quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Um sussurro nas trevas


Depois de “O caso de Charles Dexter”, “A cor que caiu do céu” e “O Horror de Dunwich”, aqui estou eu, novamente, para escrever sobre H.P. Lovecraft. Bendita hora que um amigo presenteou-me com alguns livros do conhecido escritor (se você ainda desconhece essa história clique aqui).
De posse dos livros, o primeiro que devorei foi “O caso de Charles Dexter”, depois veio “A cor que caiu do céu” e finalmente, o fantástico “O Horror de Dunwich”, um dos melhores de Lovecraft na minha humilde opinião.
Como havia gostado dessas três histórias, não pensei duas vezes em encarar “Um sussurro nas trevas” que faz parte da coletânea “Os Melhores Contos de Lovecraft”  lançado pela editora Hedra - um calhamaço com aproximadamente 750 páginas - que adquiri recentemente, poucos dias antes de ter sido presenteado pelo meu amigo. Vale lembrar que as três histórias citadas no início do post também fazem parte dessa coletânea.
Comecei a ler “Um sussurro nas trevas” tão logo cheguei do serviço. Fui lendo, lendo, lendo e quando percebi as horas já tinham se evaporado e com isso, me esqueci do banho, do jantar e ao olhar para o relógio... Pimba! O susto chegou rasgando: já eram mais de 23H30m!!
À exemplo de “O Horror de Dunwich”, Lovecraft vai lhe conduzindo, aos poucos, para um mundo do mais puro terror. Não dá para explicar como isso acontece. É como se escritor pegasse em sua mão e dissesse: “Agora, deixe tudo e venha comigo”. Sei lá, à grosso modo, foi isso que aconteceu comigo enquanto estava lendo.
A história se passa em 1927 durante as grandes enchentes de Vermont, quando Henry Wilmart, um cético cientista e acadêmico, é convidado por um antigo morador daquela cidade, Henry Akeley, para investigar cadáveres de estranhas e horripilantes criaturas - parecidas com crustáceos com asas, barbatanas e tentáculos (rapaz, acho que Lovecraft tinha algum fetiche por tentáculos) - que começam aparecer boiando nas águas.
Ao descobrir a origem dessas criaturas e o que elas desejam fazer com a humanidade, “a coisa” se complica.
Lovecraft vai rompendo, pouco a pouco, os paradigmas do cético cientista que chega à cidade não acreditando nas crenças e lendas dos moradores e muito menos nas teorias de Akeley sobre o surgimento das criaturas. Mas a partir dos fatos estranhos que começam acontecer em Vermont, Wilmart é forçado a mudar os seus conceitos.
O momento em que o acadêmico visita a isolada casa de Akeley, perto das montanhas, e ao descobrir um segredo chocante, não pensa duas vezes em fugir no meio da madrugada tremendo de medo, é assustador para qualquer leitor. Preste muita atenção no final do conto; tipo última página, última linha, última frase, última seja lá o que for. Me borrei... inteiro.
Fui!

domingo, 14 de outubro de 2018

Rosa Amanda Strausz e Heloisa Seixas: as duas rainhas do grito do blog Livros e Opinião


Nestes sete anos de Livros e Opinião, fiz vários amigos virtuais. Blogueiros que como eu, decidiram abraçar os desafios de ter um blog literário. Conversamos, trocamos idéias, participamos de projetos conjuntos, além de outros detalhes que foram reforçando essa amizade. Um desses amigos que tive a oportunidade de conhecer neste período foi o Rafael Michalski ou, simplesmente, Rafa, do “Biblioteca do Terror”. Gente boa e das boas.
Há duas semanas, ele me falou de um projeto de leitura chamado “Rainhas do Grito” o qual pretendia lançar na blogosfera e também nas redes sociais, em conjunto com outros blogs, num tipo de parceria. O objetivo, como ele mesmo definiu, seria o de “apoiar e disseminar a produção das autoras brasileiras de terror e suspense, que estão escrevendo algumas das mais aterrorizantes e inovadoras histórias da atualidade”. E qual seria a função dos blogues convidados? Simples. Produzir conteúdo sobre o tema, durante o mês de outubro, incentivando os leitores a lerem e conhecerem melhor as rainhas do grito. Também teríamos de compartilhar as nossas postagens nas redes sociais com a hashtag #RainhasdoGrito.
Por achar a idéia bem criativa, topei na hora. Portanto, no post de hoje quero apresentar duas rainhas do grito que na minha opinião arrebentaram a boca do balão espalhando calafrios na espinha de muitos leitores desavisados. Estou me referindo a Rosa Amanda Strausz, 59 anos,  e Heloisa Seixas, 66.
Tratam-se de duas rainhas do grito atípicas, já que elas não escrevem somente sobre terror. Pelo contrário, são bem ecléticas.
Acredito que a situação mais incomum envolve a jornalista carioca Amanda Strausz que já produziu uma dezena de títulos infanto-juvenis, entre eles “Mamãe trouxe um lobo para casa”, “Deus me livre!”, “Alecrim” e “Uólace e João Vitor”. Pois é galera, mas num belo dia (pelo menos, para nós leitores amantes do gênero terror), a escritora resolveu escrever algo que fugisse de suas características, alguma coisa que provocasse medo nos adultos. Entonce, surgiu um livrinho macabro de apenas 109 páginas e com um título mais macabro ainda: “Sete ossos e uma maldição”, lançado em 2006 pela Rocco e relançado em 2013 pela Global Editora.
Cara, os 10 contos do livro, de fato, assustam, mas quatro deles – “Crianças à venda. Tratar aqui”, “Dentes tão brancos”, “O fruto da figueira” e “Morte na estrada” – são verdadeiras obras primas do gênero terror. Eles arranham, machucam, enfim, deixam o leitor incomodado com aquele calafrio que começa na nuca e termina na base da espinha. Se você quiser conhecer mais detalhes sobre a obra confiram esse post que escrevi em 2016.
Com certeza, Rosa Amanda Strausz merece integrar a galeria das “Rainhas do Grito”, apesar de ter escrito apenas um livro de terror.
A segunda autora e jornalista, que para mim, também merece fazer parte dessa galeria é Heloísa Seixas. Pois... pois, vamos aos fatos. Logo de cara, na sua estréia como escritora, Seixas não negou fogo. O seu primeiro livro, “Pente de Venus e Novas Histórias do Amor Assombrado”, lançado em 1995, virou Cult entre os leitores e arrancou elogios da crítica, além de ganhar uma indicação para o prestigiado Prêmio Jabuti”. Os contos do livro tem uma forte influencia gótica, misturando erotismo, sangue e medo com toques de H.P. Lovecraft e Sade. Já deu pra perceber que se trata de uma leitura do tipo ‘trucão pesado’.

Depois do lançamento de “Pente de Venus e Novas Histórias do Amor Assombrado”, a autora realizou a sua primeira organização de contos de diferentes autores de terror – que se tornou uma de suas marcas registradas. “Depois: Sete Histórias de Horror e Terror”, lançado pela Record, recebeu rasgados elogios da crítica especializada.
Entre os autores que figuram nessa antologia estão verdadeiros mestres do gênero: Edith Wharton, H.P. Lovercraft, Saki, O. Henry, Sheridan Le Fanu, Alexander Woolcott e Algernon Blackwood. Antes de cada conto, Seixas faz um breve relato sobre a vida do autor correspondente.
Como enunciado no próprio título, o livro tem sete os contos: Depois; O túmulo; A janela aberta; O quarto mobiliado; Chá verde; Sonata ao luar; e Os salgueiros.
O destaque fica para a obra prima “Os salgueiros” de Algernon Blackwood, o conto mais longo da coletânea. Uma história que assusta mas também encanta. Nele, Dois amigos descem um rio em uma canoa. Após pararem para acampar em uma ilha, adormecem e mais tarde descobrem que não podem voltar por que o nível da água subiu, decidem passar a noite e fatos estranhos e inexplicáveis acontecem.
Outros dois livros assustadores dessa Rainha do Grito são: “Frenesi: História de Duplo Terror” e “A Casa do Passado”. O primeiro reúne seis contos que têm em comum personagens que gostam de ler histórias de terror e acabam atormentados pelo medo na vida real, quando o que está nas páginas de seus livros começa a acontecer de verdade. Quanto ao segundo é uma coletânea de contos de terror de Blackwood, uma das feras do gênero, redescoberto no Brasil por Seixas. A obra reúne histórias como “Os salgueiros”, sua obra-prima, “O quarto ocupado”, ” A Ala Norte”  e “A boneca”, clássicos da literatura de horror. Esta é a terceira coletânea de contos de terror organizada e traduzida pela autora.
Taí galera, espero que tenham aprovado as duas rainhas do grito selecionadas pelo Livros e Opinião.
Abração Rafa e galera! 

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

O horror de Dunwich

Capa do livro da editora Hedra

O livro “O Horror de Dunwich” é espetacularmente fodástico. Uma das melhores histórias de H.P. Lovecraft que já li. À exemplo de “A cor que caiu do céu”, o autor vai nos conduzindo, aos poucos, para os meandros do mais puro terror. É incrível como os personagens esquisitões que saíram da cabeça de Lovecraft ao longo de sua carreira literária tem o dom de perturbar os leitores. Cara, eles incomodam demais, ao ponto de exclamarmos: “Eu heimmm! Não quero encontrar com um sujeito desses nem que a vaca tussa e crie asas!!”. E olha que estou me referindo a seres humanos – ou algo parecido – e não à monstros. Porque quando o assunto descamba para o lado daquelas criaturas cheias de tentáculos e olhos espalhados por cada milímetro dos seus corpos disformes e escamosos; o medo que sentimos deixa de incomodar e passa a aterrorizar. Aliás, a mitologia criada por Lovecraft é muito perturbadora.
O personagem Wilbur Whateley e a criatura conhecida apenas por ‘blasfêmia invisível’ tem a capacidade de inquietar e aterrorizar o leitor. Eles não negam fogo.
Três partes do livro conseguiram mexer e muito comigo. A primeira delas foi o momento em que Wilbur deixou cair a máscara e mostrou quem realmente era. Isto acontece no momento em que ele invade uma biblioteca, durante a madrugada, à procura do Necronomicon, um livro maldito com fórmulas mágicas para invocar o sobrenatural, além de poder dominar completamente a relação espaço-tempo. Quando o bibliotecário Dr. Henry Armitage e mais dois catedráticos, entram na biblioteca da universidade e se deparam com o ‘verdadeiro’ Wilbur, sem disfarces... Brrrrrrr!!! Esta parte do enredo, além de assustadora também chega a ser nojenta. Putz, fiquei com aquela cena na cabeça durante ‘uns’ dois ou três dias e confesso que tinha de fazer um pouco de sacrifício na hora do almoço ou jantar, mesmo tendo a minha frente pratos saborosos. Acho que deu prá entender, né?
A segunda parte que me apoquentou foi a hora em que Armitage consegue localizar e decifrar o diário de Wilbur, todo escrito em códigos, e quase perde a razão ao descobrir quais são as suas verdadeiras intenções.
E finalmente, a ultima parte que corresponde ao desfecho da história que é de derrubar o queixo. No meu caso, apesar de desconfiar que a conclusão do enredo já estava se encaminhando para algo perto do óbvio, mesmo assim, fiquei surpreso. Pois é galera, para Lovecraft até o óbvio é surpreendente.
Não posso me esquecer também do capítulo em que o professor Armitage e seus dois amigos decidem ir até Dunwich enfrentar a ‘blasfêmia invisível’ que vem espalhando um rastro de sangue e destruição na cidade. O confronto final, certamente, merece ser lembrado.
A história de “O Horror de Dunwich” começa em 1913, no momento em que Lavínia Whateley uma mulher albina de 35 anos e com algumas deformidades  no corpo dá à luz um menino de pele escura e com feições de bode, filho de um pai desconhecido. Wilbur causa espanto devido à rapidez sobrenatural com que cresce e se desenvolve, e os estudos precoces levam-no à descoberta do Necronomicon. Mais tarde, ao descobrir que dispõe apenas de uma tradução inglesa incompleta do livro maldito, Wilbur sai em busca de uma rara impressão latina para dar continuidade ao misterioso ritual em que pretende libertar – através da criação de uma abominável criatura – uma entidade maligna que desencadeará uma fúria destruidora sobre a Terra.
Como já disse, um dos melhores livros de Lovecraft que já li.
Apesar de ter adquirido “Os Melhores Contos de Lovecraft” que tem em seu contexto essa história, optei por ler o livro, também da editora Hedra, lançado em 2012.
Foram 106 páginas da mais pura emoção, quero dizer... do mais puro terror.


sábado, 6 de outubro de 2018

Livros de bolso: uma viagem inesquecível ao passado


Ontem, enquanto fuçava algumas prateleiras no porão de casa, me deparei com algumas edições daqueles livrinhos de bolso publicados em páginas de papel jornal – acho que localizei ‘uns’ três de faroeste que estavam perdidos numa caixa bem velha. Pois é, bastaram esses três livrinhos para que eu realizasse uma gostosa viagem no tempo: desliguei-me completamente daquele porão cheio de caixas velhas e embarquei de mala e cuia para o passado.  Quando digo passado estou me referindo à sala da casa dos meus pais na década de 70. Naquela sala, havia uma cômoda super xique onde o meu irmão mais velho guardava os seus livros (ver aqui). Cara, como eu gostava de bisbilhotar naquele armário!
Quando percebia que estava sozinho em casa, o meu passatempo predileto era invadir domínios proibidos; e aquela cômoda era um desses territórios. Tinha medo de pedir para que o meu irmão me deixasse folhear aqueles livrinhos de bolso da Brigitte Montfort, Coyote, FBI, Chumbo Quente e outros; então preferia agir em segredo. Como a chave ficava sempre nas portinhas das cômodas, a minha missão não era nada complicada.
Meu!! Como viajei com as histórias desses livrinhos em minha infância e pré-adolescência. A pulp fiction preferida do ‘menino-invasor’, aqui, sempre foi a da Brigitte Montfort, espiã da CIA que utilizava o codinome Baby. Gostava tanto daquela morena estonteante de cabelos negros compridos e olhos azuis que até decidi homenageá-la em vários posts (veja aqui, aqui e novamente aqui).
A famosa personagem foi criada pelo escritor espanhol Antonio Vera Ramirez que escrevia sob o pseudônimo de Lou Carrigan. Já as capas das histórias eram produzidas por um dos maiores ilustradores brasileiros de todos os tempos: José Luiz Benício. Foi ele quem deu vida à Brigitte Montfort, cujas histórias foram publicadas até 1992.
A espiã da Cia foi considerada o carro-chefe de vendas da editora carioca Monterrey, de propriedade de dois espanhóis: Luis de Benito e Juan Fernandes Salmeron que residiam no Brasil. E por falar na Monterrey, foi ela que popularizou a moda dos livros de bolsos por aqui, transformando-a numa verdadeira febre. Era o período das saudosas pulp fictions quando grupos de leitores procuravam constantemente as bancas para adquirir os propalados livrinhos publicados em papel de baixíssima qualidade, mas com enredos viciantes.
Fundada em 1956, a editora começou publicando a série de faroeste “O Coyote” do escritor espanhol José Mallorquí. Posso dizer, com certeza,  que Mallorquí com o seu “Coyote” foi o precursor dos chamados livros de bolso que tanto sucesso fizeram por aqui e também em vários outros países. Antes da criação do justiceiro mascarado, havia em Barcelona, na Espanha, uma editora chamada Cliper que já vinha publicando as aventuras do Zorro que estourava em vendas por lá. Imediatamente os donos da Monterrey entraram em contato com Mallorquí – na época, um jovem e promissor escritor – para que criasse um personagem mascarado nos mesmos moldes do Zorro. Mallorquí não dormiu no ponto e assim nascia o destemido e emblemático “El Coyote” (se quiserem saber mais sobre o personagem acessem aqui).
Logo depois, em 1961, surgia a série FBI, trazendo histórias de espionagem. Embora “O Coyote”  também tivesse histórias em quadrinhos, não foram publicadas no país.

Em 1963, A Monterrey, na época sob a direção do jornalista José Alberto Gueiros, republicou o romance “Giselle, a espiã nua que abalou Paris” na coleção ZZ7, ambientado na França da Segunda Guerra Mundial. Vale lembrar que essa história já havia sido escrita por David Nasser como um folhetim para o periódico Diário da Noite, jornal dos Diários Associados de Assis Chateaubriand. Gueiros, apenas rescreveu o romance ao lado do tio, o poeta Augusto Frederico Schmidt. Com o sucesso de ‘Giselle’, a editora encomendou uma nova série protagonizada por uma espiã estonteante. Pronto! Nascia assim, ela: Brigitte Montfort, a filha de Giselle, para isso, a Monterrey encomendou os textos para Carrigan. Com relação a Carrigan, é importante acrescentar que antes de Birgitte, ele já era conhecido pelos livros da coleção FBI.
Outra série famosa da Monterrey foi K. O. Durban do escritor brasileiro Hélio do Soveral, paródia aos espiões da cultura pop como James Bond de Ian Fleming. Esta série também teve as capas produzidas por Benício.
Uma curiosidade interessante e que alguns leitores de livros de bolso no Brasil desconhecem é que  a série Spectre também foi escrita por Soveral, mas com o pseudônimo de Ell Sov.
Além da Monterrey, tivemos ainda outra editora de bolsilivros no Brasil que contribuiu para a difusão do gênero em terras tupiniquins: a Bruguera. Esta empresa espanhola, fundada em 1910,  teve uma filial no Brasil, inicialmente chamada Bruguera, mas que logo depois mudou o seu nome para Cedibra.  A empresa foi extinta em 1986. A série mais famosa da Bruguera publicada em nosso País foi ‘Estefania’ com histórias de faroeste.
Viram só o que aqueles três livrinhos de bolso perdidos no porão de casa aprontaram comigo? Devo à eles esta volta fantástica para a minha infância de leitor.
Espero que tenham gostado.