A Grande Gripe

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Acredito que após esta resenha serei o considerado o grande peixe fora d’água ou então aquele sujeito completamente “fora da casinha”, como diz o ditado popular. Digo isso porque de cada dez leitores que leram A Grande Gripe de John Barry, dez gostaram, além disso, a obra foi premiada pela Academia Nacional de Ciência dos Estados Unidos – por ser considerada referência sobre a gripe espanhola.

Mas a verdade é que eu acabei me decepcionando com o conteúdo. Achei grande parte do texto cansativo e confesso que precisei ser persistente para concluir a leitura da obra. Mas tenho que ser justo ao dizer que o livro também tem partes interessantes que conseguem prender a atenção dos leitores, mas são poucas.

Quando comprei A Grande Gripe estava interessado em conhecer detalhes sobre a gripe espanhola, principalmente como ela modificou o comportamento de milhares de pessoas em todo o mundo, incluindo cidadãos comuns, cientistas e políticos, mas ao começar a ler o livro topei, na maior parte das vezes, com um estudo detalhado sobre a I Guerra Mundial, disputas ideológicas e tratados que foram firmados após o conflito, enfim, um vasto estudo geopolítico - aliás o livro de Barry é considerado um verdadeiro tratado geopolítico à respeito da 1ª Grande Guerra Mundial. A gripe espanhola, em sí, serve em grande parte dos capítulos apenas como pano de fundo para esse detalhado estudo geopolítico.

O autor também explora detalhadamente a história do desenvolvimento da medicina americana com ênfase para os grandes pesquisadores e cientistas dos Estados Unidos que contribuíram para o isolamento de diversos tipos de vírus, principalmente aqueles ligados as doenças respiratórias. No capítulo “Os Guerreiros”, por exemplo, os leitores ficam sabendo tudo sobre a origem da Universidade Johns Hopkins e também dos influentes pesquisadores que passaram por ela, inclusive detalhes sobre suas vidas particulares. A gripe espanhola, propriamente dita, mal aparece nesse capítulo.

Não serei hipócrita em afirmar que a obra, em sua totalidade, é cansativa; não. Existem capítulos – poucos, mas existem – que como disse no início da postagem conseguem prender a atenção. Nessas partes, o autor explora as consequências do negacionismo dos políticos, militares e também dos meios de comunicação da época que represavam qualquer informação sobre o avanço da gripe espanhola para não abalar o ânimo da população e também dos soldados que se preparavam para a guerra. Naquele momento o que mais interessava para os americanos era derrotar os alemães por isso, qualquer notícia que pudesse influir negativamente no ânimo dos americanos deveria ser desprezada e com isso, a doença foi se espalhando cada vez mais.

Achei interessante, também, os capítulos que abordavam o conflito ‘ciência versus política” onde o autor descrevde a luta de renomados cientistas e pesquisadores que tentavam de todas as maneiras lutar contra a onda de negacionismo que havia invadido os Estados Unidos.

Destaco ainda os trechos da obra em que Barry que expõe o rastro de destruição deixado pela gripe espanhola. No capítulo “O Dobrar do Sino” o autor explicita como a doença mudou o comportamento e a rotina de vida da população dos Estados Unidos. Corpos de pessoas mortas ficavam acumulados dentro das casas juntamente com familiares ainda vivos que eram proibidos de sair nas ruas. Residências que tinham as portas marcadas com tinta vermelha indicando que ali haviam doentes. Enfermeiras que eram raptadas por familiares de pessoas enfermas para cuidar, a força, dos moribundos. Tudo isso é narrado em minúcias.

Acredito que se o livro esquecesse um pouco dos detalhes geopolíticos e cedesse um espaço maior para o surgimento, consequências e a devastação provocada pela gripe espanhola, A Grande Gripe seria uma obra marcante e com menos páginas o que tornaria a sua leitura bem mais fluida e nem um pouco cansativa. Lembrando que o livro tem quase 600 páginas.

Valeu!

 

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