domingo, 14 de agosto de 2011

Primeiro sangue

Capa original do livro lançado pela
Editora Record no Brasil em 1972
Se você pretende ler “Primeiro Sangue”, de David Morrell, livro que deu origem a série Rambo nos cinemas, esqueça o John Rambo de Sylvester Satolle. O personagem principal do romance de Morrell é encrenqueiro, problemático, turrão, prepotente, além de querer que a sua palavra sempre seja a última. Pois é, não lembra em nada aquele ex-boina verde vivido por Stallone nos cinemas que visita uma pacata cidade na esperança de reencontrar um velho amigo que lutou ao seu lado nas forças especiais contra os vietcongs. Ele só se rebela após ser humilhado e espizinhado pelo xerife da localidade. E olha que o John Rambo do filme agüentou várias provocações do “xerifão” vivido pelo Brian Dennehy. A lista de humilhações foi grande, entre as quais: alguns guardinhas rasos ficarem dando risada na cara do sujeito, tirando sarro das suas maneiras; ficar pelado e agüentar um banho na mangueira encostado na parede; ver o seu medalhão de combatente ser arrancado do pescoço pelas mãos balofas do xerife; além de outras provocações. Tudo isso, o Rambo de Stalollone suportou calado. Ele só não agüentou quando quiserem cortar os seus cabelos e fazer a sua barba, para isso, um dos guardinhas lhe deu uma chave de pescoço e sacou uma navalha. Pronto, a visão da navalha já foi o suficiente para despertar em Rambo as recordações da época em que havia sido torturado pelos vietcongs. A partir daí, o combatente se transforma numa máquina de guerra e mesmo assim faz questão de não matar ninguém no filme, apenas imobilizar ou ferir aqueles que o perseguem.
Capa do livro relançado no
Brasil após o sucesso do filme
Quanto ao livro. Bem... apague tudo, esqueça tudo. O Rambo das páginas é totalmente o inverso. Para início de conversa, Morrel não cita que ele seja um herói de guerra, apenas um combatente altamente treinado que esteve no Vietnã. E como já disse no início desse post, o sujeito é por demais encrenqueiro e questionador. Na cadeia, após ser preso para averiguação, ele é obrigado a tomar uma “chuveirada” e quando lhe pedem para fechar a torneira, pois o seu tempo já acabou, Rambo finge que não ouve e continua se lavando. Antes disso, o xerife pede que ele tire a roupa para ser revistado. No início, ele “bate o pe´” e diz que não irá atender a ordem do policial, só concordando em ficar nu após algumas ameaças.
“Primeiro Sangue” é um livro que rompe os paradigmas das histórias de heróis e vilões, bandidos e mocinhos. Morrell optou por um contexto onde não existem heróis, mas apenas vilões. Rambo e o Xerife Teasle são verdadeiros homens das cavernas que não aceitam mudar os seus princípios mesmo quando estão errados. Esta desmistificação dos romances tradicionais torna a leitura ainda mais interessante, pois você não tem aquele personagem certinho e de princípios ou, então na pior das hipóteses um anti-herói para torcer. No livro de Morrel, todo mundo é vilão mesmo! Caçado e caçadores. Um querendo ver o sangue do outro. Isto faz com que as vezes você acabe torcendo para o problemático Rambo e em outras, para o “mala” do xerife.
Diferente do primeiro filme, o personagem do livro não pensa duas vezes em puxar o gatilho para eliminar quem entrar em seu caminho; para ele a sua única amiga é a liberdade e para alcançá-la é capaz de tudo. O ex-combatente provoca várias mortes, incluindo pessoas inocentes, tudo para conseguir fugir e se ver livre.
O embate entre Rambo e Teasle é eletrizante e ao contrário do filme, o personagem não usa uma faca multifuncional, mas apenas um rifle e isso já é o suficiente para provocar uma chacina durante a sua fuga. O contexto de livro e filme são bem diferentes e acredito que Morrell ao roteirizar “Rambo – Programado para Matar”, em 1982, aproveitou muito pouco o  conteúdo de sua história escrita. Um desses raros trechos é aquele em que Rambo consegue derrubar um helicóptero com uma pedra.
E como não poderia ser diferente, o livro é muito mais profundo do que o filme dando ao leitor um perfil completo dos principais personagens. No caso de Rambo ficamos sabendo alguns detalhes de sua infância e o que serviu de gatilho para que ele entrasse no exército. Nesse ínterim tomamos conhecimento da infância sofrida de Rambo e do dia em que ele tentou matar o próprio pai. Morrell também explica em detalhes o período em que o ex-combatente se tornou um fuzileiro passando a integrar as forças especiais do exército americano. Neste ponto da obra é explicado todo o treinamento pelo qual são submetidos os soldados selecionados para integrar a elite do exército.
Quanto a Teasle descobrimos que ele também foi duro na queda, fazendo parte do exército e tendo sido agraciado com a Cruz do Mérito Militar. Na época em que estava na Marinha, o xerife participou do “Reservatório de Choisin”, uma das mais famosas batalhas da Coréia e que custou ao inimigo trinta e sete mil homens. E Teasle estava bem no meio dessa campanha, o que prova o seu valor em combate. 
Capa americana do livro
Já o xerife do filme “Rambo – Programado para Matar” é um “João ninguém” sem nenhuma experiência militar e que de caçador se transforma em presa. No livro, tanto Rambo como Teasle tem as suas qualidades em batalha, mas sem dúvida alguma, a “cria” do coronel Trautman leva vantagem, tanto no físico quanto no raciocínio rápido.
SPOILER: O final do livro é completamente diferente do filme. Após tanta matança, Rambo acaba morrendo pelas mãos de seu mentor, o cornel Trautman, que é chamado para tentar controlar a sua máquina de guerra. O ex-fuzileiro morre após receber um balaço na cabeça. Se você optou por ler esse spollier e mesmo assim ficou P. da Vida comigo, saiba que David Morrell decidiu ressuscitar o personagem num segundo livro, devido ao sucesso de “Primeiro Sangue”. Agora, como Rambo voltou do mundo dos mortos após receber um tiro certeiro na cabeça não é explicado por Morrel; também como explicar o inexplicável? (rs). No livro “Rambo II – A Missão”, ele volta e pronto.
Ah! Antes que me esqueça. Deixei a “coruja” para o final. Entre tantas passagens sangrentas e indigestas do livro, a da “coruja” é impagável. E para ser sincero, toda vez que me lembro perco o apetite. É sério, não estou brincado. Por isso, se você estiver lendo esse post antes do almoço ou jantar, pare por aqui.
Num dos momentos mais nojentos da obra, Rambo está no meio do mato, escondido numa mina abandonada e vivendo em condições sub-humanas. É quando a fome aperta e no desespero, ele não pensa duas vezes e acaba devorando uma coruja! Morrell narra em detalhes como ele limpa e preparara a coruja. Neste trecho me senti lendo um livro de gastronomia, uma gastronomia que prefiro esquecer. Confira alguns pequenos trechos: “Rambo segurou a coruja pelo dorso macio e flexível, agarrou um punhado de penas da barriga e puxou-as. Estas, ao saírem produziram um ruído estranho e áspero. Em seguida enfiou a ponta da faca (que não é multifuncional) na parte inferior das costelas”.... Ecaaa. Cara, acho melhor parar por aqui porque não quero me lembrar do resto dos detalhes.
Enfim, excetuando essa parte garstronômica, recomendo a leitura. Vale a pena, pois a obra foge completamente dos padrões tradicionais onde sempre temos os heróis de um lado e os vilões de outro.
Inté!

13 comentários:

  1. José, acredito que esse é um dos livros mais ocultos se comparados ao filme.
    A figura do Rambo ficou tão caracterizada como um brucutu que explode orientais, que ninguém acredita que o personagem nasceu em um drama.

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  2. Bem observado Cássio, são dois "Rambos" bem diferentes. O do livro com uma carga drámatica incrível e o do cinema, como vc disse, um "brucutu explode tudo". Na realidade, Stallone com as "bençãos" de Morrell criou um Rambo diferente em tudo.
    Abcs!

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  3. Amigo ,vc não falo o fato que deu origem ao titulo do livro , o costume medieval do PRIMEIRO SANGUE.

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  4. Esse livro é uma raridade. Poucas pessoas sabem q o filme é baseado num livro, eu mesmo não sabia, mas quando vi o livro tive q ler. A impressão q tive é q pro filme eles quiseram construir um herói, então tiraram toda a maldade do personagem e colocaram um cara q não mata inocentes, não mata americanos. No livro ele é malzão, sai matando geral. O livro é muito bom sim, mas uma coisa tem q ficar clara, o final do filme é muito melhor. O do livro é meio previsível, q caçador e caçado vão morrer, já o do filme passa uma mensagem pacifista muito forte. O problema é q as pessoas não levam a sério q um filme de ação dos anos 80 pode passar uma mensagem, pois deveria ser só ação por ação, entretenimento, mas não é o caso. O diálogo dele com o Trautman, mostrando um homem completamente destruído psicologicamente pelos horrores da guerra, mostra uma realidade muito forte para vários veteranos de guerra americanos, e é atemporal. O fato dele ter lutado pelo seu país, dar sua vida, e depois ser totalmente desconsiderado quando volta tb fica implícito. Enfim, pra mim o filme ainda sai ganhando em muitos fatores e é uma ótima adaptação. Não é nada fiel ao livro, longe disso, mas é bem adaptado. Recomendo o livro tb, a primeira parte, e principalmente quando ele é preso e foge da delegacia são as melhores.

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    1. Perfeita a sua análise Felipe!
      Grande Abc!

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    2. Jefferson, o livro está praticamente esgotado, mas encontrei um exemplar no Mercado Livre por um preço satisfatório, se levarmos em conta que a obra de Morrel está quase que extinta. Anote o link e corra, antes que outro leitor interessado chegue na sua frente e finalize a compra.

      http://produto.mercadolivre.com.br/MLB-732244018-livro-rambo-primeiro-sangue-_JM

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    3. Jefferson, o livro está praticamente esgotado, mas encontrei um exemplar no Mercado Livre por um preço satisfatório, se levarmos em conta que a obra de Morrel está quase que extinta. Anote o link e corra, antes que outro leitor interessado chegue na sua frente e finalize a compra.

      http://produto.mercadolivre.com.br/MLB-732244018-livro-rambo-primeiro-sangue-_JM

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  5. Boa noite José. Não consigo encontrar esse livro traduzido. Você tem idéia de onde posso encontrá-lo?

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    Respostas
    1. Sérgio, o livro "Primeiro Sangue" que inspirou o filme Rambo se tornou uma das mais raras preciosidades do universo. Um verdadeiro diamante lapidado. Vc, simplesmente, não o encontra em lugar nenhum. Pode vasculhar a Net como um verdadeiro garimpeiro que será muito difícil. Olha, há uma oferta no Mercado Livre, mas o preço já viu né.... é - digamos - bem salgado, mas se vc estiver afim de adquirir a obra vale a pena. O custo é de R$ 150,00. Até esse momento, em que estou lhe respondendo a sua perguntas, o livro estava disponível, mas não sei até quando. portanto, se quiser adquiri-lo apresse-se. A decisão é sua. Anote o link:

      http://produto.mercadolivre.com.br/MLB-537325766-livro-rambo-primeiro-sangue-david-morrell-1988-_JM

      OBS: Ah! Antes que me esqueça, se quiser adquirir o livro "Rambo II", tbém escrito por David Morrel, é melhor se apressar enquanto a obra ainda está com preços módicos. Com certeza, dentro de poucos meses, o preço irá nas alturas..... Basta acessar o link: www.estantevirtual.com.br. Parece que estão disponíveis 'uns' três ou quatro livros".

      Espero ter ajudado.
      Abcs!


      http://produto.mercadolivre.com.br/MLB-537325766-livro-rambo-primeiro-sangue-david-morrell-1988-_JM

      >>>>>>>>>>>>>>>>>>>

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  6. Eu sempre soube que o primeiro e só o primeiro filme, havia sido baseado no romance escrito por David Morrell. Os outros, são continuações idealizadas pelo próprio Stallone, que é um dos autores dos roteiros. Agora, qndo o autor imaginou que seu personagem, se tornaria ícone de filmes de sucesso, desenho animado e linha de brinquedos, que virou clássico, pra quem viveu a infância nos anos 80. Eu sou fã da série, tenho todos os filmes, a coleção toda dos brinquedos do Rambo, inclusive bonecos, originais americanos, na embalagem, porém, só me faltava o livro....já não me falta mais, consegui por R$ 100,00 via ML. E realmente, se trata de uma preciosidade, custei mto pra encontrar.

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    1. Só me resta dizer que baita sorte ter encontrado o livro de Morrell. Realmente, trata-se de uma preciosidade para ser guardada em lugar de destaque em sua estante.
      Parabéns pela aquisição!
      Abcs!

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  7. No cinema. o 1º filme é uma critica anti-patriota de como os soldados americanos foram, após arriscar a vida, a sanidade e os membros do corpo numa guerra, ao retornarem são tratados como resto. O fato da policia ser o vilão do filme, numa época do "politicamente correto" é emblemática. O filme imprecionou tanto o público na épocade sua estréia que tiveram que fazer mais dois, como Rambo saldadão matador de estrangeiros de outras culturas, americanão babaca, para anular a impressão do "programado para matar", um filme crítico, onde o personagem é pelo menos humano, sofre, se fode, pira a cabeça. Nos outros filmes ele é uma caricatura, um soldado que mata sem oparar e sem nenhum medo de morrer.

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