03 outubro 2026
Antes de Stephen King dominar tudo: os livros de terror que fizeram sucesso no Brasil nos anos 70
Cara, eu adoro livros de
terror. Gosto bastante. E tenho a certeza de que muitos seguidores do blog
leram muitas obras do gênero que foram publicadas em décadas anteriores,
principalmente nos anos 70 e 80. Afinal de contas, quem por aqui ainda não leu
“O Exorcista” ou “Horror em Amityville”?
Por isso, hoje, resolvi
prestar uma homenagem a esses livros, muitos deles verdadeiros clássicos, que,
apesar de terem sido publicados há mais de 60 anos, não perderam a atualidade e
continuam sendo muito procurados pelos leitores dessa geração, sem contar que
alguns deles ainda conseguiram romper essa barreira do tempo e ganhar novas
edições, até mesmo luxuosas.
É importante frisar que o
lançamento desses romances de terror no Brasil dos anos 1970 não foi apenas um
sucesso comercial; foi um choque cultural, o que transformou a chegada dessas
obras em um terreno fértil para debates acalorados, pânico moral e até mesmo
intervenções da censura.
Resolvi dividir esta
postagem por categoria, ou seja, mostrar o mais vendido — e não os mais
vendidos — por ano, para que os leitores tenham uma ideia da obra que, de fato,
foi considerada a “bam-bam” de determinado ano, superando todas as demais.
Incluí também neste post o impacto que esses livros provocaram nas gerações de
leitores brasileiros da década de 70. Vamos à nossa lista?
ANO 1970
- O Bebê de
Rosemary (Ira Levin)
Se considerarmos
estritamente o ano de 1970, a literatura de ficção no Brasil não era dominada
pelo terror contemporâneo, mas sim por romances nacionais (como Tenda dos
Milagres, de Jorge Amado) e best-sellers internacionais dramáticos (como Love
Story, de Erich Segal).
Naquele ano, a literatura
de horror moderno/sobrenatural ainda não tinha atingido a explosão comercial da
"Era King/Blatty" (dominada por Stephen King e William Peter Blatty).
O livro de suspense/terror que dominava o topo das listas no Brasil entre o fim
dos anos 60 e o início de 1970 era “O Bebê de Rosemary”, impulsionado pelo
filme de Roman Polanski, lançado no fim de 1968.
Podemos afirmar que a
obra de Levin foi o maior fenômeno comercial no Brasil no ciclo do fim dos anos
60 e na virada para 1970, já que não havia nenhum outro livro de horror
concorrendo em escala comercial em 1970. A chamada “segunda onda” (com O
Exorcista, Carrie e O Iluminado) só começaria a partir de 1971/1972. Dessa
maneira, “O Bebê de Rosemary” pode ser visto como o principal nome comercial
daquele ano específico, apesar de ter sido lançado no Brasil em 1969.
Na narrativa de Levin, um
jovem casal se muda para um antigo e suntuoso edifício em Nova York, envolvido
em rumores sombrios. Eles travam uma amizade cada vez mais íntima com um casal
de vizinhos idosos e excêntricos. Quando Rosemary finalmente engravida, coisas
estranhas passam a acontecer, e as atitudes protetoras e obsessivas das pessoas
ao seu redor começam a deixá-la isolada, desencadeando um terror psicológico
sufocante sobre quais são as verdadeiras intenções em relação ao seu filho.
Impacto na geração de
leitores brasileiros
Para as gerações das
décadas de 1970 e 1980 — que viviam sob um período de forte conservadorismo e
censura —, o livro gerou um impacto profundo ao discutir de forma nua e crua:
Autonomia feminina e
maternidade: A
angústia de Rosemary por não ser ouvida pelos médicos ou pelo marido ecoou
fortemente entre as leitoras brasileiras, antecipando debates sobre o controle
do próprio corpo.
Profanação religiosa: A temática satânica e a subversão
de dogmas cristãos causaram choque em um país predominantemente católico,
gerando debates morais e um fascínio pelo oculto.
ANO 1971
Incidente em
Antares (Érico Verissimo)
Considerando o mercado
editorial brasileiro de 1971 e os registros reais das listas de mais vendidos
da época (como os rankings da revista Veja e do Jornal do Brasil), a obra que
efetivamente dominou as vendas no gênero de suspense, mistério e terror de
fundo psicológico/sobrenatural no Brasil foi “Incidente em Antares”, do célebre
escritor gaúcho Érico Verissimo.
Lançado exatamente no
final de 1971, o livro foi um sucesso estrondoso imediato, alcançando o
primeiro lugar absoluto nas listas de ficção nacionais daquele ano.
Embora seja uma forte
sátira política da ditadura militar, a narrativa é construída em cima de uma
estrutura de realismo fantástico e terror gótico. A trama se passa na cidade
fictícia de Antares, onde os coveiros entram em greve e sete defuntos
levantam-se de seus caixões. Esses mortos-vivos, em avançado estado de
putrefação, passam a vagar pela cidade, expondo os segredos podres e os crimes
dos líderes locais, gerando uma atmosfera de horror e mistério bizarro que
chocou e fascinou os leitores.
Impacto na geração de
leitores brasileiros
Até então, os leitores
brasileiros estavam acostumados a associar o horror e o sobrenatural a autores
estrangeiros. Verissimo pegou esses elementos (mortos-vivos, corpos em
decomposição, assombração urbana) e os inseriu no coração do Rio Grande do Sul.
Ver cadáveres putrefatos
andando pelas ruas, exalando mau cheiro e apontando o dedo para as autoridades
causou um imenso choque estético e moral na classe média da época. O terror
serviu como uma moldura perfeita para prender a atenção do leitor do início ao
fim.
A geração de 1971 vivia
sob forte censura, em um período no qual críticas abertas ao governo eram
proibidas. Como os mortos de Antares "já estavam mortos", as leis dos
vivos não se aplicavam a eles. Eles podiam falar o que quisessem. O impacto: os
leitores leram a obra como um manifesto de liberdade. A indignação dos
mortos-vivos contra a corrupção, a hipocrisia e a violência das elites locais
gerou uma identificação imediata e uma catarse coletiva. O livro virou um
símbolo silencioso de resistência nas conversas de café e nas universidades.
ANO 1972
- Vingança
Diabólica (Stephen Gilbert)
Este romance de terror
psicológico claustrofóbico é escrito em forma de diário e acompanha um jovem
solitário e oprimido que, após encontrar uma infestação de ratos em sua casa,
acaba desenvolvendo uma relação bizarra de amizade e adestramento com os animais,
usando-os para executar um plano de vingança contra pessoas que o rejeitaram ou
maltrataram.
O livro virou uma febre
de vendas após a adaptação cinematográfica (Willard) chegar ao país.
Impacto na geração
de leitores brasileiros
O público brasileiro consumiu
o livro sob o forte impacto do filme Calafrio (Willard, 1971) e de sua
sequência, Ben (1972). Esse fenômeno inaugurou, para muitos leitores da época,
o hábito de buscar o livro após assistir à adaptação nas telas.
Antes do início dos anos
1970, o leitor brasileiro de terror estava muito habituado ao gótico clássico
(fantasmas, castelos, vampiros) ou ao terror folclórico nacional. Vingança
Diabólica ajudou a introduzir duas tendências modernas:
O horror urbano e
psicológico: o monstro não era um ser sobrenatural, mas a mente perturbada de
um jovem comum e isolado.
O "Nature
Horror" (Eco-horror): o medo focado em pragas e animais raivosos da
própria cidade (neste caso, ratos) atacando humanos. Isso abriu as portas para
o sucesso posterior de livros como A Invasão dos Ratos (James Herbert) no
mercado nacional.
A força da marca era
tanta que a canção-tema do segundo filme (Ben), baseado no livro e gravada por
Michael Jackson em 1972, vendeu sozinha mais de 1,7 milhão de cópias de discos
apenas nos Estados Unidos.
ANO 1973
- As Possuídas
(Ira Levin)
O mestre do suspense
paranoico (autor de O Bebê de Rosemary) emplacou um enorme sucesso no Brasil
com este terror satírico e de ficção científica. A trama acompanha uma dona de
casa que se muda para um subúrbio perfeito e descobre que as mulheres locais
estão sendo substituídas por robôs submissos.
Na narrativa de Levin, a
personagem Joanna Eberhart é uma fotógrafa emancipada e progressista que se
muda com o marido e os filhos para uma pacata cidadezinha do interior. Aos
poucos, Joanna nota algo perturbador: todas as donas de casa locais são
assustadoramente submissas, obcecadas por limpeza, impecavelmente vestidas e
totalmente desprovidas de intelecto ou ambições próprias. Ela descobre que a
Associação de Homens da cidade esconde um segredo terrível para moldar a
"esposa perfeita".
Vale a pena frisar que o
título original da obra é “As Mulheres de Stepford” mas em sua primeira
publicação brasileira pela editora Record, a narrativa não recebeu o título
literal e foi batizada como “As Possuídas”.
Impacto na geração
de leitores brasileiros
O livro colocou o dedo na
ferida do modelo de família tradicional defendido pela sociedade brasileira dos
anos 70. Grupos mais conservadores viam a obra como uma "ameaça aos
valores familiares" e uma crítica injusta e exagerada ao papel da mulher
como dona de casa.
Por outro lado, o romance
virou um manifesto silencioso. Em uma época em que o movimento feminista no
Brasil começava a ganhar corpo e a lutar por pautas como o divórcio (que só foi
legalizado em 1977), as jovens universitárias brasileiras usavam o livro como
uma metáfora perfeita de como a sociedade patriarcal tentava calar,
"robotizar" e domesticar as mulheres.
ANO 1974
- O Exorcista
(William Peter Blatty)
O livro que mudou a
história do terror moderno foi publicado originalmente nos Estados Unidos em
1971. No entanto, no Brasil, “O Exorcista” (veja resenha aqui) só se tornou o grande campeão de
vendas em 1974. Isso aconteceu por dois motivos principais:
Lançamento da
tradução: A edição
em português pela Editora Francisco Alves chegou às livrarias brasileiras entre
o final de 1972 e 1973.
O efeito do filme: O filme O Exorcista, dirigido por
William Friedkin, estreou nos cinemas do Brasil no primeiro semestre de 1974. A
imensa repercussão do filme nos cinemas brasileiros gerou uma corrida às
livrarias, fazendo com que o livro atingisse o topo das listas de mais vendidos
no país ao longo daquele ano.
O relato perturbador da
possessão da menina Regan MacNeil chocou a sociedade e esgotou edições
consecutivas nas livrarias brasileiras.
Impacto na geração
de leitores brasileiros
Quando a obra literária
estourou nos cinemas brasileiros, relatos de pessoas passando mal, desmaiando
nas salas de cinema ou rasgando o livro com medo de "atrair o
demônio" inundaram os jornais da época.
Houve pressão de grupos
conservadores para que o livro fosse recolhido por "atentado à moral e aos
bons costumes", mas a censura federal focou suas restrições mais severas
na fita do cinema (que sofreu cortes e teve classificação indicativa proibida
para menores de 18 anos), enquanto o livro continuou circulando como um
"fruto proibido" que os jovens liam escondidos dos pais.
Dioceses brasileiras
relataram na imprensa da época um aumento bizarro e repentino de fiéis
procurando padres e paróquias, jurando que seus filhos estavam possuídos,
sobrecarregando os canais da Igreja.
ANO 1975
As Duas Vidas de
Audrey Rose (Frank de Felitta)
Em 1975, o título mais expressivo no Brasil foi As Duas Vidas de Audrey Rose. A obra de terror psicológico e reencarnação foi publicada originalmente nos EUA em 1975 e chegou quase imediatamente ao Brasil pela editora Círculo do Livro. O livro tornou-se uma verdadeira febre no país, registrando vendas massivas através de clubes de leitura e exigindo constantes relançamentos em outras editoras nos anos subsequentes para dar conta da alta demanda dos leitores brasileiros.
O livro de Frank de
Felitta acompanha Janice e Bill Templeton, um casal cuja vida tranquila em Nova
York é abalada pela chegada de um homem misterioso. Ele afirma obstinadamente
que a filha de onze anos do casal, Ivy, é a reencarnação de sua própria filha,
Audrey Rose, que morreu tragicamente anos atrás em um terrível acidente de
carro. À medida que Ivy passa a manifestar pesadelos violentos e comportamentos
assustadores que coincidem com os traumas do acidente, a família é arrastada
para uma angustiante jornada espiritual e jurídica para descobrir a verdade
sobre a identidade da menina.
Impacto na geração
de leitores brasileiros
Antes do avanço massivo
de autores como Stephen King no mercado nacional, o que só aconteceria a partir
da década de 80, a geração brasileira da década de 70 consumia o terror muito
atrelado ao clássico gótico ou a tramas puramente religiosas (como O
Exorcista). O livro de Frank de Felitta apresentou um tipo de terror
psicológico mais urbano e focado no drama familiar, mostrando que o
sobrenatural podia invadir a rotina de uma família comum de classe média.
O livro estimulou debates
acalorados entre os leitores sobre a possibilidade científica e espiritual da
reencarnação. A obra virou pauta de conversas cotidianas, fazendo com que as
pessoas refletissem sobre mistérios da mente e traumas de infância.
ANO 1976
A Profecia (David
Seltzer)
O livro de terror e suspense sobrenatural mais vendido no Brasil em 1976 foi A Profecia (The Omen), escrito por David Seltzer. Lançado pela Editora Record no mesmo ano, o livro foi adaptado do próprio roteiro do filme homônimo lançado em 1976. A obra alcançou o topo da lista de best-sellers das principais livrarias brasileiras na época, impulsionada pelo enorme sucesso do filme nos cinemas locais.
A obra de Seltzer
acompanha Robert Thorn, um diplomata americano que adota secretamente um
recém-nascido para substituir seu filho morto no parto. Anos depois, mortes
misteriosas e eventos macabros passam a cercar o garoto, levando o pai a
investigar a aterradora possibilidade de que a criança seja a encarnação do
próprio Anticristo.
Impacto na geração
de leitores brasileiros
Juntamente com “O
Exorcista”, “A Profecia” provou às editoras brasileiras que o horror não era
apenas um nicho marginal, mas um gênero capaz de dominar as listas de
best-sellers e atrair o grande público. Além disso, a narrativa sobre o
Anticristo e o número "666", que aparece na obra de Seltzer,
alimentou o imaginário coletivo e as discussões na sociedade brasileira da
época, gerando grande fascínio e medo e consolidando tropos do terror religioso
que até hoje influenciam produções de ficção e a cultura popular no país.
ANO 1977
Carrie, A
Estranha (Stephen King)
A obra introduziu Stephen King no Brasil via Editora Nova Fronteira em 1975. As vendas ganharam tração em 1976, mas explodiram somente em 1977 com a estreia do filme de Brian De Palma nos cinemas brasileiros, mantendo tiragens constantes até o fim da década. A adaptação cinematográfica de Brian De Palma realmente funcionou como um combustível perfeito para o fenômeno literário, transformando o "Mestre do Terror" em um nome de peso no Brasil logo na década de 1970.
Impacto para a
geração de leitores brasileiros
O impacto de Carrie e da
chegada de Stephen King para a geração de leitores brasileiros dos anos 1970
foi culturalmente profundo, moldando novos hábitos de consumo e redefinindo o
papel da cultura pop no país. Esse fenômeno literário e comercial gerou
reflexos importantes em diferentes aspectos.
Outra observação que
merece ser feita é que década de 1970 no Brasil foi marcada pela expansão do
ensino de primeiro e segundo grau e pela urbanização acelerada. Isso criou uma
massa jovem alfabetizada que buscava leituras de entretenimento puro, fora do
ambiente acadêmico ou da literatura engajada e marginalizada que respondia à
ditadura militar (como a "geração mimeógrafo"). King ofereceu, a
partir da chegada de “Carrie” ao Brasil, uma literatura acessível, rápida e
impactante, ajudando a criar o hábito da leitura diária por puro prazer.
ANO 1978
Horror em
Amityville (Jay Anson)
Lançado originalmente nos EUA em 1977, o livro chegou ao Brasil na virada para 1978 e rapidamente virou febre. A suposta história real da família Lutz em uma casa mal-assombrada atiçou a curiosidade mórbida dos leitores e esgotou tiragens rapidamente, preparando o terreno para o filme que sairia logo depois, em 1979.
Impacto na geração
de leitores brasileiros
O livro do jornalista Jay
Anson (confira a resenha que escrevi em 2018) causou um impacto cultural profundo, moldando a forma como uma geração
inteira de leitores, no final dos anos 70 e início dos 80, passou a consumir o
gênero de terror. Distribuída amplamente pela Círculo do Livro (em edições
clássicas de capa dura), a obra se tornou um fenômeno de vendas.
Diferentemente das
ficções puras da época, o grande trunfo do livro no Brasil foi a promessa de
que tudo aquilo tinha acontecido de verdade. O público brasileiro leu o
calvário da família Lutz não como entretenimento descompromissado, mas como um
relato documental perturbador. O tom jornalístico e direto de Jay Anson fez com
que leitores perdessem o sono, questionando a segurança de suas próprias casas.
Mesmo sem o imediatismo
da internet, as notícias e polêmicas americanas sobre o caso ser um provável
hoax (farsa comercial criada pelos Lutz e por advogados) acabaram chegando aos
leitores brasileiros ao longo dos anos 1980. Isso gerou um forte debate entre
os fãs.
ANO 1979
Coma (Robin Cook)
Apesar de ter sido publicado originalmente no Brasil em 1977, a obra de Robin Cook continuou vendendo muito, mas muito bem em 1979, liderando várias listas de mais vendidos do gênero terror, mesmo não sendo terror. Pera aí que eu vou explicar melhor. Esta relação com o terror reside no fato de ele ter inaugurado e consolidado o conceito de horror corporal (body horror) institucionalizado na literatura de massa, mesmo sendo categorizado formalmente como um thriller médico ou suspense de ficção científica.
O terror tradicional
costuma usar monstros, fantasmas ou assassinos mascarados. Coma substitui essas
ameaças por uma figura que deveria gerar total confiança: o médico. O livro
explora o pânico de ser anestesiado, perder a consciência e ficar totalmente
indefeso nas mãos de uma instituição (um hospital) que decide secretamente se
você vai viver ou morrer. É o medo do confinamento e da perda de controle sobre
o próprio corpo.
No enredo criado por
Cook, uma estudante de medicina descobre um padrão assustador de pacientes
saudáveis que sofrem danos cerebrais inexplicáveis durante cirurgias de rotina.
Ao investigar os casos, ela desconfia que o hospital esconde uma conspiração macabra.
Sozinha e em perigo, ela corre contra o tempo para provar que a instituição
está transformando pessoas em mercadorias.
Impacto na geração de
leitores brasileiros
O impacto de Coma na
geração de leitores brasileiros do final dos anos 1970 e início dos anos 1980
foi profundo, ajudando a moldar o comportamento de consumo literário e até a
cultura popular do país de várias formas, entre as quais o nascimento do
"Thriller Médico" no Brasil. Ou seja, o livro foi responsável por
introduzir e popularizar o gênero de suspense biomédico no país. Os leitores
brasileiros, acostumados com o terror sobrenatural de O Exorcista ou com a
literatura política da época, descobriram um novo tipo de medo baseado na
ciência real.
O livro também contribuiu
para a alimentação de lendas urbanas reais. Vejam bem: a trama de Robin Cook
ecoou fortemente no imaginário popular brasileiro, servindo de combustível para
a proliferação da famosa lenda urbana do "Gangue do Palhaço" ou do
"Opala Preto", boatos que aterrorizaram o país nos anos 80 e 90 sobre
vans que sequestravam crianças para a extração e o tráfico de órgãos.
Taí, galera, espero que tenham
gostado da nossa lista. E agora, que tal escolhermos uma dessas preciosidades
literárias do gênero terror para ler ou reler? E aí?
26 setembro 2026
Eu ia falar de outros livros, mas “Mistério em Cinnamon Falls” me fisgou
“Mistério em Cinnamon Falls”. Taí um livro que vem aguçando a minha
curiosidade. Culpa dos “TikToks, Facebooks e Instagrams da vida”. Quase todos
os dias – com ênfase para os finais de semana – tenho o hábito de ganhar (não
perder) algumas horas zapeando nas redes sociais – principalmente nas três que
citei acima – para acompanhar as opiniões sobre alguns livros. Faço isso,
principalmente, quando quero comprar alguma obra, para saber como está a
chamada ‘vibe popular’ do livro que pretendo adquirir. Como estou namorando as
narrativas de Cixin Liu e do jornalista Fabricio Mazocco: “Terra à deriva:
contos” e “Esse tal de rock'n'roll: 50 histórias essenciais do rock
brasileiro”, lá vou eu fuçar nas opiniões dos leitores.
Enquanto lia e refletia sobre essas opiniões, lembrei-me de que tenho em
minha estante um livro que recebi promocionalmente da Editora Record. Como se
chama? “Mistério em Cinnamon Falls”. Pois é, sabem daqueles livros que você, ao
bater os olhos na capa, já fica com uma vontade enorme de lê-los? A obra de
R.L. Killmore, lançada recentemente pela Verus Editora, que pertence ao Grupo
Record, tem esse poder. Costumo dizer para amigos que sua capa enfeitiça
qualquer um.
Como o meu cartão só fecha no final do mês, só vou poder desfrutar da
“companhia” de Liu e Mazocco daqui a algum tempinho; então, por que ficar
sofrendo ou, como diz o velho ditado popular, “vendo com os olhos e lambendo
com a testa”? Assim, tomei uma decisão: parei, temporariamente, de namorar
“Terra à deriva” e “Esse tal de rock’n’roll” e comecei a ver algumas opiniões e
informações de “Mistério em Cinnamon Falls”, que estão aqui, tão pertinho de
mim.
Galera! Me surpreendi com tantas opiniões positivas, com destaque
especial no Instagram e no TikTok. Os leitores e criadores de conteúdo destacam
como pontos fortes da obra a vibe aconchegante e outonal, que é frequentemente
comparada a produções como Gilmore Girls, misturando o clima acolhedor
de cidade pequena, festividades locais (como o festival de outono) e romance
com um toque aconchegante.
Os leitores elogiam também a mistura entre o suspense de uma
investigação de assassinato e o romance de segunda chance com o ex-namorado
(que é policial na cidade). E, por fim, elogiam a protagonista forte, apontada
como determinada e corajosa após voltar para sua cidade natal para superar uma
desilusão.
Na mesma hora exclamei: “Epa! Tinha esse tesouro em mãos e não sabia?!
Decidi, então, ir mais a fundo e fiquei sabendo que o livro faz parte de
uma série chamada “Cinnamon Falls”, que foi planejada originalmente como uma
quadrilogia baseada nas estações do ano. Cada livro acompanha uma protagonista
diferente na mesma cidadezinha charmosa e traz um mistério cozy com uma
pitada de romance. Para aqueles que não estão familiarizados com o gênero,
“mistério cozy” ou mistério aconchegante é um subgênero de histórias
policiais e de suspense focado em quebra-cabeças lógicos, mas sem violência
gráfica, sangue ou terror.
Mas vamos voltar à origem da série Cinnamon Falls. Como disse acima, a
série foi planejada para ser uma quadrilogia baseada nas estações do ano. Dos
quatro livros, dois já foram lançados no Brasil: “Mistério em Cinnamon Falls” e
“Morte na Pousada dos Narcisos”. O primeiro, que representa a estação Outono e
abre a série, acompanha a protagonista Nia, que volta para sua cidade natal
após ter o coração partido. Ela chega bem na época do famoso Festival de
Outono, mas o clima festivo acaba quando uma moradora querida é encontrada
morta com um bilhete ameaçador. Nia decide investigar o crime e, no processo,
precisa lidar com a reaproximação de seu ex-namorado, o policial Jesse.
“Morte na Pousada dos Narcisos”, representando a estação da Primavera(que
também acabei de receber), é focado na personagem Morgan Taylor (que é a melhor
amiga de Nia). Durante o Jubileu dos Narcisos na pousada da família dela, um
dos convidados é assassinado no labirinto de plantas do jardim. Morgan assume o
papel de detetive amadora ao lado de Will, um atraente pai solo local.
No mercado internacional, a série continua com as próximas estações
(Verão e Inverno), mas os livros ainda não ganharam tradução oficial em
português. O terceiro volume da série se chama The Maple Bakery Murder
(na tradução ao pé da letra: “O Assassinato na Padaria Maple”), que é
ambientado no inverno. O quarto livro tem o título original de Mystery at
the Cherry Pie Café (“Mistério no Café Tortas de Cereja”), ambientado no
verão.
Os casos de assassinato de cada livro são independentes e começam e
terminam no mesmo volume. Porém, como as protagonistas são amigas e os
personagens secundários reaparecem, o mais recomendado é ler na ordem certa
para acompanhar a evolução dos relacionamentos da aconchegante cidadezinha do
interior.
Que coisa, né? Comecei essa postagem com a proposta de escrever sobre
“Terra à deriva: contos” e “Esse tal de rock’n’roll” e acabei mudando o foco
completamente e “falando” sobre um outro livro de gênero completamente
diferente. Mas valeu a pena.
20 setembro 2026
O casal que mora ao lado
— Não acredito que você vai nadar
novamente contra a maré após ter lido esse livro!
— Acho que vou.
— Mas eu li e gostei muito.
— Pois é, mas eu achei a narrativa
morna e, muitas vezes, cansativa. Sem contar o final chocho.
— O quê?! Chocho?! Ih!! Pirou de vez.
Galera, taí uma parte do diálogo que
eu tive com a Lulu logo após ter lido O Casal que Mora ao Lado, da
conhecida escritora canadense Shari Lapena. A Lulu amou; eu não gostei.
Confesso que pelejei para terminar a leitura.
A narrativa se torna lenta em
diversos trechos, o que me fez abandonar temporariamente a história várias
vezes até que o desejo de retornar à leitura voltasse. Achei as interações do
detetive Rasbach com os personagens do enredo demoradas e cansativas. Ele é o
policial que investiga o sequestro de uma bebê e cada vez que confrontava um
suspeito, era um “Deus nos acuda”, já que quebrava o ritmo da narrativa.
Outro detalhe que prejudicava a
fluidez eram os diálogos entre os dois personagens principais, Anne e Marco,
que muitas vezes fugiam do foco principal da história. E, por fim, achei os
personagens centrais sem carisma; sei lá... mornos. Anne e Marco, Cynthia e
Graham, Richard, além do detetive Rasbach, não tiveram o carisma necessário
para segurar o meu interesse. Aliás, é muito difícil se conectar profundamente
com Anne, Marco ou os vizinhos. Quando não conseguimos torcer ou ter empatia
real pelos personagens, acompanhar o sofrimento deles por tantas páginas se
torna uma tarefa cansativa.
Outro ponto é que o livro se passa em
grande parte dentro de ambientes fechados (a casa do casal, a delegacia). Como
a polícia e os pais passam muito tempo sem pistas concretas do sequestro no
início, os diálogos e interrogatórios acabam parecendo repetitivos, dando a
sensação de que a história não sai do lugar.
Com certeza um grande número — e bota
grande nisso! — de leitores deve estar me “excomungando” neste momento, porque,
de acordo com os comentários nas redes sociais literárias e também nos portais
de livrarias virtuais (entre os quais o da Amazon), o livro de Lapena é quase
uma unanimidade ou, se preferirem, um cânone dos thrillers de suspense. Mas, no
meu caso, repito: não gostei pelos motivos que expus acima.
Lulu, sei que você ficou inconformada
comigo. Te conheço muito bem para saber que não irá aceitar de maneira alguma
os meus argumentos, então... aceite, pelo menos, as minhas desculpas, porque tenho
certeza que você amou o livro.
O Casal que Mora ao Lado narra o drama de Anne e Marco Conti.
Eles parecem ter a vida perfeita, até que em uma noite tudo desmorona.
Convidados para um jantar na casa dos vizinhos ao lado, eles decidem deixar a
filha bebê em casa, levando apenas a babá eletrônica e checando o berço a cada
meia hora. Mas, ao retornarem no fim da noite, as portas estão abertas e o berço
está vazio.
A partir do desaparecimento da
criança, uma investigação policial minuciosa começa a desenterrar os segredos
sombrios que cercam não apenas o crime, mas o próprio casamento de Anne e
Marco.
Entre acusações mútuas, memórias
confusas e vizinhos misteriosos, o livro é um suspense doméstico focado em
aparências e nas verdades desconfortáveis escondidas por trás das portas
fechadas de um bairro de classe alta.
Acho que é isso. Se contar mais,
acabo liberando spoilers para aqueles que pretendem ler o livro e, se você faz
parte desse grupo, de coração, espero que goste da obra, assim como a Lulu
gostou — gostou, não: amou.














