Cinco coisas que marcaram a geração de leitores dos anos 70 e 80


As gerações de leitores dos anos 70 e 80 tiveram muitos motivos para comemorar, pois viveram um período mágico da literatura. Tudo bem que naquela época, nós não tínhamos as facilidades que hoje os leitores contemporâneos tem à sua disposição, tais como livrarias virtuais, eBooks, leitores de PDF e apor aí afora, mas as “inovações” de quatro ou cinco décadas não ficavam devendo nada para os avanços do presente.
E é sobre essas “inovações” do final dos anos 70 e início dos anos 80 que eu gostaria de recordar nesse post. Sabem quando do nada ‘bate’ aquela nostalgia de algo especial que você viveu há muitos anos? Pois é, foi o que aconteceu comigo ao ver uma foto de um vendedor de porta em porta, daqueles que visitavam as casas dos nossos pais com as malas cheias de livros e catálogos de editoras. Putz! Que saudades!
Convido todos os leitores dos anos 70 e 80 a entrarem nesta máquina do tempo e conhecer cinco ‘coisas’ que, certamente, irão provocar um ataque de nostalgia.
01 – Círculo do Livro
Cara, como eu ficava ansioso para receber a famosa revistinha do Círculo juntamente com o livro escolhido por mim e financiado pelo meu irmão. Acho difícil dizer que algum leitor da minha geração não considerasse essa editora, fundada em 1973, um verdadeiro conto de fadas.
O Círculo do Livro vendia obras literárias por um "sistema de clube", onde a pessoa era indicada por algum sócio e, a partir disso, recebia uma revista bimestral chamada “Revista do Livro”
Os livros, cuja impressão e acabamento eram realizados na própria gráfica da editora, eram conhecidos pelo bom encadernamento, capa dura e preços competitivos com dezenas de títulos a serem escolhidos. O novo sócio teria então a obrigação de comprar ao menos um livro no período.
Este sonho terminou no ano 2000 com o fechamento da editora por causas das dívidas astronômicas.
O Círculo do Livro marcou tanto a minha vida que valeu até mesmo um post exclusivo que escrevi em 2012. Confiram aqui.
02 – Enciclopédia Barsa
Iahuuuu!! E viva o nosso Google dos anos 70 e 80!! Costumo dizer que a Barsa era o ‘Google encadernado’ dos leitores da minha geração. Tudo o que você precisava, estava lá, em suas páginas. Uma fonte riquíssima de informações. A Barsa é reconhecida como a primeira enciclopédia brasileira, já que foi redigida por brasileiros, tendo em seu corpo editorial nomes como Antonio Callado, Jorge Amado, Gilberto Freyre, Antônio Houaiss e Oscar Niemeyer.
Fundada em 1964, esta enciclopédia atravessou gerações e conseguiu sobreviver até 2007. Conheci a Barsa através dos meus pais, em meados dos anos 70. Eu ainda era uma criança de calças curtas, mas lembro de minha mãe – que saudades da dona Lázara – sentada no sofá da sala, ao lado de um vendedor da Barsa, negociando um desconto no preço da enciclopédia.
Pois é, depois de anos, o tonto aqui, seduzido pela internet” abriu mão dos 16 volumes desse importante tesouro e resolveu doá-lo para a biblioteca pública. Vale lembrar que na época em que doei, as escolas e bibliotecas ainda aceitavam – meio a contragosto, mas aceitavam – enciclopédias em seus acervos.
03 – Coleção Vaga-Lume
Muitos leitores da nova geração, incluindo muitos adolescentes, se orgulham em dizer que autores como Lúcia Machado de Almeida, Maria José Dupré e José Rezende Filho continuam sendo muito importantes em suas vidas ou então que “O Escaravelho do Diabo” foi um dos melhores enredos policiais que já leram. Por aí já dá para ter uma noção da importância da antológica Coleção Vaga-Lume que era considerada o xodó dos leitores adolescentes dos anos 70.
A série “Vaga-Lume” foi criada em 1973 pela editora Ática para atender as necessidades do público infanto-juvenil. Muitos leitores da Vaga-Lume - jovens de ontem-adultos hoje – tem como tema principal em suas rodas de conversa a polêmica sobre qual foi o maior sucesso entre todos os livros lançados pela série. E olha que a lista de candidatos é enorme; mas se formos fazer uma pesquisa entre os fãs da coleção, creio que “O Escaravelho do Diabo”, de Lúcia Machado de Almeida ganharia a enquete.
‘A exemplo de “A Ilha Perdida” e “Éramos Seis”, a obra de Lúcia de Almeida também foi uma das primeiras a ser publicada. A história de suspense que virou um ícone dos romances policiais surgiu pela primeira vez na revista “O Cruzeiro” e teve a sua segunda edição em 1974, já na coleção Vaga-Lume.
Enredos fantásticos que, de fato, deixaram muitas saudades.
04 – Feliz Ano Velho
Lançado em 1982, o livro escrito por Marcelo Rubens Paiva é um dos maiores símbolos literários da geração oitentista. Na realidade, “Feliz Ano Velho” foi uma experiência autobiográfica do autor, que relata o acidente que o deixou tetraplégico depois de um mergulho em um lago às margens da Rodovia dos Bandeirantes, em 14 de dezembro de 1979, após bater acidentalmente com a cabeça no fundo do lago.
Durante esse período de recuperação, Marcelo conta com carisma e sinceridade detalhes de sua infância e de sua juventude vividos num universo efervescente de transformações que marcavam o cenário histórico, político e cultural do Brasil da época.
O autor narra sua experiência na militância política e sua narrativa de memória em torno do desaparecimento do seu pai, vítima da repressão dos anos de chumbo. É através da escrita autobiográfica que os dilemas enfrentados por Marcelo ganham projeção em relação ao universo histórico no qual está inserido, articulando a memória individual e a memória social.
Livro que marcou a juventude da década de 1980.
05 – Vendedores de porta em porta
Naqueles tempos idos, nem sonhávamos com notebooks e Internet que eram “coisas” de outro planeta. Afinal de contas, estávamos nos anos 70, sendo que a Internet só seria aberta para a população em geral, duas décadas depois, ou seja, nos anos 90. Foi nessa mesma época que também surgiu o tão afamado (hoje não mais, já que vivemos a geração do Firefox e Chrome) navegador Internet Explorer.
Aquela geração, da qual esse blogueiro também fez parte, desconhecia totalmente várias inovações tecnológicas, a qual só viria ter acesso anos depois. Portanto, o que valia para a gente eram os vendedores de livros de porta em porta e as tão afamadas enciclopédias. Eles eram a nossa Internet dos anos 70. Através deles tínhamos acesso ao mundo maravilhoso da escrita e das gravuras.
Lembro que minha mãe recebia esses vendedores com muita alegria e com direito a café com leite, pão, manteiga e mesa arrumada. Enquanto dona Lázara e o tal vendedor ficavam conversando sobre os últimos lançamentos literários daquela época ou então sobre como estavam ‘indo’ as vendas, eu, uma criança sedenta por leitura, ficava de olho na enorme mala preta onde sabia que estavam guardados os meus sonhos, ou melhor, os ‘meus’ livros. Torcia para que o café terminasse logo. E então, quando aquela mala era aberta, a alegria inundava todo o meu ser como um verdadeiro sol!
Quantas enciclopédias e livros infantis, mamãe comprava desses ‘vendedores de cultura’! Quantas e quantos....
Taí galera setentista e oitentista, espero que tenham gostado dessa viagem no tempo.
Para mim, pelo menos, valeu a pena!

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