sexta-feira, 25 de maio de 2012

Os vendedores de porta em porta e as suas coleções de livros e enciclopédias inesquecíveis

Nós vivemos em constante evolução. Aliás, quem ainda insiste em não se integrar aos avanços tecnológicos desse nosso mundo globalizado corre o risco de ser taxado de “atrasado”, “dinossauro das comunicações”, “ignorante” ou até mesmo de “burro”. Mas não tenho como negar que sinto muita saudades da época das enciclopédias e livros que eram vendidos na porta de nossas casas.
Não sei por que, mas na tarde de hoje me bateu uma nostalgia imensa dos meus tempos de criança e pré-adolescente quando tinha acesso a esse tipo de cultura. Talvez fosse o tempo nublado e frio que contribuiu para abrir as comportas da minha memória que desabou num mundo de recordações gostosas daquela época; ou talvez, tenha sido, ainda, um volume ‘meio’ corroído do Trópico – um de capa preta com as fotos de todos os presidentes daquela época e de outras passadas – que encontrei abandonado, enquanto fazia uma faxina na dispensa de minha casa. Sei lá, o que importa é que fui ‘levado’ novamente para aquela época que tantas saudades deixou;  pelo menos para mim.
Naqueles tempos idos, nem sonhávamos com micro-computador; internet, então, era ‘coisa’ de outro planeta. Afinal de contas, estávamos nos anos 70, sendo que a Internet só seria aberta para a população em geral, duas décadas depois, ou seja, nos anos 90. Nesta mesma época também surgiria o tão afamado (hoje não mais, já que vivemos a geração do Firefox) navegador Internet Explorer.
Aquela geração – da qual esse blogueiro de primeira viagem – também fez parte, desconhecia totalmente esses termos e essa tecnologia, a qual só viria ter acesso anos depois. Portanto, o que valia para a gente eram os vendedores de livros e enciclopédias de porta em porta. Eles eram a nossa Internet dos anos 70. Era através deles que tínhamos acesso ao mundo maravilhoso da escrita e das gravuras.
Lembro que minha mãe recebia esses vendedores com muita alegria e com direito a cafezinho com leite, pão e manteiga. Enquanto mamãe e o tal vendedor ficavam conversando sobre os últimos lançamentos literários daquela época ou então sobre como estavam ‘indo’ as vendas, eu, uma criança sedenta por leitura, ficava de olho na enorme mala preta onde sabia estavam guardados os meus sonhos, ou melhor, os livros (rss), que brevemente seriam meus. Torcia para que o café e o pão terminassem logo.
E então, quando aquela mala era aberta, a alegria inundava todo o meu ser como um sol!
Quantas enciclopédias e livros infantis, mamãe comprou desses ‘vendedores de cultura’! Quantas e quantas.... Hoje, com o advento na Net, elas tornaram-se ‘artigos em extinção’ e só são encontradas, raramente, em sebos ou então nas poucas prateleiras de colecionadores.
Mas como já disse no início, hoje estou nostálgico e quero recordar muito essa época. Por isso, vamos matar saudade de algumas coleções de livros e enciclopédias que me proporcionaram muita alegria naquele tempo. Coleções que se foram com o tempo...
01 – Enciclopédia Britânica
Esta enciclopédia que anunciou, há pouco tempo, o fim de sua versão impressa tinha presença obrigatória nas malas dos vendedores de porta em porta. E acredito que juntamente com a Barsa, eram os produtos que mais vendiam.
Até hoje me lembro do questionamento feito por minha mãe quando o vendedor, se não me engano, chamado “seo” Aurélio, um velhinho tagarela, abriu a sua pasta e ofereceu os 30 volumes da Britânica dizendo que todos lá de casa “teriam o saber do mundo em apenas 30 volumes”. Então mamãe me perguntou: “O que você prefere: a Britânica ou a Barsa”? Então, respondi de sopetão: “É claro que eu prefiro a Barsa, é muito melhor!”. Detalhe: a empresa onde o ‘seo’ Aurélio trabalhava era concorrente ferrenha da Barsa!! Lembro que ele ficou meio sem jeito e acabou indo embora.
Alguns dias depois, passaria em casa um vendedor da Barsa, menos falante do que o ‘bom velhinho’ da Britânica, então mamãe, imediatamente fechou a compra.
02 – Barsa
Não tinha jeito. Enciclopédia para a minha geração era a Barsa. Podiam falar que aquela era melhor ou que a outra tinha mais opções. Nada disso convencia a mim e também aos meus amigos de escola. Tanto é que, sem querer, acabei dando um fora no vendedor da Britânica.
Como já disse no post acima, alguns dias depois que rejeitei a proposta do ‘seo’ Aurélio, minha mãe recebeu a visita de um vendedor da Barsa.
Achei o sujeito meio estranho: todo engomadinho, engravatado, certinho além da conta, bem diferente dos outros que eram falantes, espontâneos e alegres. Lembro que esse vendedor  não foi convidado para tomar café com pão ou bolinhos. Dona Lázara já foi direto ao assunto (rs). Quanto fica? Quando é a entrega?. Só as perguntinhas comerciais de praxe e depois muito obrigado. A compra relâmpago foi finalizada no esquema “vapt vupt”, como dizia Chico Anísio em sua escolinha.
Foi somente há cinco anos, após ler uma matéria na Revista Veja, que descobri o motivo da estampa de “bom moço” daquele vendedor da Barsa que me marcou a minha memória. A reportagem dizia que para ser um vendedor da famosa enciclopédia, o interessado não podia fumar e obrigatoriamente tinha que ter uma boa aparência, além de saber ‘de cor e salteado’ o hino da empresa. O aprovado no teste inicial passava, então, a receber inovações no seu treinamento, entre as quais táticas para driblar o interfone ou burlar os empregados das residências visitadas. Ele, inclusive chegava a distribuir pequenas "propinas" para os porteiros, como canetas e bonés. O treinamento era militar no que se referia ao seu maior segredo: ‘os vendedores só podiam dizer a palavra Barsa quando já estivessem sentados comodamente no sofá do cliente. Estranho, não é msmo?? Segundo a reportagem da Veja, essa história é verdadeira.
03 – Trópico Enciclopédia Ilustrada
Essa enciclopédia foi a minha preferida e também uma das primeiras que fez parte da minha saudosa coleção. Pena que ao longo dos anos, não soube dar o devido valor que essa coleção merecia e acabei doando. Snifff....
A prova de que o Trópico fez parte da minha infância é que apesar de terem passados anos, anos e mais anos, hoje, já balzaqueano, recordo dos assuntos e sessões que foram os meus preferidos. “História da Humanidade”, “História das Religiões”, “Castro Alves”, “Orlando Furioso”, “Thomas Édson”, “José Bonifácio”, vida selvagem, etc, etc.
Passava horas e horas viajando com os temas tão interessantes que faziam parte dos 10 volumes dessa famosa enciclopédia publicada no Brasil em 1957 por Giuseppe Maltese, mas que atingiu o seu auge de vendas na década de 70.
04 – Coleção Monteiro Lobato
Aqueles que pensavam que somente os homens tinham o dom da venda naqueles tempos e, diga-se de passagem, bons tempos, se enganavam redondamente. Lembro-me que recebi a visita de uma senhora de meia idade, quando estava sozinho em casa, minha mãe tinha saído. Quando vi uma enorme pasta nas mãos de um auxiliar da mulher, e que deduzi estarem repletas de livros, não me fiz de rogado, perguntei quais livros ela trazia ali. A mulher respondeu que se tratava da coleção Monteiro Lobato, da editora Brasiliense. Não pestanejei! Menti descaradamente, dizendo que os meus pais estavam ‘correndo’ atrás desses livros, mas até agora não tinham tido a sorte de encontrá-los. A vendedora abriu um sorriso e  sem perder tempo avisou que voltaria dentro de algumas horas. Ehehehe... Então, quando minha mãe chegou, fiz a sua cabeça para que comprasse os tão estimados livrinhos (rs). Foi difícil e confesso também que levei uma “senhora” bronca, mas ao final, o coração de mãe gritou mais alto e acabei ganhando a coleção de Monteiro Lobato.
Como já disse essa série editada pela Brasiliense era composta por oito livros no formato enciclopédia e ricamente ilustrada. O primeiro volume chamava-se “Reinações de Narizinho e Caçadas de Pedrinho”; o segundo,  O saci, Memórias da Emília, Emília no país da Gramática, Aritmética da Emília”; o terceiro, “Fábulas, Histórias diversas, Histórias de Tia Nastácia, Peter Pan”; o quarto, “Viagem ao céu”; o quinto, “O poço do Visconde, O Picapau amarelo”; o quinto volume, “Aventuras de Hans Staden, D. Quixote das crianças, Geografia de D. Benta”; o sexto, “A chave do tamanho, A reforma da natureza, O minotauro”; o sétimo, “Os doze trabalhos de Hércules”e finalmente o oitavo volume, “Histórias do mundo para as crianças, Serões de D. Benta, Histórias das invenções”.
Saudades, saudades e mais saudades!!
05 – Os Imortais da Literatura Universal
Em meados dos anos 70 - quando já entrava na puberdade - graças a tudo o que tinha lido na infância, percebi que estava se transformando num verdadeiro devorador de livros. Foi nesse período que consegui o primeiro emprego e com o dinheirinho desse serviço fiz a minha primeira compra com recursos próprios. E adivinha o que comprei??? Uma coleção de livros...
O vendedor tinha um “fusqueta” vermelho todo envenenado.  Vale lembrar que ter um Fusca naquela época era sinal de status. O engraçado é que o cara já tinha passado da meia idade, perto dos 60 ou mais. E mesmo assim, ele tinha uns acessórios bem avançados para aquela época. Correntes no pescoço, anéis espalhafatosos, calça boca de sino.... Mêo!! Que cara engraçado, mas super-gente boa! Tão gente boa que me lembro de seu nome após tantos anos: Miguel. Ele trabalhava como vendedor de porta em porta da editora Abril Cultural.
Pois é, foi do Miguel que comprei a coleção “Os Imortais da Literatura Universal”. Não minto que essa compra contou mais uma vez com a ajuda da minha saudosa “mama”. Ela fechou a compra e assinou as promissórias, mas o “dim dim” saía do bolso do menino aqui.
O prático em comprar essa coleção é que o consumidor, na época, podia escolher a quantidade de livros que lhe interessasse, mas todos na sequência. Explicando melhor; a venda era por blocos, ou seja, você podia comprar 10, 20, 30 ou os 50 livros que formavam a coleção. No meu caso, o dinheiro só deu para comprar dez, entre eles: Ivanhoé, As Viagens de Gulliver e As Vinhas da Ira.
Da minha coleção de 10 livros, sobraram apenas dois... Novamente, fui doando, doando e no final...

5 comentários:

  1. José Antônio, parabéns pelo belíssimo texto sobre os vendedores de livros. Você conseguiu reproduzir com perfeição o sentimento desse contato dos vendedores com os clientes. Você produziu um texto magnífico.
    Também escrevi um texto contando minha experiência com esse tema. espero que goste.
    Abraço
    Reinaldo Polito
    http://www.polito.com.br/portugues/artigo.php?id_nivel=12&id_nivel2=155&idTopico=706

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    1. Obrigado Reinaldo!
      De fato, uma época maravilhosa, a qual tive a oportunidade de viver.
      Li o seu texto. Gostei bastante.
      Abcs!

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  2. Excelente!

    Como a nostalgia bate!
    Estou atrás de uma coleção que os vendedores traziam consigo, mas não me lembro de nomes e nada.
    Trata-se de uma coleção de livros infantis totalmente azuis.
    Seria magnífico poder reencontrá-los e recordar.

    Hoje em dia as crianças só querem saber de tablets e celulares. O cérebro não guarda muita informação, pois são muitas e todas de uma vez só.

    Qual será a nostalgia dessa geração Alpha?
    Espero pra ver. rsrs

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  3. Não vivi essa época, mas só de ler seu texto deu saudade...srsrsrsr

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    Respostas
    1. Wemerson, uma pena que vc não viveu esse período mágico. Internet era um sonho, mas as visitas dos vendedores de livros compensava tudo! :)

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