Tempo de Matar


Arrependo-me de não ter lido, muito antes, “Tempo de Matar” de John Grisham. Tinha o livro, já há muitos anos, em minha estante e nunca me interessava em lê-lo. Nem mesmo após um de meus irmãos que é advogado ter recomendado a obra. Havia emprestado o livro à ele que depois de pouco tempo me entregou com recomendações positivas. Pensei com os meus botões que a indicação do mano era óbvia, já que por ser advogado criminalista, ele não tinha como não gostar da história, por pior que fosse. E assim, o livro voltou para a estante sem previsão para entrar em minha lista de leitura... Bem, isto ocorreu há três semanas quando, finalmente, decidi encarar as mais de 570 páginas do enredo idealizado por Grisham.
Cara, o livro é muuuito bom. Arrisco dizer que “Tempo de Matar” (1989) é o melhor de todos os livros escritos pelo autor. E o curioso é que esta obra representa a sua estréia na literatura; só dois anos depois viria “A Firma” (1991), considerado por muitos a sua obra prima. Mas na minha opinião “Tempo de Matar” é muito melhor. E olha que “A Firma” é um livraço.
Os personagens desenvolvidos por Grisham são muito carismáticos e o enredo é daqueles que provocam uma verdadeira miscelânea de emoções no leitor. No meu caso, senti raiva, indignação e até mesmo ódio em determinados momentos. O enredo tem uma carga emocional muito grande e você se insere na trama de uma tal maneira que passa a sentir na pele tudo o que o personagem principal Jake Brigance está sentindo. Ele é o típico “advogado de rua”. Aquele que representa indivíduos, e não instituições financeiras, companhias de seguro ou grandes firmas.
E por que o leitor se identifica tanto com esse personagem? Grisham criou um Brigance semelhante a nós, com muitos defeitos, mas também muitas virtudes, fugindo daqueles personagens caricaturais, do tipo ‘mau-mau’ ou ‘mocinho ao extremo’. Sem essa. O jovem advogado pensa em dinheiro sim; além de não aceitar reduzir o valor de seus honorários, enfim, ‘contratou-me, então tem que pagar o meu preço’. Agora eu pergunto: Nós não somos assim? Você, por acaso, trabalha de graça? Deixa que os outros coloquem preço no seu serviço? Nunca pensou, um dia, ganhar muito dinheiro? Taí porque nos identificamos, logo de cara, com Brigance. Ele é cada um de nós. Por outro lado, o jovem advogado é honesto e incorruptível e praticamente adota o seu cliente.
Por isso, não há como não torcer pelo sujeito. Cada pancada ou rasteira que o advogado leva de seus algozes é como se os golpes refletissem em nós. Então, no momento em que ele consegue dar a volta por cima, não há como o leitor ficar indiferente.  É nesta hora que damos aquele grito de guerra ou então, começamos a esmurrar o ar de alegria.
Acredito que Brigance foi um dos personagens mais carismáticos criados por Grisham. Para quem não sabe, ele pode ser considerado o alter-ego do autor, já que o próprio Grisham revelou que “Tempo de Matar” é um livro bastante autobiográfico. Antes de se tornar o escritor famoso que é hoje, ele  praticou a advocacia durante 10 anos, muito ao modo de Jake Brigance. Grisham disse que representava indivíduos e não instituições, fazendo o papel de um autêntico advogado das ruas. E muita coisa do que Jake faz e diz no livro é o que o autor fazia e dizia quando era um advogado.
“Tempo de Matar” tem outros personagens carismáticos como Harry Rex, o advogado bonachão e especialista em divórcios, amigo inseparável de Brigance e que só pensa em comida, sexo e mulheres; além de Lucien Willbanks, o ex-advogado que só vive bêbado, mas que no passado teve os seus tempos de glória. Os dois servem para equilibrar os momentos de tensão e raiva que o leitor passa ao presenciar as ações de personagens ardilosos como o promotor Dr. Rufus Buckley ou então dos integrantes da Ku-Klux-Klan com as suas tramoias cruéis e conspiradoras.
Quando o leitor está no ponto de ebulição, prestes a sofrer um ataque cardíaco por causa das maquinações de Rufus ou da crueldade da Klan, eis que Rex e Lucien entram em cena com o seu humor para acalmar o ‘caldeirão em ebulição’.
Outra personagem importante é a jovem estagiária de direito Ellen Roark que só aparece perto do meio da trama, mas tem um papel fundamental no enredo.
“Tempo de Matar” não é apenas um livro de embates no tribunal, envolvendo defesa e promotoria. É muito mais do que isso. É uma história sobre amizade, superação, coragem, quedas e vitórias. Enganam-se aqueles que pensam que metade da história se passa num tribunal com advogado de defesa e promotor se degladiando. Este embate acontece apenas no final do livro, mas é eletrizante. A inquirição das testemunhas pela defesa e acusação, as rasteiras mútuas aplicadas entre Brigance e Rufus, as intervenções do juiz Dr. Omar Noose e a expectativa final para saber se o réu será inocentado ou sentenciado a morte na Câmara de gás são descritas em poucas páginas, mas não deixam de ser emocionantes.
Ah! E prepara-se para uma surpresa nas páginas finais do livro, quando você ficará sabendo o motivo que levou o júri a inocentar ou acusar o réu. Tudo começou com um jurado que no momento da reunião para o veredito tomou uma decisão inusitada e que só é revelada no final da história. Meu! Que surpresa!
Em “Tempo de Matar”, Grisham conta a história de dois homens brancos que espancam e violentam impiedosamente uma menina negra de dez anos, numa pequena cidade ao sul dos Estados Unidos. A população da cidade - Clanton, no Mississipi -, apesar da significativa maioria branca, reage com choque e horror ao crime desumano. Mas o drama da menina Tonya e de sua família não para por aí. Ele ganha dimensão nacional a partir do momento em que o pai da menina consegue um fuzil emprestado, relembra seus tempos no Vietnã e mata os estupradores. A opinião pública se divide e o jovem advogado, Jack Brigance, que assume a defesa, terá que enfrentar toda sorte de perseguições, principalmente por parte da violenta Ku Klux Klan.
O livro foi adaptado para os cinemas em 1996 com Matthew Mc Conaughey (Jack Brigance), Sandra Bullock (Ellen Roark), Kevin Spacey (Dr. Rufus Buckley) e Samuel L. Jackson (pai da garota estuprada). A direção foi de Joel Schumacher. O filme foi um grande sucesso de público e muito elogiado pela crítica.
Se pudesse recomendar o livro mil vezes, eu recomendaria.
Uma leitura imperdível.

Nenhum comentário