09 abril 2022
Histórias Lindas de Morrer
Nem mesmo por brincadeira, há como falar mal do livro
de Ana Cláudia Quintana Arantes. Histórias
Lindas de Morrer é muito bom, mas bom, de fato. Os depoimentos de pacientes
– através das palavras da autora - que estão em fase terminal de determinadas
doenças são por demais emocionantes e nos ensinam muitas lições, entre elas, a importância
do perdão e do amor incondicional.
Li o livro da editora Sextante em dois dias, apesar do
grande fluxo de atividades que tinha que desenvolver em meu trabalho. A
narrativa dinâmica de Ana Cláudia deixa o leitor ligado em 220 Volts (como diz
um velho ditado popular). Mal você termina de ler um desses depoimentos, já
quer, imediatamente, embarcar na história de vida de um outro paciente.
Para quem ainda não conhece a autora, ela é uma médica
paliativa que cuida de pacientes terminais há mais de vinte anos, tendo assim,
contato íntimo com os momentos de maior vulnerabilidade do ser humano.
Dedicada a quebrar o tabu sobre a morte no Brasil, Ana
Claudia nos traz uma coleção de emocionantes histórias reais, colhidas em sua
prática diária, em que a proximidade do fim nos revela em toda a nossa profundidade.
São pessoas de várias idades, crenças e origens, que deixam aos leitores verdadeiras lições de vida. Um dos capítulos que mais despertaram o meu interesse foi aquele em que a autora abriu o seu coração ao contar como enfrentou a perda de seu pai e de sua mãe que morreram, respectivamente, de Colangite (uma inflamação das vias biliares) e Esclerose Lateral Amiotrófica (a mesma doença do físico Stephen Hawking). Fiquei muito emocionado com esses dois capítulos. Ana Cláudia explora o seu drama sob todos os ângulos: vemos o seu comportamento como filha e também como médica e, então, descobrimos todas as suas qualidades como profissional da área de cuidados paliativos, a qual se tornou uma referência.
Drª Ana Paula Quintana Arantes
Acredito que todos os médicos que usam aquela ladainha
horrível de que os profissionais da área médica não podem jamais se envolver emocionalmente
com os seus pacientes – tendo a obrigação de manter um relacionamento frio e
impessoal – teriam muito o que aprender com a autora. Diferente da grande maioria
desses profissionais, Ana Cláudia exerce uma medicina que dá aos sentimentos e
à história dos pacientes a mesma atenção que dedica aos sintomas e desconfortos
físicos.
Histórias
Lindas de Morrer não tem apenas momentos tocantes e
tensos, mas também divertidos, entre eles, o confronto de Ana Cláudia com a
médica que estava cuidando de seu pai, a qual a autora atribuiu o apelido de
Rita Cadillac (ex-chacrete). Leiam esse capítulo e entenderão o motivo do
apelido. A tal médica – sem nenhum sentimento – estava fazendo tudo errado,
seguindo um tratamento já ultrapassado. Resultado: levou uma lição de moral da
autora, a qual acredito jamais esquecerá.
Cara, gostei tanto do livro que já reservei A morte é um dia que vale a pena viver.
Nesta obra, ela aborda o tema da finitude sob um ângulo surpreendente. Segundo a
médica, o que deveria nos assustar não é a morte em si, mas a possibilidade de
chegarmos ao fim da vida sem aproveitá-la, de não usarmos nosso tempo da
maneira que gostaríamos.
Ah! Também, não posso esquecer da apresentação do
livro feita pelo renomado ator Antônio Fagundes que conta como conheceu Ana
Cláudia e como aprendeu a respeitá-la. A narrativa de Fagundes está na orelha
da capa do livro.
Enfim, galera leiam, vocês irão adorar Histórias Lindas de Morrer.
05 abril 2022
Conheça oito livros excelentes sobre distopias
Se você estiver afim de ler um livro sobre distopia
não espere encontrar um futuro bom ou pelo menos razoável para a humanidade. Tenha
certeza de que virá pedreira pela frente: quer seja pelo controle religioso do
Estado como acontece em O Conto da Aia,
de Margaret Atwood, ou por um sistema de vigilância extrema do governo sobre os
cidadãos e classes sociais visto em 1984
de George Orwell ou ainda passando por uma sociedade proibida de ter livros
onde os bombeiros existem não para apagar incêndios e salvar vidas, e sim para
queimar casas e pessoas que tenham livros. PQP!!!! Só em pensar nisso me dá uma
agonia daquelas bem depressivas! Pois é, esse lance da queima de obras
literária acontece em Fahrenheit 451,
de Ray Bradbury.
Mas, apesar das narrativas distópicas serem
angustiantes e nada otimistas, não podemos negar que o gênero é um dos mais
vendidos no Brasil transformando a maioria de seus títulos em sucesso absoluto
de vendas. Na postagem de hoje, vou homenagear esse tipo de literatura.
Selecionei oito obras importantes sobre o assunto e que fizeram muito sucesso.
Vamos a elas
01
– O Conto da Aia (Margaret Atwood)
Começando com o livro de Margaret Atwood que na minha
opinião é o que mais se aproxima de uma distopia mais próxima da nossa
realidade. Afinal, minorias religiosas, controle de liberdade de expressão e
dos corpos femininos, além de punições físicas para crimes já acontecem em
algumas sociedades dos nossos tempos.
Mas vamos ao livro. Em O Conto da Aia, escrito em 1985, a religião controla o mundo e
decide sobre a vida das mulheres – muitas delas se tornaram inférteis – em uma
sociedade extremamente conservadora onde as mulheres são mantidas, unicamente,
para fins reprodutivos e conhecidas como "servas" (aias) pela classe
dominante. A narrativa se passa numa era onde os nascimentos estão em declínio
devido à esterilidade por poluição e doenças sexualmente transmissíveis.
Esse universo distópico desfavorável às mulheres
começou após um ataque terrorista matar o presidente e a maioria do Congresso
dos Estados Unidos. Os autores do atentado foram os integrantes de um movimento
fundamentalista de reconstrução cristã autointitulado "Filhos de
Jacó". O grupo terrorista lança um golpe e suspende a Constituição dos
Estados Unidos sob o pretexto de "restaurar a ordem". Eles
rapidamente tiram os direitos das mulheres. Nesta sociedade, os direitos
humanos são severamente limitados e os direitos das mulheres são ainda mais
restritos; por exemplo, elas estão proibidas de ler.
02
– 1984 (George Orwell)
Lançada em plena 2ª guerra mundial, a narrativa futurista
escrita por George Orwell pode ser considerada uma sátira ao governo Stalin e à
utopia socialista. 1984 narra a
revolta dos animais de uma fazenda contra seus donos autoritários, tentando implantar
suas próprias regras. No entanto, o poder dos animais começou a falar mais alto
e de uma tentativa de criar uma sociedade utópica para um governo autoritário,
os bichos passam a repetir as atitudes corruptas dos homens. Ou seja, passaram
de oprimidos a opressores.
03
– Eu, robô (Isaac Asimov)
Eu,
Robô
é um livro de contos com nove histórias que envolvem a evolução dos robôs ao
longo dos anos – e sua relação com os humanos.
Nesta obra, o autor Isaac Asimov apresenta as ‘Três
Leis da Robótica’, que seriam um conjunto de princípios que ajudariam a
entender o comportamento dos robôs, sendo a primeira, a mais famosa: um robô
não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra
algum mal. As narrativas dos nove contos do livro são interconectadas pela
personagem da Dra. Susan Calvin, que apresenta seus relatos sobre a evolução
dos autômatos através do tempo. Eu Robô
é uma das obras mais famosas de Asimov e por isso, merecedora do status de
antológica.
04
– Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley)
Admirável
Mundo Novo é um romance escrito por Aldous Huxley e publicado
pela primeira vez em 1932. A história se passa em Londres no ano 2.540 e
antecipa desenvolvimentos em tecnologia reprodutiva, hipnopedia, manipulação
psicológica e condicionamento clássico, que se combinam para mudar
profundamente a sociedade.
Este clássico literário apresenta um futuro em que
seres humanos são gerados em laboratórios e seguem normas sociais estabelecidas
pelo Estado. O livro traz uma sociedade dividida em castas de acordo com as
características biológicas de cada um, definidas no nascimento dos bebês. As
famílias não existem mais, e conceitos como o amor, que podem desestabilizar o
trabalho e produtividade de um indivíduo, são mal vistos.
05
– Os Androides sonham com ovelhas elétricas? (Philip K. Dick)
05
– Os Androides sonham com ovelhas elétricas? (Philip K. Dick)
Este livro sobre distopias também conhecido como O Caçador de Androides foi parar nas
telas de cinema sob o nome de “Blade Runner: o Caçador de Androides”, dirigido
por Ridley Scott e com Harrison Ford e Daryl Hannah nos papéis principais.
A obra escrita em 1968 narra a crise moral do
personagem Rick Deckard, um caçador de recompensas que persegue androides
conhecidos como replicantes, numa San Francisco pós-nuclear, parcialmente
deserta. Esses androides, desenvolvidos por uma corporação particular tem
características humanas e são usados como escravos em colônias fora da Terra. Quando
um grupo fugitivo de replicantes passa a viver disfarçadamente em Los Angeles,
Deckard é acionado para caçá-los.
06
– Nós (Yevgeny Zamyatin)
Se você quer saber o nome da pedra filosofal dos
livros sobre distopia é só procurar pelo escritor russo Yevgeny Zamyatin. Tudo
começou com ele.
O livro inspirou grandes sucessos distópicos na
literatura, como Admirável mundo novo
e 1984, além de Jogos Vorazes e Divergente.
O livro inspirou grandes sucessos distópicos na
literatura, como Admirável mundo novo
e 1984, além de Jogos Vorazes e Divergente.
Em Nós, um
governo totalitário, sob o nome de Estado Único, dita as regras da sociedade,
fazendo parecer que é para o bem de todos.
Mas, na realidade, todas as pessoas vivem de acordo
com o que ordena o governo, isto é, privados de liberdade de expressão, do
livre-arbítrio, da imaginação, da individualidade e até do direito à própria
vida.
É nesse cenário mecanizado, onde as pessoas são
chamadas por números, que vive o engenheiro D-503.
Ao contrário do que se pensa, D-503 está satisfeito em
ter suas horas de lazer, trabalho, refeição e até de sexo ditadas pelo Estado
Único.
Contudo, ele começa a questionar suas convicções ao
conhecer a misteriosa I330, que subverte todo o sistema e pode mostrar ao
engenheiro um novo caminho.
Embora escrito no início da década de 1920, Nós só foi publicado pela primeira vez
em 1924, e em inglês, em Nova Iorque, por estar proibido na então União
Soviética devido à censura imperante no país. O livro só adentrou legalmente a
pátria-mãe do autor em 1988, com as políticas de abertura do regime soviético.
07
– Laranja Mecânica (Anthony Burgess)
Laranja
Mecânica é um romance de Anthony Burgess publicado em 1962. No
livro situado na sociedade inglesa de um futuro distópico com uma cultura de
extrema violência juvenil, um anti-herói adolescente narra em primeira pessoa as
suas façanhas violentas e suas experiências com autoridades estaduais que
possuem a intenção de reformá-lo.
Alex, o protagonista, conta as próprias aventuras
violentas e, num segundo momento, o tratamento de choque imposto pelo Estado
para tentar “consertá-lo”. O livro foi a base para o filme homônimo de 1972,
dirigido por ninguém menos que Stanley Kubrick.
08
– Feios (Scott Westerfeld)
Fecho a nossa lista com uma grata surpresa literária
do gênero distópico: Feios do
escritor americano Scott Westerfeld. Um livro muito elogiado pela crítica e
repleto de reviravoltas.
A forma como o autor desenvolve a fantasia da série é
diferente de tudo que os leitores do gênero já viram. A ficção científica da
história impressiona por nos fazer pensar que isso pode ser possível em um
futuro distante – cabe a você decidir se isso é bom ou ruim.
Tally Youngblood é uma adolescente que vive nessa
sociedade futurística que – depois de sobreviver à destruição da civilização
industrial em um apocalipse ecológico – convive em meio à paz, felicidade e,
acima de tudo, perfeição. Assim que completam 16 anos, todos os seres humanos
passam por uma série de operações radicais que os torna perfeitos e, a partir
disso, a vida é só diversão e felicidade.
Ela mal pode esperar para passar pela cirurgia e
deixar de ser uma feia, mas sua nova amiga Shay a apresenta outra opção: fugir
da cidade e se juntar à Fumaça, um grupo de foras-da-lei que vive de forma
primitiva. O que Tally não consegue entender é por que alguém escolheria
abandonar o conforto de Nova Perfeição para voltar à natureza. Mas ela acaba
sendo forçada a descobrir.
Taí amantes de histórias distópicas. Escolham o seu livro
preferido e boa leitura!
01 abril 2022
Deixei Você Ir
Se alguém me pedisse para definir em poucas palavras o
livro de Clare Mackintosh, Deixei Você Ir,
eu diria simplesmente: “Não desista da leitura porque valerá a pena”. Vou ser
mais claro. O início do livro ou melhor, quase toda a sua primeira parte que
deve ter aproximadamente 160 páginas é morno, quase frio. Muita enrolação o que
torna o enredo cansativo, por isso mesmo, acredito que vários leitores acabaram
abandonando a obra. Mas no final da primeira parte (lembrando que o livro tem
apenas duas) vem uma das reviravoltas mais fantásticas que eu já vi nos meus
muitos anos de leitor. Caraca, o que foi aquilo! Levei um verdadeiro tapa na
cara, e depois desse tapa não via a hora de chegar ao fim da narrativa para
saber o seu desfecho.
Entenderam o motivo de ser persistente quando forem
ler Deixei Você Ir? A Parte II do
romance, ao contrário do seu início, é cheia de tensão com direito a um final
cinematográfico e muito tenso. Resumindo: depois do chamado ‘tapa na cara’, o
enredo engrena e torna-se difícil abandonar a história.
Em sua primeira parte, Deixei Você Ir é dividido em duas narrativas: uma em primeira
pessoa, sob o ponto de vista da personagem principal chamada Jenna, e a outra
narrativa em terceira pessoa, onde um narrador em off dá detalhes da
investigação envolvendo o atropelamento de uma criança que é o principal mote
da história. Nesta parte conhecemos os investigadores Ray Stevens e Kate que
fazem das tripas coração para esclarecer o caso. A autora encontra ainda tempo
para vasculhar o lado pessoal dos dois policiais, explorando os seus conflitos
particulares envolvendo filhos, esposa, traição, infidelidade, etc.
Na segunda parte entra no contexto uma terceira
narrativa, também em primeira pessoa. É um personagem masculino que terá um
papel preponderante na conclusão do enredo.
Em Deixei Você
Ir, uma criança de cinco anos morre atropelada em uma rua de Bristol,
Inglaterra, depois de ter soltado a mão da mãe
em um dia chuvoso. O motorista do carro que o atinge
acelera a foge. Desvendar sua morte vira um caso para o detetive Ray e seus
colegas, Kate e Stumpy. Determinado a encontrar o assassino, Ray se vê
consumido a ponto de colocar tanto a vida profissional quanto a pessoal em
jogo.
Jenna, assombrada pela morte do menino, abandona tudo
e se muda para uma pequena cidade costeira do País de Gales. Ela passa os dias
em seu chalé tentando esquecer as lembranças do terrível acidente e aos poucos
começa a ter algo parecido com uma vida normal e vislumbrar a felicidade em seu
futuro. Mas o passado vai alcançá-la, e as consequências serão devastadoras.
De vários pontos de vista, Mackintosh que antes de se
tornar escritora trabalhou doze anos na polícia da Inglaterra, incluindo um
período como detetive, cria um enredo investigativo perfeito, cansativo, as
vezes – isso na primeira parte do livro – mas, como já disse, perfeito.
Enfim galera, é isso aí. Acho que se escrevesse mais
alguma coisa sobre o enredo acabaria liberando spoilers o que estragaria o
incrível tapa na cara. Não quero que os
leitores deixem de levar esse tapa ao terminarem a primeira parte do livro. (rs)