Flores para Algernon

09 fevereiro 2022



Não espere um livro com grandes plot twists, aliás, Flores para Algermnon não tem nenhuma reviravolta bombástica na história. Tanto é verdade que logo no início da trama, eu já imaginava qual seria o final e adivinhem? Acertei em cheio! Começando a resenha dessa forma, fica a impressão de que o livro de Daniel Keys é algo sem sal e sem açúcar, enfim uma leitura nada atraente. Mero engano. Na realidade, Flores para Algernon é maravilhoso, uma leitura cativante e emocionante. Aliás, para uma obra literária ser boa não é preciso que ela esteja recheada de plot twists. Conheço várias narrativas ruins que tem inúmeras reviravoltas, por outro lado, conheço muitas narrativas excelentes e sem nenhum twist. Flores para Algernon se encaixa nessa segunda categoria.

Além de ter me emocionado muito, a história de Charlie Gordon fez com que a minha empatia por pessoas com deficiências intelectuais crescesse ainda mais. A narrativa de Keys é um tapa na cara de muitas pessoas que não dão a devida atenção para adultos ou crianças portadoras desse tipo de transtorno, transformando-os em vítimas de bullying ou simplesmente ignorando-as. A minha vontade, quando terminei a leitura, era a de esfregar o livro na cara dessas pessoas. Verdade! A história, de tão profunda e emocionante, mexe muito, mas muito com a gente.

A história é escrita em primeira pessoa, na forma de epístolas pelo personagem Charlie Gordon que sofre de retardo mental. Ele trabalha em uma padaria onde é um bom funcionário. Apesar de ter amigos no ambiente de trabalho, quase sempre acaba sendo vítima de brincadeiras de mau gosto por esses supostos “amigos”.

Depois de algum tempo, Charlie é selecionado para ser o primeiro humano a passar por uma cirurgia revolucionária que promete aumentar o QI do paciente transformando-o num ser humano com uma capacidade intelectual espantosa. Em um avanço científico sem precedentes, a inteligência do personagem aumenta tanto que ultrapassa a dos médicos que planejaram o experimento. Entretanto, Charlie passa a ter novas percepções da realidade e começa a refletir sobre suas relações sociais e até sobre o papel de sua existência.

Os trechos do livro que mostram o relacionamento de Charlie com Alice, a sua professora da escola de alunos com deficiência mental, são os mais fortes e emocionantes da narrativa, principalmente depois que ele atinge o limite de seu QI, tornando-se uma pessoa extraordinariamente inteligente. Esta mudança acaba interferindo até mesmo em sua interação com as pessoas que tem um QI elevado – os chamados gênios – e muito mais ainda com aquelas de QI normal. Isto porque a sua inteligência, após a operação, chega a ultrapassar todos os limites.

Outro momento forte do livro e que desperta um sentimento de raiva no leitor é relacionamento de Charlie com a sua mãe e com a sua irmã quando ainda sofria de retardo mental. Cara, abusivo demais! Que ódio dessas duas mulheres!

A conclusão do enredo, mesmo não sendo nenhuma novidade e até mesmo obvio, emociona pra caramba.

O autor foi muito criativo ao optar por desenvolver a sua narrativa em primeira pessoa na forma de um diário onde Charlie vai escrevendo passagens de sua vida. No início, a sua escrita é cheia de erros crassos de português, mas depois conforme a sua inteligência vai avançando, esses erros também vão desaparecendo e o seu texto ganha uma escrita perfeita. Achei um lance bem inovador por parte de Keys.

Flores para Algernon foi escrito na forma de conto e publicado pela primeira vez em 1958 numa revista de fantasia e ficção científica, ganhando o Prêmio Hugo de Melhor Conto em 1960. O romance foi publicado em 1966 e foi co-vencedor do mesmo ano do Prêmio Nebula para Melhor Novela.

A ideia de Keys em escrever a história surgiu durante um momento crucial, em 1957, enquanto Keyes ensinava inglês a alunos com necessidades especiais. Um desses alunos perguntou-lhe se seria possível ser colocado em uma classe comum (regular) se ele trabalhasse muito e se tornasse inteligente. Esse foi o gatilho para escrever Flores para Algernon.



O livro fez tanto sucesso no decorrer dos anos que ganhou várias adaptações para a TV e o cinema, sendo a mais famosa delas “Os Dois Mundos de Charly” de 1968 e que rendeu o Oscar de ‘Melhor Ator’ para Cliff Robertson.

Antes de encerrar essa resenha gostaria de revelar quem é o Algernon do título do romance de Keys. Tudo bem, fique despreocupado porque não darei spoilers. Vamos lá. Algernon é um rato de laboratório que serviu de cobaia no experimento científico. O animal foi o primeiro a passar pela cirurgia para aumentar a inteligência. Quanto as “Flores” que também fazem parte do título, bem... só lendo a história para compreender.

A leitura valeu muito a pena.



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