Como me tornei um devorador de livros

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E aí pessoal, tudo bem? Posso divagar um pouquinho nesta postagem? Então, vamos lá. Hoje não quero fazer resenhas, listas, escrever sobre lançamentos literários, nada disso. É que, de repente, deu aquele estalo, tipo insight, sobre as pessoas que colaboraram para que eu ganhasse “gosto” pela leitura, tornando-se um verdadeiro devorador de livros. Se não fossem esses anjos em terra, eu jamais teria conhecido o meio de transporte mais gostoso do universo: os livros. Nunca teria viajado para castelos de reis e rainhas; participado de batalhas medievais, acompanhado famosos detetives, espiões e outros heróis em suas aventuras; desvendado segredos da vida de personalidades importantes em suas biografias autorizadas ou não.

Só em pensar que ficaria privado disso tudo, se essas pessoas especiais não tivessem feito parte da minha vida, sei lá... bate aquele sentimento de perda incomensurável, quase desespero mesmo. Só quem tem o hábito da leitura pode compreender o que estou falando escrevendo.

Em primeiro lugar não poderia deixar de citar os meus pais. Eles são os primeiros da lista, a pedra fundamental. Apesar do pouco que ganhavam no final do mês – meu pai, ferreiro mecânico assalariado, minha mãe, cozinheira – faziam questão de que eu e os meus outros dois irmãos tivéssemos acesso aos livros desde crianças. Para retratar esse importante momento da minha infância onde tudo começou preciso voltar no tempo, para a época dos antológicos vendedores ambulantes de livros, principalmente de coleções e enciclopédias.

Os vendedores de livros de porta em porta
Com uma certa frequência passava em casa um senhor de paletó e chapéu branco com uma fita preta em volta da aba – minha memória seletiva de infância guardou muito bem essa imagem. Ele trazia uma mala repleta de livros. Minha mãe ou o meu pai – qualquer um deles que estivesse em casa, naquele momento - me chamava e pedia para que eu desse uma olhadinha no interior daquela mala mágica, depois me dizia qual livro que mais gostava. Putz! Papai ou mamãe compravam a obra ou obras que eu escolhia sempre com um sorriso no rosto, mesmo o preço sendo bem salgado para eles. Quando o vendedor demorava alguns meses para passar em casa, novamente, apesar de ainda ser uma criança, tinha noção de que os meus velhos ainda estavam pagando as duplicatas das obras literárias que eu havia escolhido.

Foi nessa época e graças ao ‘seo’ Waldemar e a dona Lázara que eu conheci a Enciclopédia Trópico; a Coleção Monteiro Lobato, com oito livros, da editora Brasiliense; a edição ilustrada de Os Irmãos Corsos da Melhoramentos; além de tantos outros.

Há pouco tempo, enquanto fazia uma faxina na dispensa de casa, encontrei alguns livros infantis, entre os quais A Horta do Juquinha, Coleção Walt Disney e O Saci de Monteiro Lobato. Isto fez com que concluísse que desde a minha tenra infância, bem antes da época dos vendedores ambulantes de livros, os meus pais já se preocupavam com a minha formação literária, com o desenvolvimento do meu gosto pela leitura. Posso afirmar que eles foram os meus primeiros educadores.

Cara, fique triste em saber que apesar de todas as facilidades tecnológicas que temos hoje e que podem auxiliar na formação de novos leitores, muitos pais desprezam esse aparato e preferem utilizá-los para incentivar os seus filhos a praticarem jogos online, afinal, segundo eles, estamos vivendo a ‘era dos games’ e a leitura pode esperar um pouquinho ou muito na fila. Taí a explicação porque o Brasil é um dos países onde o habito da leitura diminui a cada ano. Para você ter uma ideia da gravidade da situação, segundo dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2015 para 2020, a porcentagem de leitores no Brasil caiu de 56% para 52%. Já os não leitores, ou seja, brasileiros com mais de 5 anos que não leram nenhum livro, nem mesmo em parte, nos últimos três meses, representam 48% da população, o equivalente a cerca de 93 milhões de um total de 193 milhões de brasileiros. Triste não é mesmo? Culpa de quem? Sinto dizer, mas no topo da lista estão os pais.

Bibliotecária dos anos 60

Portanto, em primeiro lugar quero agradecer aos meus pais que mesmo não tendo a tecnologia de hoje à sua disposição, encontraram meios de fazer com que me tornasse um leitor de carteirinha.

Depois deles, também sou grato a outras pessoas especiais que cruzaram o meu caminho e deram sequência ao trabalho iniciado pelos meus pais. Costumo dizer que eles foram os jardineiros que continuaram regando a semente plantada pelos meus velhos. Um desses jardineiros foi o meu irmão mais velho que tinha o hábito de colecionar as enciclopédias em fascículos da Conhecer, Os Bichos e Medicina e Saúde; além de várias pulp fictions com as histórias de Brigitte Montfort, O Coyote e Faroeste; sem contar os livros de Harold Robbins que naquela época eram lançados em edições econômicas de bolso. O meu irmão, Carlos, tinha um armário onde guardava todo esse tesouro (ver aqui), mas sempre deixava a chave na porta. Tenho certeza de que ele fazia isso de propósito, pois sabia que eu era um leitor ávido já naquela idade. Por isso, sempre pensei que a chave num lugar de fácil acesso era um chamariz para que eu invadisse o seu domínio.  Obrigado meu irmão.

Não posso esquecer de outras quatro jardineiras que regaram o hábito pela leitura em minha adolescência. Três delas bibliotecárias e a outra, uma amiga de minha mãe. Dona Cida era uma bibliotecária muito especial. Eu a achava um barato. Sempre alegre, alto astral e com flores presas no cabelo. É verdade! Ela tinha o hábito enfeitar os cabelos com flores o que lhe valeu o apelido carinhoso de Cida das Flores. Sempre que eu passava na biblioteca, já via em cima da mesa dois ou três livros me esperando. Obras que ela já tinha lido e gostado e por isso as deixava separadas para mim. Lembro que eu dizia que não conseguiria entregar os livros no prazo marcado para a devolução. Então, ela dava uma piscadela e falava para que eu devolvesse quando terminasse a leitura. Sempre gostei dos livros escolhidos por ela.

Outra bibliotecária importante na minha vida de leitor foi dona Alice, bibliotecária da escola ginasial onde eu estudava. Nos anos 70, as bibliotecas escolares tinham regras muito rígidas e não permitiam que os alunos levassem os livros para casa. A leitura tinha que ser feita na própria escola, mesmo assim, dona Alice sempre arrumava um jeitinho para que eu levasse um livro pra ler em casa. Acho que a minha estimada bibliotecária que já partiu, sabia que eu era um devorador de livros apesar da minha pouca idade, já que todos os dias, durante o intervalo das aulas, lá estava eu na biblioteca lendo os meus romances, coleções e enciclopédias. Por também ser, na época, uma devoradora de livros, dona Alice se sentia muito feliz quando os alunos visitavam com frequência o ‘seu reduto’.

A terceira bibliotecária que continuou regando a ‘semente-leitura’ plantada pelos meus pais se chama Ângela. Ela foi bibliotecária municipal, acho que substituta, não me lembro bem. O que me recordo é que sempre que visitava a biblioteca em busca de uma livro ganhava um elogio. Ela dizia mais ou menos assim: “Nossa! Você deve ser muito inteligente. Continue lendo bastante” ou então “Qual livro que você me indica?” Agora que diga: quem não gosta de receber um elogio. Me sentia bem indo até lá, por isso, ia com frequência escolher os meus livros.

E por fim, a amiga de minha mãe, a Maria – só me recordo do seu primeiro nome – a última jardineira tão importante na minha formação de leitor. Nesta época, estava na fase dos meus 10 ou 11 anos. Ela morava em São Paulo e sempre que vinha até a minha cidade me presenteava com um livro, geralmente contendo histórias de Walt Disney. Ela visitava minha mãe várias vezes ao ano e cada visita era um livro novo. Imagina se eu não ficava contando nos dedos a sua chegada.

Taí galera, me desculpem por não postar nenhuma resenha, mas hoje queria dividir com vocês esses momentos tão especiais em minha vida, momentos proporcionados por pessoas, também muito especiais. Jardineiros que regaram o meu gosto pela leitura transformando-me num grande devorador de livros.

Valeu!

 

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