22 junho 2024
Uma analogia: Ulisses e os aposentados por invalidez com menos de 55 anos
Ontem, quando li uma reportagem nas redes sociais – o
assunto foi publicado em diversos portais – fiquei descrente, desgostoso e
porque não, um pouco revoltado com o nosso governo. Antes que me rotulem de
lulista ou bolsonarista quero esclarecer que sou apartidário e quando uso o
termo “governo” me refiro ao conjunto de parlamentares que cuida de nosso País,
ou seja, dos nossos três presidentes: da República, do Senado e da Câmara. Uma
lei antes de ser implantada tem que passar pela chancela das três “figuras” que
ocupam essas cadeiras. Sendo assim, um não vive sem o outro. Vou mais além,
quando ‘digo’ decepcionado com o governo, me reporto a um sentido mais amplo da
palavra ‘governo’ que atinge aproximadamente 12 anos ou três sucessões. Esta
decepção se restringe a duas palavrinhas ou melhor, três: “Reforma da
Previdência”. Três palavrinhas que ferraram de cabo a rabo a vida dos
aposentados, principalmente dos aposentados por invalidez e mais principalmente
ainda, dos aposentados por invalidez com menos de 55 anos.
Cara, o sujeito já está aposentado; o médico perito,
seja ele administrativo ou judicial, constatou que o segurado não tem mais
condições de voltar ao trabalho. Não dá, isso é definitivo. Se voltar, ele
morre ou coloca a sua segurança e a de outras pessoas em risco. Não se trata de
um auxilio doença, mas de aposentadoria. Então, chega o Sr. Michel Temer com a
sua “famosa” reforma e cria um termo chamado aposentadoria por incapacidade
permanente que obriga esse aposentado a passar por perícias médicas periódicas e
também enfrentar temíveis pentes finos do INSS. Na sequência, chega o Sr.
Bolsonaro e sacramenta a proposta de Temer. E, por último, quando a maioria
acreditava que após a chegada de Lula ao Poder, os aposentados com menos de 55
anos poderiam, enfim, respirar; ele joga a pá de cal em cima da categoria
convocando para o mês de julho, um novo pente fino com o objetivo de economizar
cerca de R$ 30 bilhões no orçamento público como se esse grupo de aposentados
tivesse culpa do déficit. E, assim, lá vai os aposentados por invalidez novamente
para a forca. Portanto a culpa não é só de um governo, mas de todos eles, como
se eles estivessem agindo em conjunto. Eu, pelo menos, entendo dessa maneira.
E como esse espaço se trata de um blog literário
gostaria de fazer uma analogia dos aposentados por invalidez que tenham menos
de 55 anos com o famoso herói da mitologia grega Ulisses, conhecido também por
Odisseu. Ele é o herói que domina o poema “Odisséia” de Homero, com sua figura
corajosa e ao mesmo tempo sofredora.
Os deuses do Olimpo, especificamente, Poseidon –
conhecido na mitologia grega como o deus dos mares - fez com que Ulisses
sofresse horrores em seu retorno a Ítaca, sua Terra Natal. O herói enfrentou
todos os tipos de dissabores: sereias mortais, monstros marinhos, selvagens
carnívoros, feiticeiras dissimuladas, um ciclope antropófago e finalmente um
grupo de guerreiros glutões que queriam roubar a sua esposa, a bela Penélope.
Na minha analogia, Ulisses representa os aposentados
por invalidez; Poseidon é o governo; e finalmente, os adversários do herói - sereias,
ciclopes, monstros e o escambau a quatro - são os parlamentares que apoiaram no
passado e continuam apoiando, hoje, a tal reforma previdenciária. Incluo também
nesse rol, alguns médicos peritos que se consideram donos da verdade e deixam
de analisar os exames e demais provas apresentadas pelo periciado, simplesmente,
indeferindo o seu pedido de maneira aleatória e irresponsável.
Em sua Odisseia, somente dois personagens ajudaram
Ulisses em seu sofrimento: a deusa Atena e também Alcino, rei dos Feácios e pai
da princesa Nausicaa. A primeira sempre encontrava meios de socorrer o herói
grego dos ataques de Poseidon e de seus inimigos. O segundo, ajudou Ulisses a
regressar a Ítaca.
Na semana passada, eu até pensava que o senador
petista Rogério Carvalho representasse uma fusão desses dois personagens
considerados aliados de Ulisses mas há poucos dias, mudei a minha opinião
quando o parlamentar que é o relator do Projeto de Lei 5332 – que acaba com as
perícias revisionais e pentes finos de todos os segurados que já são
aposentados por invalidez – simplesmente faltou na sessão do Senado onde
deveria ler e defender o seu relatório em prol dessa categoria.
Agora, enquanto escrevo esse post, fico pensando com
os meus botões se nos próximos dias, semanas ou meses surgirá alguma deusa
Atena ou rei Alcino na vida dos aposentados por invalidez, principalmente
daqueles com menos de 55 anos.
A pá de cal foi jogada em cima desses aposentados –
muitos deles, certamente, votaram no atual governo acreditando em suas
promessas – vamos torcer, agora, para que algum aliado venha salvar Ulisses,
novamente.
Ah! E por “falar” em Ulisses, acabei de ler O Regresso, segundo e último volume da
duologia Meu Nome é Ninguém que
retrata as peripécias de Odisseu. No próximo post, prometo que publico a
resenha da obra
Até lá.
17 junho 2024
Carro possuído e motorista assassino: King e Spielberg arrebentaram em “Christine” e “Encurralado”
Tudo bem, entendo perfeitamente que tenho um blog
literário e por isso tenho o dever de escrever assuntos relacionados à livros e
não à filmes, mas a galera há de concordar comigo que todas as vezes que abordei
temas ligados a produções cinematográficas, eles estiveram diretamente ligados
a obras literárias; assim, acho, que estou cumprindo o meu juramento (rs). Como,
por exemplo, nesta postagem em que estarei “falando” de dois filmes que
marcaram a minha infância e também a minha adolescência. Estes dois filmes
estão associados diretamente a um dos meus escritores favoritos: Stephen King.
Por isso, creio que não estarei fugindo tanto do tema livros/escritores.
Os nomes dessas duas pérolas cinematográficas, pelo
menos para mim, são: “Encurralado” e “Christine, O Carro Assassino”. Não sei
porque, hoje pela manhã, acordei com esses dois filmes na cabeça e graças a
eles consegui fazer uma gostosa viagem ao tempo da minha infância/adolescência,
dois períodos mágicos de minha vida. Estas duas pérolas fizeram com que eu me
recordasse dos meus amigos de juventude – muitos dos quais já não estão mais
aqui – das nossas farras, peraltices, papos e também do saudoso Cine São
Salvador, hoje fechado e abandonado, onde assisti a esses dois filmes.
Depois fiquei sabendo que tanto “Encurralado” quanto
“Christine, O Carro Assassino”, estão intimamente ligados ao mestre do terror
Stephen King. Tio King classificou o primeiro como um dos melhores filmes que
já assistiu em toda a sua vida; e olha que ele tem várias adaptações de seus
livros para o cinema que se tornaram verdadeiros clássicos. Quanto ao segundo,
nem é preciso dizer que foi uma adaptação de uma obra sua lançada no mesmo ano
do filme, em 1983.
Assisti “Encurralado” quando tinha 11 ou 12 anos de
idade no Cine São Salvador. Meu irmão mais velho era um cinéfilo de primeira
mão e geralmente sempre me levava para assistir alguns filmes dos quais
gostava. “Encurralado” foi um deles. Apesar do enredo um tanto pesado para a
minha idade, eu conseguia “driblar” o porteiro com a ajuda do mano. Cara,
adorei o filme! Tenso, tenso e tenso. Filmaço. Fiquei sabendo que “Encurralado”
foi feito originalmente para a televisão e além do mais o filme foi
surpreendentemente produzido em somente 13 dias! O mesmo número de dias que
algumas produções cinematográficas de hoje levam para gravar apenas uma cena.
Apesar disso, o filme dirigido por Steven Spielberg –
um cineasta ainda desconhecido, na época - foi considerado um baita sucesso,
obtendo nota máxima concedida pela maioria dos críticos. Entre o público geral,
o Rotten Tomatoes o classificou com quatro estrelas e meia de um total de cinco
estrelas. Já o IMDB o classificou como quatro de cinco estrelas, com a votação
de quase 60 mil membros. Fez tanto sucesso que menos de um ano depois foi lançado
também nos cinemas. O filme é considerado o primeiro longa-metragem dirigido
por Spielberg.
“Encurralado” conta a história de um simples motorista
vivido por Dennis Weaver que está dirigindo seu carro pelas estradas da
Califórnia, quando começa a ser perseguido por um caminhão gigantesco, dirigido
por um homem não identificado, que parece querer brincar com ele perigosamente
na estrada. No decorrer do trajeto, o personagem de Weaver começa a perceber
que a perseguição não trata-se, apenas, de uma mera brincadeira. A medida em
que as provocações do misterioso caminhoneiro atingem níveis mortais, o pacato
motorista procura desesperadamente despistar o seu torturador, que parece não
ter nenhum compromisso naquele dia a não ser matá-lo. Caráculas com o torci por
esse pobre motorista interpretado por Dennis Weaver!
Até hoje não sai da minha cabeça que esse filme daria
um excelente livro escrito por Stephen King, quem sabe, talvez, se não foi por
isso, que ele gostou tanto dessa produção.
Ah! Lembrando que “Encurralado” se passa totalmente
numa estrada sem outras tomadas.
Doze anos depois, já nos meus 21 ou 22 anos, fui
premiado com “Christine: O Carro Assassino”, outro filme ligado a King e que
foi adaptado de um livro seu lançado também 1983, mesmo ano do filme. Assisti a
produção também no saudoso “Cine São Salvador”, da Empresa Teatral Pedutti, de
Botucatu, hoje transformado num depósito abandonado. Na época, pensei como uma
história tão simplória e ao mesmo tempo tão inverossímil de um adolescente
tímido que consegue comprar o seu primeiro carro e descobre que ele age como um
ser humano, diga-se, um ser “ser-humano mulher” e do mal, poderia se
transformar num filme tão comentado e assistido. Hoje entendo o motivo: quando
dois gênios se juntam, o resultado só pode ser ‘sucesso’ em qualquer setor; e
“Christine: O Carro Assassino” conseguiu juntar dois gênios, já naquela época,
um da escrita e outro do cinema: Stephen King e John Carpenter. Dessa união de
gênios nasceu o filme Christine. Um enredo esquisito que nãos mãos de outras
pessoas poderia transformar a história desse jovem e sua estranha aquisição em
algo risível ou xôxo, mas graças a união dessas duas feras, acabou resultando
num filme claustrofóbico e assustador.
Agora pare e pense de que maneira um livro ou um filme
sobre um personagem, tímido e sem muitos atrativos que “se apaixona” à primeira
vista por um Plymouth Fury 1958 vermelho que está à venda, esquecido no jardim
de uma casa, poderia “virar” alguma coisa aproveitável? Acrescentando o mote absurdo
de que esse carro também poderia se apaixonar pela tal rapaz tímido e sem
atrativos? Pois é, King e Carpenter conseguiram fazer com que esse enredo
absurdo se tornasse um livro e um filme de terror antológicos.
Se você leu esse post até o final, acredito que tenha
se interessado por esse livro de King e pelos filmes de Spielberg e Carpenter.
Assim... mãos a obra!
13 junho 2024
Mulheres de médicos
Gostei tanto de Médicos em Perigo de Frank G. Slaughter que resolvi ler Mulheres de Médicos do mesmo autor. O livro chegou até mim junto
com muitos outros num lote de obras literárias que ganhei de um colega dos
tempos de universidade. Lembrando que este lote chegou até as minhas mãos
também nos tempos de universidade.
O Marcos César gostava muito de livros de ficção
científica do Ray Bradbury e certo dia, há ‘muuuuitos’ anos, me deu uma caixa
com várias obras de ficção, a maioria de Bradbury, mas entre elas haviam alguns
livros de Slaughter, entre os quais Mulheres
de Médicos, ou seja, um estranho no ninho.
Li alguns do Bradbury, entre os quais F de Foguete e E de Espaço (aliás, estou em dívida com essas duas resenhas) e há
algumas semanas, enquanto (adivinhem... limpava as minhas estantes) vi num
cantinho onde coloco alguns livros, cujos enredos não me despertam muito o
interesse, Mulheres de Médicos.
Percebi que o autor era o mesmo que havia escrito Médicos em Perigo e assim, decidi dar uma chance para a história,
mas após concluir a leitura cheguei a conclusão que o seu conteúdo não supera
e... nem empata com Médicos em Perigo.
Não estou querendo dizer que o livro é ruim, nada disso; mas apenas que se
trata de uma história razoável, mediana. Daquelas que você engata uma primeira
marcha na leitura e segue; podendo até mesmo “puxar” uma segunda, mas nem
pensar numa terceira, quarta e muito menos numa quinta marcha. E já que estou
fazendo uma analogia com marchas de veículo, posso afirmar que a leitura de Mulheres de Médicos também se encontra
numa distância considerável do ponto morto, onde o carro fica parado, apenas
com o motor funcionando.
A história não tem plot twists interessantes nem uma
história que prende por completo a atenção dos leitores como Médicos em Perigo, mas o seu enredo é
fluido e algumas situações conseguem fazer com que os leitores não desviem o
foco do enredo.
Comecei a ler o livro pensando se tratar de um
suspense, mas depois, enquanto avançava na leitura fui descobrindo que se
tratava de um drama com pitadas consideráveis de romance e bem caliente. No enredo,
a esposa de um médico muito conceituado que trabalha num tranquilo, mas
conceituado hospital, trai o seu marido com outros médicos casados que também
trabalham nesse hospital. Para não estragar a história com spoilers, vou dizer
apenas que o médico traído descobre a infidelidade de sua mulher e esse escândalo
acaba transformando a melancólica e monótona comunidade médica e universitária
num verdadeiro caldeirão de inquietações.
Já alerto que a história tem muitas explicações
técnicas envolvendo a rotina de um hospital como cirurgias, exames e o dia a
dia de médicos e enfermeiros que são descritos em detalhes. Para aqueles
leitores que gostam, sem dúvida, será um prato cheio. Por outro lado, o enredo com
um grande número de personagens pode deixar a leitura confusa em algumas
partes, mas nada que atrapalhe. Talvez, incomode; mas atrapalhar, não.
Para quem não sabe, Frank G. Slaughter é o pseudônimo de
C.V. Terry que além de romancista também foi um médico americano. Nem preciso
explicar o porquê de seus livros que venderam mais que 60 milhões de cópias,
abordem apenas temas ligados à área médica.
Mulheres de Médicos foi publicado originalmente em
1967, mas de lá pra cá ganhou várias reedições através da Record, Nova Cultural
e a mais recente lançada pela BestSellers em 1985.
Aqueles que quiserem arriscar a leitura encontrarão o
livro por preços módicos nos sebos.

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