domingo, 22 de maio de 2016

Sete ossos e uma maldição


Contos com finais devastadores, mas não todos. Se tivesse que analisar em poucas palavras o livro “Sete Ossos e Uma Maldição” da escritora e jornalista carioca Rosa Amanda Strausz, esta seria a melhor maneira.
Quatro histórias – “Crianças à venda. Tratar aqui”, “Dentes tão brancos”, “O fruto da figueira” e “Morte na estrada” – são verdadeiras obras primas do gênero terror. Eles arranham, machucam, enfim, deixam o leitor incomodado com aquele calafrio que começa na nuca e termina na base da espinha. E para que uma história de terror, seja no formato conto ou livro, possa ganhar o status de ‘obra-prima’, ela deve, antes de tudo, incomodar. Mexer com aquele medo secreto que todos nós temos e que fica muito bem escondido em nosso íntimo. E estes quatro contos de Strausz fizeram isso comigo.
Quanto aos outros seis, não. Até achei o desenvolvimento dos seus enredos convincentes, mas quando chegou a hora da conclusão, de fato, não me convenceu. Achei os finais dos contos: “Devolva minha aliança”, “Os três cachorros do senhor Heitor”, “O chapéu de guizos”, “Sete ossos e uma maldição”, “A procissão” e “O elevador” pouco atraentes.
O final insosso foi realmente uma pena em “Devolva minha aliança”, já que o enredo foi muito bem desenvolvido pela autora. Cara, o leitor fica o tempo todo pensando em como será a vingança da noiva que morreu recentemente e teve a sua aliança furtada em seu tumulo por um adolescente. Putz, então vem aquele final morno. Desculpe-me, morno não; frio, mesmo. O mesmo acontece com “Chapéu de guizos”, “A procissão” e “Sete ossos e uma maldição”, conto que empresta o título à obra. Achei o final deste último comum de mais, nada de sobrenatural, e sem direito até mesmo aquele medinho bem réba.
Dois pontos positivos do livro são a gramática e os diálogos impecáveis e o layout, incluindo as ilustrações internas (cada conto com direito a uma ilustração). Que show!
Vamos conferir um pequeno resumo dos contos
01 – Crianças à venda. Tratar aqui.
Este é fodástico. Daqueles que provocam medo e mal estar. O final, então. Brrrrrrrrrrrr. Caraca, me coloquei no lugar da irmã do Fabiojunio e juro que quase borrei as calças. Strausz conta a história de uma mãe oportunista que, por viver na miséria, decide colocar à venda os seus filhos, em busca de melhoria de vida para as crianças, mas principalmente para ela. Cada um dos menores foram sendo comprados por famílias ricas até que sobrou somente um, o tal do Fabiojunio que acabou vendido para um casal muito estranho. A irmã do garoto decide investigar mais a fundo os novos pais e descobre algo aterrorizante.
02 – Devolva minha aliança
Dois amigos vão ao velório de uma noiva que tinha falecido no dia do seu casamento. No enterro, eles vêem que no noivo, inconformado, joga a aliança dentro da cova. Quando todos vão embora, um dos amigosvai até o cemitério e rouba a aliança da defunta. Tudo vai bem até o dia – melhor dizendo, a noite – em que a noiva decide se levantar da cova para reaver a sua jóia furtada. Ocorre que o garoto, autor da “proeza” acaba perdendo a aliança e não tem como reparar o seu erro. Um conto que tinha tudo para ter um final macabro, mas ficou devendo e muito.
03 – Os três cachorros do senhor Heitor
Decepcionante. O início chega a convencer, mas então, a história vai esfriando... esfriando... e implode.
Quando Zé Luiz, um menino com cerca de dez anos, é encontrado morto, atrás do banco da pracinha, Marcelo, Tito e Rosana, se perguntam o que teria acontecido com o garoto, já que as causas da morte são desconhecidas. Depois dele, outras crianças e adolescentes começam a aparecer mortas. Todas com o mesmo sinal: uma expressão de pavor no rosto, o que leva a crer que elas morreram de medo após terem visto algo pavoroso.
Decidido a esclarecer o mistério, Marcelo, amigo de Zé Luis – decide investigar as causas das mortes. Ele esclarece o caso, mas não sem antes pagar um preço muito caro pela sua descoberta. Fraca a história, mais fraco ainda o final.
04 – Dentes tão brancos
O melhor de todos os 10 contos. Na minha opinião, superou até mesmo o fantástico “Crianças à venda. Tratar aqui”. A autora conta a história de uma garota muito bonita que é convidada para uma festa a fantasia de uma amiga com o tema “A Morte”. Andréia vai vestida de uma garota romântica do século XVI, iguais aquelas do Romantismo que morriam belas e castas. Na festa, ela acaba conhecendo um belo rapaz que toca violino, mas esconde um lado misterioso. Já adianto que com o desenrolar do conto, o “belo” rapaz irá provocar arrepios de medo no leitor. O conto termina de uma maneira terrível.
Aliás, dois momentos marcantes que mais me impressionaram na leitura de “Sete ossos e uma maldição” foram a maneira como o rapaz misterioso se apresentou à Andréia, descendo do palco de uma maneira muito esquisita e antinatural; e também quando uma mulher acorda com o demônio sentado de cócoras em sua cama no conto “O fruto da figueira velha”. Mas isso é assunto para daqui a pouco.
05 – O chapéu de guizos
Fraco. É sobre um garoto que houve vozes desde que era pequeno. Certo dia, mexendo num baú repleto de quinquilharia, ele descobre a miniatura de um chinês com um chapéu de guizos e começa a ouvir a voz dele que o induz a fazer coisas contra a sua própria vontade. O conto é tão fraquinho que não tenho nem mais o que escrever.
06 – Sete ossos e uma maldição
Não merecia ser escolhido para dar nome ao livro. Clara sempre acordava assustada no meio da noite após sonhar com uma mulher de silhueta assustadora que sussurrava: “Meus ossos”. Sua tia espírita a orienta queimar todos os objetos de seu quarto numa fogueira para purificar a casa. Logo depois, os pais de Clara compram novas mobílias para o seu quarto. Dentro de uma caixa, a garota descobre uma pequena boneca muito bonita chamada Muriel. É a partir daí que os seus problemas de Clara recomeçam. O enredo é interessante, merecia um final muito melhor.
07 – O fruto da figueira velha
Mil vezes caraça!! Este me deixou tonto de medo. O momento em que uma mulher acorda com o coisa ruim ao seu lado na cama, olhando fixamente para ela. Uhuhu!! Quase me borrei inteiro. Strauz escreveu esse conto de maneira magistral, fazendo com que o leitor mergulhe de cabeça na história, louco para saber o seu final.
Denise não acreditava em casa mal assombrada, por isso não esquentou a cabeça com ‘bobagens’ quando encontrou um imóvel dos seus sonhos. Nem mesmo deu atenção aos vizinhos que ainda tentaram lhe alertar da procedência da casa misteriosa.
Após seu casamento com Tiago, o casal se mudou para a nova casa. Em sua primeira noite, depois do jantar, Denise pegou um fruto de uma velha figueira localizada ao lado da casa. Mal sabia ela, que aquela árvore... Bem, melhor você ler o conto.
08 – A procissão
Também não gostei. Quatro amigos estão caminhando, mas só um deles chamado Adriano consegue ver uma procissão. Tomé, Carlos e Marita não vêem nada. Além de assustado, Adriano não entende como só ele podea ver uma procissão formada só por mulheres com uma expressão triste. Adriano vê um único menino na procissão, ele está na última fileira sendo segurado por duas mulheres. Quando o garoto é encontrado morto na manhã seguinte, Adriano chega a conclusão de que precisava descobrir a verdade.
09 – Morte na estrada
Este conto utiliza como base uma lenda urbana muito popular entre os americanos e que acabou se espalhando para outros países, inclusive o Brasil. Trata-se da história de uma família que viaja de carro quando à beira da estrada, surge uma mulher desesperada pedindo socorro. Ela avisa que tem um carro caído numa ribanceira próxima dali com três crianças feridas dentro dele. A família pára e segue a mulher até o local do acidente. Ao chegar lá, eles descobrem um carro acidentado e, de fato, com três crianças  feridas, mas vivas. Ao volante, está a mãe delas, morta: a mesma mulher que estava na beira da estrada e avisou sobre o acidente.
Não soltei nenhum spoiler, já que o trecho que descrevi acima é revelado logo na primeira página do conto. O pega-pra-capá vem depois disso. Valeu muito a leitura, principalmente pelo susto e pela surpresa final.
10 – O elevador
Outro conto que não me atraiu. Um prédio antigo e perto do abandono. Um garoto curioso que se muda para o ‘prédio-mausoléu’ juntamente com o seu pai. E para completar o quadro tétrico, um elevador com ‘pinta’ de mal assombrado que resolve funcionar, por conta própria, depois de muitas décadas. “O elevador” tinha todos os ingredientes para ser uma história aterrorizante, mas não deu.
Pelo menos, eu não gostei. O suspense inicial não foi mantido durante a narrativa e o final, achei decepcionante. Sei lá, uma questão de gosto.
Já li resenha sobre a obra, na qual o blogueiro adorou todas as histórias do livro. Um fato não posso negar: Strauz dá um show de gramática. Ela escreve muito bem e os diálogos dos personagens são perfeitos.

Mas não temos como negar que num livro de contos, raramente todos são considerados bons. Haverá sempre algumas ovelhas negras. Cara, isso é normal! Nem mesmo o mestre Stephen King consegue escapar dessa máxima.

4 comentários:

  1. Um dos melhores livros de contos nacionais que li em minha opinião.

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    1. Olá Maurilei,
      As quatro histórias que citei no post já valem a leitura do livro.
      Grde abraço!

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  2. Li esse livro na época da escola para apresentação de trabalho de Português, e a turma inteira se arrepiou com os contos! Kkkkk
    Grato pela nostalgia, Jam. Lembro que Dentes Tão Brancos é mesmo de gelar o sangue.

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    Respostas
    1. E como Tex!! Adorei o conto. Pena que alguns outros do livro não tiveram a mesma 'pegada'.
      Volte sempre!

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