A Volta do Poderoso Chefão

“O Poderoso Chefão”, de Mário Puzo, foi um livro que marcou a minha geração, por isso ocupa um lugar de destaque em minha humilde biblioteca. Perdi as vezes que li e reli esta obra monumental do autor americano que também ajudou a escrever o roteiro dos três filmes que foram adaptados de sua obra para o cinema. Por isso, quando soube que a saga da família Corleone teria uma continuação, passei a aguardar com muita expectativa o lançamento do livro.
A primeira coisa que fazia ao conectar o meu computador na internet era vasculhar no nosso bom e velho amigo “Google” detalhes sobre esse lançamento. Fiquei sabendo, por exemplo, que o editor de Mário Puzo após o estrondoso sucesso de “O Poderoso Chefão”, vinha tentando convencer o autor a escrever uma continuação da história, amarrando alguns fios que haviam ficados soltos no que se relaciona há determinados personagens. Puzo se manteve firme e incorruptível. Digo incorruptível porque – reza a lenda – que o dinheiro oferecido à ele para que escrevesse a sequência dos Corleone foi algo exageradamente exagerado já naquela época. Para mim, Puzo foi muito inteligente, pois tomou a decisão correta. O livro “O Poderoso Chefão” já havia se transformado numa obra antológica, sem precedentes, dando origem a três filmes extraordinários. Tanto no cinema como nas páginas, a criação de Puzo conquistou uma montanha de prêmios. Por isso, ele deve ter pensado, porque mexer em algo que é bom... que já provou o seu valor? E assim, decidiu escrever outras histórias, a maioria ligada a “Cosa Nostra”, mas nenhuma delas relacionada a sua obra prima.
Acredito que o único erro do escritor americano foi dar carta branca para a sua família e o seu editor prosseguirem com a saga dos Corleone após a sua morte. Puzo nunca deveria ter feito isso, pois abriu um precedente para que banalizassem o seu trabalho. E que me desculpe o professor e mestre em criação literária, Mark Winegardner, pois sou obrigado a dizer que ele quase conseguir cometer esse sacrilégio.
Winegardner foi o escolhido - após vencer um concurso do qual participaram vários outros escritores - para escrever um novo capítulo da famosa saga. O concurso foi realizado pelo editor de Puzo e também pelo herdeiro e filho mais velho do escritor.
Confesso que a minha decepção foi enorme, do tipo quando você toma o doce de uma criança que já está com os olhos fechados e a boca aberta, preparada para degustar a guloseima. Eu me senti essa criança.
O erro mais grave do livro de Winegardner foi querer preencher as lacunas deixadas entre o 2º e o 3º filmes. Essa decisão do autor quebrou toda a originalidade da história. Sei lá, mas acredito que o livro ficaria menos decepcionante se ele tivesse criado um enredo novo para os personagens da obra de Puzo. Eu me vi ora lendo o livro, ora assistindo o filme. Ficou muito estranho; esquisito mesmo, porque as vezes tinha a impressão de estar lendo um livro baseado no filme.
“A Volta do Poderoso Chefão” também tritura o carisma dos personagens Fredo e Michael Corleone. Em sua obra, Puzo, havia criado um Fredo frágil e covarde, que usava o seu poder de sedução para conquistar mulheres e mais mulheres, tendo assim um verdadeiro festival de casos. Em “O Poderoso Chefão”, o autor deixava no ar que, talvez, o personagem tivesse esse comportamento promíscuo como uma váluvula de escape, já que tinha a fama de ser o mais fraco do clã dos Corleone. Agora, chega Mark Winegardner e transforma Fredo num homossexual completamente pervertido, capaz de matar as suas vítimas. Quanto a Michael, esqueça toda aquela força e carisma de “O Poderoso Chefão” que o fez ser o escolhido para comandar a família após a morte de Don Corleone. Achei o seu personagem simplório demais.
Francesca Corleone, filha de Sonny, é um outro personagem que também poderia ser melhor explorado, assim como o consigliere irlandês do clã, Tom Hagen que também ficou perdido nesta sequência.
O excesso do número de personagens é um outro fator negativo do livro que deixa o leitor numa confusão de dar dó. Na época que li o livro, lembro-me que tinha de ficar voltando com freqüência ao sumário com os nomes dos personagens que compunham os clãs amigos e inimigos dos Corleone. Logo nas primeiras páginas, Winegardner despeja um turbilhão de figuras nas páginas – algumas importantes, outras nem tanto – tornando praticamente impossível a memorização dos nomes.
Quando um autor faz essa opção, quase sempre ele é forçado a criar um enredo – mínimo que seja – para cada um desses personagens. Agora imagine um romance com quatro famílias mafiosas tendo cada uma delas, em média, 13 integrantes? É muita coisa, não acham?
O excessivo número de personagens contribui para que a história se torne maçante. Chegar na metade do romance foi complicado, pois o enredo só vai ficar interessante perto do final. 
Quanto ao visual da obra, sem comentários. A editora Record caprichou no layout. Mas como não lemos visual, paciência.
Há pouco tempo fiquei sabendo que Mark Winegardner lançou mais um livro sobre a família Corleone, o que quer dizer, uma nova sequência para Michael Corleone e companhia. A obra se chama a “Vingança do Poderoso Chefão” e, sinceramente, não estou nem um pouco animado para comprá-la.

8 comentários

  1. Não sabia que existe essa novelização relacionada ao Poderoso Chefão. Grande achado!

    Da uma passada lá: http://parecetamarindo.blogspot.com/

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  2. Caramba, achei que só eu estava achando o enredo um saco. Como vc disse "chegar na metade do romance é complicado". Também tenho que voltar no começo pra ver quem é o personagem em questão, me animo em saber que ele começa a ficar interessante perto do final.

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  3. Comprei o livro e estou na página 146 até agora, e realmente está se tornando uma leitura bem maçante.
    O excessivo número de personagens também foi algo incômodo pra mim, tendo que também voltar ao sumário inúmeras vezes pra ver quem era mesmo aquele personagem (de qual local ele era o Don).
    Sinceramente, poucos foram os momentos em que a história até agora se mostraram "interessantes", e infelizmente o Mark cometeu o mesmo erro que Puzo ao dar destaque para Johnny Fontane, assim como no primeiro livro as partes em que ele aparece são um porre total. Copolla fez muito bem em diminuir esse personagem nos filmes.
    Enfim, a leitura está bem arrastada aqui. Srgundo a tua opinião o livro fica mais interessante no final, mas nem tenho certeza se chego até lá.

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    1. Ruim né Marcos. O finalzinho melhora um pouco, mas o problema é segurar a perseverança na leitura até lá.
      Abcs!

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    2. Pois é, mas vou continuar a dar umas chances aqui... pra ver no que vai dar.
      Você já assistiu Scarface (o de 1932 ou de 1983)? Recentemente descobri que este também foi baseado inicialmente num livro de Armitage Trail do mesmo nome. Parece que infelizmente ñ houve uma versão em PT-BR, mas anos depois foi lançado uma versão em "graphic novel" por Christian de Metter, esse sim disponível em português.

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  4. Sim, assisti ao filme, de 1983, com Al Pacino. Já tinha ouvido alguma coisa sobre essa graphic novel, inclusive ela está a venda em algumas livrarias virtuais. Parece que a vi na Submarino.

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  5. Bem, depois de muito "sofrimento" consegui terminar o livro. A opinião ainda é a mesma: ruim pra caramba.
    Realmente no final ele até da uma melhoradinha, mas ainda assim é num misto de partes boas com partes tediciosas que chega cansa.
    Poucas (e muito poucas mesmo) foram as partes que o livro se mostrou interessante de ser ler.
    Sinceramente, deve existir fanfic bem melhor de se ler, do que esse negócio escrito pelo Winegardner. Mario Puzo deve ter se revirado no túmulo no dia em que isso foi publicado.

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    1. Concordo com você. Como escrevi na postagem, é muito ruim, decepcionante.

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