Oito contos de terror assustadores escritos por autores brasileiros

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Nem todos os leitores apreciam romances de terror, muitos deles preferem os contos que são bem mais curtos. Eu, por exemplo, tenho um amigo, o Carlinhos Pêpa, que só compra contos de terror mas foge dos enredos do gênero mais longos. Inclusive, um outro amigo nosso fez uma charge muito engraçada onde o antológico personagem Pennywise, criado por Stephen King, aparece correndo atrás do Carlinhos segurando o livro “It – A Coisa” de quase 1.000 páginas gritando: ‘leia!, leia!, vamos, leia!’. O Carlinhos com aquela cara de medo – não do palhaço mas do livro – e correndo desesperadamente’ foi a sensação, durante muito tempo, na nossa sala de redação. Todos que entravam ali paravam para olhar a charge e aqueles que captavam a mensagem, imediatamente, caiam na gargalhada.

‘Entonce’, resolvi contar esse fato de maneira resumida para que os leitores do blog entendam que nem todos os amantes do gênero terror gostam de histórias longas, preferindo aquelas de poucas páginas. Mas num País onde esse gênero literário começou a despontar há pouco tempo, encontrar contos interessantes torna-se um verdadeiro trabalho de garimpeiro.

A revista Galileu explicou de maneira clara num artigo publicado em 2017 que o Brasil por ser um País Tropical não tem muita afinidade com o lado dark da vida optando pelo lado mais... digo, colorido. Isto também ocorre na literatura. Portanto, o trem da nossa história está lotado de artistas que exaltaram e exaltam as alegrias de se viver por aqui.

O fato é que, de uma forma ou de outra, nossa arte é fortemente marcada por temas realistas, por traços que compõem a nossa identidade nacional. Mas esses temas e traços são, quase sempre, diurnos, vibrantes, coloridos… Enfim, esperançosos — mesmo quando não há pelo que se esperar.

Segundo a reportagem da Galileu, diante desse cenário ensolarado e tórrido, fica a pergunta: e nós, amantes do reverso disso tudo? Como ficamos? Onde sentamos no trem da nossa história, nós que, sem muito interesse pelo que é do dia, somos fascinados pelo que cabe à noite? Nós que, ao calor do beira-mar, preferimos o frio do beira-abismo? Nós que, indiferentes à vibração de nossas florestas ao sol, amamos a quietude dessas mesmas florestas à lua? Simples, a única solução é garimpar bons contos de terror, vasculhando em livrarias e sebos. Mas para a alegria geral desses leitores, o Brasil sempre contou – em número reduzido, mas mesmo, assim, contou – com excelentes autores clássicos e contemporâneos do gênero.

No post de hoje, selecionei oito contos de terror imperdíveis escritos por autores brasileiros que não podem faltar em sua estante. Vamos a eles!

01 – A causa secreta (Machado de Assis)

Onde encontrar: “A Causa Secreta e Outros Contos de Horror “

Editora: Boa Companhia

Machado de Assis escrevendo contos de terror?!! Entonce galera... E você pensava que o mestre da escrita brasileira não dominava o assunto? Pois é, enganou-se porque A Causa Secreta prova que ele também era fera no gênero.

O conto publicado originalmente em 1885 no jornal carioca Gazeta de Notícias (1875-1942) é muito sombrio, mas sombrio demais. A história caracteriza o extremo mal existente na sociedade.

Neste conto, Machado de Assis que retrata uma relação entre o recém- formado médico Garcia e seu amigo Fortunato que é dono de uma misteriosa compaixão por doentes e feridos, mas que de acordo com Garcia esconde um mistério.

A dedicação de Fortunato aos enfermos é total, especialmente aos que se encontram em pior estado. Tudo isso impressiona e intriga sobremaneira Garcia, que não compreende o paradoxo que é o amigo: se por um lado se entrega de corpo e alma aos que sofrem, por outro é grosso e indiferente com os demais, inclusive com a esposa.

O intrigante mistério é desvendado por Garcia no momento em que flagra o amigo fazendo algo sádico, cruel e inimaginável. A partir daí, toda a verdade vem a tona, surpreendendo os leitores.

02 – O bebê de tarlatana rosa

Onde encontrar: “João do Rio - Antologia de Contos”

Editora: Lazuli

O bebê de Tarlatana Rosa de João do Rio é outra obra-prima da literatura de terror tupiniquim. Neste conto, o personagem Heitor de Alencar narra um fato macabro que aconteceu com ele durante o carnaval no Rio de Janeiro.

Heitor conta que, no carnaval, saiu com um grupo de companheiros e, depois de percorrer alguns salões, foi ao baile público do Recreio, onde conheceu uma misteriosa foliona vestida de bebê de tarlatana (um tipo de tecido leve de algodão). Na noite seguinte, os dois se reencontram num outro salão e resolvem sair e procurar um lugar mais reservado para ficarem a sós.

A partir daí, ‘o caldo engrossa’. Ao retirar a máscara da misteriosa foliona...

03 – Crianças à venda. Tratar aqui. (Rosa Amanda Strausz)

Onde encontrar: “Sete Ossos e Uma Maldição”

Editora: Global Editora

Como todas as coletâneas de terror, incluindo até mesmo as do mestre Stephen King, é quase impossível manterem um nível elevado. Quando comprei Sete Ossos e Uma Maldição de Rosa Amanda Strausz já estava ciente disso, mas no final gostei do resultado. Alguns contos excelentes, outros abaixo da expectativa, mas não me arrependi da compra.

Um dos contos que mais gostei e que mete um medo danado se chama: Crianças à venda. Tratar aqui. Este é fodástico. Daqueles que provocam medo e mal estar. O final, então. Brrrrrrrrrrrr. 

Caraca, me coloquei no lugar da irmã do ‘Fabiojunio’ – não é erro de grafia, o personagem se chama Fábiojunio, mesmo -  e juro que quase borrei as calças. Strausz conta a história de uma mãe oportunista que, por viver na miséria, decide colocar à venda os seus filhos em busca de melhoria de vida para as crianças, mas principalmente para ela. 

Cada um dos menores foi sendo comprado por famílias ricas até que sobrou somente um, o tal do Fabiojunio que acabou vendido para um casal muito estranho. A irmã do garoto decide investigar mais a fundo os novos pais e descobre algo aterrorizante.

04 – Zona de abate: Matadouro 7 (César Bravo)

Onde encontrar: “VHS: Verdadeiras histórias de sangue”

Editora: DarkSide

César Bravo pode ser considerado um dos escritores de terror mais talentosos do Brasil dos últimos anos. De fato, uma grata surpresa neste gênero literário, tanto é que foi um dos indicados a 63ª edição do Prêmio Jabuti, um dos mais conceituados da literatura brasileira. Suas narrativas são bem viscerais e para lê-las é preciso ter nervos de aço. Ele não usa meias palavras e vai direto ao assunto. Zona de abate: Matadouro7 um dos contos de VHS: Verdadeiras Histórias de Sangue é... Brrrrrr.

Li com o estômago querendo sair pela boca. Aliás, recomendo somente para quem tem estômago bem forte. O detetive Pestana e seu estagiário, Derriê, vão investigar um crime, supostamente, ocorrido no matadouro da fictícia cidade de Três Rios. Chegando lá – de noite, prá variar – os dois são recebidos por um ajudante que faz questão de explicar, em detalhes, como funciona o sistema de abate de animais no matadouro. Caraca!

Durante a sua investigação, Pestana acaba descobrindo um segredo macabro que vinha sendo guardado a sete chaves pelos donos do local.

05 – Venha ver o pôr do sol (Lygia Fagundes Telles)

Onde encontrar: “Venha ver o pôr do sol e outros contos”

Editora: Ática     

Não fiquem tão surpresos porque Lygia Fagundes Telles também provou ter intimidade com narrativas sobrenaturais. Portanto, terror também é a sua praia.

O cenário de Venha ver o pôr do sol é um cemitério abandonado, para onde Ricardo leva sua ex-namorada, Raquel, que depois de muita insistência do rapaz, decide aceitar o convite e reencontrá-lo, mesmo estando sem vê-lo há muito tempo e de já estar com outro.

Ricardo escolhe o cemitério porque quer mostrar a Raquel o mais belo pôr do sol que já viu na vida, mas enquanto os dois caminham pelo cemitério, o rapaz começa a abordar assuntos mórbidos, um deles, relacionado aos seus familiares que já morreram e que ali se encontram enterrados. E assim os dois vão caminhando e conversando, rumo a um final surpreendente.

06 - Sem olhos (Machado de Assis)

Onde encontrar: “Contos Macabros: 13 histórias sinistras da literatura brasileira”

Editora: Escrita Fina

Olha a fera novamente aí. Machado de Assis foi o cara, não tem como contestar. Ele escrevia de tudo, inclusive contos de terror e bons. Sem olhos à exemplo de A causa secreta provoca uma mistura de medo e mal-estar no leitor. Mais um conto que explora a maldade escondida no âmago de algumas pessoas.

Nem mesmo o tempo, mais de um século - o conto foi escrito entre dezembro de 1876 e fevereiro de 1877 -, conseguiu amenizar a aura tenebrosa da narrativa. O autor relata a sombria história de amor de um homem em seu leito de morte. O moribundo relembra o passado de um homem muito ciumento que não admitia, de maneira alguma, que a sua mulher olhasse, literalmente, para nenhum outro homem. Certo dia ela olha, mais do que isso, flerta, então... vem o castigo. Arghhhh!!! A história pode ser encontrada na obra Contos Macabros: 13 histórias sinistras da literatura brasileira.

07 – Bugio moqueado (Monteiro Lobato)

Onde encontrar: “Obras primas do conto fantástico”

Editora: Livraria Martins

Pode parecer incrível, mas é verdade. Um dos maiores autores de histórias infantis do mundo que fez a alegria de milhares de crianças no Brasil com Narizinho, Pedrinho, Dona Benta e demais personagens do Sítio do Pica Pau Amarelo, também escreveu um dos contos de terror mais apavorantes que já li.

A história que está no livro que está no livro Obras Primas do Conto Fantástico me provocou calafrio tem como cenário uma fazenda localizada lá nos confins de Mato-Grosso. É narrado por um velho que recorda a terrível experiência vivida na fazenda do coronel Teotônio, onde foi comprar algumas cabeças de gado.

Ao chegar na propriedade, ele é recebido pelo coronel que tem fama de carrasco, maldoso e sem escrúpulos. Antes de fechar o negócio, o narrador da história é convidado a se sentar à mesa para jantar. Então é servido o prato e o cardápio... Putz, melhor deixar quieto, não quero relembrar isso não.

08 – O Trailler (A.Z. Cordenonsi)

Onde encontrar: “Le Monde: O circo dos horrores”

Editora: Estronho

Uahauuu! Que conto de terror da hora! Na minha opinião, o melhor do livro Le MondeBizarre – O Círco dos Horrores da editora Estronho que reúne histórias curtas do gênero tendo como “pano de fundo” os personagens de um circo misterioso e macabro. Todos os contos foram escritos por novos autores, pouco conhecidos, que estão debutando no gênero terror.

A.Z. Cordenonsi conta a história de Bernard que resolve visitar sua mãe em uma outra cidade. Há quatro anos, ela decidiu aceitar um emprego de cozinheira num circo oferecido por um homem estranho para trabalhar junto ao pessoal.


Bernard percebe que o trailer vizinho ao de sua mãe, habitado por uma velha quase inválida, todas as madrugadas passa por uma misteriosa reforma, ficando cada dia mais bonito. Ocorre que ninguém, incluindo Bernard, conseguem descobrir quem são as misteriosas pessoas que fazem essa reforma.

Certa noite, decidido a descobrir o mistério que cerca o trailer da velha, o garoto resolve ficar acordado até mais tarde e então... Brrrrrrrrr!!! “Infelizmente” li o conto de Cordenonsi já bem tarde da noite; resultado: não consegui dormi.

Contaço!!

É isto! Espero que essas indicações tenham despertado o interesse da galera.

 


4 comentários

  1. Uma dica, não sei se já leu.
    “Narrativas do Medo 3”
    Confesso que quando comecei a ler desanimei um pouco, porque os dois primeiros contos que li eram bons, mas bem “lugar comum”. Como todo livro de contos tem seus altos e baixos, mas acho que vale muito a pena por alguns contos.
    “A Múmia do Imperador” é muito interessante por envolver fatos históricos.
    “Iara, a Sereia do Pantanal” é …...rapaz, nem sei definir, te deixa enojado, horrorizado, estarrecido.
    “Súcubo” é horrendo.
    “Chupacabras” e “Balas Perdidas” são muito bons.
    E “Os Crimes de Dez Pras Duas” cara, é ótimo.
    Li ano passado, fiquei tentado a comprar o 1 e o 2. Mas considerando o formato e tamanho, estão bem carinhos. Quem sabe alguma hora.

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    1. Atas, meu amigo!
      Desculpe a demora em responder. Minha esposa teve herpes zoster no rosto, na ramificação do nervo trigêmio e acabou adquirindo uma neuralgia pós-herpética. Cara, a dor é intensa. Não dá para imaginar e constante. Percorremos médicos e médicos. Aliás, vou escrever uma postagem sobre isso, brevemente. Agora, graças ao nosso bom Deus, a dor está sendo vencida. Foi uma grande luta. Por isso, estou respondendo os comentários recentes somente hoje.
      Valeu pelas indicações literárias, como sempre muito bem avalizadas.
      Um grande abraço!

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  2. Boa noite
    Pois, sinto dizer mas é assim mesmo, minha mãe teve a alguns anos - no caso dela pegou um dos lados do abdomen, conheço outras pessoas que tiveram. A dor é horrível mesmo e dura vários dias, se não me engano é porque afeta todo o músculo da região afetada. E não tem muito que fazer. é deixar passar, porque passa e aliviar com remédios pros sintomas.
    Melhoras para ela.
    Abraço!

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