31 outubro 2017

A Escrava Isaura

Resenhar “A Escrava Isaura” de Bernardo Guimarães é complicado... muito complicado. Com certeza se analisá-lo de uma maneira crítica, esquecendo-me de sua veia folhetinesca, irei levar alguns açoites no lombo – pois nem todos os leitores poderão concordar com as minhas colocações – por outro lado, se me ater apenas as peripécias, dramas e romances envolvendo os seus personagens, corro o risco de levar outros acoites no mesmo lombo, agora por acharem que estou sendo superficial e ingênuo. Resumindo: as lambadas chegarão de qualquer maneira. Portanto – como já dizia Kid Tourão, ‘perdido por perdido, truco!’. Irei escrever sobre essas duas vertentes da obra.
Talvez o que eu exponha agora, possa chocar alguns defensores da obra de Bernardo Guimarães. Assim, me desculpem aqueles que consideram “A Escrava Isaura” uma obra anti-escravagista ou abolicionista. Eu não penso dessa maneira. Vejam bem, o autor coloca como heroína em plena campanha abolicionista - período em que os escravos negros eram maltratados e torturados por seus senhores - uma escrava branca, bonita, educada e que ainda toca piano e se veste bem. Em contraste, temos Rosa – uma das antagonistas de Isaura. Ela é negra, bem menos bonita, ardilosa, vingativa e invejosa. Capiche? Todas as virtudes ficam com a escrava branca e todos os defeitos ficam a escrava negra.
O autor faz questão de ressaltar de maneira exaustiva a beleza pura e branca de Isaura. Isto fica evidente em vários trechos da obra, onde Guimarães enaltece a sua pele branca como marfim e sem nenhum traço africano. Cara, se pensarmos bem, não havia nada em Isaura que a denunciasse como escrava.
Outra escolha do autor foi se deter muito pouco aos sofrimentos provocados nos negros durante o  regime escravocrata. Volta e meia aparecem no enredo algumas frases abolicionistas, mas de pouca significância. A história tenta camuflar tudo isso com muito drama, perseguições e romances proibidos entre os seus personagens.
Desta maneira, não posso concordar com as pessoas que comparam “A Escrava Isaura” com “A Cabana do Pai Tomás” de Harriet Beecher Stowe, escrito em 1851 - 24 anos antes da obra de Guimarães – quando a escravidão ainda imperava nos Estados Unidos com o contrabando de escravos apoiado por muitos senhores do Norte. Foi nesta época que o livro de Harriet Stone caiu como uma bomba mandando para os ares toda e qualquer pretensão a favor da escravidão.
“A Cabana do Pai Tomás” teve um papel relevante na libertação dos escravos nos Estados Unidos, acordando as consciências dos americanos para a iniquidade da escravatura. A obra é um relato nu e cru das mazelas enfrentadas pelos negros, vítimas do regime escravocrata americano. Um verdadeiro libelo contra a escravatura.
Já, “A Escrava Isaura” pisa em ovos. A impressão que tive é que o autor não queria provocar a fúria de seus leitores mais conservadores do século XIX  por isso acabou optando por apenas cutucar o regime e não dar a estocada fatal. Acredito que Guimarães escreveu um livro com o objetivo de atingir o publico alvo daquela época (1875) formado por mulheres e moçoilas da sociedade que raramente saíam de suas casas desacompanhadas e por isso tinham, somente, como diversão ficar cosendo ou lendo histórias de amor.
O livro é ruim por não ser tão crítico e ácido quanto a “Cabana do Pai Tomás”? Jamais. “A Escrava Isaura” é um  romance muito bem escrito e com diálogos maravilhosamente construídos e que deu ao seu autor a fama merecida.
O meu conselho é que não leiam a obra como instrumento anti-escravagista, mas simplesmente como um romance muito bem escrito. Se olharem por essa ótica, irão apreciá-lo muito. Praticamente, irão devorá-lo como eu devorei.
O enredo, que se passa durante os primeiros anos do reinado de D. Pedro II, em resumo, conta a história de Isaura, escrava branca, bonita, bem vestida e educada que é assediada por Leôncio, seu cruel senhor, recém casado com Malvina. Como Isaura se recusa a ceder aos apelos de Leôncio, ele a manda para a senzala trabalhar com outras escravas. Vale lembrar que a mãe de Isaura também sofreu na pele toda a tirania da família de Leôncio, para ser mais exato, de seu pai que por não conseguir conquistar, a força, o seu amor acabou por submetê-la a um tratamento tão cruel que matou a pobre mulher.
Boa leitura, mas sem olhares críticos.

Inté!

27 outubro 2017

Acidente com o Fokker 100 da TAM que deixou 99 mortos em São Paulo completa 21 anos. Confira dois livros sobre a tragédia

Há exatos 21 anos, eu acompanhava aturdido pela televisão a queda do Fokker 100 da TAM sobre oito casas no bairro do Jabaquara, em São Paulo. A tragédia  que deixou um saldo de  99 mortos – todos os passageiros e tripulantes da aeronave, totalizando 96 pessoas, além de outras três vitimas que estavam em terra – chocou todo o País.
O voo 402 decolou às 8h26 do dia 31 de outubro de 1996 do Aeroporto de Congonhas com destino ao Rio de Janeiro e caiu 24 segundos depois.
Segundo as investigações, a queda do avião foi provocada por uma falha no reversor da turbina direita (freio aerodinâmico) que abriu durante a decolagem, um erro cuja chance de ocorrer seria, segundo projeções da fabricante, da ordem de um em 100 bilhões.
Ao se aproximar da rua onde caiu, a cerca de 2 km do aeroporto, o avião esbarrou em um prédio na esquina com a Avenida Jarupari, próximo à Escola Estadual Doutor Ângelo Mendes de Almeida.
A asa direita do avião cortou parte de um outro prédio na esquina da Rua Luís Orsini de Castro. A aeronave ainda levou o telhado de um sobrado, no número 40 da mesma rua, onde fez a primeira vítima em terra. O avião caiu no lado ímpar da rua, nas oito casas entre os números 59 e 125. Duas vítimas que estavam no solo morreram no número 77.
Cara, ainda me lembro da fila de corpos cobertos com sacos pretos, todos eles estendidos na rua numa fila macabra e ao mesmo tempo triste. Chorei muito. Aliás, decorridas mais de duas décadas do acidente, ainda me emociono.
Após o acidente com o avião da TAM em 1996,  foram publicados dois livros sobre o assunto. Confiram:
01 – Perda Total (Ivan Sant’Anna)
O escritor, que é piloto amador e trabalhava no mercado financeiro, passou cerca de três anos e meio pesquisando a fundo para reconstituir passo a passo três dos maiores, e mais recentes, acidentes da aviação nacional: o TAM 402, o GOL 1907 e o TAM 3054, que juntos interromperam quase 450 vidas num espaço de dez anos.
Apesar de “Perda Total” não ser um livro que aborde exclusivamente os fatos relacionados ao acidente envolvendo o vôo 402 da TAM, os leitores interessados nessa tragédia irão encontrar muitas informações interessantes.
No livro, ele transcreve, por exemplo, o diálogo final e as últimas ações dos pilotos, que mostra que o tempo inteiro eles trabalharam em cima de um erro - já que tentavam solucionar um problema no autothrottle (acelerador automático) que não existia, já que a falha foi no reverso (uma espécie de freio). Segundo o autor, este e outros detalhes que estão na obra, não são exatamente novidades, mas coisas que foram descobertas anos depois dos acidentes e que muitas deixaram de ser divulgadas ou não tiveram repercussão.
Além das gravações de caixas pretas das três aeronaves, com todas as falas das cabines e os dados técnicos dos vôos, a  pesquisa realizada por Sant’Anna incluiu também os relatórios do Cenipa (Centro de Investigação e Prevensão de Acidentes Aeronáuticos, da FAB).
A obra foi muito elogiada por pilotos e experts em aviação, por isso, acredito que vale a pena ser lida.
Autor: Ivan Sant’Anna
Editora: Objetiva
Ano da edição: 2011
Páginas: 304
Acabamento: Brochura
02 – O Dia Que Mudou Minha Vida (Sandra Assali)
Quando há mais de 20 anos vi pela TV a queda do Fokker 100 da TAM, o meu pensamento se voltou de maneira instantânea para os familiares das vítimas. Putz! Como vai ficar a situação daquelas pessoas que dependiam das vítimas para a sua sobrevivência? Elas serão indenizadas ou não? Esta indenização vai demorar? Como elas ou eles irão fazer até lá? Enfim, como será feito o gerenciamento das crises de tantas pessoas após a queda do avião?
O acidente com o vôo 402 da TAM provocou catástrofes em várias famílias com filhos perdendo os pais, esposas perdendo os maridos ou vice e versa, empresas que perderam seus líderes. Cara, foi uma cadeia de catástrofes.
E ninguém melhor do que uma pessoa que esteve envolvida  no centro dessa catástrofe para ‘falar’ sobre o sinistro e principalmente orientar todos os familiares das vítimas.
Assali é uma das viúvas do vôo 402. Ela perdeu o marido, José Rahal Abu Assali. Para superar o trauma da perda repentina, criou a Abrapavaa (Associação Brasileira de Parentes e Amigos das Vítimas de Acidentes Aéreos), da qual é presidente até hoje.
A associação revolucionou o sistema de indenizações às famílias das vítimas.  Na época, 64 famílias se uniram para entrar com processo na justiça dos Estados Unidos, país do fabricante do reverso do Fokker 100 --equipamento do avião que apresentou problema e foi um dos principais fatores do acidente.
Antes mesmo de uma decisão judicial, Sandra afirma que as famílias assinaram acordos extra-judiciais entre US$ 800 mil e US$ 1,5 milhão (entre R$ 2,5 milhões e R$ 4,7 milhões na cotação atual).
“O Dia Que Mudou Minha Vida dá detalhes de como está sendo realizado esse gerenciamento da crise envolvendo uma das maiores tragédias da aviação em nosso País.
Autor: Sandra Assali
Editora: Independente (Sandra Assali)
Ano da edição: 2016
Páginas: 229 (Tamanho do arquivo: 1849 KB)

Acabamento: eBook Kindle

23 outubro 2017

DarkSide relança Creepshow, obra rara de Stephen King

Lá pelos meus 20 anos, assisti a um filme no cinema de minha cidade que arrastou um grande numero de garotos. O Cine São Salvador tornou-se pequeno para receber toda a galera. Anos depois, na fase dos famosos e saudosos VHS’s, loquei o mesmo filme e deliciei-me novamente. Não satisfeito, há pouco tempo, sai desesperadamente a procura dos quadrinhos sobre o filme e... decepção: todos eles esgotados e assim;  acabei voltando para casa de mãos vazias.
E agora, após décadas, uhauuuuu!!!! Finalmente poderei realizar o meu desejo de consumo. A DarkSide, editora especializada no lançamento de livros de terror já colocou no mercado uma verdadeira lenda: Creepshow. E aí? Conhecem? Se você faz parte da minha geração, com certeza deve se lembrar e também  cultuar esta famosa histórias em quadrinhos do mestre da literatura de terror, Stephen King.
Deixe-me contar um pouquinho da história de Creepshow. Garanto que valerá a pena. Lá pelos idos de 1982, o grande mestre do terror, já famosíssimo na época, propôs ao seu grande amigo George Romero - considerado uma verdadeira lenda por causa de sua obra prima “A Hora dos Mortos Vivos” (1968) – um projeto cinematográfico onde ele, King, escreveria o roteiro e Romero, entraria com a direção. Resultado: o nascimento de um dos filmes de terror mais idolatrados de todos os tempos.
Participação de Stephen King no conto "A Morte Solitária de Jordy Verrill"
“Creepshow” chegou ao primeiro lugar de todas as bilheterias mundiais, enfim, um estrondoso sucesso de crítica e público. A obra cinematográfica dos dois amigos gastou poucos recursos e arrecadou muito dinheiro. O sucesso fez com que Romero e King se unissem novamente em uma continuação, “Creepshow 2: Show de Horrores”, em 1987, cinco anos depois do sucesso do primeiro filme, mas sem o mesmo impacto do projeto original.
No mesmo ano do lançamento do primeiro filme, ou seja, 1982, King decidiu transformar o roteiro de “Creepshow” numa história em quadrinhos. Para fazer as ilustrações, ele chamou outro amigo, mais uma  fera chamado Bernie Wrighston que algum tempo depois trabalharia em outro projeto literário do autor, o emblemático “A Hora do Lobisomem”.
A história em quadrinhos foi lançada pela Penguin Books e à exemplo do filme se tornou um sucesso instantâneo de vendas. O gibi de 64 páginas trazia a segunda incursão de  King ao universo dos quadrinhos. O autor já havia feito uma experiência em Bizarre Tales, da Marvel, em dezembro de 1981 em um conto com arte de Walt Simonson, deixando evidente que sempre manteve ligações a grandes nomes em seus projetos, seja nos quadrinhos ou no cinema.
A HQ “Creepshow” vendeu tanto, mas tanto que acabou se esgotando, entrando para o rol das obras extintas, deixando com água na boca muitos fãs do mestre do terror que, assim, tiveram de se contentar apenas com o filme. Inclusive, vale à pena lembrar que para aqueles que já assistiram a produção cinematográfica não haverá surpresas, já que a HQ foi adaptada literalmente do roteiro do filme. Mas galera... confesso que nada disso interessa. Eu quero é ter os dois!
Parte do meu sonho já foi  realizado há muito tempo quando consegui copiar o filme de um amigo, mas quanto a HQ, por estar extinta, a missão era considerada impossível.
George Romero e Stephen King no intervalo das filmagens de Creepshow
Vejam bem, “era”, porque agora, a DarkSide acabou de relançar as cinco histórias de Creepshow com um layout de ‘estontear’ (no bom sentido, é claro) qualquer leitor. Fazem parte do pacote: capa dura, ilustrações originais de Wrighston, papel de qualidade, enfim, um design de arrepiar, bem ao estilo da DarkSide.
Confiram o resumo das cinco histórias de “Creepshow”:
Na primeira, chamada "Dia dos Pais", um velho demente decide voltar a vida, após sete anos de sepultura, para comer o bolo de Dia dos Pais e vingar-se da filha que o matou, pois não suportava mais o seu jeito bruto.
No 2º conto, "A Morte Solitária de Jordy Verrill", que na adaptação cinematográfica contou coma presença de Stephen King, um pequeno agricultor vê  um meteorito cair nas suas terras. Ele pensa então em vendê-lo por 200 dólares para poder pagar as dívidas, mas ao tocar no meteorito contrai algo que gradativamente o transforma numa planta. Além disso um líquido que sai do meteorito faz a vegetação ao redor da sua casa crescer de forma assustadora.
No 3º conto, "Indo com a Maré", Richard Vickers, um vingativo marido , enterra a sua esposa e o amante dela na praia. Ambos ficam enterrados na areia até o pescoço para que sejam afogados pela maré, mas algo de imprevisto acontece, pois os amantes voltam como mortos-vivos afogados dispostos a se vingar na mesma moeda.
No 4º conto, "A Caixa", Mike é o segurança de uma faculdade, que liga para o seu professor dizendo  que achou uma caixa de 1834 escondida debaixo da escada. O mestre vai ao seu encontro e, ao abrirem a caixa, surge uma aterradora criatura que mata Mike. Apavorado com o sucedido, o professor sai a procura de auxilio, mas o seu pesadelo está apenas começando.
Na última história, "Vingança Barata", um intratável milionário que tem mania da limpeza, é atacado por uma infinidade  de baratas.
Beleza? Então corram e comprem logo esse presentão... para você.
Detalhes técnicos
Autor: Stephen King
Páginas: 64
Edição: 1ª
Tipo de Capa: Capa Dura
Formato: Livro
Editora: Darkside Books
Ano: 2017

Gênero: Terror

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