29 agosto 2015

Morri Para Viver

Li “Morri Para Viver” da ex-modelo Andressa Urach em menos de um dia. Não que eu tenha devorado a sua história, mas simplesmente porque tinha que devolver o livro para um amigo que havia acabado de comprá-lo, mas como naquele momento não podia lê-lo, resolveu me emprestar, bem... não sem antes me arrancar a promessa de que o devolveria no dia seguinte, o que significa hoje.
Comecei a ler o livro ontem e terminei no mesmo dia. Por contingência da situação só me restou adotar a tática de uma leitura ‘ultra-dinâmica’ e foi o que fiz, conseguindo dessa maneira cumprir o meu primeiro desafio literário. Confesso que achei algumas revelações da ex-modelo pesadas demais e talvez até desnecessárias, como no caso do orgasmo que ela teve com um cachorro durante a sua infância, quando tinha de 10 para 11 anos. Sinceramente não sei qual a relevância dessa informação, já que a zoofilia é uma prática comum nos pequenos centros, principalmente no campo, em regiões bem interiorizadas – tudo bem: nojenta, vergonhosa, mas comum nesses locais. Além do mais, muitas crianças quando começam a descobrir a sua sexualidade – principalmente aquelas, cujos pais tratam o assunto como tabu ou algo pecaminoso, privando os filhos de qualquer orientação – geralmente aprontam verdadeiras ‘artes’, incluindo a zoofilia. Sei lá, acho que Urach não precisaria expor o seu passado, de graça, com esse tipo de informação que não acrescenta nada para os leitores.
Há outras revelações que achei descartáveis e sensacionalistas, como no capítulo em que ela descreve os seus programas com clientes que digamos... tinham algumas manias esquisitas. Esta passagem me fez lembrar daquelas obras sensacionalistas narradas por ex-prostitutas, hoje pessoas famosas, mas falidas, que precisam ‘soltar’ alguns podres cabeludos do passado para faturar ‘uns’ troquinhos.
Quando aceitei ler “Morri Para Viver” queria saber quais foram as conseqüências na vida de uma pessoa comum – no caso, Andressa Urach, ex-bailarina do cantor Latino e depois uma modelo pouco conhecida como tantas outras - que para ficar famosa havia decidido romper um festival de paradigmas e preceitos, chegando perto de trocar os parâmetros que regem a conduta dos seres humanos na sociedade,  por tudo o que há de errado, transformando a sua vida num verdadeiro inferno. Para aqueles que ainda não leram o livro, vale lembrar que Urach era viciada na fama e para conseguir atingir o seu objetivo foi capaz de praticar gestos cruéis, verdadeiramente abomináveis. O interessante, pelo menos para mim, era saber as causas que transformaram a ex-modelo nesta máquina em busca da fama e beleza perfeita. Depois, quais foram os efeitos em sua vida dessa busca desenfreada? Como a sua família conviveu com a mudança de seu comportamento? Quais os motivos que levaram à sua ‘redenção’?
No contexto das informações que eu desejava obter, não havia espaço para taras, manias ou posições sexuais de alguns ex-clientes famosos; muito menos para a prática de zoofilia na infância ou se ela preferia sexo anal ou oral; não, isso que está no livro, de fato, não tem a menor importância para mim. Mas pêra aí, quer dizer que “Morri Para Viver”, além de ser uma obra sensacionalista é ruim prá dedeú?! Também não. A obra tem passagens, realmente, boas e que conseguiram ‘matar’ algumas das minhas curiosidades.
Por exemplo, Urach revela que por ter os cabelos e os olhos pretos, seu pai não a achava parecida com as outras pessoas da família. Este foi um dos motivos que a fêz pintar os cabelos de louro e usar lentes azuis. Na ânsia pela busca da beleza perfeita ela chegou a computar quase o mesmo número de cirurgias plásticas correspondente a sua idade; quase 30! No afã de obter o corpo perfeito, a ex-modelo aplicou hidrogel durante cinco anos em seu corpo com o firme propósito de engrossar as coxas.
O trecho sobre os motivos que a levaram a se prostituir também é interessante. Ela conta que tudo teve início em 2009, quando ainda trabalhava como funcionária de recursos humanos. Ela teria passado mais de uma hora ouvindo os lamentos de um desembargador do Tribunal de Justiça do Rio, de aproximadamente 65 anos, enquanto tomavam champanhe. Mesmo sem ter relação com Urach, o desembargador lhe deu um cheque de 500 reais. Ela revela que esse gesto acabou lhe animando, de certa forma, a ingressar no mundo da prostituição sempre com o objetivo de ficar famosa.
O livro desvenda ainda toda aquela confusão envolvendo a ex-modelo no carnaval de São Paulo 2013, onde a sua fantasia teria sido roubada. Confira o trecho do livro onde Urach confessa que toda a situação acabou sendo forjada por ela com o objetivo de atrair os holofotes. “No carnaval de São Paulo de 2013, houve uma situação armada em nome da fama. Primeiro, inventei que assaltantes haviam roubado minha fantasia da escola de samba Tom Maior, agremiação pela qual desfilaria, e, por isso, surgi no Sambódromo do Anhembi com os seios completamente à mostra (...) Foi um bate-boca só. Acabamos hostilizados em meio a tanta gritaria. Tudo exibido ao vivo pela TV Globo, emissora brasileira que detém os direitos exclusivos de transmissão do carnaval. Por fim, não desfilei e passamos a madrugada registrando boletim de ocorrência por injúria e ameaça. Meu objetivo era ser famosa a qualquer preço.”
Enfim galera, é isso aí. Leitura concluída, desafio cumprido e livro emprestado devolvido. “Morri Para Viver” tem altos e baixos. Não sei se mais altos ou menos baixos, isso vai depender da sua ótica de leitura; do que está procurando na obra: segredos banais acompanhados de sensacionalismo e fofocas, ou informações consistentes sobre os motivos que levam um ser humano comum a vender a própria alma em busca da fama.

Ah! Antes que me esqueça. O livro foi escrito por Doulgas Tavolaro que é vice-diretor de jornalismo da Rede Record. Ele também é autor dos best-sellers “O Bispo e Nada A Perder”, sobre a trajetória de Edir Macedo, dono da Record e fundador da Igreja Universal. Andressa começou a frequentar essa linha evangélica desde o início do ano, após sua alta quando quase morreu por causa da aplicação de hidrogel.

26 agosto 2015

Uma Criança de Sorte: Memórias de Um Sobrevivente de Auschwitz

Se existiu algo parecido com o inferno, este ‘algo’ foi o campo de concentração de Auschwitz, na Polônia, onde um milhão de judeus perdeu a vida. No auge da carnificina, o conjunto de campos da cidade polonesa, implantado pelos nazistas, exterminava 20 mil pessoas por dia. Delas, muitas eram crianças que por não serem aptas ao trabalho forçado iam direto para as câmaras de gás. Cara, se ha uma forma de medir a desumanidade na história mundial ao longo dos anos, sem dúvida o extermínio desses menores ocupa o primeiro lugar da tabela.
De acordo com alguns historiadores, os campos de Auschwitz eram os mais violentos e desumanos de todos. Neles, as crianças recebiam os mesmos castigos impostos aos pais. Os menores que mais sofriam eram os deficientes físicos,  mentais e epiléticos, passando depois para os mais franzinos, doentes e os grupos considerados inferiores aos da raça ariana. Os nazistas fechavam o cerco seletivo com os ‘culpados’ de terem avós judeus.
Acreditem, essas crianças enfrentaram os mais cruéis e insanos meios de tortura e morte. Algumas eram jogadas pelas janelas ou então agarradas pelos cabelos e atiradas com violência em caminhões com passagem apenas de ida; outras tinham a estrela gravada com ferro em brasa no corpo, quase sempre nas costas ou no rosto. Fazia ainda parte do pacote os fuzilamentos, as câmaras de gás disfarçadas de chuveiros e as terríveis e bizarras experiências médicas com o carniceiro Dr. Josef Mengele.
Um antigo professor de história - da época dos cursinhos pré-vestibulares - me relatou algo que estilhaçou a alma: o genocídio durante o Holocausto chegou a tal ponto que muitas crianças eram jogadas vivas às fornalhas. Putz, putz e putz!!
Mêo, se ao recordar esse quadro diabólico, você – assim como eu – já fica com o seu emocional abalado, imagine então, os judeus - que viveram tudo isso? Agora, pense no emocional das crianças que presenciaram todas essas cenas pavorosas?! A maioria que conseguiu sobreviver ao Holocausto sem seqüelas, principalmente mentais, optou  pelo silêncio, pois queria apenas esquecer todo o sofrimento; mas uma delas preferiu revelar tudo o que viu e sentiu neste horror: Thomas Buergenthal. Nasceu, assim, o livro “Uma Criança de Sorte”. Aos seis anos, Buergenthal foi enviado para o gueto de Kielce, na Polônia. Com dez,  separado de sua família, foi para... adivinhe onde? Auschwitz, lá mesmo. Apesar da pouca idade, conseguiu sobreviver a todo o festival de terror que já narrei no início do post. “Uma Criança de Sorte” traz as memórias dessa criança do passado, hoje um proeminente professor, juiz de direito e escritor com formação na cobiçada Universidade de Harvard. O autor eslovaco ganhou em 2008, o prêmio Gruber Prize for Justice por defender os direitos humanos.
 Li o livro de Buergenthal e recomendo para todos os leitores que quiserem conhecer de maneira aberta, sem segredos, a vida por detrás das cercas de Auschwitz. Numa linguagem fluida, ele esmiúça a rotina do campo de concentração e quais ‘táticas’ foi obrigado a utilizar para sobreviver à matança em massa.
Ele conta que primeiramente foi separado de sua mãe – com apenas cinco anos – e pouco depois perdeu o seu pai, sendo obrigado a ‘se virar’ no meio das monstruosidades do campo nazista para continuar vivo.
Um dos momentos mais emocionantes da obra é aquele em que o autor revela o esforço quase sobre-humano de seu pai para livrá-lo da câmara de gás e das experiências com Mengele. Ele revela que calculava o tempo em Auschwitz pelo numero de horas que precisava esperar para receber a próxima refeição ou pelos dias que restavam até o momento em que Mengele faria uma de suas seleções mortais.
Todo o sofrimento vivido  no Holocausto exerceu em Buergenthal  um impacto substancial, fazendo com que se tornasse professor de direito internacional, advogado de direitos humanos e juiz internacional.
Um livro indispensável para todos que quiserem conhecer detalhes sobre um dos períodos mais tristes da nossa história.
Detalhes técnicos
“Uma Criança de Sorte”
Autor: Thomas Buergenthal
Editora: Nova Fronteira
Páginas: 224

Ano: 2012

23 agosto 2015

Crash: Estranhos Prazeres

Acabei de ler “Crash: Estranhos Prazeres” de J.G. Ballard e posso classificá-lo como um livro fóda. Apesar de alguns leitores mais puritanos ficarem chocados com o termo, peço desculpas, não há outra palavra para defini-lo em sua ambigüidade. De fato, a obra é fóda no bom e também no mau sentido; depende da maneira de como você encarar as 240 páginas escritas pelo autor. Li inúmeras resenhas que endeusaram a história, enxergando um monte de metáforas escondidas no texto cru e indigesto de Ballard. Por outro lado, alguns segmentos de leitores e blogueiros só conseguiram ver pornografia no livro. Se você se enquadra no primeiro grupo, o livro foi maravilhosamente fóda, mas se você faz parte do segundo grupo, “Crash: Estranhos Prazeres” foi simplesmente fóda; um fóda daqueles que servem para registrar os piores momentos de sua vida, quando você atinge o fundo do poço numa situação extrema e exclama: - “Putz, tô fudi...!”
Eu estou na segunda categoria, porque achei o livro muito ruim. Tudo bem que os aficionados da obra enxergaram um monte de metáforas nas linhas e entrelinhas escritas por Ballard, mas eu não enxerguei. Tudo isso que estou escrevendo no post, transformei em palavras para um ex-colega de universidade – gosto muito do cara – o Marquinhos, um leitor voraz e inteligente. Após me ouvir, acredito que ele só não me chamou de “Rei dos Asnos” por é muito meu amigo.
Ele me disse:
–“Mêo! Você não entendeu que, na obra, a masculinidade é medida pelo tamanho do carro que o cara possui!?”
- “Não, não entendi, isso não.
“ Você não entendeu que os todos aqueles carros são uma metáfora aos órgãos sexuais masculinos!?”
- “Piorou! Entendi menos ainda”
Esta foi uma parte do nosso diálogo há dois dias trás.
Na minha opinião a história de Ballard envolvendo pessoas que se excitam com acidentes de carros é o fóda no pior dos sentidos. Achei as fobias, neuras e taras descritas pelos personagens muito cansativas. Pô! Não saia daquilo! O sujeito contava uma tara, você virava a página e lá vinha o mesmo sujeito contando outra tara. Depois chegava uma mulher e contava a sua tara ou neura, dava um ‘tempinho’, e lá vinha a ‘muié’ com mais uma tara. A leitura foi ficando repetitiva e juro, novamente, que não enxerguei metáfora nenhuma nesse festival de taras.
Ao final, cheguei a conclusão que estava lendo uma obra pornográfica. Mais uma vez, me desculpe os fãs ardorosos de “Crasch: Estranhos Prazeres”, mas foi o que senti.
O livro escrito em 1973, é narrado em primeira pessoa por um roteirista de cinema e publicidade, James Ballard (mesmo nome do autor), e retrata uma espécie de irmandade de indivíduos doentios, obcecados pelas possibilidades eróticas dos desastres de automóvel.. Os caras só sentem prazer quando vêem pessoas destroçadas em acidentes de veículos. Entendam, eles não sentem prazer ao presenciarem a colisão, mas após; ou seja, quando os corpos estãoexpostos no meio das ferragens. 
O líder do grupo, Robert Vaughan, passa seus dias nas vias expressas da região do aeroporto de Londres, procurando acidentes sangrentos, que ele fotografa em todos os detalhes escabrosos. Depois, com prostitutas colhidas à beira da estrada, busca reproduzir, em bizarros atos sexuais no interior do carro, as posições das vítimas lesionadas.
A história é conduzida por um narrador cada vez mais perplexo e fascinado com a
descoberta desse mundo em que o erótico, o mecânico e o macabro parecem se fundir.
Após sofrer um acidente, o narrador conhece no hospital o líder do grupo viciado em acidentes e com isso, acaba ingressando na seita ou irmandade, sei lá.
James e sua mulher Catherine já eram bizarros antes de ingressarem no grupo de Vaughan. Há um trecho no livro que retrata bem a bizarrice do casal, descrita pelo marido: “Durante nossos primeiros atos sexuais eu inspecionava deliberadamente cada orifício que podia encontrar. Passava a língua por suas gengivas, na esperança de sentir algum fragmento de vitela retido entre os dentes; enfiava a língua por sua orelha, na esperança de encontrar um vestígio do gosto de cera; examinava suas narinas e umbigo, e, por último, a vulva e o ânus. Tinha de meter o dedo até o fundo antes de extrair matéria fecal, um vestígio marrom na unha”.
Enfim, “Crash: Estranhos Prazeres” é isso: taras, taras e mais taras. Metáforas entre tantas taras, não encontrei. Com certeza, o cineasta David Cronemberg localizou as trais metáforas, pois em 1996, decidiu filmar com algumas amenizações a história de Ballard. E diga-se, a produção recebeu muitos elogios; mas opiniões são opiniões, cada leitor ou cinéfilo tem a sua.
E pensar que há pouco tempo, após ler várias resenhas positivas, cheguei a elogiar o livro de Ballard. Erro crasso o meu.
Inté!


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