quarta-feira, 9 de agosto de 2017

A Praga – O holocausto da hanseníase. Histórias emocionantes de isolamento, morte e vida nos leprosários do Brasil

Vou usar o mesmo termo que uma leitora do blog, Débora Araújo, usou ao comentar um post que escrevi na época do lançamento do livro da jornalista Manuela Castro: chocante. Pois é, é dessa maneira que defino o livro “A Praga – O holocausto da hanseníase. Histórias emocionantes de isolamento, morte e vida nos leprosários do Brasil”. Os fatos investigados pela jornalista e expostos aos leitores, de fato, chocam; da mesma maneira que chocaram as descobertas de outra jornalista, Daniela Arbex, em sua obra “Holocausto Brasileiro” em que  narra a história de milhares de pacientes internados à forças, sem diagnóstico de doença mental, num enorme hospício na cidade mineira de Barbacena. Quero aproveitar o ‘gancho’ para parabenizar a editora Geração Editorial por ter apostado nestes dois livros-reportagem, dando um presente fantástico a todos nós, leitores.
Através de uma narrativa fluída, Castro narra em sua obra as histórias de pessoas que foram caçadas no Brasil por causa da doença.  Após serem ‘jogadas’ nos leprosários, mães diagnosticadas com hanseníase eram, definitivamente, separadas de seus filhos que, por sua vez, acabavam sendo encaminhados para adoção ou então para abrigos onde, quase sempre, sofriam todos os tipos de abusos – violência sexual, física e psicológica - praticados por funcionários despreparados. Casos de crianças portadoras de hanseníase que de uma hora para outra, foram levadas de seus lares para as colônias de leprosos (como eram conhecidos os leprosários) e nunca mais voltaram a ver os seus pais. Exemplos de internos que conseguiram sobreviver nesse verdadeiro inferno, conquistando o seu espaço na sociedade e tornando-se verdadeiros exemplos na luta contra o preconceito.
A autora abre o baú das verdades com revelações estarrecedoras e que mexem com os leitores. A história de Conceição é uma das mais marcantes e dolorosas do livro. Aos sete anos, ela foi afastada dos pais. Internada, nunca mais voltou para casa. Adulta, se apaixonou por um interno, casou-se e teve de encarar a dura realidade de não poder constituir família. Por sete vezes engravidou, por sete vezes os filhos nasceram saudáveis, por sete vezes olhou-os rapidamente para os seus rostinhos e teve de se despedir para nunca mais vê-los. Enfim, o livro mostra um mundo de histórias emocionantes de pessoas que enfrentaram isolamento, preconceito e morte nos leprosários.
Castro ainda explora duas importantes vertentes sobre o assunto em seu enredo: o atraso da chegada da cura da lepra no Brasil que acabou gerando sérias conseqüências para inúmeros pacientes, além de um panorama da origem da doença, explicando, inclusive, como ela chegou ao Brasil.
“A Praga – O holocausto da hanseníase” revela que durante milênios, o leproso foi isolado da sociedade, abandonado para ser morto em florestas e cavernas, deteriorado a tal ponto que simplesmente olhá-lo era considerado mau agouro. Vinda  da Ásia e do Oriente Médio, a doença acabou penetrando na Europa. A discriminação e o medo sempre a cercaram. No Brasil, a lepra chegou marcada por todos os antecedentes negativos e não teve destino diferente.
A autora faz uma revelação que deixa os leitores boquiabertos: apesar da cura da doença ter surgido nos anos de 1940 - época em que muitos países europeus começaram a fechar os seus leprosários, liberando os seus pacientes para o tratamento domiciliar – no Brasil, o isolamento compulsório prosseguiu em leprosários até 1986!
“A Praga – Holocausto da hanseníase” traz também fartas ilustrações sobre o tema, com imagens de colônias, antigos leprosários, pacientes, etc. Muitas dessas ilustrações nem sequer precisam de textos, pois as imagens já dizem tudo.
Um relato emocionante sobre um dos períodos mais tristes na história da saúde pública no Brasil.
Leitura indispensável.

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