29 setembro 2021

DarkSide publica obra antológica de terror que estava esgotada há quase dez anos. "Hell House" de Richard Matheson já está em pré-venda

A notícia que darei agora para todos os leitores que acompanham o “Livros e Opinião” é tão antológica que terei de utilizar um jargão também antológico. Estou me referindo ao “Buemba! Buemba!” do grande jornalista José Simão. Ele sempre usa essas palavras - que já ganharam o status de jargão popular - quando anuncia um assunto bombástico. E no meu caso, a revelação é deliciosamente bombástica. Lá vai: A editora DarkSide vai relançar um dos maiores clássicos da literatura de terror; livro que estava esgotado há décadas e vendido nos sebos pela “bagatela” de R$ 200,00 à 250,00. Estou me referindo A Casa Infernal de Richard Matheson e que por sua vez, deu origem ao filme também antológico e reverenciado por todos os amantes do gênero terror: “A Casa da Noite Eterna” (1973) com Pamela Franklin e Roddy McDowall.

Matheson escreveu A Casa Infernal em 1971, mas o livro só foi desembarcar no Brasil 38 anos depois! Verdade, galera. A história chegou em terras tupiniquins em 2009 pela editora Novo Século. Pouco tempo depois, já estava esgotada. Mas antes de entrar para o rol das ‘obras usadas super-valorizadas’ e com preços nas alturas nos sebos, o meninão aqui, conseguiu agarrar o seu exemplar. My God! Thanks, thanks e thanks!

Pois é, mas acontece que a edição que será lançada pela Darkside está tão bonita - na verdade, um luxo só - que apesar de já ter o livro de 2009 da Novo Século, vou acabar fazendo um sacrifício e...  comprando a nova publicação ou quem sabe, não pinte um presente antecipado de aniversário. Lulu, juro que não foi nenhuma indireta (rssss).

A editora da Caveira optou por fazer uma pequena alteração no título da obra de 2009, ou seja, sai A Casa Infernal e entra Hell House: A Casa do Inferno. O lançamento fará parte da nova coleção da DarkSide chamada “Dark House”, arquitetada para homenagear as narrativas de assombração que habitam os pesadelos dos leitores. E para inaugurar com chave de ouro esse novo selo, a editora escolheu a história de Matheson que está completando 50 anos. Arrebentou a boca do balão, heinnn Caveirinha?!

Achei a nova capa do livro fantástica, aliás falar sobre isso é chover no molhado já que a editora carioca se tornou especialista em produzir layouts literários de encher os olhos.

A história gira em torno de uma mansão mal assombrada pelo fantasma do terrível Emeric Belasco. Se as casas mal assombradas fossem montanhas, a “Mansão Belasco”, como ficou conhecida, seria considerada o Monte Everest das casas mal assombradas. Há 40 anos, ela se mantém imponente, desafiando todos aqueles que tentam decifrar os seus segredos. Nesse período houve duas tentativas de investigá-la, uma em 1931 e outra em 1940. Ambas foram desastrosas. Oito dos mais renomados pesquisadores de fenômenos paranormais do mundo envolvidos nessas tentativas foram mortos, cometeram suicídio ou enlouqueceram. Apenas um conseguiu sobreviver e o terror que presenciou foi tão grande que até hoje sofre os efeitos do desastre do passado. Esse sobrevivente, Benjamin Franklin Fischer, participou da equipe que tentou desvendar os mistérios da casa em 1940. Na época, ele era uma criança prodígio, com apenas 15 anos, considerado o maior médium sensitivo do mundo. Devido a sua fama, acabou sendo um dos convidados para a excursão à mansão macabra. Todos morreram, só ele sobreviveu.

Para que o leitor tenha uma noção da malignidade de Emeric Belasco, basta dizer que Fisher – considerado há 4 décadas uma criança destemida, tendo conseguido desvendar segredos de várias casas mal assombradas - foi encontrado caído na varanda da frente da mansão encolhido como um feto, tremendo de medo e pavor. Quando as equipes médicas o colocaram na maca, ele começou a gritar e vomitar sangue, com os músculos rijos como pedra. Ficou em coma por três meses. Mais tarde, especialistas definiram o medo como a causa desses sintomas.

Capa do livro de 2009 da Novo Século

Outra prova do “poder de fogo” de Belasco é que ele conseguiu trucidar uma equipe formada pelos cinco maiores pesquisadores de fenômenos psíquicos do mundo e que já tinham enfrentando e desvendados os mais aterrorizantes mistérios. A mesma equipe da qual Benjamin Fischer fez parte em 1940.

Matheson descreve com detalhes o que aconteceu com os cinco paranormais. Uma médium auto-confiante que achava que podia, sozinha, solucionar o mistério da casa infernal acabou cortando a garganta com as próprias mãos; um professor cético que teve um derrame, após sofrer uma experiência tão terrível na mansão que foi incapaz de relatá-la; um paranormal famoso que enlouqueceu na mansão após presenciar fenômenos que ultrapassavam os limites da razão. Ele acabou indo parar num hospício, onde permanece trancado. E por aí afora.

Passados 40 anos dos desastres envolvendo os dois grupos de pesquisadores, um milionário excêntrico resolve comprar a mansão e contratar novos cientistas e paranormais, incluindo Fischer que sobreviveu a catástrofe de 1940, para fazer mais uma tentativa de descobrir os mistérios do local. Eles terão o prazo de uma semana para solucionar o segredo e se conseguirem ganharão 100 mil dólares. À princípio, Fischer reluta em fazer parte do novo times de pesquisadores”, mas depois o dinheiro fala mais alto e ele decide aceitar a proposta.

Conseguirá o novo grupo de cientistas e paranormais desvendar o segredo do ‘Mansão Belasco’ e saírem com vida?

Caras, não tem como não se interessar por um enredo desses, ainda mais escrito pela fera Richard Matheson.

“Hell House – A Casa do Inferno” já está em pré-venda na maioria das livrarias virtuais. O livro deve chegar as prateleiras das livrarias em 03 de novembro de 2021.

Não deixem de comprar. Livraço!

 




25 setembro 2021

As 100 Melhores Histórias da Mitologia – Deuses, heróis, monstros e guerras da tradição greco-romana


Como um grande fã de mitologia grega já li muitos livros do gênero, mas notei uma grande diferença em As 100 Melhores Histórias da Mitologia – Deuses, heróis, monstros e guerras da tradição greco-romana com os demais. Esta diferença está na abordagem de alguns mitos, ou seja, enquanto grande parte das obras que exploram o tema optam por narrar mitos de deuses, heróis ou de acontecimentos que ao longo dos anos se tornaram comuns e do conhecimento de todos os amantes da mitologia grega, o livro de A.S. Franchini e Carmen Seganfredo brinda os seus leitores com uma grande variedade de mitos pouco conhecidos, mas nem por isso menos interessantes.

Na minha opinião, essa linha de abordagem escolhida pelos autores deixou a obra muito mais interessante, muito mais atrativa, fugindo um pouco da mesmice de histórias tradicionais como “Jasão e o Velocino de Ouro”, “Os 12 Trabalhos de Hércules”, “A Guerra de Tróia”, “Odisséia”, “O Pomo da Discórdia”, “A Caixa de Pandora”, etc. Os autores vão mais além e exploram mitos como: “O Castigo de Eresictão”, “O Javali de Calidon”, “Titão e Aurora”, “Fedra e Hipólito”, Etéocles e Polinice”, “Creúsa e Ion”, além muitos, mas muitos outros. Estes mitos pouco lembrados em outras obras do gênero deixam a leitura mais interessante porque, como já disse escrevi no início saem da mesmice dos contos que já se tornaram do conhecimento de todos os leitores que são fãs da mitologia grega.

Outro ponto positivo do livro é o seu estilo narrativo que foge dos padrões tradicionais. Por exemplo, no capítulo “A Morte de Heitor”, Franchini e Seganfredo optaram por contar a história sob a perspectiva de dois mendigos que moram nos destroços de Tróia há vários anos. Eles relembram, então, como foi a morte de Heitor após o combate com Aquiles. Os sem tetos estabelecem um diálogo muito interessante relembrando um dos momentos mais icônicos da guerra entre gregos e troianos. A narrativa chama ainda mais a atenção quando descobrimos que os dois sem tetos participaram indiretamente desse combate quando há muitos anos, no auge da guerra, eles eram ajudantes – uma espécie de criados – de Aquiles e Príamo, esse último, rei de Tróia e pai de Heitor. Por esse detalhe, ficaram sabendo de muitas novidades que não aparecem em outros livros sobre o assunto.

Os autores também apresentam novos detalhes com relação aos mitos já conhecidos de “Teseu e o Minotauro”, “Jasão e o Velocino de Ouro”, “Hércules” e outros. Eles escolheram contar essas histórias não de um modo distanciado e acadêmico, mas como ocorria no início: como histórias de pessoas reais, de carne e osso, que realmente existiam. Resultado: as narrativas tornam-se hiper-interessantes e os leitores as devoram com prazer.

Vale lembrar que aquilo que hoje conhecemos por mitologia greco-romana começou como histórias mágicas e alegóricas que os antigos inventaram para, na falta da ciência, responder a algumas perguntas. Coisa do tipo: Como começou o universo? Como surgiram os homens? O que há no além-mar? Para onde vão as pessoas quando morrem? De onde surgiram os animais que habitam a terra? O que ocasiona os relâmpagos. As respostas para essas e outras questões foram sendo forjadas pela sabedoria popular, isto é, não foram obradas por um autor específico, mas nasceram espontânea e anonimamente da necessidade delas próprias e passaram de geração em geração em relatos flexíveis, que se modificaram e se modificam conforme as circunstâncias.

De tempos em tempos, um compilador decide fixa-las na forma que melhor lhe convém, daí porque hoje podemos encontrar tantas versões de cada mito. Mas, para mim, a forma de narrativa desses mitos, escolhida pela dupla de autores de As 100 Melhores Histórias da Mitologia foi a mais interessante até agora de todos os livros que li sobre o assunto.

Como diz o próprio título da obra, são 100 histórias diferentes que irão deliciar os leitores. Adorei todas elas e tenho certeza de que os fãs de mitologia grega também irão amá-las.

Boa leitura... boa viagem com os mitos narrados por A.S. Franchini e Carmen Seganfredo.




21 setembro 2021

Jasão e Medeia, uma história que me deixou com uma baita ressaca literária

Bastaram apenas poucas páginas do livro As 100 Melhores Histórias da Mitologia para provocar em mim uma baita ressaca literária, mas uma ressaca no bom sentido, do tipo: “Putz! Vai ser difícil esquecer essa história da maneira como foi narrada”. Estou me referindo ao mito de “Jasão e Medéia” que faz parte da coletânea selecionadas pelo autores A.S. Franchini e Carmen Seganfredo.

Já li esse mito várias vezes e cada vez, escrito de uma maneira diferente, mas sempre mantendo a sua essência, com cada autor organizando a narrativa a seu bel prazer. A grosso modo vejo o mito de Medeia como a receita de um prato especial onde os chefs de cozinha usam temperos diferentes. Com isso, os pratos mantem – como já disse – a sua essência, mas dependendo do tempero utilizado, alguns terão os seus sabores realçados e outros nem tanto. Agora, transfira tudo isso para o contexto literário e teremos no lugar de um prato delicioso, a história de Jasão e Medéia, e ao invés de chefs de cozinha, teremos os autores que organizam as publicações da história. E posso garantir que até agora, o prato mais saboroso foi o servido por Franchini e Seganfredo.

Os autores/organizadores não pouparam detalhes no conto. No meu caso, por exemplo, desconhecia algumas atitudes tomadas por Medeia como prova de seu amor por Jasão. E aqui cabe um spoiler: ‘para garantir sua fuga da Cólquida onde Jasão foi buscar ou melhor... roubar o velocino de ouro, Medeia chegou ao ponto de matar o seu irmão Apsirto e desmembrar todo o seu corpo, jogando os pedaços ao mar, sabendo que seu pai, Rei da Cólquida, ficaria devastado com a perda e pararia para coletar os restos do filho, garantindo-lhe um funeral adequado’. Desta forma, Medeia e Jasão conseguiram embarcar na nau Argos e fugir da Cólquida.

Medeia foi capaz de outras atrocidades para proteger o seu amado. Comparo essa famosa feiticeira da mitologia grega como uma leoa selvagem capaz de atacar qualquer um que ouse se aproximar ou fazer qualquer mal para a sua prole.

Franchini e Seganfredo narram outras duas atitudes digamos... pesadas de Medeia que afetaram diretamente a vida de outras pessoas que desejavam prejudicar Jasão das piores maneiras. A feiticeira acabou sendo mais esperta e como diz o ex-rubronegro Gerson: “Vapo”.  Resultado: mandou os conspiradores para o reino de Hades e Proserpina. ‘Entonce’, no decorrer da narrativa, a ganancia de Jasão vai florescendo e ele resolve meter o pé na b... de Medeia. Pior, abandona a mulher com os seus dois filhos e a coloca no olho da rua com uma mão na frente e outra atrás.

Franchini e Seganfredo narram a briga do casal detalhadamente, o que não vi em outros livros. A metamorfose de Jasão também é muito bem explicitada em As 100 Melhores Histórias da Mitologia. Num primeiro momento vemos um herói corajoso, decidido e honesto, um verdadeiro líder à ser respeitado, capaz de comandar outros heróis tão ou até mais famosos do que ele, entre os quais: Hércules, Teseu, Castor e Pólux, e outros. Depois, ao recuperar o velocino de ouro, vemos a sua metamorfose; aos poucos, ele vai se tornando mesquinho, ardiloso, traiçoeiro e o pior: covarde. Toda essa transformação também é mostrada detalhadamente pelos autores.

Medeia é uma personagem da mitologia grega, descrita extensivamente na peça Medea, de Eurípedes e no mito de Jasão e os Argonautas. Medeia era uma mortal filha do rei da Cólquida, e neta do deus do sol Hélio. Em diversos mitos Medeia é descrita como uma feiticeira, muitas vezes ligada à Hécate (deusa da bruxaria e das encruzilhadas).

Jasão e Medeia no filme "Jason and the Argonauts" de 1963

A história de Jasão e Medeia inicia-se com a chegada do herói a Cólquida, para obter o Velo ou Tosão de Ouro (a lã de ouro de um mitológico carneiro) necessário para sua volta ao trono da Tessália. Medeia apaixona-se por Jasão e promete ajudar-lhe, com a condição de que se ele obter o Velo de Ouro, a leve junto com ele, já que ela passará a ser vista como traidora de seu povo. Para que Jasão obtenha o poderoso Velo, ele teve de realizar várias tarefas consideradas mortais, mas graças a Medeia, ele consegue completar todas elas.

A personalidade vil de Jasão chega ao ápice quando ele confronta Medéia e tenta explicar-se, dizendo que vai se casar com a filha do rei de Corinto pois só assim conseguirá ser o mandatário supremo daquele reino. Por isso, Jasão não poderia deixar passar a oportunidade de se unir com uma princesa já que Medéia é apenas uma mulher bárbara e sem instrução. Dizendo isso, ele a expulsa de casa.

O fim de ambos é muito triste, principalmente o de Medeia e de seus dois filhos. Na minha opinião é uma das histórias mais melancólicas e dramáticas da mitologia grega porque além do “The End” trágico, o enredo mostra, aos poucos, a desconstrução moral de um grande herói, mais que isso, a desconstrução do amor.

No início vemos Jasão como o protótipo do herói perfeito com virtudes que todos nós sonhamos ter, mas aos poucos essa imagem se desfaz: O altruísmo cede lugar para a ambição e a honradez para a falsidade. Enfim, Jasão vai perdendo todas as suas qualidades morais até chegar ao fundo do poço, tornando-se um ébrio, esquecido por todos.

Quanto a história de amor vivida pelo herói e por Medeia também vai se metamorfoseando gradativamente. No início, vemos ambos completamente apaixonados, mas depois esse amor vai se degradando, convertendo-se num sentimento falso e até mesmo doentio.

Enfim, um conto tenso e dramático, mas que merece ser lido pelos amantes da mitologia grega.

 


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