Cujo

15 dezembro 2017
Stephen King disse em uma entrevista publicada à revista “The Paris Review” e que foi reproduzida como bônus no final de “Cujo” – edição capa dura  relançada pela Suma de Letras - que o livro que escreve deve ser uma agressão pessoal, como alguém pulando por cima da mesa e agarrando e intimidando o leitor. “Cujo” é assim. A história do cão da raça São Bernardo chamado Cujo – antes dócil e pacato, mas que ao ser mordido por um morcego infectado com raiva, adquire a doença e se transforma numa fera selvagem e assassina, transformando a vida dos moradores da pacata Castle Rock num verdadeiro inferno -  se encaixa perfeitamente nessa categoria.
O livro é tenso  ao limite do tenso – não querendo exagerar no pleonasmo. Se pudesse defini-lo, diria que se trata de uma história chapada. Daquelas que deixa o leitor ligado na tomada 220 volts durante toda a trama, grudado, nem percebendo que está virando as páginas do livro.
Os  ataques do São Bernardo enraivecido são capazes de ‘derrubar’ muitos leitores sensíveis a sangue e dilacerações. King faz questão de descrever em detalhes esses trechos. “A Fera tinha arrancada as suas entranhas... os intestinos escorriam pelos seus dedos”. “Ele olhou para baixo e viu o tubo grosso e cinzento do intestino de projetando para fora da camisa esfarrapada”.
C-a-r-a-c-a!!! Mil vezes Arghhhhhhhhhhhhhh!! Os ataques brutais da fera são fod... Arrepia, de fato. Mas o livro não fica restrito somente às cenas violentas. Tanto é, que o autor só vai focar na ação predatória de Cujo à partir da página 130 do romance. Antes, ele apresenta aos leitores os personagens envolvidos na trama e os seus dramas pessoais. Tem o casal que apesar de se amar muito, enfrenta uma crise séria no casamento, com direito a puladas de cerca, agressões verbais e arrependimentos; a mulher submissa ao marido violento e ignorante, mas que de repente decide tomar uma decisão drástica e inesperada em sua vida; o soldado condecorado na guerra que após várias decepções decide se entregar ao vicio do álcool; o garotinho que acredita existir um monstro no guarda roupa de seu quarto; e etc e etc.
Além dos personagens interessantes, as sub-tramas do enredo também prendem atenção dos leitores, como a luta dos dois publicitários para manter em sua agencia a conta de uma grande empresa após o fiasco envolvendo o lançamento de um produtos. Há ainda, a história de Frank Dodd, o xerife de Castle Rock, que foi assassinado. King, inclusive, insinua que Cujo talvez tenha sido possuído por Dodd. Por isso, antes do leitor chegar ao clímax da história tem ainda muitas surpresas pela frente.
Meu amigo, quanto ao desfecho da história, literalmente arrebenta. Prepare os seus nervos para o duelo final entre o cão raivoso e um dos personagens centrais.
Evitando os spoilers, só posso dizer que o “The End” foi bem realista e inesperado. Jamais passava pela minha cabeça que tal personagem fosse enfrentar a fera (acreditava que fosse outro, completamente diferente, aliás King conduzia o leitor para isso, mas então, vem a reviravolta), mas como estamos falando do ‘mestre do terror’, essas quebras de protocolo no roteiro acabam sendo consideradas ‘normais’.
Ah! Antes que me esqueça. O final do livro é completamente diferente do filme de 1983. Achei o desfecho da obra escrita bem mais chocante e realista. Até me deixou com uma baita ressaca literária durante alguns dias.

Só posso dizer: livraço!

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