas de um terror palatável; daqueles que assustam e metem medo, de fato, mas não chegam a apavorar, sufocar ou incomodar por explorar temas grotescos ou cruéis. Aliás, ainda preciso escrever um post sobre livros com essa vibe mais pesada que ainda não tive coragem de ler — se bem que nem sei se irei lê-los um dia.

Mas vamos lá, hoje o assunto é outro. Quero indicar seis livros de terror assustadores que li, gostei e recomendo. Apesar do medo, amei todos eles. Vamos à nossa lista:

01 – A Estrada da Noite (Joe Hill) 

Conhecem aquele ditado: “Filho de peixe, peixinho é”? Pois é, Joe Hill é a representação perfeita dessa frase popular. A exemplo de seu pai famoso, o mestre do terror Stephen King, seus livros são verdadeiros bestsellers do gênero.

Seu livro de estreia, A Estrada da Noite, publicado originalmente em fevereiro de 2007, mistura suspense, terror sobrenatural e rock 'n' roll. O protagonista, Judas Coyne (ou simplesmente Jude), é um astro do rock aposentado de 50 anos. Muito carismático, ele gera grande empatia no leitor, apesar das loucuras e extravagâncias que comete ao longo da história.

Quanto ao vilão, Craddock McDermontt... Brrrrrrrr... Posso afirmar que foi um dos personagens de terror que mais me assustaram e incomodaram. Ponto para Joe Hill, que logo em sua estreia criou um vilão à altura dos do seu pai.

Na trama, Jude é conhecido por seu estilo de vida solitário e por colecionar itens bizarros. Certa madrugada, durante um leilão online, ele decide comprar o paletó de um homem morto que supostamente carrega o espírito do antigo dono. O item é entregue em uma caixa preta em forma de coração, e é aí que o drama começa: o fantasma revela-se real e busca vingança contra o cantor por eventos trágicos do passado. Para tentar sobreviver à perseguição implacável desse espírito vingativo, impiedoso e maléfico, Jude foge e cai na estrada acompanhado por sua namorada gótica.

A Estrada da Noite me assustou muito, mas também me conquistou.

02 – A Casa Infernal (Richard Matheson) 


Taí outro livro de terror que me deu um medo danado. A Casa Infernal apresenta mais um vilão “casca-grossa”: Emeric Belasco, considerado um dos personagens mais malignos da literatura de horror.

O livro, publicado originalmente em 1971 (e lançado no Brasil em 2009 pela editora Novo Século, onde esgotou rapidamente e ficou anos fora de catálogo), deu origem em 1973 ao filme A Casa da Noite Eterna, brilhantemente dirigido por John Hough. O Belasco do livro é muito mais assustador do que o do cinema. Só lendo para compreender. A Casa Infernal é leitura obrigatória para os fãs do gênero.

O clima criado pelo autor é angustiante; quando você começa a ler, não consegue parar. Devorei página por página e, como a edição da Novo Século é relativamente curta (254 páginas em letras grandes), terminei em um único final de semana.

A história gira em torno de uma mansão assombrada pelo fantasma de Belasco. Se as casas mal-assombradas fossem montanhas, a Mansão Belasco seria o Monte Everest. Há 40 anos ela se mantém imponente, desafiando quem tenta decifrar seus segredos. Nesse período, houve duas tentativas desastrosas de investigação (uma em 1931 e outra em 1940): oito dos mais renomados pesquisadores paranormais do mundo morreram, cometeram suicídio ou enlouqueceram. Apenas um sobreviveu, e o terror presenciado foi tão grande que ele sofre os traumas até hoje.

Agora, um novo grupo de cientistas decide investigar a mansão. Será que conseguirão descobrir a verdade e, mais do que isso, sobreviver? A Casa Infernal (Hell House) é considerado por muitos mestres do gênero — como Stephen King — o romance de casa assombrada mais assustador já escrito. Em 2021, a editora DarkSide relançou este megassucesso em uma edição de luxo em capa dura.

03 – As Ruínas (Scott Smith) 

As situações vividas pelos personagens chegam ao extremo. Cenas envolvendo automutilações, amputações a sangue-frio e um vilão carnívoro sui generis — que devora suas vítimas sorrateiramente — minam a resistência até do leitor mais forte. Perto do final, fui obrigado a “dar um respiro” e deixar o livro quietinho sobre a mesa para continuar só depois.

Scott Smith foi muito sádico ao escrever As Ruínas (veja aqui e aqui). Além das cenas chocantes de luta contra um inimigo impiedoso, o autor explorou ao máximo os medos, incertezas e conflitos de cada personagem. A soma de tudo isso deixa o enredo tenso demais.

A trama começa simples, mas do meio para o final o bicho pega e a tensão se torna eletrizante. O enredo acompanha quatro jovens americanos que decidem ajudar um turista alemão a encontrar seu irmão desaparecido em um sítio arqueológico remoto, ficando presos em uma selva hostil dominada por um predador implacável.

A obra, lançada em 2006 no Brasil, virou filme dois anos depois. Inicialmente, a Paramount pretendia lançá-lo nos cinemas, mas acabou saindo diretamente em vídeo. Assisti ao filme e, apesar de ser bom, não chega aos pés do livro.

04 – Ed e Lorraine Warren: Demonologistas – Arquivos Sobrenaturais (Gerald Brittle) 

Ainda me lembro do início da resenha que escrevi sobre o livro de Gerald Brittle há quase dez anos, logo após terminá-lo. Na época, as primeiras linhas da minha publicação foram: “Cara, tenso demais. Tão tenso que cheguei a ter algumas atitudes”. Pois é! Alguns amigos acharam engraçado, mas fazer o quê... o livro mexeu muito comigo. Após a leitura, já com os batimentos cardíacos normalizados, pensei: “Pera aí... eu fiz isso mesmo? (rs)”.

Classifico a obra de Brittle, lançada em edição luxuosa pela DarkSide em 2016, como espetacular. A leitura impressiona tanto crentes quanto descrentes em assuntos polêmicos como espíritos opressores, possessões e casas assombradas.

Imagino que vocês estejam curiosos para saber minhas atitudes incomuns após a leitura. Ok, eu conto uma: rasguei e joguei fora a foto promocional da boneca Annabelle que acompanhava o livro (um brinde super bem sacado da editora). Disse para mim mesmo: “Meu! Não quero essa foto na minha casa! Vai que esse treco está carregado de energias negativas...”. Aposto que muitos estão rindo, né? Lanço o desafio: leiam o livro e duvido que continuem rindo.

As 272 páginas fazem o leitor repensar todas aquelas brincadeiras de infância envolvendo o sobrenatural, como o tabuleiro Ouija e o jogo do copo. Ufa! Ainda bem que nunca fui curioso para isso. Há alguns meses, cheguei a incluir "Demonologistas" numa lista de livros pesados de terror (veja aqui) mas depois de algumas releituras mudei de opinião. O livro impressiona sim, mas não chega a explorar o grotesco. É pesado? Olha... hoje, vejo com outros olhos. Digamos que se trata de um terror interessante e que dá para ser encarado pelos leitores "numa boa".

O livro é praticamente uma entrevista com o famoso casal de demonologistas Ed e Lorraine Warren. Eles narram detalhes de seus casos mais emblemáticos — como Amityville, Família Perron, Caso Beckford, Caso Foster e a boneca Annabelle —, intercalados com orientações sobre os riscos de se envolver com o mundo metafísico. Explico tudo nesse post que escrevi em 2017 logo após ter lido a obra.

Apesar do medo, vale muito a leitura. Os fãs do horror vão amar.

05 – À Sombra da Lua (Marcos DeBrito) 

O livro À Sombra da Lua, do autor brasileiro Marcos DeBrito, assusta mais pelo clima sombrio, mistério e violência gráfica do que por sustos imediatos (jump scares). Como o autor também é cineasta, sua escrita é altamente visual, tornando as cenas de ataque bastante viscerais. Amei a história! Ela dá aquele “medinho gostoso” de sentir.

O horror nasce do isolamento, da paranoia e dos segredos ocultos da pequena Vila Socorro. A descrição dos assassinatos é crua, gerando mais repulsa do que sustos repentinos. O livro reescreve o mito do lobisomem de forma madura, realista e violenta.

DeBrito entrega um romance de terror e suspense ambientado no interior de São Paulo. A trama acompanha o pânico dos moradores de um vilarejo assolado por mortes brutais, misturando folclore nacional, dramas familiares e segredos do passado. O autor usa o monstro como pano de fundo para testar o limite dos personagens: diante do perigo extremo, as máscaras sociais caem e o verdadeiro “eu” de cada um é revelado.

Um “livraço com 'aço'”, como escrevi na resenha que publiquei no blog em 2021.

06 – It: A Coisa (Stephen King) 

Encerro esta lista com um dos livros mais assustadores de Stephen King, considerado um verdadeiro cânone da literatura de terror. It:A Coisa é uma obra-prima que redefine o medo ao explorar a amizade infantil, os traumas do passado e a maldade enraizada em uma cidade pequena.

O verdadeiro impacto não vem apenas dos sustos, mas do terror psicológico constante. King constrói uma atmosfera pesada ao longo de mais de mil páginas. Se você pensa em ler, prepare-se para uma jornada longa e intensa.

A história se passa na pacata e amaldiçoada cidade de Derry, no Maine. A cada 27 anos, uma força maligna e ancestral desperta para se alimentar, assumindo a forma dos piores medos de suas vítimas — sendo o palhaço Pennywise sua face mais conhecida.

A narrativa explora duas linhas temporais: 1958 e 1985. Em 58, sete crianças rejeitadas, conhecidas como "O Clube dos Otários", unem-se para combater essa entidade. Em 1985, já adultos e com as memórias apagadas pelo trauma, eles são convocados de volta a Derry quando os assassinatos recomeçam, precisando honrar uma promessa de infância. O livro alterna entre passado e presente, mostrando que, para vencer o monstro, eles precisam primeiro enfrentar os traumas da própria infância.

A obra inspirou importantes adaptações: a minissérie de TV de 1990 (famosa por Tim Curry no papel do palhaço), os filmes para o cinema de 2017 e 2019 (Capítulo 1 e Capítulo 2), e a série da HBO It: Bem-Vindos a Derry.

Tá aí, galera amante de histórias de terror! Tenho certeza de que esses livros atenderão às suas expectativas.

 

19 agosto 2026

Phoebe Berman Perdeu Tudo: O Fenômeno do TikTok com a mesma ‘vibe’ de O Diário de Bridget Jones


Alguém que está lendo este post agora, por acaso, já devorou as páginas de “O Diário de Bridget Jones”? Amou ou pelo menos gostou do livro que se tornou um fenômeno voltado para o público adulto na faixa dos 30 anos (o público jovem adulto)? Se você, neste momento, está balançando a cabeça num “sim” frenético e silencioso, saiba que tenho uma novidade que certamente vai deixá-lo muito feliz.

Anote aí: a Verus Editora lançou, há poucas semanas, um livro com a mesma “vibe” de “O Diário de Bridget Jones” — obra que bombou em vendas em 1996 e chegou a ganhar uma adaptação cinematográfica. Estou me referindo a “Phoebe Berman Perdeu Tudo”, romance de estreia de Brooke Averick, criadora de conteúdo, podcaster e autora americana que ganhou fama no TikTok durante a pandemia de 2020 com vídeos de comédia.

A boa notícia para os leitores que estavam à procura de uma história nos moldes da obra de Helen Fielding é que “Phoebe Berman Perdeu Tudo”, apesar de ter sido lançado há pouquíssimo tempo (27 de julho), já explodiu no BookTok. A comédia romântica cativou o público ao misturar vulnerabilidade, bom humor e ansiedade de forma realista — exatamente a mesma fórmula de sucesso adotada por Fielding e que conquistou, principalmente, as leitoras “trintonas” (embora muitos leitores trintões também tenham embarcado nessa onda).

Além do BookTok, “Phoebe Berman Perdeu Tudo” vem recebendo muitos elogios em outras redes sociais literárias. Confesso a vocês que, após ler tantos comentários positivos, fiquei com muita vontade de ler a obra de Averick, a qual, aliás, já incluí na minha lista de leituras.

Mas vocês devem estar curiosos para saber por que os dois livros compartilham a mesma atmosfera. Vamos lá! “Phoebe Berman Perdeu Tudo” tem exatamente a essência de uma comédia romântica clássica e caótica no estilo de “O Diário de Bridget Jones”.

Conversei com duas amigas que leram os dois livros — ou melhor, que leram “O Diário de Bridget Jones” e ainda estão lendo “Phoebe Berman Perdeu Tudo” — e, segundo elas, as duas narrativas têm muitos detalhes em comum. Vamos conferir algumas semelhanças? Anotem aí:

- A crise da idade: Bridget Jones vive a pressão dos trinta e poucos anos, que exige conquistas sociais. Já Phoebe Berman está a exatamente um mês de completar 30 anos e entra em pânico por se ver como uma "romântica de carteirinha" que ainda é virgem.

- A protagonista imperfeita e real: Assim como Bridget, Phoebe é uma personagem cheia de falhas, humana e com uma ansiedade paralisante, o que gera situações absurdamente constredundoras e divertidas.

- Listas e metas: Bridget foca em controlar calorias, cigarros e namorados em seu diário. Phoebe cria a icônica "Lista da Phoebe para perder a virgindade em trinta dias" para tentar assumir o controle da própria vida.

- O caos amoroso: A vida de Phoebe passa de zero a três pretendentes ao mesmo tempo (incluindo o clássico clichê de dividir o apartamento com um deles), lembrando muito a clássica indecisão amorosa de Bridget entre Daniel Cleaver e Mark Darcy.

Tá aí, galera! Dois livros que exploram o gênero chick-lit na literatura (ficção focada em questões da mulher moderna). Se você leu e gostou de “O Diário de Bridget Jones”, fica o convite para ler também “Phoebe Berman Perdeu Tudo”.

Ah! Tem mais uma coisinha: a exemplo de Bridget Jones, que virou filme, Phoebe Berman também está com destino garantido para as telas. Segundo informações exclusivas da Variety, a Netflix adquiriu os direitos de adaptação do romance de estreia de Brooke Averick.

Até a próxima!




15 agosto 2026

Eles Não São Fictícios! Conheça as pessoas reais que inspiraram 007, Sherlock Holmes, Popeye e Poti

Muitas vezes, ao lermos uma história fictícia, cruzamos com personagens que nos conquistam logo nas primeiras páginas por causa de seu carisma — seja um herói ou um vilão. O que mal sabemos é que esses personagens, os quais julgamos ter saído da imaginação fértil de determinado escritor, na verdade existiram na vida real. Pode ter sido um amigo, um professor ou um familiar — enfim, qualquer pessoa de carne e osso da qual o autor resolveu transferir 50%, 70% ou até 90% ou mais de suas características para compor aquela figura fictícia que nos cativou.

No post de hoje, quero escrever sobre um agente secreto, um detetive, um marinheiro e um indígena icônicos que aprendemos a admirar nas páginas de um livro e, posteriormente, na TV e no cinema. São personagens que a maioria dos leitores acreditava ser puramente fictícia, mas que existiram na vida real. Estou me referindo a James Bond, o famoso agente secreto de Sua Majestade conhecido pela alcunha de 007; Sherlock Holmes, o detetive mais famoso da ficção, imortalizado por sua mente analítica, foco nos detalhes e uso rigoroso da lógica para resolver os casos mais difíceis da Era Vitoriana; Popeye, o clássico personagem que ganha força sobre-humana esmagando latas de espinafre com as mãos e engolindo a verdura sempre que precisa salvar sua amada Olívia Palito do rival Brutus; e, por fim, o indígena Poti, o bravo guerreiro tabajara que faz amizade com o colonizador Martim em Iracema, de José de Alencar, um dos maiores clássicos da literatura brasileira.

Galera, podem acreditar: esses personagens não têm nada de fictícios. Eles existiram na vida real! Vamos descobrir os seus segredos? Saber como e por que eles acabaram se transformando em verdadeiros ícones da literatura de ficção? Então vamos lá. Apertem os cintos!

01. James Bond (007)

Existe muito debate sobre a inspiração real por trás do agente secreto 007, James Bond. Na verdade, o escritor britânico Ian Fleming criou o agente em 1953 como um personagem misto, baseado em si mesmo, em colegas da inteligência britânica durante a Segunda Guerra Mundial e em espiões reais que conheceu ao longo da carreira. O nome do personagem, por exemplo, veio de um homem real: um especialista em pássaros dos Estados Unidos que escreveu um livro sobre aves que Fleming lia na Jamaica. Fleming achou o nome curto, simples e sem graça — perfeito para um espião neutro.

Contudo, muitos pesquisadores acreditam que a maior inspiração real para a criação do personagem veio de Duško Popov, um espião duplo iugoslavo que trabalhou para os Aliados contra os nazistas. Ele era rico, gostava de festas, gastava muito dinheiro e andava com mulheres bonitas, inspirando o estilo "playboy" de Bond. Frequentador de cassinos e conhecido por seu estilo de vida extravagante, Popov foi também um dos agentes duplos mais importantes do conflito. Sua carreira no mundo da espionagem foi tão impressionante que muitos historiadores o consideram a principal inspiração para o 007.

Popov nasceu em 1912, em uma família extremamente rica na região que hoje corresponde à Sérvia. Desde jovem, era conhecido por seu charme, inteligência e facilidade com idiomas — qualidades que mais tarde se tornariam valiosas em sua carreira como espião. Sua entrada no mundo da espionagem aconteceu em 1940, quando passou a integrar o chamado “Double Cross System”, uma rede britânica de agentes duplos responsável por fornecer informações falsas à inteligência alemã durante a Segunda Guerra Mundial. Os alemães acreditavam que estavam financiando um agente valioso e o pagavam generosamente para coletar dados, sem perceber que ele estava, na verdade, trabalhando para os Aliados.

02. Sherlock Holmes

A principal inspiração para a criação de Sherlock Holmes foi o Dr. Joseph Bell, um proeminente cirurgião e professor universitário que lecionava na Faculdade de Medicina da Universidade de Edimburgo, onde Arthur Conan Doyle estudou no final da década de 1870. Antes de se tornar um escritor famoso, o médico escocês trabalhou como assistente de Bell na clínica do hospital. O jovem Arthur Conan Doyle observava estupefato o método de dedução e observação clínica de seu professor. Bell conseguia adivinhar a profissão, a procedência e os hábitos de um paciente apenas olhando pequenos detalhes em suas roupas, sapatos e atitudes, antes mesmo de o doente abrir a boca. Ele reparava em manchas, poeira e marcas físicas no corpo, ligando esses pequenos sinais a fatos reais da vida da pessoa. Seu diagnóstico era preciso: o médico acertava a origem e o problema de saúde com base em uma lógica simples.

O parceiro Dr. Watson também reflete o papel que o próprio Conan Doyle desempenhava ao lado do mestre. Como assistente de Bell, Conan Doyle tinha a função de selecionar os pacientes, anotar as consultas e observar o mestre trabalhar. Décadas mais tarde, ao escrever para o antigo professor, Doyle admitiu abertamente: "É certamente a você que devo Sherlock Holmes." Bell acompanhava o sucesso das histórias e até se divertia com a comparação. Porém, ele sempre fazia questão de dizer que a genialidade do personagem vinha do talento do próprio Doyle em transformar a rotina de um hospital em alta literatura de mistério.

Agora, se você quiser ler as histórias e identificar o Dr. Bell agindo por meio de Sherlock, posso indicar duas obras que descobri em minhas "zapeadas" pelas redes sociais. As mais recomendadas são Um Estudo em Vermelho (1887) e O Signo dos Quatro (1890). A primeira é o livro de estreia da saga do famoso detetive, no qual Sherlock e Watson se conhecem. A cena em que Holmes deduz instantaneamente que Watson veio do Afeganistão — apenas olhando para sua postura, tom de pele e ferimentos — é uma reprodução exata do método que o Dr. Bell usava com seus pacientes em Edimburgo.

Quanto a O Signo dos Quatro, logo no início do livro, Sherlock demonstra seu método ao deduzir o passado do irmão de Watson apenas examinando um relógio de bolso antigo. Ele observa pequenos arranhões ao redor da entrada da chave (indicando alguém que tremia por beber muito) e os números de penhor gravados no interior. É o Dr. Bell em seu estado mais puro!

03. Popeye

Falando sobre o Popeye, tenho certeza de que você que acompanha o nosso blog sequer imaginava que esse personagem clássico dos quadrinhos, dos desenhos animados e dos livros foi inspirado em uma pessoa real. Pois é, é verdade! O icônico marinheiro criado pelo cartunista Elzie Crisler Segar em 1929 — que ganha uma força sobre-humana esmagando latas de espinafre com as mãos e engolindo a verdura sempre que precisa salvar sua amada Olívia Palito do rival Brutus — foi inspirado em Frank "Rocky" Fiegel, um marinheiro valentão da cidade natal do criador, em Illinois, EUA.

Elzie Crisler conheceu Fiegel na infância. O marinheiro era um homem forte, fumava cachimbo e falava pelo canto da boca. Ele também tinha o olho direito meio fechado ou saltado devido às lutas constantes, o que originou o termo "pop-eye" (olho estourado/saltado). Fiegel vivia com o cachimbo na boca, o que o fazia conversar usando apenas o canto dos lábios. Trabalhava em uma taverna local mantendo a ordem, tinha fama de valentão e gabava-se de nunca ter perdido uma briga.

Vale lembrar que o espinafre não deu superforça imediata a Popeye logo em sua estreia nas tiras, em 1929. Embora a associação com a força imediata do espinafre tenha sido uma estratégia publicitária dos desenhos posteriores para incentivar as crianças a comerem verduras, a lenda popular aponta que Fiegel também creditava sua vitalidade a uma boa alimentação e a hábitos rústicos.

Ah! Acredito que a galera também esteja curiosa para saber se Olívia Palito, a namorada do Popeye, foi inspirada em uma pessoa real. Respondo que sim! A criação de Olívia Palito foi inspirada em uma mulher chamada Dora Paskel, lojista na cidade de Chester, Illinois, onde o criador das tirinhas cresceu. Dora era extremamente alta, magra e costumava vestir-se de maneira muito parecida com a personagem, incluindo os marcantes sapatos de botões e o cabelo firmemente preso em um coque perto da nuca.

04. O Indígena Poti

Quem leu Iracema (1865), de José de Alencar, vai se lembrar de um personagem marcante chamado Poti. Muitos leitores acreditavam que ele tinha saído exclusivamente da imaginação do escritor cearense, mas, na realidade, Poti foi inspirado em uma figura histórica real.

No romance, Poti é inspirado no chefe indígena Antônio Felipe Camarão. O Poti do livro é o irmão de armas do colonizador Martim Soares Moreno, assim como o Poti histórico foi aliado fiel e amigo pessoal de Martim e de outros comandantes portugueses. Ambos participam ativamente de batalhas e da defesa territorial (na ficção, contra os tabajaras e inimigos locais; na realidade, nas lutas contra os holandeses no Nordeste). Na parte final da trajetória contada por Alencar, Poti converte-se à fé cristã e assume o nome civil de Felipe Camarão, espelhando exatamente a vida do herói histórico.

Outra similaridade entre o personagem ficcional e a figura real é que o nome "Poti" tem raiz no tupi e faz referência direta ao crustáceo "camarão", origem compartilhada pelo personagem e pela figura histórica nos registros coloniais.

O Poti verdadeiro foi um dos principais líderes da Insurreição Pernambucana (1645–1654), movimento que expulsou os holandeses do Nordeste do Brasil. Como liderança potiguar, ele comandava os guerreiros da etnia Potiguara, mobilizando centenas de arqueiros e combatentes indígenas a favor da Coroa Portuguesa. Camarão era mestre na chamada "guerra de emboscada" ou "guerra brasílica", adaptando as técnicas nativas da floresta para derrotar o exército holandês, militarmente mais moderno. Sua atuação foi decisiva nas duas Batalhas dos Guararapes (1648 e 1649), os confrontos mais importantes do conflito. Por seus feitos, o rei de Portugal concedeu-lhe o título de Dom, o hábito da Ordem de Cristo e o cargo de Capitão-Mor dos Índios do Brasil. Hoje, ele é considerado um dos patriarcas da pátria brasileira.

No romance, Poti não é retratado apenas como um guerreiro, mas como um "cavaleiro da floresta", dotado de valores de honra, generosidade e nobreza moral comparáveis aos heróis da literatura europeia.

Por hoje é só, galera! Agora, quando vocês lerem qualquer um desses quatro livros, terão a certeza de que seus personagens centrais de fato existiram na vida real — e não apenas na imaginação dos escritores.

Inté!

 

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