sábado, 11 de agosto de 2018

O Morro dos Ventos Uivantes


Ufa, terminei! Que alívio! Não, não pensem que essa ‘desopressão pós leitura’ significa que o livro escrito por Emily Bronthë é ruim. Pelo contrário, “O Morro dos Ventos Uivantes” é uma verdadeira obra prima da literatura mundial. O que estou querendo dizer é que a história é muito densa e tensa, recheada de vinganças, amores mal resolvidos, raiva, cólera, ofensas, xingamentos, seres humanos destruídos em seu amor próprio, mortes... Olha... melhor parar por aí. Detalhe importante: todos esses ingredientes fazem parte de uma história de amor. Acredita? Verdade!
A estrutura do romance e o clima tenso da história fizeram com que os críticos da Inglaterra vitoriana não aceitassem e muito menos valorizassem a obra. A violência e a paixão contidas no enredo levaram os leitores daquela época a acreditar que tinha sido escrito por um homem. Por outro lado, críticos mais ferrenhos – até mesmo nos dias de hoje - passaram a tratar o livro como uma obra patológica, ou seja, escrita por alguém que sofresse de algum distúrbio emocional.
Quanto a essa ultima afirmação, acho de uma pobreza de raciocínio muito grande. Na minha opinião, Emily, simplesmente, teve coragem de transpor para as páginas de seu romance, os hábitos, costumes, linguajar, enfim a realidade do local onde a história se desenrola: nos povoados que ficavam nos morros distantes da Yorkshire vitoriana. Naquela época, os habitantes  das charnecas do norte da Inglaterra tinham maneiras e hábitos próprios, diferentes dos moradores que viviam nos grandes centros.
O que autora fez foi pegar a sua pena e colocar no papel uma brutal história de amor envolvendo camponeses iletrados e fidalgos não refinados que viviam nessa região e que se criaram com ensinamentos e atenções proporcionados por mentores tão rudes quanto eles próprios..
Escritora Emily Bronthë
Sai de cena a mocinha frágil e amorosa e em seu lugar, entra a mocinha forte e com personalidade indomável, inclusive no amor. Sai, o galã atencioso, conquistador e de bom coração e entra o galã – se é que podemos chamá-lo assim – bruto, vingativo e com uma maneira sui generis de amar.
Por tudo isso, “O Morro dos Ventos Uivantes” não foi bem aceito numa época acostumada a histórias de amor convencionais e estereotipadas. Emily Bronthë rompeu todos esses arquétipos, mandando-os para o PQP. A sua obra só começaria a conquistar o respeito merecido após a sua morte.  Pena que a escritora britânica morreu ainda jovem, aos 30 anos (1818-1848), e assim, não pode ver o sucesso de sua criação, nem teve tempo de escrever novos livros. Podemos dizer que “O Morro dos Ventos Uivantes” é o seu ‘filho único’.
O enredo desenvolvido por Bronthë ganhou várias adaptações para a televisão e o cinema, além de ter servido de inspiração para a criação do sucesso “Whutering Heights”, composta e interpretada por Kate Bush.
Cena do filme de 1992 com Ralph Finnes e Juliette Binoche
Ao ler o livro experimentei uma série de sentimentos: raiva, ódio, amor, etc. Comecei gostando de determinados personagens e torcendo por eles, mas depois com o virar das páginas queria que eles sofressem ou morressem. Assustei-me com as atitudes de outros personagens, chorei com o sofrimento injusto de outros.  Resumindo: a história é perturbadora e despertou em minha as mais diferentes emoções.
Por causa desse montanha russa de emoções, onde muitas vezes o amor anda de mãos dadas com a vingança e o ódio, a saga de Heathcliff e Catherine Earnshaw não é recomendada para os leitores que apreciam as histórias de amor tradicionais ou clássicas, por isso, até hoje o livro desperta tanta polêmica. Muitos que estão à procura de um romance simples, apenas para passar o tempo, lendo-o com um lencinho na mão, às vezes, topam com “O Morro dos Ventos Uivantes”, então o choque é grande; com isso, as polêmicas crescem ainda mais.
Para finalizar, gostaria de dizer que adorei a personagem Nelly Dean que foi inspirada numa empregada da família Bronthë chamada Thabita que todos os dias reunia Emily e suas duas irmãs para contas histórias. Costumo dizer que Dean é a brisa suave que chega para acalmar os corações dos leitores que muitas vezes encontram-se disparados por causa de sentimentos conflitantes provocados por Heathcliff e Catherine. Grande parte da história, inclusive, é narrada em primeira pessoa por Nelly Dean que conta os acontecimentos que presenciou na propriedade conhecida por Morro dos Ventos Uivantes, cenário onde se desenvolve toda a trama.
Recomendo, e muito, o livro de Bronthë, mas para aqueles leitores que querem fugir, um pouco, das puritanas histórias de amor.
Valeu!



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