O Alienista

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Costumo dizer que para ler as obras de Machado de Assis, antes de tudo, você tem que ter paciência. De antemão já aviso que leitores afoitos que querem extrair resultados positivos da história logo nas primeiras páginas, com certeza, irão se decepcionar. Ler Machado é como apreciar um bom vinho e jamais virar o cálice numa golada só. Você trem que sentir o sabor da bebida aos poucos que por sua vez, vai se tornando mais saborosa, também aos poucos, para no final deixar aquela sensação de quero mais.

Digo isso porque, geralmente, as engrenagens dos enredos escritos pelo autor baiano vão se encaixando aos poucos; os personagens, também, vão se tornando mais interessantes aos poucos. Assim, ansiedade e obras com a chancela de Machado de Assis não combinam.

O Alienista, não foge da regra. O leitor vai se ajustando ao enredo aos poucos e com o virar das páginas, o romance vai prendendo a sua atenção. Foi o que aconteceu comigo: amei a história. Achei incrível. Os personagens muito bem estruturados, além do tom satírico e irônico da obra conquistam o interesse dos leitores.

O livro é narrado em terceira pessoa e mostra o empenho do Dr. Simão Bacamarte, um alienista (a designação de psiquiatra na época), filho da nobreza do lugar e o maior dos médicos do Brasil, Portugal e Espanha, que torna-se obcecado pelos seus estudos na área do comportamento social.

Ao chegar em sua cidade natal, Itaguaí, onde monta um consultório, o médico decide criar um manicômio, chamado Casa Verde. Conforme vai se aprofundando em seus estudos psiquiátricos, o médico começa a enxergar a loucura em muitos moradores da cidade. Para ele o normal seria algo homogêneo repetido ao infinito; qualquer pessoa com um gesto ou pensamento que fugisse a rotina era objeto de seus estudos e consequentemente de internação. A população aterrorizada se revolta, e aí outros tantos passam a morar no asilo.

O Alienista nos faz questionar o que, de fato, vem a ser a loucura e quem são os responsáveis por defini-la. Será que aqueles que tem essa responsabilidade não são mais loucos ainda?  A história faz com que o leitor reflita se existem pessoas totalmente equilibradas e sãs, ou se seríamos nós um monte de alienados. Portanto, uma obra muito reflexiva.

Alguns consideram o livro, publicado originalmente em 1882, um conto, para outros, ela contém a estrutura narrativa e as características de uma novela. Não interessa; conto ou romance, é algo muito prazeroso de se ler.

Lembrando que em 1993, o livro foi adaptado para a uma minissérie de TV exibida na Rede Globo de Televisão.

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