domingo, 17 de abril de 2011

O Inimigo de Deus (As Crônicas de Artur)

Falar o que de “O Inimigo de Deus”, 2º volume da já lendária trilogia “As Crônicas de Artur, de Bernard Cornwell? Brilhante? Fenomenal? Estupenda? Extraordinária? Qualquer um desses adjetivos serviria perfeitamente, mas prefiro ficar com outro: mágica. Nos dicionários de língua portuguesa algumas definições para mágico podem ser: “aquilo que causa admiração”, “encanto” e “maravilhoso”. E “O Inimigo de Deus” é tudo isso e muito mais. Tanto, que estou relendo os três livros que compõem as crônicas arturianas escritas por Cornwell.
O que fez a trilogia composta por “O Rei do Inverno”, “O Inimigo de Deus” e “Excalibur” se tornar – como já disse no início – “lendária” foram os elementos reais em que se baseia a obra. Cornwell escreveu os livros  após anos e anos de estudos, analisando descobertas arqueológicas e outros documentos do século VI d.C que muitos pesquisadores julgavam extintos. Estas valiosas informações lhe possibilitaram compor um Artur bem mais próximo da realidade, além de retratar com perfeição a Grã Bretanha do século VI que vivia sendo atacada pelos saxões.
Por isso, se você está esperando encontrar lindos castelos com torres altíssimas, donzelas inocentes, cavaleiros galantes, monstros míticos, espada mágica, dama do lago e um Merlin com poderes sobrenaturais, aconselho a dispensa da leitura da conhecida trilogia. Cornwell procurou ser o menos sonhador possível, desmistificando muitas lendas, afirmando inclusive, que Artur nunca foi rei, apenas um guerreiro que jurou fidelidade a um rei de verdade, no caso, Mordred, neto do Pendragon Uther. Mas isso não macula as suas virtudes do herói, porque graças a sua sabedoria e coragem, Artur acabou governando – indiretamente - todo o reino britânico conhecido, na época, por Dumnonia.
Achei “O Inimigo de Deus” melhor ainda do que “O Rei do Inverno”. Juro que cheguei a chorar em algumas partes do livro por causa da sua carga de dramaticidade. Se eu tenho o coração mole? Não sei. Talvez sim. Mas chorei mesmo quando Derfel – o narrador da história, além de conselheiro e melhor amigo de Artur – conheceu a sua mãe Erce, a qual vinha procurando a tanto tempo e depois de lhe dar um abraço emocionado jurou que seria para sempre o seu filho. É nessa parte da história que Erce faz uma revelação surpreendente para Derfel, dizendo quem é o seu pai. Fiquei ainda mais emocionado quando Dian, uma das três filhas de Derfel foi cruelmente assassinada na frente do pai, sem que ele nada pudesse fazer. E senti na pele o sofrimento de Artur ao ver Guinevere...Bem deixe-me parar por aqui, senão, vou acabar revelando através desses spoilers os momentos mais marcantes do livro.
Minha empolgação ao contar essas passagens é para que vocês entendam como o segundo livro da trilogia é dramático ao extremo, mas isso, não quer dizer que o autor se esqueceu das famosas cenas de batalhas. Pelo contrário, os confrontos entre os guerreiros de Artur e os saxões continuam mais cruéis do que nunca. E Cornwell, diga-se de passagem, é mestre em descrever cenas de combates medievais. Derfel continua orientando seus lanceiros a formarem as tão famosas paredes de escudos que já rendeu um post nesse blog. E por fim, Artur e a sua espada excalibur, acompanhado de seus famosos cavaleiros, ainda espalham terror nas batalhas, por mais difíceis que sejam. Mas devo admitir que as situações dramáticas são o ponto forte de “O Inimigo de Deus”.
Artur, Derfel, Merlin, Guinevere e Ceinwyn enfrentam momentos difíceis no contexto da história e muitas vezes, usam esses mesmos momentos como alavancas para se reerguerem. Por exemplo, Artur. Após sofrer uma grande traição, todos seus amigos e guerreiros pensaram que ele iria sucumbir, desmoronar e até mesmo perder a vontade de viver. Mas eis, que Artur usa esse momento difícil em sua vida para se reerguer, e de uma maneira que poucos esperavam. O Artur pacífico e capaz de perdoar os seus inimigos para conseguir a paz, se transforma num guerreiro impiedoso com os adversários, riscando a palavra perdão de seu dicionário. Exemplo disso é o momento em que ele renega o próprio filho que havia passado a apoiar Lancelot – que promoveu uma rebelião para usurpar o trono da Dumnonia – e ainda por cima, como lição, decepa-lhe uma das mãos com a espada excalibur. O novo Artur passa também a punir os traidores com a morte, de uma maneira fria e impassível ou então os sujeita as piores humilhações.
Merlin é outro personagem que também sofre uma queda enorme, mas  como uma Fênix  consegue ressurgir das cinzas ainda mais forte. “O Rei do Inverno” mostrou um Merlin todo poderoso, irreverente e com uma confiança inexorável. Auto-estima que ainda persiste no início da história do segundo livro das Crônica de Artur quando o druída em companhia de uns poucos homens, entre eles Derfel, sai em busca do caldeirão mágico de Clyddno Eiddyn, o último dos 13 tesouros dos deuses britânicos. Ninguém ousava desafiar Merllin, absolutamente ninguém. O druida era respeitado até mesmo pelos piores adversários. Em “O Inimigo de Deus”, ele sofre uma grande humilhação, sendo a primeira vez que alguém ousou afrontá-lo e ainda por cima escarnecê-lo na frente de outras pessoas, e da pior maneira possível. Se existisse bullying naquela época poderia dizer que o grande Merlin passou por esse processo. Um bullying medieval (rsss). Mas, à exemplo de Artur, quando todos pensavam que o velho mago estava acabado por causa da humilhação sofrida, eis que ele reaparece ainda mais forte e ereto do que antes e com a mesma auto-confiança.
São esses momentos de superação que fazem com que o leitor se apegue ainda mais aos personagens da história, passando a sofrer e também a se alegrar com eles.
A metamorfose drástica sofrida por Nimue, sacerdotisa de Merlin é outro tópico que merece ser lembrado no romance. No primeiro livro da trilogia, vimos uma Nimue contida, centrada e de uma beleza rara e exótica (mesmo tendo perdido um olho) que chegou a “virar” a cabeça de Derfel. O guerreiro e amigo de Artur queria fugir com a sacerdotisa que o entorpeceu de amor. Agora, no segundo livro da trilogia, a outrora bela Nimue vai sofrendo uma transformação que deixa os leitores perplexos. Este impacto fica evidente nas próprias palavras de Derfel: ...“a beleza intrigante que possuía um dia estava escondida sob a sujeira e feridas, e sob a massa de cabelos pretos e embolados, tão grudada de sujeira que até mesmo os camponeses que vinham em busca de suas adivinhações ou curas costumavam se encolher com o fedor”. Derfel finaliza dando o golpe de misericórdia: ...“ até eu, ligado à ela por juramento e que um dia fora seu amante, mal suportava estar perto dela.”
Estas são apenas algumas das muitas e muitas situações dramáticas vividas pelos personagens de  “O Inimigo de Deus”. E tudo isso regado há muitas batalhas, algumas antológicas como o enfrentamento dos guerreiros de Artur contra o exército liderados por Aele, o temível e mais importante chefe saxão.
Agora vou reler “Excalibur”, o livro que encerra a trilogia das Crônicas de Artur. Vou começar a leitura – melhor dizendo, a releitura – logo após enviar esse post ao blog e confesso que estou ansioso, pois o livro promete muitas emoções como a batalha do Mynyd Baddon, o duelo entre Artur e Mordred, a tentativa de Nimue em convocar os esquecidos deuses que um dia governaram a Britânia, a luta de Derfel para salvar a amada Ceinwyn de uma maldição e por aí afora. Enfim, uma verdadeira montanha russa de emoções.
Voltamos a falar sobre isso quando eu terminar “Excalibur”. Inté!

2 comentários:

  1. Um livro simplesmente arrebatador.
    Bela opinião sobre o assunto.

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  2. TO TRAVADO NUM LIVRO MAS QUERO COMEÇAR, DEPOIS DE TER LIDO ARTHUR, A LER AS CRONICAS SAXONICAS.

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