09 setembro 2013

Os gibis da Ebal que marcaram a minha infância



Insights, insights e insights... Acho que eles já fazem parte da minha rotina de vida. Quantos posts desse blog foram ‘frutos’ de lembranças relâmpagos que de repente emergiram do meu subconsciente, fazendo com que me lembrasse de momentos especiais em minha vida.  Estes  insights acabaram se transformando em portas de entrada para um período feliz que vivi em minha infância e pré-adolescência. E agora, ‘pra variar’, eles trouxeram mais uma vez à minha memória, obras que havia lido em minha fase de leitor de calças curtas, quando ainda estava me iniciando no mundo mágico da leitura.
Anteontem, enquanto passava em frente a banca de jornais e revistas de minha cidade tive, novamente, um desses insights. Quando ‘bati’ os olhos naquele estabelecimento comercial que ao longo dos anos passou por tantas reformas, lembrei-me na mesma hora do saudoso ‘seo’ Luiz ou ‘Mariz’, como era popularmente conhecido.  
Meus pais – putz, que saudades da Toura... ainda bem que o Kid Tourão ficou desse lado, caso contrário, a saudade desse casal seria avassaladora, insuportável – tinham o hábito de me levar até a banca do Mariz para chupar um sorvete que era famoso na cidade. Acho que eu tinha 12 ou 13 anos naquela época e o que os meus velhos não sabiam era que o sorvete não passava de um pretexto para que eu pudesse passar um tempão folheando os gibis de heróis da Ebal que ficavam expostos nas prateleiras da banca. Heróis sim; pois era dessa maneira que eu os chamava, dispensando o ‘super’. – “Mãe, hoje à noite eu quero um sorvete esquimó lá do Mariz!”, dizia o ‘menino aqui’, quase grasnando. Mal sabia ela, que o seu filho, na realidade, queria aplicar o golpe já que o sorvete não passava de um pretexto para que ele – quer dizer, eu - pudesse viajar com as capas de Batman, X-Men, Homem-Aranha e O Judoka que era o meu preferido.
Você deve estar se perguntando porque eu não revelava a verdade para a “Toura”e o “Kid Tourão”, dizendo que, na realidade, o sorvete era o que menos interessava, já que o que eu queria, de fato, era ganhar alguns daqueles gibis fantásticos da Ebal. O menino, aqui, não podia fazer isso galera, porque a ‘mamy’ achava que histórias de gibis não acrescentavam nada ao conhecimento de um garoto da minha idade. Vale lembrar que naquela época, os quadrinhos eram considerados uma leitura do tipo marginal, não desfrutando o status que tem hoje. Dessa maneira, a Tourinha não fazia questão de juntar as suas últimas economias para comprar uma coleção de livros, enciclopédias e etc; mas gibis... bem, ela torcia o nariz. Então, certo dia, algo me surpreendeu. No finalzinho de uma das jovens tardes de verão dos anos 70, ela me olhou com aquele sorriso matreiro – Aii... que saudades, novamente... Putz, putz e putz!! Pôxa Toura, judia não pô, tô  com os olhos úmidos e a garganta ardendo tentando segurar a cachoeira que quer brotar dos meus olhos... – e disse, - “Ô ‘Zé do Pito’, vamos lá no ‘seo’ Luiz pegar alguns gibis?”. Pêra; agora pêra aí, porque as lágrimas estão cedendo espaço para as gargalhadas. Zé do Pito!! Ahahaha... Olha só o apelido que a Toura me batizou e com o aval do Kid Tourão! Quer saber a etimologia de ‘Zé do Pito’? Ah ta! Mas não conto mesmo!
Bem, retomando. Quando a minha mãe disse aquilo, pensei que ela tinha descoberto o meu golpe e estava a fim de dar uma bronca nesse otário, mas na realidade, ela estava falando sério. O seu coração de mãe percebeu a minha ansiedade cada vez que eu pegava uma daquelas obras primas nas mãos e então deve ter pensado e refletido: - “Ah que se dane! Gibi também é leitura!”.
E foi assim que os gibis da Ebal entraram em minha vida de leitor mirim fissurado. Acredito que apesar de nos dias atuais ter perdido o tesão pelas histórias em quadrinhos, acho que devo à elas o meu gosto pela leitura, pois foram aqueles ‘heróis’ maravilhosos que conseguiram me transformar num devorador de páginas. Só depois dos gibis vieram os livros e que são hoje, a minha verdadeira paixão.
Acredite que após passar em frente a banca de jornais e revistas e ter sofrido esse insight abençoado, eu quase não conseguia trabalhar direito porque ‘volta e meia’ lá estava eu recordando a ‘Banca do Mariz’, os quadrinhos do Batman, as capas do Homem Aranha; todas elas da Ebal. Caraca! As recordações eram tão gostosas, mas tão inebriantes que juro que fiquei com um baita medo de perder o interesse pelos meus livros e voltar a fase dos quadrinhos! Pensei comigo: - ‘Jesus! Vou ter que desfazer dos meus mais de 500 ou 600 livros (rs)!!  
Sei lá, não dá prá definir a alegria que senti. Se tinha os livros como parte da minha vida, agora, os quadrinhos também estão querendo recomeçar a fuçar por ali. Putz! Que insight danado!
Então, tive a idéia de prestar uma homenagem para os quadrinhos da minha época e “quadrinhos da minha época” é sinônimo de Ebal.
Hoje quando entramos nas bancas ultra-modernas, sejam elas físicas ou virtuais, a primeira ‘coisa’ que vemos é aquele festival de gibis com capas também ultra-modernas. Estas capas nos mostram um Homem Aranha com roupa negra ao invés da vermelha, um Batman com um exo-esqueleto todo preto a prova de balas no lugar do velho e tradicional poliéster cinza ou então um Superman cabeludo e com uma capa roxa tendo um caso com a Mulher Maravilha. Isso mesmo! Um caso com a Mulher Maravilha! Ohohohoh!!!
O que muitas pessoas esquecem ou desprezam, não sei ao certo, é que a pedra angular que deu início a enxurrada de publicações dos super-heróis da Marvel e DC Comics aqui no Brasil foi a Ebal. ‘Man’! Se não fosse essa saudosa editora, talvez, jamais o nosso país tivesse vivido o chamado ‘boom dos quadrinhos’. Foi a Ebal que preparou o terreno para que a Marvel e a DC aterrissassem definitivamente em terras tupiniquins e montassem os seus acampamentos de maneira definitiva.
Os grandes personagens dos comics books que estavam bombando na terra do Tio Sam só chegaram ao Brasil graças a primeira revista em quadrinhos da Ebal chamada “O Herói” e lançada por aqui em meados da década de 50.  Assim, os brasileiros podiam se esbaldar com personagens marcantes como The Flash, Superman e Batman que deixaram de ser um privilégio exclusivo dos americanos. Alguns anos depois, o homem de aço e o morcego ganhariam as suas ‘revistas solo’ pela Ebal e repetiriam no Brasil, o mesmo sucesso alcançado lá fora.
Cara! A Ebal era foda! Desculpa aí o palavrão, escapou... mas prá ser sincero, esse termo cai como uma luva, porque para a editora brazuca não tinha tempo ruim não. Todos os heróis que hoje pertencem a Marvel e DC Comics passaram pela ‘dita cuja’. Ela publicou histórias do Homem Aranha, Batman, Superman, Superboy, X-Men, Thor, Flash, Namor, Hulk, Mulher Maravilha... Ufa!! Deixa tomar um fôlego aqui... pronto! Prosseguindo: Homem de Ferro, Capitão América, Shazam... Cara, vou parar por aqui....
Todos esses gibis encantaram várias gerações de leitores, incluindo a minha. Histórias e ilustrações que fizeram a alegria de muitos ‘calças curtas’ do meu tempo, hoje adultos bem casados ou bem realizados e ávidos leitores de obras literárias. Mas não podemos esquecer que tudo começou com os quadrinhos da Ebal.
A Ebal que na realidade se chamava Editora Brasil-América foi uma das mais importantes editoras de histórias em quadrinhos no Brasil. Fundada em 18 de maio de 1945 por Adolfo Aizen, considerado o "Pai das Histórias em Quadrinhos do Brasil", foi de extrema importância por difundir o gênero no país. Em seu período áureo, a editora era dirigida, também, por Paulo Adolfo Aizen e Naumin Aizen, ambos filhos de Adolfo Aizen, bem como pelo jornalista Fernando Albagli.
Durante suas primeiras quatro décadas a Ebal foi uma forte influência em várias gerações de editores, artistas e leitores, contribuindo decisivamente para a estabilização das histórias em quadrinhos no Brasil.
Atualmente fala-se muito do impacto das revistas em quadrinhos como uma forma de expressão artística importante no mundo atual. Mas nem sempre foi assim, já que nas décadas de 50 e 60 as críticas e os ataques por parte de setores conservadores e clericais da sociedade eram constantes, propagando que o gênero era prejudicial aos jovens.
Mas Adolfo Aizen defendeu de forma ferrenha os quadrinhos em inúmeras entrevistas, artigos e campanhas, afirmando que as revistas, na realidade, estimulavam o hábito de ler, sendo de uma importância ímpar na educação.
Por isso mesmo, a  trajetória da Ebal  chega a se confundir com a luta da imprensa brasileira contra a ditadura.
A editora de Adolfo Aizen também conseguiu atingir um marco histórico: idealizar um herói inteiramente brasileiro para competir com as feras da Marcel e DC. Estou me referindo ao “O Judoka”, que como disse no início do post era o meu preferido. As histórias em quadrinhos do Judoka eram criadas por Pedro Anisio e Eduardo Baron e contavam a saga de Carlos da Silva um jovem, que salva um senhor de ser atropelado por um caminhão e logo descobre que esse homem é o mestre em judô Minamoto, que em agradecimento decide lhe ensinar as técnicas do combate, Carlos, então, se torna o Judoka. Aqui, cabe um lembrete:  com o tempo, Lúcia,  a namorada do herói também passaria a treinar Judô e lutar a seu lado.
A Ebal encerraria suas atividades em 1995, ou seja, 50 anos após a sua fundação em 18 de maio de 1945. No início dos anos 80, a editora já sofreria um baque com a debandada dos heróis da Marvel para outras editoras devido a problemas contratuais. Depois disso viria o golpe fatal quando a editora deixaria de publicar a série dedicada ao Superman. Com a saída dos heróis da Marcel e DC, a Editora Brasil-América estaria fadada  ao fechamento.
Cara, pensando bem, fui um sujeito de sorte, pois pude ler e pegar em minhas mãos os gibis da Ebal. Mais do que isso, tive a oportunidade de viver o período de ouro dos quadrinhos aqui na terrinha.,
Vale a pena recordar, também, nesse post a relação completa dos títulos publicados pela editora ao longo dos seus 50 anos de história, segundo fonte do Guia Ebal. Vamos lá, remorando...
01 – Aí Mocinho
Conteúdo: Bem Bowie e os pioneiros, 7ª série, 9ª série, Gavião Negro, Bonanza,  Almanaques, A Maior, Superduplas, extras
02 – Album de Buck Jones
03 – Album do Fantasma
04 – Album Gigante
Conteúdo: 2ª série, Thor, extras
05 – A Melhor
Conteúdo: Caçadores de Extrelas
06 – Aquaman
07 – Batman
Conteúdo: 1ª série, 3ª série, 4ª série, bi 1ª série, especial em cores, formatinho, extras
08 – Bonita
Conteúdo: Supermoça Especial em Côres
09 – Capitão Z
Conteúdo: Capitão América em Côres
Homem de Ferro e Capitão
América
10 – Coleção Nostalgia
Conteúdo: Tim e Tok
11 – Cinemin
Conteúdo: 6ª série, Extras
12 - Coleção Clássicos das Histórias em Quadrinhos
13 – Coleção Histórias em Quadrinhos
14 – O Demolidor
Conteúdo: 1ª Série
15 – Dimensão K
Conteúdo: Flash
16 – Edição Maravilhosa
Conteúdo: 1ª Série, Série Mini Heróis, Extras
17 – Edição Monumental
Cinco por Infinitus
18 – Elektron
19 – Episódios da História Brasileira
20 – Epopéia
Conteúdo: Epopéia-Tri, extras e especiais
21 – Estréia
Conteúdo: Discos Voadores, Monstro do Pântano, Ficção Científica, extras e especiais
22 – Fantomas
23 – Hiper
Conteúdo: Jornada nas Estrelas
24- Invictus
Conteúdo: Flash, Arqueiro e Lanterna Verde; O Guerreiro; Superman e Batman; Superman e Batman em Côres, Almanaques, extras
25 – James Bond 007
26 – Judô Master
Conteúdo: O Judoka
27 – Kung-Fu
Conteúdo: 1ª Série
28 – Lançamento
Conteúdo: A Legião dos Super-Heróis, Origem dos Super-Heróis, Galax, Mulher Maravilha, Kamandi, extras
29 – Minha Revistinha
Conteúdo: Hércules libertado, extras e especiais
30 – Misterinho
Conteúdo: Especial em cores, extras e especiais
31 – Os Biônicos
32 – Os Clássicos da Década
33 – Os Grandes Álbuns em Quadrinhos
34 – O Herói
Conteúdo: Turma Titã, Solar, Sargento Rock, Tor, extras e almanaques
35 – O Homem Aranha
Conteúdo: 1ª Série, especial em cores, almanaques
36 – O Juvenil Mensal
Conteúdo: Tomahawk, extras e especiais
37 – O Poderoso
Conteúdo: Gunsmoke 1ª Série, especial em cores
38 – Pequenina
Conteúdo: O Homem Borracha
39 – Personagens do Oeste
40 – Príncipe Valente
41 – Quadrinhos
Conteúdo: Os Justiceiros, Os Justiceiros em cores, Mulher Maravilha, O Sombra, Tim Relâmpago, Jaspion, almanaques
42 – Reis do Faroeste
Conteúdo: Black Diamond, Cheyenne, Jonah Hex
43 – Série Sagrada
Conteúdo: 1ª série
44 – Star Álbum
Conteúdo: Supermoça, Terror em Combate
45 – Superamigos
Conteúdo: 3ª Série, almanaques
46 – Superboy
Conteúdo: 1ª Série, Superboy-Bi, especial em cores, extras e especiais, almanaques
47 – Super-Heróius
Conteúdo: Shazam especial em cores, Shazam formatinho, extras e especiais, almanaques
48 – Superior
Conteúdo: extras
49 – Superman
Conteúdo: 1ª, 2ª, 3ª e 4ª série; Superman-Bi; especial em cores; formatinho, extras e especiais, almanaques
50 – Super X
Conteúdo: Namor e Hulk, almanaques
51 – Tarzan
Conteúdo: 3ª Série, 1ª Série-Bi, 1ª Série em cores, 2ª Série em cores, 2ª Série em Cores-Bi, formatinho em cores, 12ª Série, almanaques, extra
52 – Um Homem, Uma Aventura
53 – Zorro
Conteúdo: 3ª Série, especial em cores, extras e especiais
54 – Edições Extras e Especiais
Conteúdo: Agente Secreto X-9, Brick Bradford, Korsar, Wolf, Zephyd, Holandeses no Brasil

02 setembro 2013

O Símbolo Perdido



“Não é de todo ruim”, “poderia ter sido melhor”, “Achei O Código da Vinci melhor” e por aí vai... Estes foram alguns comentários de leitores que vi nos blogs que visitei; blogs que opinavam sobre o livro “O Símbolo Perdido” de Dan Brown. Com relação ao ponto de vista dos blogueiros (as), também não observei muita diferença. A maioria escreveu que “gostou, mas não muito” do livro, enquanto outros colegas acharam a “história regular”. Foi difícil localizar alguns blogs que afirmassem com todas as letras que “O Símbolo Perdido” foi ótimo ou excelente.
Confesso que estas opiniões – a maioria delas em cima do muro, me desculpem a honestidade, já paguei caro por ‘ser assim, mas sou assim’ – me deixaram mais tranqüilos para escrever o penso da obra de Dan Brown. Cara, sei que os fãs do escritor correspondem a uma verdadeira legião que vem aumentando a cada dia no mundo e por isso criticar o que Brown escreve é complicado, pois as suas obras se tornaram ‘bíblias’  para grande parte dessa galera. Entendo que isso é um exagero, mas tudo bem, ‘cada um é cada um’ e temos de respeitar a individualidade dos seres humanos. Mas não escondo não, quando constatei que grande parte da galera tinha achado que “O Símbolo Perdido” estava mais para decepção do que para sucesso, fiquei bem mais tranqüilo para escrever sobre o assunto.
Mas vamos ao que interessa: o porque ou os porquês de não ter gostado dessa história de Brown. Achei a leitura arrastada, monótona, como se o leitor fosse obrigado a subir uma rampa enorme com um saco de pedras nas costas na esperança de encontrar no final da sua jornada o tão desejoso copo de água, mas ao chegar no topo, acaba descobrindo que o tal copo está vazio.
Quando comecei a ler a primeiras páginas do livro pensei comigo: - “Cara! Que massa! Essa história vai me fazer perder o fôlego”. E de fato, “O Símbolo Perdido” tinha todas as credenciais para isso, costumo dizer que Brown começou a tecer uma teia de aranha firme e sólida. Um argumento interessante envolvendo segredos da Franco-Maçonaria; o seqüestro misterioso de Peter Solomon, amigo pessoal de Robert Langdon; a construção inicial dos personagens, que à primeira vista davam a impressão de terem sido os melhores já criados pelo autor, principalmente, Khaterine, irmã de Solomon; a caçada inicial de Langdon em busca do amigo desaparecido; mas depois, com o passar das páginas, esse enredo que prometia uma história de suspense avassaladora, acabou perdendo força, se tornando inóspito. 
Depois de lidas um pouco mais de 200 páginas, ‘palavra’ que já havia perdido o tesão pela história. Monólogos que não levavam a nada, diálogos patéticos e uma encheção de lingüiça sem tamanho envolvendo noética, assuntos pseudo-filosóficos e o escambau a quatro. Para quem leu e detestou “O Segredo” de Rhonda Byrne – assim como eu detestei – aqui vai uma péssima notícia: da mesma forma que essa bomba literária de Byrne adotou a noética como pedra filosofal, “O Símbolo Perdido” também tem nessa disciplina - que estuda os fenômenos subjetivos da mente - grande parte de seu alicerce. Foi dureza agüentar as tais discussões sobre noética envolvendo os personagens Katherine e Langdon. PQP! Me esgotou a paciência!
Outro detalhe é a facilidade com que o leitor descobre, já no meio do livro, quem é o vilão envolvido no desaparecimento de Solomon. Brown dá pistas exageradas para essa descoberta. Matei a charada em pouquíssimo tempo. Figurinha fácil, fácil!
Lembro que em “Inferno”, Brown foi mestre em iludir o leitor, ou seja, muitas vezes o personagem que achávamos ser o ‘sangue ruim’ do enredo, na realidade era o ‘sangue bom’ e assim vice-versa. Já em “O Símbolo Perdido”, isso não ocorre, já que os personagens são bem caricatos.
Quanto ao final do livro me lembrou muito aqueles filmes de caça ao tesouro que passavam na Sessão da tarde. Tinha um do Nicolas Cage que eu não perdia por nada desse mundo: “A Lenda não sei de que”, não me lembro agora.
Enfim galera... é isso aí. Desculpem-me aqueles que gostaram e veneraram a obra de Brown, mas no meu caso, as lembranças não foram muito agradáveis. Ainda bem que “Inferno” conseguiu apagar essa grande decepção e provar que Brown ainda continua sendo capaz de criar histórias interessantes.
Aguardemos o próximo, que cá entre nós deverá demorar um poucão, afinal de contas, o sujeito ainda está colhendo os louros iniciais de seu sucesso com “Inferno”..

28 agosto 2013

Calafrios da Noite



Cara, vou lhe dizer uma coisa: eu detesto esse lance de leitura eletrônica. Podem me chamar de ‘brucutu’, ‘leitor de Neanderthal’, ‘matuto das letras’ e o escambau á quatro; eu não ligo, mas livro para o chato aqui, tem que ser o velho e tradicional calhamaço de papel com capa e sobre-capa. Se no meu trabalho, a informática e os equipamentos que possibilitam transmissões via satélite são os meus melhores amigos, quando chego em casa e me escarrapacho na poltrona da minha sala de leitura, o texto que irá invadir as áreas mais recônditas do meu cérebro devem vir do bom e velho papel. Por isso, quando vejo algum livro digital fujo dele como o diabo foge da cruz.
Já adianto que “Calafrios da Noite”, do escritor brazuca César Bravo é uma obra no formato digital e mais: ...”acreditem galera, eu li todos os seus 15 contos”.
Certo dia, recebi uma mensagem do Bravo perguntando se eu queria receber um livro de contos de terror para temperar os meus medos. “É prá já! Pode mandar!”. Respondi sem pestanejar. O tonto, aqui, pensou que já ia ganhar mais uma obra literária para engrossar a sessão “terror e suspense’ de sua estante de livros. Imagine só a decepção quando fiquei sabendo que o autor só tinha disponível – naquele momento – versões digitais. Então o “PODE MANDAR!!”, supremamente exclamado do fundo do peito e da alma, se transformou num: ‘pode mandar’, minúsculo, sem vergonha e tímido. Pensei comigo: - “Cara, não vai dar”. Além do mais estava com a leitura de “A Passagem” de Justin Cronin em ponto de bala, ou seja, já tinha vencido aquela fase morna da história e havia mergulhando no chamado ‘pega prá capá’. E olha ‘man’, ler dois livros simultaneamente, sendo um deles com mais de 800 páginas é uma injeção letal. Digo isso, porque ainda sou obrigado – digo obrigado, de fato, porque os temas são um chute no saco – a ler uma batelada de livros técnicos, manuais de redação e isso e aquilo diariamente. Então, quando chego em casa, fica quase impossível grudar um livro na mão direita e outro na esquerda e lê-los ao mesmo tempo.
Por todos esses fatores, a versão digital de “Calafrios da Noite” estava fadada a cair no limbo do esquecimento. Mas, então, numa dessas noites em que me sento à frente do computer para verificar as minhas mensagens, vi lá, o anexo do Bravo com a sua obra. Resolvi ler as primeiras linhas, assim, sem compromisso. Talvez, o título do primeiro conto (Torniquete) me chamou a atenção. Depois me lembrei que havia lido um livro chamado “A Corrente: Passe Adiante”, do Estevão Ribeiro, o qual havia gostado muito e chegado a conclusão de que autores brasileiros também sabem escrever ótimas histórias de terror. Sei lá, sei lá e sei lá. O que sei é que comecei a ler as primeiras linhas e pronto; quando percebi já estava no quinto conto! “- Caraca! Isso aqui é muito bom mêo!”. Dei um tempo, fui comer alguma coisa, adiantei algumas pautas e pimba! Voltei a leitura dos contos do Bravo.
No dia seguinte, resolvi ler o livro digital nos intervalos do meu serviço e “A Passagem”, à noite. Se sobrava um tempinho após editar uma matéria, lá estava eu ‘abrindo’ o texto em pdf.
Foi então que percebi que os tais contos do Bravo haviam conseguido quebrar várias regras em meu perfil de leitor. Primeira delas e a mais séria de todas: a ojeriza aos livros eletrônicos. Segunda: ler dois livros ao mesmo tempo. Terceira: ler um romance nos intervalos do meu trabalho.
Bem, já deu prá entender que gostei muito dos contos; alguns, realmente, incomodam, pois apesar de serem situações fantásticas, podem perfeitamente fazer parte do nosso cotidiano; quer dizer, eu ou você pode vir a enfrentar pesadelos e medos semelhantes aqueles vividos pelos personagens das histórias. A maioria delas podem ser consideradas terror de primeira, o que me deixa muito contente, pois afinal de contas, é mais um autor brazucão que está se aventurando com competência nesse gênero literário, cuja maioria dos escritores são gringos da terra do Tio Sam.
Os personagens dos contos de “Calafrios da Noite” pertencem ao mundo marginal. É o cara revoltado que foi demitido do emprego por ter agredido o patrão; o sujeito que foi traído pela mulher, perdendo a esposa para um verdadeiro lixo, uma escória da sociedade; o bêbado sem amor próprio que se mete numa enrascada; o profissional fracassado em sua área que quer dar a volta por cima, prejudicando outras pessoas, nem que seja a própria mãe e por aí vai. Por isso mesmo, a linguagem usada por esses personagens também é bem marginal.
Apesar desses personagens pertencerem ao submundo, eles possuem carisma e por isso mesmo, o leitor acaba se identificando com a maioria deles e até mesmo torcendo para que muitos acabem levando a melhor.
Bravo não perde tempo com aqueles preâmbulos enjoativos em suas histórias. Ele já parte direto para a ação e a ação no seu caso se chama terror e suspense. Dessa forma, o medo e a tensão já tomam conta da gente logo nas primeiras linhas.
A maioria dos contos são narrados em primeira pessoa, no formato de diário, com o próprio personagem contando o seu drama, o que contribui para aumentar ainda mais o grau de suspense.
Como já disse escrevi no início desse post, o conto que abre “Calafrios da Noite” se chama ‘Torniquete’ e posso garantir que é um ‘trucão peso pesado’. Prova disso é que a história conseguiu segurar, de cara, um certo sujeito que detesta ficar lendo ‘livros de computador’. A história de um homem que decide amputar a própria perna foi responsável por despertar em mim o interesse pelos outros contos. Pensei comigo: - “Bem, se os contos seguintes forem iguais a esse, valerá a pena ficar plantado aqui na frente do monitor rolando as tais páginas virtuais”. O trecho mais pesado da narrativa é o momento em que o personagem decide explicar em detalhes quais serão os cuidados imediatos que tomará após a amputação, visando amenizar as hemorragias e também as dores atrozes. Baldes de gelo, torniquetes, anestésico, vale tudo. O cara faz questão de descrever como agirá ‘tim-tim por tim-tim’. Arghhhh!!!
O que levou o pobre coitado a decidir pela amputação de sua perna? Porque ele mesmo decidiu se auto-mutilar? Bem... leia o conto, não estou afim de remomorar a leitura, sério. Ah! Antes que me esqueça. Segundo o autor, esse conto foi baseado numa história real.
Na sequencia, Bravo ataca de “Pague a sua conta”, onde um cara mau caráter chamado Jason após conquistar tudo o que queria na vida, acaba perdendo o gosto pelas suas conquistas e, então, através de um amigo fica sabendo de uma velha bruxa ou cigana – sei lá, o que sei é que a anciã é mais feia que a morte – que tem o poder de fazer os outros enxergarem a vida de uma outra maneira, bem mais zen, bem melhor. Após tomar uma poção oferecida pela velha bruxa, os seus olhos passarão a ver ‘coisas’ e imagens aterradoras, levando o infeliz as raias da loucura.
No terceiro conto, “Cavalo bravo”, um pai de família, no momento mais miserável de seus dias recebe uma proposta irrecusável de um estranho, um velhinho aparentemente inocente. O homem que está numa pendura total acaba aceitando a oferta e depois de pouco tempo, a sua vida muda totalmente. De simples funcionário assalariado, ele se transforma – da noite para o dia - num milionário. O que o sujeito não sabe é que o estranho voltará depois de muitos anos para cobrar a sua dívida, fazendo com que o  infeliz se arrependa amargamente de ter aceitado a proposta do velhinho maligno.
O que leva alguém a pular de um prédio de "Vinte Andares"? O passado? Futuro? E quem encontrará lá em cima? Deus? Diabo? Ele mesmo? Quem sabe encontre a paz... Essa é a temática de “Vinte andares”.

Há também a história do China; o maldito chinês gótico que entra num bar onde encontra um grupo de pinguços e acaba oferecendo algo que tem o poder de deixar os ‘paus d’águas’ bêbados  para sempre. Cara, você já imaginou o que pode acontecer quando alguém dorme e acorda bêbado continuamente sem que seu fígado apodreça? O final de “Posso fumar aqui” irá surpreender o leitor.
"O homem que falava palavrão" fala de algo que todos nós já vivenciamos... De repente, aquele seu amigo chato dos tempos de colegial que era um nada na escola, aparece no Facebook. Bonitão, rico; carreira de sucesso e pedindo para que você o adicione. Pronto!  O terror já começa a entrar em sua vida.
Cara! Impagável! Definitivamente impagável o conto “Violão de Johnny”, onde Bravo fala de um violão mal assombrado que toca sozinho todos os anos no dia do aniversário de morte de seu dono. Dois amigos mais do que drogados decidem desafiar o sobrenatural. Um deles cria coragem e decide tocar o instrumento. Mal sabe ele o que acontecerá com a sua vida.
Confesso que tive do conto “Kid-Caranguejo”, mas também dei boas risadas. A história assusta, mas também diverte. Um grupo de jovens, todos góticos, decidem invadir o cemitério de madrugada para invocar o espírito de um pistoleiro que jamais errava o alvo. Esta história do Bravo fez com que me lembrasse de um episódio da série “Além da Imaginação” que assisti nos anos 70 quando criança sobre o espírito de um índio. O pele vermelha chamado ‘Flecha Ligeira’, após ser invocado num centro espírita, saia disparando flechas naqueles que não acreditavam na vida após a morte. Cara, na época, me borrei de medo. “Kid-Caranguejo” lembra muito esse episódio da famosa série criada por Rod Serling.
O bobalhão Herman é o personagem principal de “Não há vagas”. Ele é feito de gato e sapato pela megera de sua mulher. Elaine se diverte humilhando o marido, só faltando fazer o infeliz lamber o chão que ela pisa. O que Elanie desconhece é que Herman tem um morador secreto em sua cabeça chamado Jack que começa a ditar ordens. Entonce num belo dia...
Em “Dor nas costas”, dois amigos hipocondríacos cismam que estão com implantes alienígenas pelo corpo. O final da dupla será assustador... muito assustador.
"Alguém a olhar por você" é uma homenagem a sociopatia. Conta uma manhã qualquer de um cara que está na fila errada, mas na hora certa. Um tipo caladão que não aguenta mais ver velhinhas doces com cabelo de algodão cortando a frente da fila. E quando uma dessas velhinhas, mas não tão amável quanto aparenta, corta a sua frente na fila. Hummmm!! O ‘forrobodó’  está armado.
"Danação" é um thriller psicológico onde um sujeito começa a ver os seus próprios fantasmas que representam as coisas erradas que fez na vida. Digamos que sejam os seus remorsos mais íntimos.
"Colheita obrigatória" é uma loucura ‘man’!! Um cara considerado uma escória em sua cidade, num certo dia sofre um surto de loucura e começa a ver os moradores como demônios. Resultado: Decide limpar a cidade desses ‘demônios’, torturando e matando todos eles.
Fechando “Calafrios da Noite” vem o "Lado oculto" que narra a história de um escritor fracassado que ao parar numa encruzilhada, em busca de carona, recebe uma visita inesperada que poderá mudar a sua vida. Quem é o visitante? Bom... leia o conto, é melhor.
È evidente que numa coletânea de histórias curtas nem todas conseguirão lhe agradar, mas isso é muito relativo, pois o bom para você pode ser ruim para mim. No meu caso, saboreei a maioria das histórias contadas pelo Bravo. Gostei muito, tanto é que escrevi esse post recomendando a obra para aqueles que são aficcionados do gênero terror.
Depois do Estevão Ribeiro, fico feliz em saber que temos mais uma jovem promessa desse gênero literário que consagrou Stephen King e tantas outras feras.
Fui!

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