domingo, 22 de setembro de 2013

O Silêncio dos Inocentes



Me responde uma coisinha. Você se lembra qual foi o livro considerado a pedra filosofal de sua estante ou biblioteca? Aquele que representou o começo de tudo, tal como o Gênesis na Bíblia? Pensou? E aí? Estou fazendo essa pergunta porque dou uma importância enorme ao livro que é considerado o abre-alas da minha estante. Afinal de contas, ele foi o responsável pela criação de ‘uma tal’ amada sala de leitura que é o espaço mais adorado da casa desse blogueiro.
Quando comprei “O Silêncio dos Inocentes”, há mais de uma década e meia, creio que em 1998, já tinha assistido e adorado o filme de Jonathan Demme. Gostei tanto da produção cinematográfica que fiquei curioso para saber se havia muita diferença entre as histórias das telas e das páginas. Para matar essa curiosidade comprei correndo o livro de Thomas Harris, mas com a quase certeza de que jamais iria superar a adaptação dirigida por Demme. Bem, emprestando um jargão popular do Kid Tourão, posso dizer que “cai do cavalo” porque, no final, acabei achando o livro bem melhor do que o filme.
A obra de Harris é profunda, completa em todos os detalhes. A origem, os vícios, virtudes, medos, conflitos, maldades e insegurança dos personagens são explorados à exaustão pelo autor.
É evidente que a galera sabe que ler é diferente de assistir uma história. Os livros nos dão um panorama amplo da história e de seus personagens, dissecando-os ao máximo, afinal de contas, as editoras não impõem um limite de páginas a serem escritas por autores conhecidos. A orientação dada pelos executivos editoriais deve ser mais ou menos essa: “Meu filho coloque no papel tudo o que quiser, desde que venda muito; muito mesmo”. Portanto, é dada aos autores a oportunidade de explorar um amplo horizonte e da maneira que ele quiser. Já a sétima arte, restringe, tolhe, corta e poda a história. O pobre do diretor ou roteirista de uma película tem que espremer em uma hora e meia ou duas que seja, uma história de 500, 800 ou até mil páginas!
É claro que a saga de Lecter nos livros e também nos cinemas não foge desse contexto. Harris teve toda a liberdade do mundo para “brincar” com o seu enredo e personagens, enquanto Demme deve ter suado sangue para resumir uma história tão detalhista e bem escrita por Harris. Vale lembrar que Demme, além de diretor também adaptou o roteiro juntamente com Ted Tally.
Em “O Silêncio dos Inocentes” é possível perceber o quanto a história foi enxugada para caber em quase 120 minutos de película; 118 para ser exato. Cara, muita coisa boa ficou de fora! Vejam bem, não estou cometendo a heresia de criticar o filme, só estou dizendo escrevendo que o livro é melhor; simples assim. E porque é melhor? Porque é mais completo, completo ao extremo. A obra de Harris conta com personagens muito emblemáticos e que precisam ter as suas origens vasculhadas, fuçadas, enfim, reviradas de ponta de cabeça, para que os leitores possam curtir ao máximo o enredo no qual eles estão inseridos. E isso não acontece no filme, ou se acontece, ocorre de modo muito superficial.
Quer um exemplo? Ok, vamos lá. Búffalo Bill. O psicopata assassino de jovens mulheres que é caçado pelo FBI com a ajuda do Dr. Lecter tem o seu perfil praticamente desprezado no filme. Já no livro, tanto Búffalo Bill quanto os outros personagens tem as suas vidas passada e presente muito bem exploradas. Na obra literária de Harris podemos ver um relato completo de como Búffalo Bill acabou se tornando um perigoso serial killer. O autor invade a intimidade do assassino, mostrando todos os seus “podres”, o que já não acontece no filme.
As personagens agente Starling; senadora Ruth Martin; a sua filha Catherine Martin e o agente especial, Jack Crawford, também tem as suas vidas expostas pelo autor, fazendo com que o leitor se familiarize com os personagens, conhecendo suas origens, jeitos e trejeitos. No livro, temos um perfil psicológico de Catherine e de sua mãe Ruth; conhecemos um segredo familiar de Crawford envolvendo a sua esposa; passamos a ter contato com a infância e adolescência detalhada de Clarice. São detalhes importantes que foram abordados apenas superficialmente no filme, deixando esses coadjuvantes de luxo meio que sem sal e açúcar.
Costumo dizer aos meus amigos que se eles quiserem conhecer à fundo todos os personagens – sejam eles principais ou secundários – do filme “O Silencio dos Inocentes”, simplesmente leia o livro; fácil assim. A exceção fica com Hannibal Lecter que tem muito pouco ou quase nada de seu passado explicado tanto no livro quanto no filme. Por ser o segundo livro de uma trilogia (naquela época, Harris pretendia escrever somente três livros), “O Silencio dos Inocentes” omite essas informações, sendo que o autor deixou para relatar alguns detalhes sobre a juventude do personagem no livro “Dragão Vermelho”, o primeiro da saga.
Autor Thomas Harris
Para aqueles que desconhecem o enredo de “O Silencio dos Inocentes” – o que acho quase impossível, já que de cada 10 pessoas, pelo menos, mais da metade assistiram ou leram a história – Harris escreve sobre cinco mulheres que são brutalmente assassinadas em diferentes localidades dos Estados Unidos. A situação se complica quando o serial killer conhecido por Búffalo Bill, seqüestra a filha de uma influente senadora do Estado do Tennessee. Para chegar até o sanguinário assassino, uma jovem treinada pelo FBI, Clarice Starling recebe a missão de entrevistar o Dr. Hannibal Lecter, um brilhante psiquiatra que no passado tinha o hábito de matar e comer alguns de seus pacientes, digamos que aqueles que não apresentassem uma evolução clinica satisfatória ao seu tratamento. Lecter concorda em traçar um perfil psicológico de Buffalo Bill, desde que Clarice também concorde em passar por uma espécie de consulta psiquiátrica com ele, revelando detalhes de sua infância. Desta maneira, a agente do FBI terá que lidar com um serial killer para poder prender o outro. Ao seguir as pistas apontadas por Lecter, a jovem se vê envolvida numa teia mortífera e surpreendente .
O livro “O Silêncio dos Inocentes” conta com uma das passagens mais arrepiantes e tensas do chamado thriller policial. Preste atenção no momento que Clarice vai se encontrar com o Dr. Lecter pela primeira vez num hospital para criminosos mentais. Quando ela começa a descer as escadarias de um corredor lúgubre que dá acesso à cela do psiquiatra canibal, com o diretor do manicômio ao seu lado, contando as escabrosidades cometidas por Lecter no passado... Brrrrrrr...... Se quiser saber detalhes dessa passagem do livro confira aqui.
Enfim, “O Silêncio dos Inocentes” é um livro para o leitor se aprofundar nos personagens, conhecê-los por completo, não deixando nada pela metade. E venhamos e convenhamos, quando isso ocorre, ou seja, quando você se familiariza com os personagens de determinado livro, conhecendo as suas fraquezas, virtudes e medos, o enredo fica bem mais atrativo. E Harris é mestre nisso.


4 comentários:

  1. Respondendo à pergunta do início do post, meu livro "abre alas" da minha coleção é O Cemitério, do "Kinga".

    Há um tempo, fiz um post mais superficial do que o seu comparando as duas versões de "O Silêncio". Está aí, ó:

    http://gatosmucky.blogspot.com.br/2013/03/o-silencio-dos-cordeiros.html

    Grande abraço.

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    Respostas
    1. hahahahahaha!! Se o "abre alas" de sua coleção não fosse um livro do "Kinga", iria achar que alguma coisa estaria errada. Cara! Muito bom o seu texto sobre livro e filme "O Silencio dos Inocentes". Passei no Gatos Muucky e conferi.
      Abcs!

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  2. Voltando ao assunto o meu livro abre alas foi a cabana
    e o seu post ficou um máximo, tenho que ler esse livro urgentemente
    http://leituraecriticas.blogspot.com.br

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    Respostas
    1. Helysson, muito bom "A Cabana"! Apesar de não ser o meu "abre-alas", guardo a obra um carinho especial em minha estante. Qto ao "Silêncio dos Inocentes", recomendo. Mesmo que já tenha assistido ao filme de Demme, irá gostar muito.
      Abcs!!

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