O Homem de Giz


Não gostei. Sei que estou esfriando o tesão de muitas pessoas que não veem a hora de ler a obra da escritora inglesa C.J. Tudor que dominou, por várias semanas, o primeiro lugar das listagens das mais vendidos em todo o País. Antes que acabe de gelar por completo esse tesão, deixe-me tranquiliza-los, pois trata-se apenas da minha opinião, tendo certamente muitas outras contrárias e que estão colocando nas alturas “O Homem de Giz”, classificando-o como um dos melhores thrillers policiais dos últimos tempos; mas no meu caso, prefiro passar e... longe. Não me agradou, mesmo.
A premissa da história até que é interessante, mas os plot twists que se seguem não seguram esse bom início. Achei eles bem chochos. Concordo que um enredo para prender a atenção do leitor não precisa ter grandes reviravoltas a cada capítulo, do tipo arrasa quarteirões, mas acho importante que esses plot twists tenham um pouco de tempero e façam com que pelo menos o leitor solte um cometido “Ohhhhh!!”
Mas, tudo bem, talvez essas fracas reviravoltas nem sejam o problema principal do livro que sente falta também de personagens carismáticos. Acredito que se “O Homem de Giz” contasse com personagens mais cativantes, o enredo pálido da história seria amenizado, mas Eddie, Gav, Mickey, Hoppo e Nicky, mas principalmente Eddie, são de amargar. Achei-os chatos pra caramba, creio que insípidos seria o melhor termo para defini-los. Quando soube que o livro teria um argumento, pelo menos inicial, parecido com “O Corpo”, conto escrito por Stephen King, e que rendeu o maravilhoso filme “Conta Comigo” de 1986, não pensei duas vezes e corri para a livraria, mesmo tendo noção de que o meu cartão de crédito estava perto do estouro.
De fato, Tudor bebeu na fonte de “O Corpo”, até matar a sede, já que as duas histórias são muito parecidas. Em ambas, temos um grupo de crianças que vivem numa pequena cidade e que certo dia encontram o corpo de uma pessoa adolescente que estava desaparecida há alguns dias. A aventura acaba se transformando numa jornada de autodescoberta que os marcará para sempre. Tanto Tudor quanto King utilizam um ‘protagonista-narrador’ de 12 anos – os livros são escritos em primeira pessoa. Ocorre que o Gordie Lachance criado por King cativa os leitores desde o início, já o Eddie Adams de “O Homem de Giz” é um pé no saco, quase sempre apelando para o coitadismo. A “gang de Gordie” também é muito diferente da “gang de Eddie”. Resumindo: os primeiros são muito mais ‘vivos’ ou será que você não se lembra das deliciosas loucuras juvenis de Chris Chambers de “Conta Comigo” que nos cinemas foi vivido pelo ator River Phoenix que viria a morrer tragicamente, sete anos após o sucesso de “Conta Comigo”?
C.J. Tudor
Como vocês já podem ter notado acho que, de fato, o que prejudicou a história de Tudor foram os seus personagens insossos. Aliás, é muito arriscado um autor decidir escrever um livro com algumas particularidades já existentes em uma outra obra. Agora, se a obra, na qual o autor resolver ‘beber’ bem fundo na fonte, foi um grande sucesso no passado, o risco de não agradar se torna maior porque fatalmente irão surgir as comparações. Foi o que aconteceu com “O Homem de Giz”; alguns gostaram, mas outros, nem um pouco. Como já sabem, me enquadro na segunda categoria de leitores.
Em seu primeiro livro, Tudor conta a história de cinco crianças inseparáveis que passam a maior parte dos dias andando de bicicleta pela pacata vizinhança em busca de aventuras. Os desenhos a giz são seu código secreto: homenzinhos rabiscados no asfalto; mensagens que só eles entendem. Mas um desenho misterioso leva o grupo de crianças até um corpo desmembrado e espalhado em um bosque. Depois disso, nada mais é como antes. Com o passar dos anos, as descobertas que o fato proporciona acaba por modificar, completamente, a vida e a amizade desses cinco garotos.
O livro é narrado em primeira pessoa pelo personagem Eddie; e Tudor optou por intercalar essa narrativa em dois tempos distintos: passado e presente. Dessa forma, ora o leitor acompanha os fatos ocorridos em 1986; ora em 2006, com os protagonistas já adultos e carregando os seus fantasmas.
Durante a história, a autora faz uma abordagem bem realista sobre o mal de Alzheimer, doença progressiva que destrói a memória e outras funções mentais importantes. Ela descreve em detalhes e de maneira bem crua a angustia dos portadores da doença em sua fase inicial – quando descobrem que estão com o mal - e também dos familiares dos doentes. Achei impressionante.
Bem galera, é isso aí. Com certeza, muitos que ainda irão ler “O Homem de Giz” irão gostar do livro e discordar dessa resenha. Afinal, já imaginou se pensássemos coletivamente, como abelhas? Seria chato demais, não acham?
Inté!

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