domingo, 2 de abril de 2017

O Adversário

Até agora tive sorte. Gostei dos livros – alguns mais outros menos - dos autores nacionais, em início de carreira, que me enviaram as suas publicações para serem avaliadas. Ainda bem. Digo ainda bem, porque é constrangedor você receber um livro de cortesia e depois dizer em seu blog que o tal livro é uma porcaria. Penso que ao agir dessa maneira, estou ajudando a destruir os sonhos de escritores iniciantes que demoraram anos para serem criados e consolidados: o sonho de uma história. E sabemos que um autor considera uma história escrita por ele como um filho seu.
Mas prefiro ser honesto do que mentir para a pessoa que me enviou o livro. Se eu gostar vou dizer que gostei e se não gostar, direi que o material não me agradou. Acho que a honestidade é tudo para os blogueiros literários, pois afinal de contas, trabalhamos com um universo formado por milhares de leitores. Dessa forma, você não estaria mentindo para uma ou duas pessoas, mas para muuuiiitas delas. Este é um dos motivos pelo qual não fico muito propenso em aceitar propostas para opinar sobre os ‘primeiros livros escritos’ de escritores – com todo o respeito – de ‘primeira viagem’. Mas, às vezes, lá tô eu recebendo alguns e também lendo alguns. Vai entender.
Bem, há uma semana, Maurício Limeira me enviou ‘O Adversário’, seu primeiro livro, para que eu lesse e resenhasse. Li rapidinho. Acho que em três dias já tinha terminado as 219 páginas. E quando lemos uma história em poucos dias é porque ela nos agradou; ao contrário daquelas em que ficamos enroscados semanas e até meses.
Um dos motivos do enredo de ‘O Adversário’ prender a atenção dos leitores é a composição de seus personagens principais. Discordo de um comentário que li num blog, dizendo que esses personagens são superficiais e que não foram bem desenvolvidos. Cara, penso ao contrário: eles foram muito bem desenvolvidos. O autor usou um recurso literário muito inteligente de ir revelando aos poucos, e não de repente, os detalhes dos personagens centrais. Por exemplo, você fica sabendo detalhes sobre a vida do Zeca  no decorrer da história. Com Casemiro também é a mesma coisa. Não teria como Limeira revelar, logo de cara, os segredos da infância do misterioso Casemiro sem quebrar toda a sua aura mística. Tão mística que chega a lhe dar um ar sobrenatural no início do romance. O autor desnuda o Casemiro sómente perto do final da trama, deixando-o “pelado” para que o leitor possa, então, possa conhecer toda a origem do personagem.
Com relação a Natália, namorada de Zeca, o autor usa o mesmo recurso e apesar de revelar pouca coisa sobre a sua vida, solta uma bomba nos capítulos finais,onde ficamos sabendo que há muito tempo atrás ela e o Zeca já haviam...
Eu considerei a elaboração dos personagens, principalmente a de Casemiro, o ponto alto de ‘O Adversário’. De nada adianta o autor dispor de um bom enredo, mas com personagens fracos.
                                    Booktrailer de 'O Adversário'
‘O Adversário’ narra a história de um jornalista – o nosso Zeca - que após presenciar a sua namorada ter sido brutalmente assassinada por um grupo de jovens desordeiros, resolve contratar um assassino de aluguel – o tal Casemiro -  para se vingar, ou seja, eliminar a gangue que matou a moça. Mas acontece que, de repente, Zeca se vê perseguido por Casemiro. É evidente que não irei revelar o motivo dessa mudança de rumo no enredo, pois acabaria estragando a surpresa final. Casemiro é o próprio mal em pessoa. Tão diabólico em suas atitudes que o seu nome acabou se tornando uma lenda no submundo do crime. Alguns acreditam que ele exista, outros não, atribuindo o seu nome ao imaginário de algumas pessoas.
O enredo prende a atenção, principalmente, enquanto o autor explora o ‘lance’ do terror psicológico. Prende mesmo. Em algumas partes, a história lembra muito o recurso utilizado por Neil Burger no filme ‘O Ilusionista’ (2006) onde os fios desamarrados na trama acabam sendo explicados ‘quadro a quadro’ no final.
Na minha opinião, a história perdeu, um pouco, o interesse quando a vertente descamba para o sobrenatural e principalmente para a materialização desse sobrenatural. Se tivesse ficado apenas no terror psicológico, o livro seria fantástico. Mas tudo bem, essa mescla de ‘terrores’ não compromete o trabalho de Limeira que é muito bom, mas muito bom, mesmo!
Vale muito a leitura.
Detalhes da obra
Título: O Adversário
Autor: Maurício Limeira
Editora: Clube dos Autores
Páginas: 176
Lançamento: 2010
Onde comprar: Portal dos Livreiros, Saraiva e Estante Virtual
Sobre o autor

Maurício Limeira é carioca, funcionário público, formado em História, nasceu em 1969, mora em Laranjeiras. Desde a adolescência vem escrevendo contos, crônicas, poemas e peças para teatro. Parte desse material reuniu num fanzine de quadrinhos chamado Quadrante e, mais tarde, no site que ele próprio editou em 2000, O Cisco Tonitruante (e que encerrou quatro anos depois). Teve um artigo dos tempos de faculdade publicado em 1998 no livro História e Imagem, organizado por Francisco Carlos T. da Silva, e dois contos publicados na coluna de Claudio Willer na revista Cult. Atualmente, participa do grupo Filmantes, com quem vem desde 2008 realizando vídeos de humor disponibilizados na internet. Em 2010, teve um conto premiado no Concurso Literário do Servidor Público do Rio de Janeiro. O Adversário é seu primeiro romance.

2 comentários:

  1. José, você conseguiu terminar de ler "O Visconde de Bragelonne" de Alexandre Dumas? A editora Zahar lançou uma versão belíssimas de "Os Três Mosqueteiros" com comentários e capa dura e já avisou que irá lançar "Vinte Anos Depois". Sendo assim, tenho esperança de que daqui alguns anos ela lance "O Visconde de Bragelonne" também.

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    Respostas
    1. Já li há muitos anos, na minha pré-adolescência. Quero ler novamente, mas o problema é localizar os livros. Quando li, havia emprestado da biblioteca da minha escola.
      Sendo assim, torço para que alguma editora faça o relançamento.

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