12 dezembro 2021

O Senhor da Guerra (Crônicas Saxônicas – Livro 13)



Sou suspeito para comentar qualquer um dos 13 livros da saga “Crônicas Saxônicas” porque adorei Uhtred, da mesma forma que fiquei fã de Artur -outro personagem criado pelo escritor inglês Bernard Cornwell. Os dois são fantásticos à sua maneira. Ambos com personalidades completamente distintas – Artur: cristão, educado e um verdadeiro cavalheiro; Uthred: pagão, boca suja e arrogante – mas admiráveis, independentemente dessas particularidades.

Já resenhei a trilogia As Crônicas de Artur (ver aqui, aqui e mais aqui), mas hoje quero falar escrever sobre o último livro das Crônicas Saxônicas que fecha com chave de ouro a saga de Uthred e a sua luta para conquistar a fortaleza de Bebbanburg, tendo como pano de fundo a história da formação da Inglaterra. Cornwell foi muito feliz ao ter tido a ideia de misturar ficção com realidade inserindo personagens fictícios, no caso Uhtred e todo o seu núcleo, dentro de um contexto histórico. Por exemplo, ver Uhtred interagindo com o Rei Alfredo, “O Grande”, personagem histórico muito importante na formação da Inglaterra, é algo viciante.

Uhtred, mesmo criança, sempre foi muito questionador a respeito da religiosidade cristã a qual era cercado. Quando se torna guerreiro do Reino de Wessex, a serviço do rei Alfredo lutando contra os dinamarqueses – que também sonhavam em conquistar os reinos saxões - Uhtred se transforma num guerreiro vitorioso, impiedoso e de muita fama. Os embates ideológicos entre o guerreiro pagão e o seu rei são várias vezes antológicos. Cada um defende o seu ponto de vista com sagacidade e várias tiradas de “sarro”, mas sempre se respeitando mutuamente.

Mas o que chama a atenção na saga, de fato, é a descrição perfeita das batalhas entre saxões, dinamarqueses, noruegueses e escoceses; todos cobiçando os reinos que futuramente dariam origem à Inglaterra. Como já havia feito em As Crônicas de Artur, Cornwell descreve com maestria como era, naquela época, fazer parte de uma parede de escudos. Os desafios de Uhtred, ao longo da saga, onde enfrenta os mais perigosos adversários como os vikings Ubba, Erik, Sigifrid, Cnut – ‘O Espada Longa’, além de outros - são fantásticos e empolgam os leitores. Enfim, uma saga maravilhosa para ser devorada com prazer.

Em O Senhor da Guerra, o autor consegue fechar a saga de 13 livros com perfeição. Cornwell foi muito realista com relação a Uhtred e seus guerreiros, talvez por esse motivo a história tenha desagradado um pouco aquelas pessoas que sonhavam ver um Uhtred violento, desafiando para o combate guerreiros enormes, verdadeiros brucutus com espadas afiadas ou machados enormes. Cara, se isso acontecesse, a narrativa ficaria totalmente “fora da casinha” porque o tempo passa e nós, simples mortais, ainda não descobrimos o segredo da juventude eterna. O mesmo acontece com os personagens criados por Cornwell.

Ficaria muito estranho, por exemplo, observarmos o garoto Athelstan – que teve Uhtred como mentor e protetor ao longo da saga – crescendo e tornando-se um grande rei e ao mesmo tempo vermos Uhtred, ao seu lado, ainda jovem, forte e sem nem um fio de cabelo ou barba brancos. Mais estranhos ainda, seria ver Athelflaed - filha de “Alfredo, O Grande” - que foi uma das amantes de Uhtred, envelhecer e morrer, enquanto o nosso guerreiro continuasse belo e formoso.

Cornwell respeitou a linha do tempo em sua saga e por isso, ela se transformou num dos maiores fenômenos literários das últimas décadas. Sei que escrevendo dessa maneira, os leitores do blog podem até mesmo imaginar um Uhtred velho, inválido e sem graça em O Senhor da Guerra. Não, pelo contrário. O Uhtred desse último livro é muito mais sagaz, inteligente, um estrategista brilhante, além de continuar com a língua afiada e a coragem mais fortes do que nunca. No decorrer da narrativa ocorrem momentos em que o personagem se defronta com dilemas e dúvidas que poucas vezes vimos durante toda a série, uma delas e muito importante está relacionada com o seu primeiro filho que optou por tornar-se padre, o que fez com que o seu pai o desertasse. Prestem atenção nesse trecho: muito emocionante.

Certamente é um dos livros com menos ação dessa saga. Por isso, se você espera ver Uhtred matando inimigos à vontade vai ficar desapontado porquê dessa vez o autor focou em mostrar o que os anos de experiência deram ao guerreiro pagão. Assim, ele se mostra como ser um grande líder e como já escrevi acima: um estrategista militar brilhante. Apesar dos anos, o nome do famoso personagem ainda gera temor e respeito, tanto de seus aliados quanto dos inimigos.

Apesar dos anos terem deixando as juntas de seu corpo um pouco endurecidas, ele ainda faz questão de participar de uma parede de escudos e liderar os seus homens em batalha, mas de uma maneira real, sem aquelas estrepolias dos primeiros livros. Confesso que esses detalhes fizeram com que eu considerasse O Senhor da Guerra uma das melhores narrativas de toda a saga.

Neste 13º volume, após anos lutando para recuperar a fortaleza que era sua por direito, Uhtred retornou à Nortúmbria e a tomou de seu tio traiçoeiro. Agora, com seus guerreiros leais e uma nova companheira, a fortaleza de Bebbanburg parece em segurança. Uhtred, entretanto, está longe de gozar da mesma tranquilidade. Para além das muralhas inexpugnáveis de Bebbanburg, tem início uma disputa por poder.

Ao sul, o rei Æthelstan unificou os reinos de Wessex, da Mércia e da Ânglia Oriental, e agora tem os olhos voltados para a realização irrevogável do sonho de seu avô Alfredo: a criação de um único reino unificado na Britânia. Enquanto isso, ao norte, o rei Constantino e outros líderes escoceses e irlandeses desejam ampliar suas fronteiras, cientes da ameaça que Æthelstan representa. O jovem monarchus totius Britanniae, o monarca de toda a Britânia, ainda não conquistou a Nortúmbria, o último reino ao norte, as terras que fazem fronteira com a Escócia de Constantino.

No olho da tempestade está Uhtred. Preso por um juramento a Æthelstan, mas em busca de paz em sua querida Nortúmbria, ele se vê ameaçado e subornado pelos dois lados do conflito, enquanto precisa encarar uma escolha impossível: manter-se longe da disputa, arriscando sua liberdade e a perda da formidável Bebbanburg, ou se lançar na guerra rumo à mais terrível batalha que os reinos já enfrentaram. Só o destino dirá o resultado.

Como costumo escrever: “Livraço!” Vale a pena ser lido e devorado.


11 dezembro 2021

Oito contos de terror assustadores escritos por autores brasileiros


Nem todos os leitores apreciam romances de terror, muitos deles preferem os contos que são bem mais curtos. Eu, por exemplo, tenho um amigo, o Carlinhos Pêpa, que só compra contos de terror mas foge dos enredos do gênero mais longos. Inclusive, um outro amigo nosso fez uma charge muito engraçada onde o antológico personagem Pennywise, criado por Stephen King, aparece correndo atrás do Carlinhos segurando o livro “It – A Coisa” de quase 1.000 páginas gritando: ‘leia!, leia!, vamos, leia!’. O Carlinhos com aquela cara de medo – não do palhaço mas do livro – e correndo desesperadamente’ foi a sensação, durante muito tempo, na nossa sala de redação. Todos que entravam ali paravam para olhar a charge e aqueles que captavam a mensagem, imediatamente, caiam na gargalhada.

‘Entonce’, resolvi contar esse fato de maneira resumida para que os leitores do blog entendam que nem todos os amantes do gênero terror gostam de histórias longas, preferindo aquelas de poucas páginas. Mas num País onde esse gênero literário começou a despontar há pouco tempo, encontrar contos interessantes torna-se um verdadeiro trabalho de garimpeiro.

A revista Galileu explicou de maneira clara num artigo publicado em 2017 que o Brasil por ser um País Tropical não tem muita afinidade com o lado dark da vida optando pelo lado mais... digo, colorido. Isto também ocorre na literatura. Portanto, o trem da nossa história está lotado de artistas que exaltaram e exaltam as alegrias de se viver por aqui.

O fato é que, de uma forma ou de outra, nossa arte é fortemente marcada por temas realistas, por traços que compõem a nossa identidade nacional. Mas esses temas e traços são, quase sempre, diurnos, vibrantes, coloridos… Enfim, esperançosos — mesmo quando não há pelo que se esperar.

Segundo a reportagem da Galileu, diante desse cenário ensolarado e tórrido, fica a pergunta: e nós, amantes do reverso disso tudo? Como ficamos? Onde sentamos no trem da nossa história, nós que, sem muito interesse pelo que é do dia, somos fascinados pelo que cabe à noite? Nós que, ao calor do beira-mar, preferimos o frio do beira-abismo? Nós que, indiferentes à vibração de nossas florestas ao sol, amamos a quietude dessas mesmas florestas à lua? Simples, a única solução é garimpar bons contos de terror, vasculhando em livrarias e sebos. Mas para a alegria geral desses leitores, o Brasil sempre contou – em número reduzido, mas mesmo, assim, contou – com excelentes autores clássicos e contemporâneos do gênero.

No post de hoje, selecionei oito contos de terror imperdíveis escritos por autores brasileiros que não podem faltar em sua estante. Vamos a eles!

01 – A causa secreta (Machado de Assis)

Onde encontrar: “A Causa Secreta e Outros Contos de Horror “

Editora: Boa Companhia

Machado de Assis escrevendo contos de terror?!! Entonce galera... E você pensava que o mestre da escrita brasileira não dominava o assunto? Pois é, enganou-se porque A Causa Secreta prova que ele também era fera no gênero.

O conto publicado originalmente em 1885 no jornal carioca Gazeta de Notícias (1875-1942) é muito sombrio, mas sombrio demais. A história caracteriza o extremo mal existente na sociedade.

Neste conto, Machado de Assis que retrata uma relação entre o recém- formado médico Garcia e seu amigo Fortunato que é dono de uma misteriosa compaixão por doentes e feridos, mas que de acordo com Garcia esconde um mistério.

A dedicação de Fortunato aos enfermos é total, especialmente aos que se encontram em pior estado. Tudo isso impressiona e intriga sobremaneira Garcia, que não compreende o paradoxo que é o amigo: se por um lado se entrega de corpo e alma aos que sofrem, por outro é grosso e indiferente com os demais, inclusive com a esposa.

O intrigante mistério é desvendado por Garcia no momento em que flagra o amigo fazendo algo sádico, cruel e inimaginável. A partir daí, toda a verdade vem a tona, surpreendendo os leitores.

02 – O bebê de tarlatana rosa

Onde encontrar: “João do Rio - Antologia de Contos”

Editora: Lazuli

O bebê de Tarlatana Rosa de João do Rio é outra obra-prima da literatura de terror tupiniquim. Neste conto, o personagem Heitor de Alencar narra um fato macabro que aconteceu com ele durante o carnaval no Rio de Janeiro.

Heitor conta que, no carnaval, saiu com um grupo de companheiros e, depois de percorrer alguns salões, foi ao baile público do Recreio, onde conheceu uma misteriosa foliona vestida de bebê de tarlatana (um tipo de tecido leve de algodão). Na noite seguinte, os dois se reencontram num outro salão e resolvem sair e procurar um lugar mais reservado para ficarem a sós.

A partir daí, ‘o caldo engrossa’. Ao retirar a máscara da misteriosa foliona...

03 – Crianças à venda. Tratar aqui. (Rosa Amanda Strausz)

Onde encontrar: “Sete Ossos e Uma Maldição”

Editora: Global Editora

Como todas as coletâneas de terror, incluindo até mesmo as do mestre Stephen King, é quase impossível manterem um nível elevado. Quando comprei Sete Ossos e Uma Maldição de Rosa Amanda Strausz já estava ciente disso, mas no final gostei do resultado. Alguns contos excelentes, outros abaixo da expectativa, mas não me arrependi da compra.

Um dos contos que mais gostei e que mete um medo danado se chama: Crianças à venda. Tratar aqui. Este é fodástico. Daqueles que provocam medo e mal estar. O final, então. Brrrrrrrrrrrr. 

Caraca, me coloquei no lugar da irmã do ‘Fabiojunio’ – não é erro de grafia, o personagem se chama Fábiojunio, mesmo -  e juro que quase borrei as calças. Strausz conta a história de uma mãe oportunista que, por viver na miséria, decide colocar à venda os seus filhos em busca de melhoria de vida para as crianças, mas principalmente para ela. 

Cada um dos menores foi sendo comprado por famílias ricas até que sobrou somente um, o tal do Fabiojunio que acabou vendido para um casal muito estranho. A irmã do garoto decide investigar mais a fundo os novos pais e descobre algo aterrorizante.

04 – Zona de abate: Matadouro 7 (César Bravo)

Onde encontrar: “VHS: Verdadeiras histórias de sangue”

Editora: DarkSide

César Bravo pode ser considerado um dos escritores de terror mais talentosos do Brasil dos últimos anos. De fato, uma grata surpresa neste gênero literário, tanto é que foi um dos indicados a 63ª edição do Prêmio Jabuti, um dos mais conceituados da literatura brasileira. Suas narrativas são bem viscerais e para lê-las é preciso ter nervos de aço. Ele não usa meias palavras e vai direto ao assunto. Zona de abate: Matadouro7 um dos contos de VHS: Verdadeiras Histórias de Sangue é... Brrrrrr.

Li com o estômago querendo sair pela boca. Aliás, recomendo somente para quem tem estômago bem forte. O detetive Pestana e seu estagiário, Derriê, vão investigar um crime, supostamente, ocorrido no matadouro da fictícia cidade de Três Rios. Chegando lá – de noite, prá variar – os dois são recebidos por um ajudante que faz questão de explicar, em detalhes, como funciona o sistema de abate de animais no matadouro. Caraca!

Durante a sua investigação, Pestana acaba descobrindo um segredo macabro que vinha sendo guardado a sete chaves pelos donos do local.

05 – Venha ver o pôr do sol (Lygia Fagundes Telles)

Onde encontrar: “Venha ver o pôr do sol e outros contos”

Editora: Ática     

Não fiquem tão surpresos porque Lygia Fagundes Telles também provou ter intimidade com narrativas sobrenaturais. Portanto, terror também é a sua praia.

O cenário de Venha ver o pôr do sol é um cemitério abandonado, para onde Ricardo leva sua ex-namorada, Raquel, que depois de muita insistência do rapaz, decide aceitar o convite e reencontrá-lo, mesmo estando sem vê-lo há muito tempo e de já estar com outro.

Ricardo escolhe o cemitério porque quer mostrar a Raquel o mais belo pôr do sol que já viu na vida, mas enquanto os dois caminham pelo cemitério, o rapaz começa a abordar assuntos mórbidos, um deles, relacionado aos seus familiares que já morreram e que ali se encontram enterrados. E assim os dois vão caminhando e conversando, rumo a um final surpreendente.

06 - Sem olhos (Machado de Assis)

Onde encontrar: “Contos Macabros: 13 histórias sinistras da literatura brasileira”

Editora: Escrita Fina

Olha a fera novamente aí. Machado de Assis foi o cara, não tem como contestar. Ele escrevia de tudo, inclusive contos de terror e bons. Sem olhos à exemplo de A causa secreta provoca uma mistura de medo e mal-estar no leitor. Mais um conto que explora a maldade escondida no âmago de algumas pessoas.

Nem mesmo o tempo, mais de um século - o conto foi escrito entre dezembro de 1876 e fevereiro de 1877 -, conseguiu amenizar a aura tenebrosa da narrativa. O autor relata a sombria história de amor de um homem em seu leito de morte. O moribundo relembra o passado de um homem muito ciumento que não admitia, de maneira alguma, que a sua mulher olhasse, literalmente, para nenhum outro homem. Certo dia ela olha, mais do que isso, flerta, então... vem o castigo. Arghhhh!!! A história pode ser encontrada na obra Contos Macabros: 13 histórias sinistras da literatura brasileira.

07 – Bugio moqueado (Monteiro Lobato)

Onde encontrar: “Obras primas do conto fantástico”

Editora: Livraria Martins

Pode parecer incrível, mas é verdade. Um dos maiores autores de histórias infantis do mundo que fez a alegria de milhares de crianças no Brasil com Narizinho, Pedrinho, Dona Benta e demais personagens do Sítio do Pica Pau Amarelo, também escreveu um dos contos de terror mais apavorantes que já li.

A história que está no livro que está no livro Obras Primas do Conto Fantástico me provocou calafrio tem como cenário uma fazenda localizada lá nos confins de Mato-Grosso. É narrado por um velho que recorda a terrível experiência vivida na fazenda do coronel Teotônio, onde foi comprar algumas cabeças de gado.

Ao chegar na propriedade, ele é recebido pelo coronel que tem fama de carrasco, maldoso e sem escrúpulos. Antes de fechar o negócio, o narrador da história é convidado a se sentar à mesa para jantar. Então é servido o prato e o cardápio... Putz, melhor deixar quieto, não quero relembrar isso não.

08 – O Trailler (A.Z. Cordenonsi)

Onde encontrar: “Le Monde: O circo dos horrores”

Editora: Estronho

Uahauuu! Que conto de terror da hora! Na minha opinião, o melhor do livro Le MondeBizarre – O Círco dos Horrores da editora Estronho que reúne histórias curtas do gênero tendo como “pano de fundo” os personagens de um circo misterioso e macabro. Todos os contos foram escritos por novos autores, pouco conhecidos, que estão debutando no gênero terror.

A.Z. Cordenonsi conta a história de Bernard que resolve visitar sua mãe em uma outra cidade. Há quatro anos, ela decidiu aceitar um emprego de cozinheira num circo oferecido por um homem estranho para trabalhar junto ao pessoal.


Bernard percebe que o trailer vizinho ao de sua mãe, habitado por uma velha quase inválida, todas as madrugadas passa por uma misteriosa reforma, ficando cada dia mais bonito. Ocorre que ninguém, incluindo Bernard, conseguem descobrir quem são as misteriosas pessoas que fazem essa reforma.

Certa noite, decidido a descobrir o mistério que cerca o trailer da velha, o garoto resolve ficar acordado até mais tarde e então... Brrrrrrrrr!!! “Infelizmente” li o conto de Cordenonsi já bem tarde da noite; resultado: não consegui dormi.

Contaço!!

É isto! Espero que essas indicações tenham despertado o interesse da galera.

 


05 dezembro 2021

Obras, outrora raras, que voltaram a sobrar nas estantes das livrarias

Há ‘uns’ dez anos, ainda me lembro que estava correndo desesperadamente atrás de A Hora do Lobisomem, de Stephen King, uma publicação com o layout simplizinho de marré da editora LPM Pockets. Queria aquele livrinho de bolso de qualquer maneira. Até que um dia o encontrei num sebo virtual por aproximadamente R$ 200,00, em valores atualizados. “R$ 300,00!!!!, que roubo!!!!” Gritei, na época. Não entrava na minha cabeça como uma publicação de bolso com as páginas já amareladas pelo tempo e a capa com uma fita transparente na lombada poderia custar aquele valor. Hoje, entendo – mas não muito (rs) – o motivo do seu alto custo: tratava-se de um livro raro, daqueles que você fuça, até se cansar, nas livrarias e só encontra dois ou três exemplares.

Pois é galera, e não é que três ou quatro anos depois, a Suma (quando ainda era chamada de Suma de ‘LETRAS’) acabou relançando A Hora do Lobisomem numa edição ultraluxuosa em capa dura e toda ilustrada?! Quer mais? E por um preço módico! Atualmente essa edição da Suma pode ser encontrada facilmente em qualquer livraria física ou virtual.

À exemplo desse clássico escrito por King, existem muitos outros em situação semelhante, ou seja, estavam praticamente esgotados no passado, mas no presente podem ser encontrados facilmente nas livrarias.

Dentro desse contexto ‘deu na telha’ escrever uma postagem sobre o tema. Assim, escolhi cinco livros que eram endeusados em anos passados por serem raros, mas depois com o passar do tempo acabaram perdendo a ‘coroa’ para a alegria de todos nós leitores. Obrigaduuuuuuuuuu as editoras que tiveram a brilhante ideia e principalmente compaixão de todos nós, devoradores de livros, em relançar essas preciosidades. Vamos a elas!

01- A Hora do Lobisomem (Stephen King)

Em 2014, quando escrevia uma postagem sobre obras raras, tinha conseguido localizar nos sebos virtuais apenas um exemplar de A Hora do Lobisomem. Fiquei sabendo, naquela época, que inexplicavelmente, em sua primeira edição (1983), a editora LPM Pockets havia colocado poucos livros no mercado literário. Resultado: eles se esgotaram rapidamente.

O preço assustava e girava em torno de R$ 100,00, em 2014.

Cara, como eu queria aquele livro, mas como o preço era absurdamente elevado, fiquei apenas sonhando com o livrinho véinho de bolso; aliás um sonho frustrado. Este sonho só foi se tornar realidade quando a então editora Suma de Letras, anunciou em julho de 2017 relançaria a obra de King numa edição luxuosa com a promessa de encher os olhos da galera. A história faria parte da coleção “Biblioteca Stephen King” que reuniria os relançamentos de publicações raras do autor.

E a Suma, de fato, prometeu o que tinha cumprido. A segunda edição de A Hora do Lobisomem chegou ‘rasgando’: ilustrações originais de Bernie Wrightson, capa dura emborrachada e conteúdo extra.

O livro narra a história de assassinatos que estariam sendo ocasionados por um lobisomem em Tarker´s Mills localizada no Maine. A cada noite de lua cheia, mortes acontecem na pequena cidade deixando os seus moradores inquietos e amedrontados.

A Hora do Lobisomem era um livro curto, dividido em 12 capítulos e com pouco mais de 100 páginas, no formato livro de bolso. Com o relançamento da Suma, a história ganhou uma edição incrível, incluindo as fantásticas  ilustrações de Wrightson, que trabalhou com King nas capas das edições americanas de A Dança da Morte, Creepshow e Torre Negra V: Lobos de Calla.

02 – A Casa Infernal (Richard Matheson)

Richard Matheson escreveu A Casa Infernal em 1971, mas o livro só foi desembarcar no Brasil 38 anos depois, pela Novo Século! Verdade, galera. Pouco tempo depois, essa edição já estava esgotada e com o preço nas alturas. Há cerca de quatro anos, os interessados em ler a fantástica e aterrorizante história criada por Matheson não a encontravam nos sebos e muito menos nas livrarias. Por isso, cheguei a pensar que estava extinta. Então, no final de maio de 2018 apareceram dez livros na Estante Virtual; o mais barato, na faixa de 69,00. Em menos de dois meses já tinham sido todos vendidos! A partir daí, o livro desapareceu novamente e quando retornou aos sebos... caráculas! O preço causava taquicardia no mais controlado dos leitores.

Mas em setembro de 2021, a DarkSide, a editora da Caveirinha, decidiu relançar a obra dando um presentaço de Natal antecipado para os seus leitores.

A edição da Darkside está um show, tanto é que apesar de já ter o livro da Novo Século, vou acabar fazendo um sacrifício e...  comprando a nova publicação.

A editora da Caveirinha optou por fazer uma pequena alteração no título da obra de 2009, saiu ACasa Infernal e entrou Hell House: ACasa do Inferno. O lançamento faz parte da nova coleção da DarkSide chamada “Dark House”, arquitetada para homenagear as narrativas de assombração que habitam os pesadelos dos leitores. E para inaugurar com chave de ouro esse novo selo, a editora escolheu a história de Matheson que está completando 50 anos. Arrebentou a boca do balão, heinnn Caveirinha?!

03 – O Planeta dos Macacos (Pierre Boulle)

Caramba! Como este livro me cansou, e também... me frustrou. Queria, tresloucadamente, ler a história do escritor francês Pierre Boulle. Já havia assistido os filmes clássicos dos anos 70 com Charlton Heston e Roddy McDowall e agora deseja bastante ler a obra literária. Fiquei desapontado por muito tempo porque não conseguia encontrar o livro em nenhum lugar. Em 2011, dei de cara com uma edição de Portugal, caríssima, mas mesmo assim, coloquei na cesta de compras, só que outro leitor havia sido mais rápido do que eu e comprado o livro. Putz e Putz! Que frustração. 

Lembro-me que na década de 80, as bancas de revistas – inclusive, as da minha cidade – vendiam num pacote só, filme (VHS) mais o livro no qual a história havia sido inspirada. Entre os títulos lançados estava O Planeta dos Macacos. Na época não me interessei muito, mas depois de duas décadas sai em disparada como um louco na captura do livro de Boulle. Caramba! Não o encontrava em lugar nenhum. Continuei a minha procura, sem sucesso, pelos sebos físicos e virtuais até que em 2008, a editora Agir decidiu relançar a obra em terras tupiniquins. Pôoooo!!Buuummmm!! Soltei rojões, foguetes e morteiros prá todos os lados. Meu amigo, como comemorei! Acredito que fui um dos primeiros a comprar o livro.

Depois de algum tempo, novamente, a publicação da Agir sumiu das prateleiras dos sebos. Simplesmente evaporou.

Hoje, O Planeta dos Macacos está sobrando nas livrarias. Em 2015, a editora Aleph relançou a história de Boulle numa edição em capa vermelha e em 2020, a publicação voltou às estantes das livrarias numa edição de capa amarela com direito a um brinde para os leitores – um imã de geladeira com a ilustração de um macaco. Os dois livros em brochura.

04 – O Parque dos Dinossauros (Michael Crichton)

Como lutei para conseguir esse livro! Em 2001 ainda não tínhamos o advento dos sebos virtuais. Se não encontrássemos o livro que queríamos numa livraria online, tínhamos de procura-lo em um sebo físico numa cidade próxima ou distante de onde morávamos.

Consegui localizar OParque dos Dinossauros de uma maneira nada convencional: através de uma sala de bate-papo na Net. Isso mesmo, numa sala de bate-papo!! Joguei o meu desejo de consumo na “Rede” e qual foi a minha surpresa quando uma professora da época de universidade viu o meu recado e resolveu enviar o livro pelo correio.

É importante frisar que no início do ano 2000 a obra de Crichton estava esgotada nas livrarias. Restavam os sebos físicos, onde você raramente encontrava o livro, até que apareceu essa oportunidade de ouro numa sala de bate-papo. E pensar que hoje, os leitores encontram a publicação facilmente em qualquer livraria, inclusive no formato capa dura com todo o luxo. Nos sebos online, então... nem se fala, os preços são módicos demais, variando de R$ 4,00 à R$ 15,00.

05 – Viva e Deixe Morrer (Ian Fleming)

Há mais de dez anos, decidi ter em minha estante todos os livros de James Bond escritos por Ian Fleming. E assim, comecei a minha “peregrinação” pelos sebos online. Em menos de um ano consegui ‘fechar’ a coleção, mas confesso que Viva e Deixe Morrer me deu um trabalho danado. Só fui conseguir adquirir a publicação no formato pocket (1999) bem no final da minha “peregrinação. Não encontrava o livro em nenhum sebo e quando o localiza custava “horrores”.

No momento em que já estava quase desistindo, por acaso, vi na internet uma oferta supimpa. Não me lembro o valor na época, o que sei é que estava muito barato em comparação aos preços que já havia visto. Comprei na hora. Nos dias seguintes, o livro publicado pela L&pm havia sumido dos sebos online, entrando para o rol das obras raras.

Pouco tempo depois, em 2013, a editora Alfaguara colocou nas estantes das livrarias uma edição, também, de bolso da história. Pronto, Viva e Deixe Morrer perderia o status de raro. Atualmente pode ser encontrado em qualquer livraria a preços mais do que camaradas.

06 – Trocas Macabras (Stephen King)

Fecho essa lista com mais uma obra de Stephen King. Uma obra que há pouco mais de um ano era considerada uma joia lapidada nos sebos com preços assustadores. Acho que em 2018, os valores chegavam a R$ 450,00!! PQP! Acredita nisso?! Pagar R$ 450,00 num livro velho e bem manuseado! Pois é, acredite, Trocas Macabras conseguiu essa proeza.

Em 2018, a editora Suma anunciou que a história seria relançada e faria parte da coleção “Biblioteca Stephen King”. Nem precisou dizer que a galera que estava babando para ter a obra em sua estante festejou a notícia à exaustão.

Mas confesso que a Suma pisou na bola porque atiçou a vontade dos fãs de King e só ficou nisso porque após o anuncio do relançamento de Trocas Macabras o assunto esfriou. Então, após inúmeras cobranças dos leitores, a editora relançou o livro dois anos depois, em novembro de 2021. Tudo bem, Suma, está perdoada. Demorou, mas chegou.

Seguindo o mesmo projeto gráfico dos outros cinco exemplares que compõem da icônica coleção lançada pela Suma em 2016, Trocas Macabras chegou às mãos dos leitores em capa dura, 656 páginas em papel de altíssima qualidade e um layout de mucho loko – no bom sentido. Todo em verde com imagens em detalhes pretos e as letras na tonalidade branca. Cá entre nós, adorei.

A história foi escrita por King em 1991 e chegou ao Brasil no ano seguinte através da antológica coleção Mestres do Horror e da Fantasia da editora Francisco Alves.

Agora, temos de continuar torcendo para que as editoras continuem relançando várias obras raras que sumiram das livrarias e que estão custando uma fortuna nos sebos. Nossa! E tem tantas, né?

 

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