Livro “Medo de palhaço: A enciclopédia definitiva sobre palhaços assustadores na cultura pop” busca explicações para a coulrofobia

18 janeiro 2017
Tenho um amigo – desde os tempos de infância – que filho ama os espetáculos circenses. Para o pequeno Tedy (nome fictício) não tem malabaristas, trapezistas ou animais adestrados. O seu lance é um só: os palhaços. Tudo seria normal se não fosse um pequeno detalhe: o seu pai sofre de coulrofobia, ou seja, tem medo de palhaços.
Man! Toda vez que chega um circo na cidade é um verdadeiro perereco, já que Tedy quer de qualquer jeito que o seu pai o acompanhe nos shows. A salvadora da Pátria, nesses momentos, é Simone (nome também fictício), mãe da criança que se transforma no anjo da guarda do sujeito que sofre da síndrome de coulrofobia. Quando os palhaços entram em cena, esse meu amigo dá as desculpas mais esfarrapadas para o filho: diz que vai dar uma saidinha para fumar, comprar um lanche, pipoca, ir ao toalete; enfim, vale qualquer coisa para escapar dos ‘malignos’ palhaços. Ele saí; ela, Simone – que já está familiarizada com a fobia do marido -  fica.
Alguns leitores podem achar que tudo isso não passa de frescura, mas na realidade, aqueles eu pensam dessa forma é o que são os frescos. Cara, essa fobia é fóda. Só quem tem para comensurar o tamanho do sofrimento. Ao deparar-se com algum indivíduo vestido de palhaço, os portadores dessa fobia têm ataques de pânico, perda de fôlego, arritmia cardíaca, suores e náusea.
Para que vocês entendam a gravidade da síndrome, se um coulrofóbico – por algum motivo – fosse obrigado a assistir ao filme ou ler o livro “A Coisa” de Stephen King, acredito que enlouqueceria, porque muitas vezes o simples pensamento sobre palhaços já deixam essas pessoas muito abaladas.
Pesquisa realizada em 2014 pelo instituto YouGov, na Inglaterra, apontou o palhaço como o décimo colocado em um ranking de elementos com maior potencial para despertar fobia. Participaram da pesquisa 2 mil pessoas. Outro estudo publicado pela revista New Ideas in Psychology apontou o fator da imprevisibilidade como algo fundamental para despertar a desconfiança do público em relação aos palhaços. Cerca de 1,3 mil voluntários com mais de 18 anos listaram características consideradas por eles assustadoras e fizeram um ranking das profissões mais arrepiantes. Os palhaços lideraram com folga.
Cientes do fascínio pela figura do palhaço assassino em várias mídias, o coletivo Boca do Inferno - formado por Marcelo Milici, Filipe Falcão, Gabriel Paixão, Matheus Ferraz e Rodrigo Ramos – lançou no final do ano passado “Medo de palhaço: A enciclopédia definitiva sobre palhaços assustadores na cultura pop” (Generale, 288 páginas, R$ 59,90). O livro que está a venda nas principais livrarias virtuais analisa mais de 150 obras e busca explicações para a coulrofobia na história e na psicologia.
Para o pesquisador e jornalista pernambucano Filipe Falcão, o palhaço é uma figura facilmente identificável e com potencial para despertar o interesse do público. “No cinema, por ter ganho essa importância, tornou-se parte de uma receita fácil. É como um filme de zumbi. Não precisa ter roteiros mirabolantes, diferentemente de produções de drama e aventura, cuja audiência é mais exigente”, opina. Segundo o autor, os longas-metragens protagonizados por palhaços têm grande variedade, indo desde filmes muito bem produzidos até alguns de baixíssimo orçamento, com um elenco mais fraco. 
Um divisor de águas, segundo ele, foi a adaptação, no fim dos anos 1980, do livro It (A coisa), escrito por Stephen King. Isso porque o palhaço deixou de ser coadjuvante - em produções “trash”, “bagaceira” - para se tornar um dos principais vilões da época. Sobre a recente onda de “palhaços assassinos” em espaços públicos, Filipe diz ter sido uma “feliz coincidência”, pois se tornou a “melhor divulgação possível” para o livro recém-lançado. “A brincadeira é válida, mas é preciso ter uma série de cuidados, principalmente com pessoas mal intencionadas. O problema do palhaço, assim como todo personagem mascarado, é não saber quem está lá”, finaliza.
O livro do coletivo Boca do Inferno adentra nos bastidores dos picadeiros, desde os primórdios do circo, buscando explicações na história e na psicologia para o surgimento do coulrofobia. Os autores instigam pesadelos em tons rubros ao contar sobre os assustadores carnavalescos bate-bolas, o mito dos palhaços ladrões de órgãos e John Wayne Gacy, o verdadeiro palhaço assassino.
Trata-se de uma boa indicação de leitura para aqueles que desejam conhecer um pouco mais sobre as origens da coulrofobia.

Ainda não tenho o livro, mas estou com vontade de adquiri-lo. Vamos ver...

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