quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

O Iluminado

Talvez eu diga uma grande besteira; sem mais enrolação lá vai: - As pessoas que acharam o filme “O Iluminado” fantástico, com certeza, não leram o livro de Stephen King. Já aqueles que leram o livro, acharam o filme de Stanley Kubrick uma bomba. Pois é, eu me enquadrava no primeiro grupo até a semana passada, mas após ler a obra de King... caraca! Mudei, na hora, o meu modo de pensar.
Galera, Kubrick, apesar de toda a sua capacidade e genialidade, arrebentou com o enredo construído de forma brilhante por King. Não satisfeito, ainda modificou – para pior – as características dos personagens da obra literária.
Acredito que os fãs do saudoso cineasta americano estejam me excomungando, mas antes de criticarem a minha postura, leiam o livro e depois comparem as duas obras. As diferenças são gritantes. E não me venham com aquela velha conversa de que as vezes algo bom existente em um livro não ficaria legal num filme. Tudo na obra de King é legal, surpreendente, além dos personagens com características marcantes, principalmente o casal Jack e Wendy Torrance.
Enquanto a Wendy ‘recriada’ por Kubrick – vivida pela atriz Shelley Duval - só mostra o seu lado fraco e submisso; a personagem original – presente nas páginas – mesmo tendo as suas fraquezas e momentos de insegurança, na Hora H quando o ‘calo aperta’, ela se transforma numa leoa, capaz de enfrentar a socos e pontapés qualquer Jack Torrance possuído ou neurótico. E o calo de Wendy aperta toda vez que alguém maltrate o seu filho Danny, o iluminado do título.
Já o Jack Torrance criado por King é complexo e assustador. Ora boa gente, ora um velhaco; ora educado, ora descontrolado; amoroso com o filho de três anos, mas também capaz de agredi-lo e feri-lo fisicamente. King explica através de narrativas em flashback o motivo desse comportamento ambíguo de Torrance e assim, o leitor toma conhecimento da infância complicada do sujeito; culpa de sua família mais complicada ainda.  Ao final das contas, acabamos entendendo que os principais responsáveios pelo descontrole e  ‘recaídas de caráter’ de Torrance são os seus pais.
Enquanto temos um Jack Torrance complexo e instigante nas páginas, o personagem do filme é raso e em alguns momentos, monótono.
Outra mudança proposta por Kubrick em sua produção cinematográfica está relacionada ao Hotel Overlook. No livro, o hotel é um personagem que manipula todos aqueles que freqüentam as suas dependências – desde hóspedes a funcionários – e instiga Jack voltar a beber álcool e assassinar a esposa e o filho. Não vemos o hotel como hotel, mas como uma entidade do mal que manipula as pessoas. Resumindo, na obra escrita, o Overlook é o verdadeiro vilão da história. Na verdade, no final do livro, entendemos tudo isso, pois passamos a ver o Overlook como um ser maligno.
E quanto a Danny? Caraca! É Danny que enfrenta essa entidade do mal. O duelo ocorre nas últimas páginas. E que duelo! Fiquei com o coração na mão. Muito tenso. King criou um conflito de difícil solução para a criança. Como não quero estragar o texto com spoillers, paro por aqui.
O Danny original de King  é muito mais profundo, completamente diferente do Danny genérico do filme. Ao passo que o personagem idealizado pelo autor vai crescendo no decorrer da história, chegando ao ponto de lutar pela sua vida e também pela de sua mãe, o Danny modificado por Kubrick é apenas um garotinho que vê e sente fantasmas nos corredores do hotel.
No final desse post, vale um lembre muito importante. Se forem comprar  o livro optem pela edição capa dura da coleção “Biblioteca Stephen King” lançada pela Suma de Letras. Além do layout incrível, a obra traz ainda prólogo e epilogo inéditos, nunca encontrados em edições anteriores.
Por tudo isso e muito mais, ta explicado por Stephen King detestou tanto  filme de 1980.
Conselho?

Leiam o livro.

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