segunda-feira, 25 de agosto de 2014

O Príncipe da Névoa



Antes de entrar no assunto do post, propriamente dito, me perdoem galera, mas não posso deixar de registrar mais uma das peripécias do Kid Tourão. Vejam só: o bom velhinho nonagenário estava assistindo ao Jornal da Band, o seu preferido, quando aparece o repórter falando que Roger Abdelmassih está sendo acusado de estuprar 56 mulheres. –“Pega esse velho FDP e joga o danado numa cela do PCC e fala pra ele bancar o touro rufião no pedaço! Quero ver se ele vai ser ‘hômi’ o suficiente”. Dias antes, ele já tinha visto na Globo, o William Bonner trucidar o Aécio, o Eduardo Campos e a Dilma naquelas entrevistas que mais se parecem com bombardeios na Faixa de Gaza. “Esse rapaz está muito desaforento; quero ver ele bancar o brabão com aqueles brucutus da luta livre!”. Só para esclarecer os leitores que para o Kid Tourão a sigla MMA nada significa, para ele os atuais combates de artes marciais mistas não passam de lutas livres, iguaizinhas aquelas de antigamente com o Fantomas, Mister Argentino e Tedy Boy Marino. “Vai, coloca um daqueles pra ver se esse rapazinho (Bonner) vai ficar gritando na orelha e erguendo o dedo na cara. Tá loco!!”
Perdoem-me fugir do tema do post, mas tinha que contar mais essa ‘pérola’ do velhinho peralta que apesar dos problemas de saúde continua aprontando das suas e sempre com bom humor. Vocês que ainda não conhecem o Kid Tourão, se quiserem curtir as suas aventuras acessem aqui, aqui, aqui e mais aqui. Mas vamos ao que interessa: “O Príncipe da Névoa”.
Se você já leu “A Sombra do Vento”, “O Jogo do Anjo” ou “Marina” não vá com tanta sede ao pote quando encarar “O Príncipe da Névoa”. Vá com calma, sem expectativas exacerbadas. É fácil explicar esse chamado “pé no freio”, afinal de contas “A Sombra do Vento” é considerada a obra máxima de Carlos Ruiz Zafón, escrita no auge de sua carreira como autor, enquanto “O Príncipe da Névoa” foi apenas o seu primeiro romance publicado e como o próprio escritor espanhol disse, o livro que marcou o início de sua singular carreira de escritor. Portanto, quando escreveu esse livro, logicamente, Zafon estava começando a desenvolver os seus atributos literários que fariam dele, alguns anos depois, um dos principais e mais respeitados escritores do mundo.  Dessa maneira, a obra – que diga-se de passagem, tem os seus méritos – apresenta vícios de linguagem e falta de ritmo em alguns momentos, mostrando um jovem autor ainda ‘verde’. Seria uma grande falta de bom senso ter a pretensão de comparar “O Príncipe da Névoa” com “A Sombra do Vento”. Não dá. Esqueça.  O próprio Zafon reconhece as limitações de sua história ao explicar na introdução que se sentiu tentado a usar algumas coisas que aprendeu na prática de seu ofício, ao longo dos anos, para reconstruir e reescrever quase tudo. Só não fez isso porque achou que devia deixar a obra tal como é, com seus defeitos e sua personalidade intactos. Vale lembrar que apesar de ter sido lançado no mercado literário brasileiro no ano passado pela Suma de Letras, “O Príncipe da Névoa” foi escrito em 1993, só chegou aqui na terrinha, 20 anos depois. Com relação à Sombra do Vento”, Zafon só viria à escrevê-la, oito anos após “O Príncipe da Névoa”.
Mas certamente, você deve estar pensando que o enredo do primeiro livro do autor catalão é muito fraco. Bem, o leitor que pensa dessa maneira se esquece de um detalhe importante: Zafon é um gênio e quando um gênio escreve algo mediano, esse mediano ganha o status de ótimo. Sendo assim,  “O Príncipe da Névoa” é ótimo, mas... “A Sombra do vento” é excelente.
Caim: o palhaço demoníaco de "O Príncipe da Névoa"
Logo de cara, o autor já coloca na ponta da agulha, um palhaço demoníaco como vilão. Cara, quer coisa pior do que um palhaço todo desfigurado e com um sorriso macabro ‘pregado’ na cara?! E ainda por cima feiticeiro, macumbeiro, mago ou o escambau a quatro?! Pois é, o tal Caim de “O Príncipe da Névoa” não fica devendo nada para o Pennywise de Stephen King. O primeiro livro escrito por Zafon não tem apenas terror. Nada disso. A história mescla amor, amizade, respeito e redenção. A cena envolvendo Roland e Alícia no fundo do mar, quando um dos dois é obrigado a fazer uma escolha que irá mudar o destino do casal é de estraçalhar o mais duro dos corações. Preparem os lenços.
“O Príncipe da Névoa” é uma caixinha de emoções: ora lhe provocando arrepios de medo, ora lhe emocionando, sem contar comas reviravoltas – que já se tornaram marca registrada do estilo de Zafon - que deixam o leitor de queixo caído.  Perto do final do livro, Zafon faz uma revelação surpreendente envolvendo determinado personagem que nem mesmo o mais esperto dos leitores poderia desconfiar.  Cara, pode acreditar, quando li derrubou o meu queixo juntamente com todos os dentes. Fiquei com cara de bobo, completamente pasmado. Aliás é isso que me encanta no estilo de Zafon: “nada é o que parece ser”. Quando menos se espera vem a bomba.
Em “O Príncipe da Névoa”, o autor conta a história da família Carver que por decisão do pai, para fugir da guerra, decide se mudar para um tranqüilo vilarejo no litoral. Porém, a nova casa dos Carver está cercada de mistérios. Atrás da casa, o pequeno Max Carver descobre um jardim abandonado, que contem estranhas estátuas, incluindo a de um sinistro palhaço, juntamente com símbolos desconhecidos.
Os novos moradores se sentem cada vez mais ansiosos: a irmã de Max, Alícia, tem sonhos perturbadores, enquanto a outra irmã, Irina, ouve vozes que sussurram para ela de um velho armário.
Escritor espanhol, nascido em Barcelona, Carlos Ruiz Zafon
Com a ajuda do novo amigo, Roland, Max também descobre os restos de um barco que afundou há muitos anos, numa terrível tempestade. Todos a bordo morreram, menos um homem – um engenheiro que construiu o farol no fim da praia.
Enquanto os adolescentes exploram o naufrágio, investigam os mistérios e vivem um primeiro amor, um diabólico personagem começa a surgir: o Príncipe da Névoa, capaz de conceder qualquer desejo a uma pessoa – mas cobrando um preço alto demais.
“O Príncipe da Névoa” é o primeiro de uma série de romances juvenis escritos pelo autor, junto com “O Palácio da Meia Noite”, “As Luzes de Setembro” e “Marina”, escritos antes da publicação de “A Sombra do Vento”.
Podem ler tranqüilos, sem medo de se decepcionarem, afinal estamos nos referindo ao gênio Carlos Ruiz Zafon e como já escrevi no início do post, um gênio quando faz algo simples, esse simples se torna sofisticado.

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