Carrie, A Estranha


Brigaduuuuu Tabitha!! Um colega meu, vive dizendo, ou melhor, exclamando isso. Sempre que encontro o Marcelo – fã incondicional de Stephen King, assim como eu – e o assunto invade a praia do mestre do terror, lá vem o “Celão” com a famosa frase.
Segundo ele, se não fosse Tabitha, esposa de King, hoje não teríamos o privilégio de ter nas mãos os livros do cara. Afinal de contas foi ela quem salvou um manuscrito que o autor, em início de carreira, jogou no lixo após ter achado a história uma porcaria. Ao ver a atitude do marido, Tabitha foi até o cesto de lixo e não parou de fuçar até ter encontrado o manuscrito todo amassado. Pegou as folhas de papel judiadas e esfregou no nariz de King. Fico imaginando a bronca bronca que o autor levou: “Seu infeliz!! Tá louco?! Você chegou a ler direito o que escreveu?! Então, pode dar um jeito de publicar essa história porque ela é fantástica!”
“Carrie, A Estranha”, é essa a tal história que o escritor odiou, mas a sua esposa amou. O Celão acredita que a carreira de  King começou a deslanchar a partir desse fato e que se não houvesse a intervenção de Tabitha, o autor poderia ter a sua inspiração literária encerrada naquele momento. Bem, não sei chega a tanto, às vezes penso que o meu colega de leitura esteja radicalizando. Acredito que King teria outras idéias incríveis, mesmo que Carrie não tivesse sido salva da extinção por uma esposa dedicada e acima de tudo inteligente. Na minha opinião o que vale nisso tudo é que Tabhita King nos presenteou com uma história incrivelmente fantástica e que, na época,  já deixava evidente todo o talento precoce de seu marido.
Penso que o grande King estava um pouco ébrio ou chapadaço e por isso, não conseguiu enxergar a obra prima que havia acabado de produzir em 1974.
Pois é, você pode até não gostar de algumas histórias do autor, mas dizer que ele não sabe escrever... bem, isso já atinge o status de heresia. Cara, King dá um verdadeiro show em “Carrie, A Estranha” unindo vários gêneros de linguagem num só enredo. A obra é construída no estilo epistolar, onde o autor explica através de cartas, notas de diários, notícias de jornais, trechos de livros fictícios, publicações científicas e etc, toda a saga da personagem principal Carieta White. Agora, você que ainda duvida da capacidade de King, vai lá amigo: tenta escrever uma história mesclando todas essas formas de linguagem, sem transformar o seu enredo numa bagunça generalizada. Com certeza, até mesmo, vários escritores conceituados não se arriscariam a ficar misturando estilos peculiares de linguagem. Para seguir por esse caminho, o cara tem que ser gênio e King, ao escrever Carrie, provou que é um escritor diferenciado.
O enredo de “Carrie, A Estranha” é carregado de emoções pesadas com trechos muito fortes e que chega a machucar o leitor, a partir do momento que ele começa a se envolver com os personagens. As descrições de bullying contra Carrie na escola são bem pesadas, da mesma forma, também é a sua interação com a mãe, uma religiosa fanática e fundamentalista.
Os pensamentos conflituosos de Carrie são descritos com perfeição por King, principalmente quando ela perde o controle de sua telecinese e começa a mandar tudo para os ares.  Este detalhe se transforma na grande diferença entre você ler o livro e assistir aos quatro filmes baseados na obra – três no cinema e um na TV. Nas telas é evidente que o cinéfilo não consegue saber o que está se passando na cabeça da personagem no momento em que ela sai botando fogo em tudo. Já no livro, o autor descreve detalhadamente tudo o que Carrie está pensando durante as suas ações, ou seja, o leitor entra na cabeça da personagem.
O capítulo que mostra a destruição da cidade de Chamberlain aumenta ainda mais a tensão durante a leitura. É como se você estivesse lá, vivendo o drama de cada morador e também o de Carrie. Caraca, fiquei com o coração na mão.
Nem mesmo grande parte do texto escrito em epístolas quebra o ritmo da leitura. As opiniões de médicos e cientistas que tentam explicar o fenômeno da telecinesia, as reportagens de jornais fictícios, além dos depoimentos de personagens que contam as suas experiências de terem conseguido sobreviver à tragédia da destruição de parte da cidade também prendem e muito a atenção.
Enfim, “Carrie, A Estranha” é um livro forte, tenso e violento. O próprio King admitiu ter escrito a obra em uma época difícil, onde passava por certa instabilidade emocional. Resultado: conseguiu idealizar uma história crua e com surpreendente poder de machucar e horrorizar.
Gostei muito do livro.
Recomendo!

2 comentários

  1. Foi um dos primeiros livros que li do King e é ótimo mesmo! O capítulo da destruição da cidade é épico!! Mas agora, depois de ter lido tantos livros do King, Carrie nem é um dos meus preferidos... rs

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É assim mesmo. Por escrever tantos livros e pela sua maioria ser tão bom, o melhor livro livro de King sempre acaba sendo o mais recente que lemos (rs)

      Excluir