sábado, 3 de dezembro de 2011

Os Coletores

Basta você ver as expressões de Jude Law e Forrest Withaker na capa do livro “Os Coletores” para saber exatamente a “casca grossa” que é um biocoletor. O sujeito que exerce essa função, principalmente aqueles que atingiram o “Nível 5” são mau humorados, truculentos, egocêntricos e individualistas, mas apesar de todos esses defeitos não há como negar a sua competência. Eles são eficazes, quase infalíveis quando recebem a missão de extrair um ou vários artifogs.
Bem... acho que a maioria não está entendo nada do que estou escrevendo; pelo menos, aqueles que não tiveram a oportunidade de ler o livro de Eric Garcia. Afinal de contas o que um biocoletor? E um artifog? Nível 5? Do que se trata? Peraí ai pessoal, acho melhor começar do zero. Vamos lá...
Imagine no futuro, a ciência conseguindo atingir um estágio evolutivo tão grande, mas tão grande que se torna capaz de fabricar qualquer órgão do corpo humano. Esses órgãos artificiais, conhecidos por artifogs, são pequenas maravilhas de metal e plástico muito mais confiáveis e eficientes do que os rins falíveis e os pulmões facilmente sujeitos a câncer com que você nasceu. Dessa maneira, uma pessoa que descobrisse estar com câncer ou então com uma doença crônica, bastaria apenas trocar o órgão doente por um artifog e recomeçar uma vida nova.
Mas nem tudo é um paraíso nesse futuro supostamente tão promissor. Se o cidadão que adquiriu o artifog cair em inadimplência e atrasar as mensalidades, um dos dedicados profissionais que trabalham na empresa que fabrica os tais órgãos artificiais fará uma rápida visita ao cliente, extrairá o produto e o levará de volta imediatamente. Fígado, coração, rim, pulmão, pâncreas, qualquer coisa! Esses profissionais se chamam “coletores”. Cada um deles tem um nível; geralmente a escala vai do 1 ao 5, conforme a experiência e principalmente eficiência de cada um.
Finalizando essa rápida explicação para que eu possa começar a falar da obra em si; os atores Jude Law e Forrest Withaker aparecem na capa do romance de Garcia porque o livro deu origem a um filme polêmico, mas de grande sucesso nos cinemas chamado “Repo Men: O Resgate de Órgãos”, no qual eles interpretaram dois inseparáveis biocoletores.
Beleza? Deu para descomplicar o início complicado desse post? (rs). Então vamos agora, ao que interessa: falar dos pontos positivos e negativos do romance do escritor americano Eric Garcia. Após concluir a leitura de “Os Coletores” não fiquei entusiasmado, mas também não cheguei perto da decepção. Não se discute que se trata de uma obra inovadora no gênero de ficção científica, tanto é que foi indicada ao prêmio Philip K. Dick, o que já é o mesmo que atingir o pico do Monte Everest para um escritor de ficção cientifica. E Eric Garcia atingiu o seu “Everest”. Mas acontece que a história que começa num compasso vertiginoso com a extração, logo de cara, de um artifog vai perdendo o ritmo depois, para logo em seguida recuperá-lo novamente e depois perdê-lo de novo e assim sucessivamente, como um coração com fibrilação que bate de maneira descompassada. Não sei se o termo correto seria esse, mas achei “Os Coletores” ‘inconstante’.
Alice Braga e Jude Law em cena do filme "Repo Men", inspirado
no livro " Os Coletores"
Creio que o motivo dessa irregularidade foi o autor ter optado por mesclar duas histórias simultâneas, além de arrumar cinco ex-esposas para o protagonista do romance, o coletor Remy.
Após a ação eletrizante, mas ao mesmo tempo cômica em que Remy  invade uma residência localizada numa área nobre para recuperar o fígado artificial de um inadimplente, o autor, logo em seguida, já dá um corte brusco no enredo para apresentar uma visão geral das cinco ex-esposas do personagem. Depois disso, o leitor é conduzido para o período em que o biocoletor se alistou no exército juntamente com o seu amigo Jake. Um período desenxabido e com passagens chatíssimas, entre as quais a rotina de um recruta de infantaria que se torna condutor de tanques numa guerra que praticamente não existe. Resultado: para não ficarem parados, os soldados são obrigados a fazer várias manobras de treinamento no deserto. E quando estoura a guerra de mentirinha, os inimigos africanos são tão maltrapilhos que o combate se torna uma carnificina sem nenhuma emoção. O que salva – pelo menos, em parte - esse período em que Remy passa no exército, antes de se tornar um biocoletor, é o “Sargento Ignakowski”. A ambiguidade desse personagem, às vezes cômico de doer e em outras com uma profundidade de fazer inveja ao melhor dos filósofos, quebrou – repito: em parte – o enredo sem graça dessa parte do romance. O comentário ácido feito pelo sargento após tomar conhecimento da morte de um recruta que resolveu se masturbar enquanto lia uma revista masculina durante um exercício de combate é impagável. Mas é só.
Eric Garcia, autor de " Os Coletores"
As quatro das cinco ex-esposas do biocoletor também são de doer, com exceção de Beth. Enquanto Mary-Ellen, Melinda, Carol e Wendy são um saco por causa da insipidez, Beth ocupa todo o espaço. Ela foi a primeira esposa de Remy e mesmo se casando com ele bateu o pé e não abandonou o seu trabalho. Até aí tudo bem; quer dizer, se o seu serviço não fosse a prostituição. Isso mesmo, Beth era uma prostituta que trabalhava num prostíbulo famoso na cidade. Nem preciso explicar porque o primeiro casamento de Remy não deu certo. Enquanto a história gira em torno da relação mais do que conflituosa de Beth e Remy, o leitor tem a oportunidade de presenciar passagens interessantes e que chegam prender a atenção, mas depois que o autor muda o foco para as outras esposas, a leitura vai perdendo o interesse.
Depois dessa queda no enredo, a montanha russa volta em ação, quando Eric Garcia recomeça trabalhar com o núcleo dos biocoletores. As passagens vividas por Remy, Jack e seus colegas de trabalho da Credit Union, empresa que financia o pagamento dos artifogs, são fantásticas e fisgam o leitor até a “última gota”. O interesse pela leitura cresce ainda mais quando Remy se torna um foragido e conhece Boonie, uma fugitiva da Credit Union que tem um verdadeiro arsenal de artifogs espalhados pelo corpo. Boonie terá um papel decisivo na vida de Remy modificando todo o rumo da história perto do final romance. Ficou reservada à ela a grande mudança que altera todo o percurso normal do enredo. Os dois se apaixonam e quando o cerco cresce em torno do nosso biocoletor, Boonie toma uma medida que causa espanto em todos os leitores, mas... muito espanto!!
Acredito que a grande sacada de Garcia ao escrever o livro foi fazer com que Remy também experimentasse o que é ser um fugitivo da Credit Union por não ter condições de pagar um artifog. O pesadelo de saber que a qualquer momento poderia ter o seu órgão artificial arrancado por um biocoletor por falta de pagamento. E que não adiantaria fugir para o mais isolado dos esconderijos, já que os biocoletores usam scaners ultrapotentes capazes de rastrear os artifogs à quilômetros de distância. Tanto é que poucos conseguem “dar o balão” na empresa e continuaremn vivos.
É evidente que não vou contar, nesse espaço, os motivos que levaram Remy se tornar um fugitivo após ter sido obrigado a substituir o seu coração original por um artifog. Vou deixar para que o próprio personagem conte a sua história e assim não estrague a surpresa daqueles que pretendem ler o livro, já que o enredo do romance é narrado em primeira pessoa, ou seja, pelo próprio biocoletor da Credit Union.
Tai! Esqueçam as quatro esposas e o período no exército, e com certeza vocês terão uma boa leitura.
Em tempo! Vale a pena dar uma conferida, também, no filme “Os Coletores”; afinal de contas, a nossa querida Alice Braga está fantástica como Bonnie. E esqueçam o final do filme... é completamente diferente do livro.

2 comentários:

  1. Jose Antônio,

    Eu nem sabia que o filme Repo Men era baseado em um filme... Gostei bastante do filme, a Alice Braga está muito bem...
    Fiquei curiosa para saber o final do livro!!!!
    O do filme é interessante, mas esse lance de sonho dentro de sonho meio que deixa uma decepção no final... Tipo: "Ah! Nada daquilo era verdade..."
    E no filme eles nem abordam essas ex-esposas, pelo que eu me lembro era só uma mesmo...

    =)

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  2. Joelma,
    De fato, o final do livro é bem diferente do filme. Não tem nada desse lance de "sonho dentro do sonho". O escritor Eric Garcia - que tbém foi o roteirista da produção cinematográfica - optou por um final bem real, nada de ilusão. Qto as ex-esposas do personagem Remy ou Peter (Remy no filme e Peter, no livro), Garcia optou por cortar quatro delas, só deixando Carol, e ainda com uma participação pequena. Conforme o próprio roteirista disse, Alice Braga compôs cinco personagens numa só. No filme, Alice tem um pouquinho de Beth, Wendy, Mary-Ellen e Melinda... as quatro esposas somadas a personalidade de Boonie, que no livro é a fugitiva com vários artifogs reimplantados e que se apaixona por Remy (Jude Law). Resumindo: Eric Garcia pegou um pouquinho de cada uma das ex-esposas de Remy e juntou com Boonie. Pronto! E assim, nasceu a personagem de Alice Braga, que no filme ganhou o nome da ex-mulher de personalidade mais marcante: Beth.
    Abcs!!

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