10 livros que todo médico e apaixonados por medicina devem ler

14 abril 2022

Há pouco tempo, estive numa cidade vizinha para fazer um checkup, saber como andava a minha saúde. É meu amigo... quando a gente já está com um pé na terceira idade, temos que ficar ainda mais cuidadosos. Aliás, o nosso corpo é como um carro que tem que passar por revisões periódicas, principalmente quando ele vai envelhecendo, aumentando a sua quilometragem.

‘Entonce’, quando cheguei no consultório do meu cardiologista, vi sobre a sua mesa o livro O Físico. Como ele percebeu que eu não tirava os olhos da obra de Noah Gordon, acabou me perguntando - já emendando uma resposta à sua própria pergunta: “Já leu? Pode ler é fantástico, uma leitura incrível”! - Na mesma hora já começamos uma prosa breve, mas muito gostosa, sobre livros interessantes na área da medicina.

Depois desse papo, meio que por acaso, tive um insight: “Puxa vida! Bem que eu poderia escrever um post sobre livros lidos e adorados por médicos”. Pimba! Nasceu, então, a postagem que vocês estão lendo agora.

Resolvi fazer uma lista de obras literárias que todo médico, estudante de medicina e porque não, de pessoas que atuam em outras áreas profissionais mas tem uma quedinha indomável por livros do gênero. Quero frisar que o meu médico, Dr. Célio me ajudou muito na elaboração dessa lista, mesmo sem saber que estava me ajudando (rsss).

Preparados? Então vejam aí.

01 – O Físico (Noah Gordon)

Vou abrir a nossa lista com o livro preferido do meu médico e que estava “repousando” tranquilamente sobre a sua mesa. O Físico foi um grande sucesso nas livrarias e nos cinemas. Ainda não li a obra do jornalista inglês Noah Gordon publicado originalmente em 1986, mas assisti ao filme homônimo baseado na narrativa. Aliás, o filme de 2013 com Ben Kingsley e Tom Payne é fantástico. Gostei tanto que agora pretendo comprar o livro.

Gordon narra a epopeia de Rob J. Cole, um jovem aprendiz de médico na Idade Média que decide lutar contra os obstáculos para estudar Medicina durante uma época difícil, em que a Igreja não permitia a dissecação de humanos para estudo, por exemplo.

Então, ele resolve ir até a Pérsia, no mundo árabe, com o objetivo de estudar na gloriosa escola de medicina de Ispahan com o famoso polímata persa, Ibn Sina. Com isso, ele dá início a uma viagem épica – recheada de perigos e aventuras - com destino à Pérsia visando concretizar o seu sonho.

O Físico é o primeiro livro de uma trilogia que ainda conta com Xamã e A escolha da Dra. Cole.

02 – Médico de homens e de almas (Taylor Caldwell)

Taylor Caldwell levou 46 anos para escrever Médico de homens e de almas, mas todo esse período valeu à pena já que o livro se transformou num fenômeno de vendas através dos tempos, entrando para a lista das obras mais importantes dos últimos 100 anos.

A narrativa explora a história de vida do apostolo São Lucas que foi um médico de coração generoso, bem instruído e autor de um dos evangelhos e também do Livro dos Atos dos Apóstolos. Lendas antigas o descrevem como uma pessoa fora do comum, a quem são atribuídos milagres e prodígios antes mesmo de sua conversão ao cristianismo.

Em Médico de homens e de almas, Caldwell combina estas duas imagens de um dos mais importantes ícones da igreja cristã primitiva, caracterizado pela constante preocupação com o sofrimento de enfermos, oprimidos e pobres.

Lucano, ou Lucas, foi o único apóstolo que não era judeu, nunca viu Cristo, e tudo o que está escrito em seu Evangelho foi adquirido por meio de pesquisas e dos testemunhos da mãe de Cristo, dos discípulos e dos apóstolos. Como já escrevi no início, Lucas foi, antes de tudo, um grande médico, e quase todos os acontecimentos narrados neste livro são autênticos - o cenário do início da vida de São Lucas, a idade adulta e sua busca, bem como fatos relacionados à sua família.

03 – Sob Pressão – A rotina de guerra de um médico brasileiro (Márcio Maranhão)

Na minha humilde opinião, todos os médicos – independentes de sua especialização – deveriam ler essa biografia do médico Márcio Maranhão. 

A obra que traz o depoimento desse cirurgião torácico para a jornalista Karla Maranhão. Triste, comovente e corajoso, o relato expõe a nu uma realidade que se assemelha a muitas encontradas pelos médicos no falido sistema de saúde pública no Brasil afora.

Depois de 15 anos de trabalho em hospitais municipais e estaduais do Rio de Janeiro, Márcio Maranhão viu seu idealismo juvenil pela profissão escorrer pelos dedos. O Hospital Souza Aguiar, onde trabalhou por vários anos é o maior do município do Rio para emergências e o clima reinante por lá é do tipo “pega pra capá”. Para que os leitores tenham uma vaga ideia da rotina estressante daquele hospital, basta dizer que ele é chamado pelo médico de “Inferno de Dante”.

Sob pressão é um depoimento perturbador. Neste livro, o cirurgião também revê sua formação profissional, a fase inicial dos plantões, o caso de amor com a medicina ainda aflorado e o vício na adrenalina do combate, quando operou em CTIs despreparadas e até em enfermarias e corredores, desafiando a precariedade das emergências — procurando salvar pessoas e a si mesmo.

04 – A Fabulosa história do hospital: da idade média aos dias de hoje (Jean-Noel Fabiani)

Neste livro, Jean-Noël Fabiani – renomado cirurgião francês e um dos maiores especialistas em história da medicina – descortina um dos mais incríveis legados da humanidade: a evolução dos hospitais e da medicina, num relato repleto de humor e erudição. Em A fabulosa história do hospital: da Idade Média aos dias de hoje os leitores ficarão sabendo que as primeiras cirurgias eram realizadas por barbeiros que usavam métodos “arrepiantes”. 

O livro mostra ainda como se deu a invenção do estetoscópio; a importância da decisão da rainha Vitória de dar à luz sem dor sob efeito do clorofórmio e, segundo alguns, contrariando a Bíblia; o nascimento da medicina humanitária com a Cruz Vermelha e os Médicos Sem Fronteiras; o fortuito papel do acaso na invenção do Viagra, e muito mais. 

05 – A arte perdida de curar (Bernard Lown)

A medicina jamais teve a capacidade de fazer tanto pelo homem como hoje. No entanto, as pessoas nunca estiveram tão desencantadas com seus médicos. A questão é que a maioria desses profissnais perdeu a arte de curar, que vai além da capacidade do diagnóstico e da mobilização dos recursos tecnológicos. 

A chave dessa arte perdida está na relação médico-paciente. Este provocativo livro de um dos mais renomados médicos do mundo mostra a face humana da medicina, em que a arte de curar é tão importante quanto as mais avançadas tecnologias médicas.

O cardiologista americano, Bernard Low, que faleceu no início de 2021, traz em seu livro a proposta de repensar a relação médico-paciente, colocando-se no lugar do outro e tendo mais cuidado com o tratamento que é oferecido. É importante perceber a responsabilidade não só de administrar remédios ou fazer procedimentos, como do impacto das palavras na vida dos pacientes.

Cara... e cá entre nós, existem muitos médicos que tratam os seus pacientes como animais, aliás, piores do que animais. O engraçado é que mesmo agindo dessa forma, eles ainda vivem perguntando porque os seus consultórios estão sempre vazios.

Espero que esse livro consiga mudar a mentalidade de muitos “médicos” que não respeitam os seus pacientes.

06 – Por um fio (Drauzio Varella)

Livro escrito pelo famoso médico brasileiro, Dr. Drauzio Varella. Ele especializou-se em oncologia numa época em que o câncer era visto com tanto horror que nem sequer se pronunciava essa palavra – dizia-se “aquela doença” – e desde então convive cotidianamente com doentes graves.  

Por um fio relata algumas das experiências do autor na Oncologia Clínica. Seu cuidado em contar as histórias acumuladas nos seus 30 anos na área torna o livro muito leve, mas ao mesmo tempo emocionante.

Em Por um fio, está de volta o narrador sensível e cuidadoso de Estação Carandiru – outro sucesso do autor -, que, contando histórias reais, reflete sobre o impacto da perspectiva da morte no comportamento de pacientes e seus familiares.

De um lado, a reação dos que se descobrem doentes, que vai da surpresa à revolta, do desespero ao silêncio e à aceitação. Do outro, a atitude dos parentes, que varia da dedicação incondicional à pura mesquinharia, da solidariedade ao abandono. Varella conta ainda episódios surpreendentes de mudança de vida, como se a visão da morte fosse quase uma libertação, um divisor de águas que confere novo sentido ao porvir.

07 - Medicina dos horrores: a história de Joseph Lister, o homem que revolucionou o apavorante mundo das cirurgias do século XIX (Lindsey Fizharris)

Biografia do médico cirurgião inglês do séc. XIX Joseph Lister que desenvolveu métodos antissépticos que aplicados em cirurgias e no tratamento de pacientes em hospitais reduziram em muito a taxa de mortalidade.

E em meio a vívidas narrativas de hospitais cheios de sujeira, salas de cirurgia em forma de anfiteatros sem qualquer limpeza, instrumentos cirúrgicos usados em operações seguidamente sem qualquer limpeza e o médico cirurgião usando roupas fedidas com sangue e pus secos tanto na sala de cirurgia como na visita aos pacientes, surge o homem que colocou a medicina com médicos em impecáveis jalecos brancos e o horror a germes, aumentando em muito a expectativa de vida dos pacientes.

Em Medicina dos horrores, a historiadora Lindsey Fitzharris narra como era o chocante mundo da cirurgia do século XIX antes da chegada de Lister. A autora evoca os primeiros anfiteatros de operações — lugares abafados onde os procedimentos eram feitos diante de plateias lotadas — e cirurgiões pioneiros, cujo ofício era saudado não pela precisão, mas pela velocidade e força bruta, uma vez que não havia anestesia. Trabalhando sem luvas e sem qualquer cuidado com a higiene básica, esses profissionais, alheios à existência de micro-organismos, ficavam perplexos com as infecções pós-operatórias, o que mantinha as taxas de mortalidade implacavelmente elevadas.

É nesse cenário, em que se considerava mais provável um homem sobreviver à guerra do que ao hospital, que emerge a figura do jovem médico Joseph Lister que revolucionaria a história da medicina.

08 - O Imperador de todos os males: uma biografia do câncer (Siddhartha Murkhejee)

Este livro rendeu ao cancerologista Siddhartha Murkhejee o Prêmio Pullitzer de 2011. Em sua obra, ele traça uma “biografia” profundamente humana do câncer. Ele narra em detalhes as etapas do processo cheio de idas e vindas da pesquisa da doença, as promessas de vitórias e as recaídas, as radicalizações temerárias de tratamentos como a mastectomia e a quimioterapia, e a importância tardia dada à prevenção, que levou a avanços como o exame de Papanicolau e o combate ao fumo. 

Em linguagem acessível, Mukherjee revela os notáveis resultados da recente pesquisa genética, que desvendam o mecanismo íntimo da doença e vão sendo paulatinamente incorporados ao tratamento.

O livro tem passagens emocionantes, como as da descoberta da radiação, da quimioterapia e da constatação da ineficácia das cirurgias radicais e desfiguradoras do Dr. William Halsted. Ele também explicita o papel do imponderável, da sorte e do andar de olhos vendados pelos caminhos que levam a cura e remissão das várias formas da doença.

Tudo isso numa linguagem que tem a precisão do cientista e a paixão do biógrafo que não esconde sua admiração por um mal capaz de assumir muitas formas e que está à nossa frente na corrida pela imortalidade.

09 – O futuro da humanidade (Augusto Cury)

Neste seu primeiro romance, o psiquiatra Augusto Cury, narra a trajetória de Marco Polo, um jovem estudante de medicina que ao entrar na faculdade cheio de sonhos e expectativas, fica chocado ao encontrar, em sua primeira aula de anatomia, a triste cena de corpos sem identificação, estendidos sobre um mármore liso e branco. 

Este jovem calouro de medicina se indigna a ponto de não conseguir aceitar a frieza de coração com que os seus professores se referiam aos corpos estendidos no meio da sala, dizendo que ali, em sala de aula, a identidade não importava mais, e que aqueles corpos não possuíam nome, portanto poderiam ser feito deles o que quisessem, eram apenas mendigos ou indigentes encontrados mortos na rua sem identidade.

Irritado com a situação, Marco Polo se revolta e sai à procura de informações sobre esses personagens aparentemente sem passado e agora sem vida, e nessa jornada ele acaba encontrando o excêntrico Falcão, um mendigo que apesar da aparência, conhece a fundo a mente humana. Mesmo na difícil situação em que vive, com seus sonhos frustrados, futuro desfeito e esperanças totalmente perdidas, Falcão recupera a sua alegria inata ao conviver com este jovem sonhador.

A obra se propõe a provocar uma reflexão sobre a sociedade e o rumo da vida das pessoas. Marco Polo desafia profissionais renomados para provar que os pacientes com problemas mentais precisam de menos remédio e mais respeito e dedicação. Ao apostar no diálogo e na Psicologia, provoca uma grande reviravolta entre as pessoas com as quais convive.

Acredito que todos os psiquiatras deveriam ler esse livro de Augusto Cury. Pensando bem, não só os psiquiatras, mas todos os médicos de especialidades diferentes. Com certeza, a relação médico-paciente melhoraria bastante.

10 – História das epidemias (Stefan Cunha Ujbvari)

Da Antiguidade até os dias de hoje, as epidemias assombram o ser humano. Chegam sorrateiras e se instalam causando pânico e destruição. A desinformação impera e, não raro, demora-se a descobrir como a doença se propaga e o que fazer para dominá-la. A famosa peste negra matou cerca de um terço da população europeia na Idade Média. De lá para cá, muita coisa mudou. Se por um lado a Medicina evoluiu, por outro, vivemos cada vez mais aglomerados em grandes cidades, viajando muito mais pelo planeta, o que torna a situação mais dramática e difícil de controlar. 

O infectologista Stefan Cunha Ujvari trata, neste livro das epidemias e pandemias mais marcantes da nossa história. Como a humanidade conviveu com essas doenças? Qual a importância das primeiras vacinas e como elas surgiram? Partindo da Grécia Antiga e chegando até os nossos dias, o livro aborda doenças como peste negra, sífilis, gripe, ebola. Dedica um capítulo para a covid-19 e mostra por que, afinal, essa doença parou o mundo. Conta ainda a história de como a espécie humana resistiu aos ataques dos micro-organismos que habitam a Terra há quatro bilhões de anos. O autor faz um relato das principais epidemias que nos afligiram desde que inventamos a agricultura, criamos os primeiros aglomerados humanos e a necessidade irresistível de visitar terras estranhas atrás de bens de consumo, conquistas territoriais ou movidos pelo espírito aventureiro. Nesses deslocamentos incessantes causados por interesses comerciais, para fugir da fome ou pelas numerosas guerras que se repetiram uma seguida a outra, o homem levou com ele germes virulentos que se disseminaram nas comunidades visitadas. Nelas, a presença de indivíduos suscetíveis, num mundo sem saneamento básico, criou as condições para a propagação de epidemias como a da peste, varíola, cólera, hanseníase, tuberculose e muitas outras com altos índices de letalidade.

O autor Stefan Cunha Ujvari explica como viviam as sociedades quando surgiam cada uma das epidemias que descreve.

Um livro muito útil para médicos epidemiologistas e também para os leitores em geral que gostam do tema.

Taí galera, espero que tenham gostado.

Inté!

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