Seis epidemias mortais que assolaram a humanidade retratadas em dez livros indispensáveis

Nenhum comentário

A pandemia de coronavírus continua provocando pânico em todo o mundo. Prova disso é que muitas pessoas estão até mesmo deixando de assistir, ouvir ou ler os noticiários para não sofrerem um ‘tilt’ psicológico. Mas é importante frisar que tivemos, na história da humanidade, outras epidemias que assustaram tanto ou até mais do que essa que estamos vivendo, provocada pelo famigerado SARS-CoV-2.

Posso citar duas delas: a peste bubônica que aterrorizou a Europa no século 14 e que ficou conhecido como “peste negra”, e a gripe espanhola que de janeiro de 1918 a dezembro de 1920, infectou uma estimativa de 500 milhões de pessoas, cerca de um quarto da população mundial na época. Portanto, o ‘senhor’ SARS-CoV-2 não é o primeiro vírus a deixar o mundo em polvorosa, à beira de um ataque de nervos.

No post de hoje selecionei seis epidemias mortais que abalaram o mundo e que acabaram virando temas de livros. Se você tem curiosidade em saber um pouco mais sobre a origem dessas doenças e como elas abalaram as estruturas de vários países há décadas atrás, recomendo essas obras. Vamos conferir.

01 – Peste Bubônica (Peste negra)

Período: De 1346 a 1353

Locais atingidos: Europa

Livros indicados: Um Diário do Ano da Peste (Daniel Defoe) e A Peste (Albert Camus)

Cara. Esta pandemia foi braba! A peste bubônica – que ficou conhecida, na época como peste negra -  aterrorizou a Europa entre 1346 e 1353, quando matou quase um terço da população do continente. A doença causada pela bactéria Yersina pestis, encontrada em ratos é transmitida para os seres humanos por meio das pulgas dos roedores, e, quando as pulgas alojam-se em seres humanos, a transmissão acontece. A partir daí,um ser humano pode contaminar outro por meio das secreções do corpo e da via respiratória.

Os dois livros considerados verdadeiras bíblias sobre o assunto são: Um Diário do Ano da Peste de Daniel Defoe e A Peste, de Albert Camus. O primeiro teve a sua primeira publicação em 1722 e desde então, vem ganhando novas edições, sendo por isso, um dos livros mais vendidos, nas ultimas décadas, em todo o mundo.

A obra é uma reportagem sobre a epidemia de peste bubônica que varreu a Europa no Século 14. Defoe mistura realidade e ficção. Ele cria personagens e diálogos que recompõem um clima novelesco, mas sem deixar de registrar os fatos com o olhar apaixonado de um repórter.  

O livro é escrito em primeira pessoa com o narrador explicando os motivos que não o levaram a abandonar Londres no início da epidemia, como centenas de pessoas estavam fazendo. Os olhos do narrador fazem o papel dos olhos dos leitores que passam a conhecer o sofrimento de todas as pessoas atingidas pela peste terrível. Ele vai presenciando ou ouvindo de outras bocas o relato do avanço da doença em Londres.

Através da narrativa do personagem, o leitor se depara com pessoas saudáveis que são trancadas em suas casas com familiares doentes, mulheres que ficam uivando desesperadamente nas janelas de suas casas que foram marcadas com o sinal da peste, valas abertas onde os cadáveres eram simplesmente jogados, sem terem sequer um enterro cristão, pois ninguém se arriscaria a ser contaminado.

A Peste de Camus não fica atrás em termos de importância documental e vendagens. O livro publicado em 1947, logo após o fim da 2ª Guerra Mundial, voltou com tudo ao topo dos mais vendidos após sete décadas. Tudo isso “por culpa” da pandemia de coronavirus que levou um grande número de leitores em vários países a adquirir a obra.

A Peste conta a história da chegada da peste bubônica, à cidade argelina de Orã. O personagem principal é um médico, Rieux, que combate a doença até o momento em que ela se dissipa, depois de muitas mortes. O narrador descreve como a população reage, indo da apatia à ação, e como alguns se expõem a risco para enfrentar a disseminação da doença.

Há aproveitadores, como um personagem que lucra com um mercado paralelo de produtos. Os personagens do livro ajudam a mostrar os efeitos que o flagelo causa na sociedade.

Alguns críticos consideram A Peste uma metáfora dos horrores da Segunda Guerra Mundial. Camus é considerado um dos mais importantes e representativos autores do século XX. Prova disso é que conquistou o Prêmio Nobel de Literatura/Romance no ano de 1957.

02 – Gripe Espanhola

Período: De janeiro de 1918 a dezembro de 1920

Locais atingidos: Quase todos os países do mundo, incluindo o Brasil

Livros indicados: A Grande Gripe: A História da Gripe Espanhola, a Pandemia Mais Mortal de Todos os Tempos” (John M. Barry) e “A Bailarina da Morte: A Gripe Espanhola no Brasil (Lilia M. Schwarcz e Heloísa M. Starling)

No período de dois anos – entre 1918 e 1920 - a Gripe Espanhola infectou uma estimativa de 500 milhões de pessoas, cerca de um quarto da população mundial na época. Estima-se que o número de mortos esteja entre 17 milhões e 50 milhões, e possivelmente até 100 milhões, tornando-a uma das epidemias mais mortais da história da humanidade.

Durante a Primeira Guerra Mundial, os países aliados frequentemente chamaram a pandemia de "gripe espanhola." Isso ocorreu, principalmente, pois a pandemia recebeu maior atenção da imprensa na Espanha do que no resto do mundo, uma vez que o país não estava envolvido na guerra e não havia censura dos jornais. Na realidade, a gripe espanhola teve origem nos Estados Unidos, especificamente nos alojamentos das tropas americanas que seguiriam para a I Guerra Mundial.

O livro A Grande Gripe: A História da Gripe Espanhola, a Pandemia Mais Mortal de Todos os Tempos de John M. Barry, apesar de ter alguns trechos cansativos e na minha opinião, desnecessários – o qual discorrerei oportunamente numa resenha – é uma boa pedida de leitura. A obra aborda o tema de uma maneira mais centralizada nos Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha e mostra de maneira detalhada a origem da doença, como tudo começou e os seus reflexos em diversos setores da sociedade.

Em A Grande Gripe, Barry que é historiador e pesquisador da Universidade Tulane, na Louisiana, descreve os eventos que desencadearam o surto da temível gripe espanhola, mostrando os esforços da comunidade científica para combatê-la.

O autor narra como um surto que começou em uma unidade militar dos Estados Unidos foi capaz de parar a Europa durante a Primeira Guerra Mundial. Ele relata como a ciência correu contra o tempo para neutralizar o vírus e como a pandemia deixou 100 mil mortos em um ano.

Agora, os leitores que quiserem conhecer os reflexos da doença com um enfoque mais direcionado para o Brasil, eu recomendo o livro das historiadoras e pesquisadoras Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling.

A Bailarina da Morte: A Gripe Espanhola no Brasil é um minucioso relato sobre como a doença provocou sérios estragos em diversas capitais brasileiras (Recife, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Belém e Manaus), além dos equívocos para seu enfrentamento no Brasil oligárquico da Primeira República.

O título, soturnamente poético, é explicado pelo fato de a moléstia ter sido chamada também de dançarina “porque bailava e se disseminava em larga escala e porque o vírus deslizava com facilidade para o interior das células do hospedeiro e se alterava ao longo do tempo e nos vários lugares em que incidia”, explicam elas, no livro.

03 – Cólera

Período: 1853 a 1864 / 1855 a 1856

Locais atingidos: Inglaterra, Grã-Bretanha e Brasil

Livros indicados: “O terribilíssimo Mal do Oriente : O Cólera na Província do Espírito Santo” (Sebastião Pimentel Franco) e “O mapa fantasma: Como a luta de dois homens contra a cólera mudou o destino de nossas metrópoles” (Steven Johnson)

Entre 1853 e 1864, a epidemia em Londres, na Inglaterra, ceifou mais de 10.000 vidas e houve mais de 23.000 mortes em toda a Grã-Bretanha. Esta pandemia foi a que provocou mais mortos no século XIX.

No Brasil, de todos os surtos epidêmicos ocorridos na Província do Espírito Santo no século XIX, o que causou maior pavor à população local também foi a cólera, tanto pelo número de mortes, como pelo completo desconhecimento da doença e ainda pelo imaginário que ela causava à população.

A epidemia da cólera fez tantas vítimas na região, que foi preciso solicitar ao Imperador ajuda com alimentos, feita pelo Barão de Itapemirim. A quantidade de mortos por dia e os relatos de corpos esperando pelo sepultamento são amostras da situação caótica em que a região se encontrava.

O livro: O terribilíssimo Mal do Oriente: O Cólera na Província do Espírito Santo aborda em detalhes esse período complicado vivido pelo Brasil no Século XIX, mais especificamente pela Província do Espírito Santo. Lançado pela editora Edufes a obra - que é resultado da pesquisa de pós-dutorado do professor da Universidade Federal do Espírito Santo, Sebastião Franco - deixa evidente todas as implicações que a epidemia causou na sociedade naquela época, entre as quais uma significativa redução populacional, além de afetar toda a economia.

O autor revela que foram usados como fontes documentos produzidos pelo Estado, correspondências de moradores, relatórios médicos e jornais.  Ele comenta que “morriam pelo menos 60 pessoas num único dia e isso era desesperador”. A doença mudou os comportamentos sociais e econômicos.

Acredito que será muito difícil encontrar esse livro, lançado em 2015, no seu formato impresso, mas você não precisa ficar triste porque a obra está disponibilizada em pdf para os interessados. Basta acessar esse link.

Já o livro do escritor americano Steven Johnson discorre sobre a epidemia que ocorreu em Londres. A doença se espalhou pelos arredores da cidade em 1854, matando mais de 500 pessoas em apenas dez dias.

Desde então, dois homens iniciariam uma jornada em busca do mal causador da praga. Contra a mentalidade científica da época e a opinião geral, apontaram a água como o principal veículo transmissor. A partir daí, dejetos humanos e água potável passaram a seguir caminhos distintos. A descoberta mudou a história e possibilitou o desenvolvimento das grandes cidades. Esta obra pode ser encontrada na Amazon nos dois formatos: impresso e eBook.

04 – Varíola

Período: 735–737 / 1904

Locais: Japão e Brasil

Livro indicado: “A Revolta da Vacina” (Nicolau Sevcenko)

A varíola atormentou a humanidade por mais de 3 mil anos. O faraó egípcio Ramsés II, a rainha Maria II da Inglaterra e o rei Luís XV da França tiveram a temida “bixiga”. O vírus Orthopoxvírus variolae era transmitido de pessoa para pessoa, por meio das vias respiratórias. Os sintomas eram febre, seguida de erupções na garganta, na boca e no rosto. Felizmente, a varíola foi erradicada do planeta em 1980, após campanha de vacinação em massa, mas antes disso, muitos países penaram com a doença, incluindo o Brasil.

As duas maiores epidemias de varíola que se tem conhecimento aconteceram no Japão no período de 735–737, matando um milhão de pessoas e a de 1520 que foi um fator determinante para a queda do império azteca, fulminando 90% da população nativa americana. No Brasil, a epidemia deu as caras no inverno de 1904 e se abateu sobre a cidade do Rio de Janeiro. Somente naquele ano, cerca de 3.500 pessoas morreriam na capital federal vitimadas pela varíola.

O livro do historiador, professor universitário e tradutor brasileiro, Nicolau Sevcenko (falecido em 2014) conta como foi uma das revoltas mais violentas já ocorridas no Brasil e que ficou conhecida como “A Revolta da Vacina”.

Em meados de 1904, chegava a 1.800 o número de internações devido à varíola no Hospital São Sebastião, no Rio de Janeiro, então capital federal do País. Mesmo assim, as camadas populares rejeitavam a vacina, que consistia no líquido de pústulas de vacas doentes. Afinal, era esquisita a ideia de ser inoculado com esse líquido. E ainda corria o boato de que quem se vacinava ficava com feições bovinas.

No Brasil, o uso de vacina contra a varíola foi declarado obrigatório para crianças em 1837 e para adultos em 1846. Mas essa resolução não era cumprida, até porque a produção da vacina em escala industrial no Rio só começou em 1884. Então, em junho de 1904, Oswaldo Cruz motivou o governo a enviar ao Congresso um projeto para reinstaurar a obrigatoriedade da vacinação em todo o território nacional. Apenas os indivíduos que comprovassem ser vacinados conseguiriam contratos de trabalho, matrículas em escolas, certidões de casamento, autorização para viagens etc.

Após intenso bate-boca no Congresso, a nova lei foi aprovada em 31 de outubro e regulamentada em 9 de novembro. Isso serviu de catalisador para um episódio conhecido como “Revolta da Vacina”. O povo, já tão oprimido, não aceitava ver sua casa invadida e ter que tomar uma injeção contra a vontade: as pessoas foram às ruas da capital da República protestar.

Em seu livro, Sevcenko dá detalhes de como foi essa revolta e também da epidemia de varíola que assolou o Rio de Janeiro em 1904.

05 – Aids

Período: 1976 até hoje

Locais: No mundo todo

Livros indicados: “Depois Daquela Viagem” (Valéria Piassa Polizzi)

Identificado pela primeira vez na República Democrática do Congo, na África, o vírus da AIDS (HIV, ou vírus da imunodeficiência humana) foi provavelmente transmitido por macacos e já contaminou e levou a óbito mais de 38 milhões de pessoas desde que a primeira morte pela doença foi documentada, em 1981. A AIDS foi considerada a primeira pandemia do século XX, e sua transmissão ocorre exclusivamente por meio de fluidos corporais (sangue, sêmen e leite materno).

Depois Daquela Viagem de Valéria Piassa Polizzi é melhor do que qualquer livro técnico sobre o HIV. A narrativa prende a atenção do leitor que aprende detalhes importantes sobre essa pandemia sem precisar “encarar” aquelas explicações científicas que quase sempre são muito cansativas e cá, entre nós, enchem o saco de qualquer leitor.

Usando um tom coloquial próprio dos jovens, a autora relata com bom humor e descontração, a sua própria história, afinal, o livro é uma autobiografia.

As farras com a turma de amigos, a dúvida entre "ficar" ou namorar, o despertar da sexualidade, a angústia diante do vestibular e muitas coisas que atormentam qualquer adolescente são narradas de numa linguagem leve e fluida que conquista logo de cara o leitor. Tudo isso seria perfeitamente natural se não fosse por um pequeno detalhe que iria fazer uma enorme diferença: Valéria contraiu AIDS aos 16 anos porque, segundo ela mesma, "transei sem camisinha".

Neste livro, ela mostra como, de repente, por causa de quatro letrinhas, sua vida passou por uma reavaliação radical. Ela expõe, sem meias palavras, como a doença mexeu com sua cabeça e com os seus sentimentos.

Terminada a leitura, fica clara a sua resolução de preservar sua condição de ser humano a qualquer custo, ao mesmo tempo que se esforça por humanizar a todos os que cruzam seu caminho.

Depois daquela viagem é um livro triste e alegre, tocante e verdadeiro, um testemunho da coragem e da determinação de levar adiante a vida, apesar da AIDS.

Amigos meus já leram e adoraram o livro, por isso, recomendo para as pessoas que querem conhecer um pouco mais sobre essa epidemia que ainda assola a humanidade.

06 – Covid-19

Período: 2019 - 2021

Locais: No mundo todo

Livros indicados: “Coronavírus: Explorando a pandemia que mudou o mundo” (Atila Iamarino e Sônia Lopes) e “O Mundo pela janela” (Regina Drummond)

Em dezembro de 2019, um novo coronavírus foi descoberto em Wuhan, na China. Sua alta velocidade de propagação e numerosos casos de morte fizeram com que a Organização Mundial da Saúde declarasse status de pandemia à doença causada pelo vírus, batizada então de COVID-19 (do inglês Coronavirus Disease 2019).

As incertezas geradas pelo novo coronavírus levam governos do mundo todo a adotarem receitas divergentes e unilaterais, enquanto a pandemia transformava hábitos e assustava a humanidade. O que preocupa, em especial, é a capacidade de mutação dos coronavírus, o que já se comprova ser o caso deste covid-19, que já apresenta mutações em vários lugares do globo.

Para que você tenha uma ideia da letalidade da doença até ontem, o Brasil registrava perto de 3.076 mortes por Covid em 24 horas.

Os livros Coronavírus: Explorando a pandemia que mudou o mundo de Atila Iamarino e Sônia Lopes, e O Mundo pela janela de Regina Drummond abordam com perfeição esse momento difícil que estamos enfrentando. O primeiro para os adultos e o segundo, escrito especialmente para as crianças.

A obra com apenas 16 páginas da escritora Regina Drummond que é neta do grande mito da literatura brasileira Carlos Drummond de Andrade

Retrata a pandemia em versos repletos de sutileza. O coronavírus, por exemplo, é descrito como uma turma de monstrinhos que prendem as crianças em casa enquanto fazem a festa lá fora.  Os versos refletem sobre como lidar com a tristeza que pode ser causada pelo isolamento. As ilustrações são da artista Thais Linhares. Tenho certeza de que as crianças irão aprender muitos detalhes importantes sobre o coronavirus de uma maneira leve e fluida.

Por sua vez, Coronavírus: Explorando a pandemia que mudou o mundo que traz informações sobre o que entendemos até o momento a respeito da Covid-19 e do seu vírus, o SARS-CoV-2. O livro explica também, em detalhes, como o corpo humano funciona e reage a essa infecção; como as vacinas foram desenvolvidas e como funcionam; de que maneira a pandemia se espalhou pelo mundo; como entrou e se espalhou no Brasil; e quais foram os grupos mais afetados.

A obra ainda fala sobre algumas pandemias do passado da humanidade, observando como foram percebidas e comunicadas, e a forma pela qual estamos comunicando a Covid-19.

Voltado para estudantes e professores, além de demais interessados no tema, o livro propõe atividades que envolvem análise, interpretação, discussão e compreensão dos dados.

Taí galera, espero que essa postagem tenha sido de interesse para os leitores que querem saber um pouco mais sobre as pandemias que assustaram a humanidade ao longo de décadas.

Valeu!

 

Nenhum comentário