O Médico e o Monstro (O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde)

Fico imaginando a expressão de surpresa dos devoradores de livros europeus e americanos do século XIX ao concluírem a leitura de “O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde” que décadas depois seria lançado no Brasil com o título de “O Médico e o Monstro”. Temos que entender que na época da publicação do romance de Robert Louis Stevenson, o enredo envolvendo um médico distinto e educado que após beber uma poção acaba se transformando num ser bestial e violento era inédito, ou como queiram completamente virgem de spoilers. E a magia da obra do escritor escocês está justamente no mistério que envolve os dois personagens: Dr. Jekyll, o bonzinho, e Mr. Hyde, o sujeito mau.
O leitor só irá descobrir que os dois são um só perto do final do livro – antes que me excomunguem por ter revelado um spoiler fatal, lembrem-se que a essência da história de Stevenson, incluindo o seu final, já se tornou conhecida por milhares de pessoas em todo o mundo – através de duas epístolas escritas por Jekyll e seu amigo Dr. Lanyon; este último, inclusive, após presenciar ‘cara a cara’ a transformação de Mr. Hyde acaba perdendo a razão, mas antes disso, ainda consegue escrever uma carta.  
Enquanto essas cartas não são reveladas, os leitores acreditam piamente que Jekyll e Mr. Hyde são duas pessoas distintas que mantém um relacionamento misterioso e submisso. Quem não conhece o romance, com certeza, irá questionar os motivos que levam o Dr. Jekyll a ser tão subserviente com Mr. Hyde. E então, nas páginas derradeiras é revelado o ‘grand finale’ que deixa todos de queixo caído. Uma sacada e tanto de Stevenson.
Mas a obra-prima do autor não se resume apenas a esse ‘grand finale’. Longe disso. “O Médico e o Monstro” foi  uma obra pioneira no século XIX ao abordar o Transtorno Dissociativo de Identidade conhecido popularmente como “Dupla Personalidade”. Esta condição mental em que um único indivíduo demonstra características de duas ou mais personalidades ou identidades distintas, cada uma com sua maneira de perceber e interagir com o meio, só passou a ser abordada em livros, novelas e filmes ‘uma légua’ de anos depois. Podemos dizer que Stevenson foi o grande desbravador do tema. Ele teve coragem suficiente para adapta-lo numa história de ficção em uma época não muito propícia para esse tipo de abordagem.
Acredito que “O Médico e o Monstro”, mesmo discretamente, serviu de inspiração
para outros trabalhos no cinema, literatura e televisão, entre os quais: “Vestida para Matar” (Brian de Palma), “A Janela Secreta” (David Koepp), “Instinto Secreto” (Bruce A. Evans), “Irmãos Coragem” (novela da extinta TV Tupi), “Conte-me Seus Sonhos” (Sidney Sheldon), entre tantos outros.
Em 1886, o impacto do romance escrito por Stevenson foi tanto que se tornou parte do jargão inglês, com a expressão "Jekyll e Hyde" usada para indicar uma pessoa que agia de forma moralmente diferente dependendo da situação.
“O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde” foi um sucesso imediato e uma das obras mais vendidas do autor escocês. Adaptações teatrais começaram a ser encenadas em Londres um ano após o seu lançamento.
O aclamado autor de literatura de terror, Stephen King considerou a obra um dos três grandes clássicos do gênero, sendo os outros dois: “Frankenstein” (Mary Shelley) e “Drácula” (Bram Stoker).
Gostei muito do livro. O autor mescla investigação criminal com outros elementos como terror e suspense. Mesmo já sabendo o que aconteceria no final, as páginas de “O Médico e o Monstro” conseguiram prender a minha atenção.
A escrita de Stevenson é perfeita e o enredo transcorre de uma maneira tão natural que sem perceber, você já se vê envolvido – ou melhor, mergulhado até as profundezas – da trama. Cara, não sei como existem pessoas que ainda criticam o texto do sujeito, chamando-o de simplório. Mêo, menos né?!
A composição dos personagens também é perfeita, principalmente Mr. Hyde, muito diferente do monstrengo dentuço e peludo do filme de 1931 ou então daquela bizarrice em que John Malkovich se transformou no final de “O Segredo de Mary Reilly”, produção cinematográfica de Stephen Frears de 1996. Stevenson criou um Mr, Hyde que provoca calafrios, mas sem mudanças drásticas em sua aparência. Ele é a verdadeira essência do mal - tanto é que nenhuma pessoa consegue ficar muito tempo ao seu lado, pois já começa a se sentir mal e apavorada. Pois é, o Hyde idealizado pelo autor consegue transmitir essa aura de medo e mal estar sem, contudo, ser um monstro em sua aparência.
No romance, um respeitado médico, dr. Jekyll, faz pesquisas para entender os impulsos e os sentimentos humanos mais profundos e a acaba por criar uma droga que libera o seu lado mais primitivo e animal. Dessa maneira, ele assume a forma de Mr. Hyde. 
Se Jekyll é um médico educado e dedicado à pesquisas que visam o bem-estar geral através do conhecimento, a “monstruosidade” de Hyde está, essencialmente, em sua entrega aos prazeres e à luxúria como um fim em si, por quaisquer meios, incluindo a força física e até mesmo tortura e morte.
Devorei as 112 páginas do livro num piscar de olhos.

Inté!

13 comentários

  1. eu descordo com a primeira parte de os devoradores de livros,acho que não foi uma surpresa pois o frankenstein fora lançado muito antes então meu discordo,



    lucas dalalibera
    9/9/2017

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  2. Eu concordo pois tudo que está dizendo é verdade, porque o doutor jekyll é uma boa pessoa e o Hyde é a parte má dele

    Gustavo costa

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  3. Discordo da primeira parte do seu texto,por que já existiam algumas obras de terror antes desse ser lançado,os dois personagens que você citou também (Hyde e jekill) eu vou ter que concordar,pois jekill é um bom homem,como apresentado no livro e Hyde a parte ruim dele. Quando você cita a dupla personalidade e sim,o livro causa arrepios e suspense,eu recomendo.
    Izabelle Freitas,31/10/2019

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  4. Discordo da parte em que você diz que o livro abalou quando foi lançado no século XIX, pois antes dele o público já tinha visto algo envolvendo o suspense e o terror na obra Frankenstein, e concordo na parte em que você diz que os personagens são perfeitamente desenvolvidos principalmente Dr Jekyll e Mr Hyde que no caso são a mesma pessoa, a dupla personalidade é explorada de forma que no começo do livro, você acha que são pessoas totalmente diferentes.

    Juan Gabriel, 11/11/2019

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    1. Sem dúvida, Frankenstein e O Médico e o Monstro são dois marcos da literatura de terror, mas no meu caso, achei a obra de Stevenson mais perturbadora. Acredito que muitos leitores do século XIX também se sentiram assim. No final, tudo se resume a uma questão de gosto.
      Grande abraço!!

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  5. 17/11/2019.
    Concordo com a opiniao do autor. O Médico e o Monstro tem uma trama relativamente simples, embora não menos apreciável. O suspense que o envolve ainda é capaz de prender o leitor mesmo passadas tantas décadas desde o ano de sua edição,1886. A leitura é fácil e interessante e nos impulsiona a refletir sobre a dualidade da personalidade humana.
    Grande abraço!
    Tiago Dias.

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  6. Eu discordo da primeira parte que você diz que esse livro fez muito sucesso no século XIX por que já existiam obras de suspense e terror como o Frankenstein e o Drácula. Concordo na parte que você diz que ele inovou com o tema de "dupla personalidade".
    Adrielly Evelyn, 25/11/2019

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  7. Eu vou ter que discordar com a primeira parte de sua resenha, que o livro abalou ao ser lançado no século XIX, pois antes de "O Médico e o Monstro", já haviam obras como Frankenstein que já exploravam o universo dos avanços tecnológicos e científicos da época.Mas por outro lado, o tema "Dupla Personalidade" realmente foi bem explorado por Stevenson, de forma tão vasta e discreta que os leitores vieram a descobrir que dois eram somente um apenas ao final da narrativa.
    Maria Luiza, 26/11/2019

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    1. Olá Francisco :)
      De fato, constatei em vários comentários nessa postagem que um número significativo de leitores discordaram da minha colocação. Respeito todas essas opiniões. Que bom que houveram essas discordâncias, pois assim, podem surgir os debates, e todos os debates - desde que respeitem os pontos de vista contrários são proveitosos. Veja bem, eu fiz essa afirmação, ou seja, de que o romance de Stevenson abalou as estruturas ao ser lançado no século XIX porque o achei mais perturbador do que Frankenstein. Foi a minha opinião, digamos ótica pessoal, mas também entendo que naquela época, outras pessoas também tiveram opinião semelhante ao considerarem a leitura de "O Médico e o Monstro" mais incômoda (no bom sentido) do que o excelente romance de Mary Shelley. Inclusive, já li diversos blogs, resenhas que consideram "O Médico e o Monstro" o romance de terror mais perturbador do século XIX. Como já disse, tudo se resumo numa questão de gosto... pessoal.
      Grande abraço!!

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  8. Li esse livro em: março de 2020. Em minha opinião, o ponto de vista do autor do blog em relação ao livro ser um tema inédito de suspense (dupla personalidade), apenas tendo como antecessor famoso o livro “Frankenstein” no ano de 1823 é correto. Imagino que as pessoas do século XIX não estavam familiarizadas com esse tema e por isso foi um grande sucesso.
    Achei interessante o autor do blog citar que o livro serviu de inspiração para outros trabalhos de artes: cinema, literatura e televisão.
    E foi praticamente um tiro no escuro a premissa desse livro, acabou dando certo pois o livro ficou conhecido internacionalmente. Também estou de acordo com a opinião do autor sobre a composição dos personagens feita por Stevenson, ele foi ótimo.
    Outro ponto com que concordo: as reviravoltas foram algo realmente inesperadas, principalmente a revelação que Hyde e Jekyll são a mesma pessoa. Achei o livro impressionante e intrigante, adorei lê-lo. Recomendo a leitura!

    João Antonio Favilla Hey

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    1. Perfeito, José Antônio. Você entendeu exatamente o que eu quis dizer na postagem. "O Médico e o Monstro" foi, de fato, um romance pioneiro na abordagem do Transtorno Dissociativo de Identidade. Pelas suas outras observações, creio que lemos o mesmo livro.
      Grande abraço!

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  9. Concordo que o enredo da história é bem elaborado, fazendo-nos ficarmos lendo até a última linha do livro.
    Mas já haviam obras que abordavam o tema da dualidade, como Frankenstein.

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