O Escravo de Capela


Não considero O Escravo de Capela do escritor e cineasta catarinense, Marcos DeBrito um livro de terror. Na minha opinião a obra está muito mais para um drama, e diga-se, um drama bom pra caráculas. Daqueles que fisgam o leitor como um anzol. Cara, não conseguia largar o livro. Acredito que o conhecido autor Raphael Montes, de Jantar Secreto e Suicidas definiu muito bem e em poucas palavras o efeito que a obra causa nos leitores. Ele disse que cada página de O Escravo de Capela é ‘como um golpe cruel de chicote, daqueles que saem muito sangue’. E é verdade. A história tem o poder de deixar à flor da pele do leitor uma miscelânea de emoções, algumas bem fortes: raiva, ódio; mas também muita emoção e até mesmo um certo lirismo como no capítulo final, onde fica no ar um clima de recomeço e esperança, apesar de todo o sofrimento decorrido ao longo da trama. Não posso falar mais porque vou acabar estragando esse texto com spoilers, o que seria um grande pecado já que o livro, como foi dito, é fantástico.
Quando você escreve uma trama, por melhor que ela seja, se os personagens não tiverem o carisma necessário para segurar esse enredo ou se o autor cair no erro de torna-los caricatos, aí... bye, bye. No caso de DeBrito, ele conseguiu compor personagens complexos que guardam segredos que provocam reviravoltas surpreendentes e importantes na trama. Desde o núcleo composto pelos poderosos personagens que vivem no conforto da casa grande da Fazenda Capela até os sofridos escravos que derramam o seu sangue e suor na senzala e no pelourinho da vasta propriedade.
O carisma tanto de vilões quanto da chamada tchurma do bem propicia à excelente trama o tempero certo, nem tão salgado, nem tão insosso. Nem mesmo o sadismo e maldade extrema do feitor Antônio Segundo, filho do proprietário da Fazenda Capela, que trata os escravos na ponta do chicote e no fio da peixeira caem na chatice da caricatura.
Cada um desses personagens tem as suas particularidades e os seus segredos que prendem a atenção da galera: Antônio Batista Vasconcelos, Damiana, Inácio, Sabola e claro Akili. E quando esses segredos começam a ser desvendados, prepararem-se para os chamados plot twists; um deles, aliás, de derrubar o queixo.
Perceberam que acabei me prendendo nos personagens e deixei de lado uma outra informação que muitos blogueiros acreditam ser o fio principal da trama: a desmistificação do Saci-pererê e como bônus, também da mula sem cabeça? Pois é, para aqueles que ainda não estão familiarizados com o enredo de DeBritto, vale lembrar que ele desfaz, totalmente, em sua obra o mito do Saci que nós aprendemos a conhecer em nossa infância e adolescência. Esqueça o Saci peralta e ‘boa gente’ do Sítio do Pica-Pau Amarelo. O personagem de O Escravo da Capela é vingativo, sanguinário e violento, mas nem por isso, deixamos de torcer por ele durante boa parte da trama.
Ok, respeito aqueles que afirmam ser essa desmistificação a pedra fundamental de toda a trama, mas para mim, a pedra angular continua sendo o carisma dos personagens muito bem composto pelo autor. Um carisma tão grande que chega a superar o famoso e desmistificado Saci.
Em O Escravo da Capela, DeBrito utiliza como cenário, a cruel época do Brasil Colônia quando a escravidão reinou no País. Já aviso que a carga dramática do livro é enorme e com alguns trechos bem violentos, inclusive certo momento que deverá chocar muitos leitores. Afinal, não poderia ser diferente, já que nesta época, a violência desmedida predominava nas grandes fazendas de engenho que mantinham centenas de escravos nas senzalas vivendo sob as piores condições, além dos pelourinhos onde vários desses escravos eram castigados de maneira cruel. Toda essa realidade é retratada no livro.
O enredo tem basicamente dois núcleos: a família Cunha Vasconcelos com seus segredos e a sua maneira violenta e sanguinária de tratar os escravos, e no outro o escravo recém-chegado Sabola Citiwala e sua resistência aos grilhões. Essas duas histórias, recheadas de personagens marcantes, se cruzam garantindo muitas surpresas e reviravoltas.
Vale a pena conferir.
Boa leitura!

2 comentários

  1. Fico feliz que tenha gostado do livro. E concordo, não dá pra classificá-lo exatamente como terror, apesar de ter várias situações aterrorizantes. Algo que para mim se destaca nele é ser um livro escrito na atualidade, mas a história se passando num período histórico brasileiro, no caso a escravidão. Isso é raro em se tratando de literatura brasileira.
    Eu, como sabe, amei o livro. E te aconselho a ler "À sombra da lua: O mistério de Vila Socorro", que vai no mesmo estilo. No caso " O Escravo de Capela" é melhor na minha opinião, mas esse outro é ótimo também.
    Abração!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. A sua indicação foi ótima. Gostei muito do livro "O Escravo de Capela" e com certeza, irei adquirir "A sombra da lua: O Mistério de Vila Socorro". Valeu pela sugestão.
      Grande abraço!

      Excluir