terça-feira, 26 de julho de 2016

10 livros que o tempo esqueceu, mas que merecem ser lidos e relidos

É uma pena vermos, hoje em dia, tantos livros fraquinhos ganharem o status de bestsellers. O pior é que alguns deles chegam até mesmo a fazer a cabeça dos críticos. Cara, como isso dói. É claro que no meio de tanta sucata, existem bons livros, mas sinto dizer que o número de tranqueiras é maior. Enquanto isso, clássicos de um passado distante ficam relegados ao limbo do esquecimento.
O tempo é cruel com os livros; os bons, quero dizer. Ao longo de décadas foram publicados romances maravilhosos que encantaram gerações, mas com o passar do tempo acabaram caindo no esquecimento. Sabem de uma coisa? Estes livros são parecidos com nós, seres humanos: crescem, se tornam conhecidos, caem no esquecimento e depois morrem. Como se eles tivessem alma. Quando disse que eles morriam, me refiri ao encerramento definitivo de novas publicações. Então, só resta aos leitores empedernidos buscarem auxílio nos sebos, considerados o cemitério dessas obras. Fico pensando o que seria dos devoradores de livros se não fossem os “santos” sebos. Eles são indispensáveis, tanto que dediquei um post só para eles (confira aqui).
Hoje, gostaria de homenagear esses livros que o tempo esqueceu, mas que no passado foram devorados por várias gerações. O que me consola é que muitos leitores contemporâneos, alguns bem jovens – na casa dos seus 14 o 15 anos – ainda sentem prazer na leitura dessas verdadeiras obras de arte.
Vamos a elas:
01 – A Águia Pousou (Jack Higgins)
O livro escrito pelo inglês Jack Higgins foi campeão de vendagens em 1975. O tema abordado pelo autor que misturou ficção com realidade se transformou no principal assunto em várias ‘rodas sociais’ da década de 70. Todo mundo discutia qual teria sido a reação da Inglaterra se, por acaso, o seu primeiro ministro, Wiston Churchill se tornasse vítima de sequestro pelos alemães nazistas na década de 40.
Apesar do livro ter sido escrito há mais de três e meia após a 2ª Guerra Mundial, o tema abordado por Higgins continuou gerando muita polêmica devido a participação decisiva de Churchill na vitória dos aliados contra as tropas comandadas por Adolf Hitler. Ele realizou inúmeras viagens, costurou alianças e traçou estratégias militares fundamentais para a vitória aliada. Agora, imagine se esse famoso estadista do Reino Unido fosse seqüestrado pelas tropas nazistas? Qual seria o rumo da 2ª Guerra Mundial? Pois é, Higgins pensou nessa possibilidade e escreveu um verdadeiro ‘arrassa-quarteirão’ naquele ano.
O autor garante que cerca de cinqüenta por cento dos fatos narrados em sua obra são historicamente documentados.  Ele explica a complexa operação planejada pelo alto comando do Exército Nazista Alemão para seqüestrar o Primeiro-Ministro inglês que se preparava para passar um final de semana tranqüilo em Norfolk, interior da Inglaterra. A ação se passa em 1943. Sob o comando de Hitler; Heinrich Himmler e os coronéis Max Radl, Kurt Steiner e Liam Devlin levam suas tropas de pára-quedas a uma pequena cidade próxima de Norfolk, disfarçados de soldados poloneses. O plano era perfeito. Ele só não era capaz de prever uma paixão no meio da operação.
“A Aguia Pousou” teve ainda mais duas edições em 1984 e 1986, depois... nada mais. Em 1991, Higgins escreveu “A Aguia Voou”, uma continuação da história que não repetiu o sucesso da original.
02 – Pássaros Feridos (Collen McCullough)
Era o ano de 1985 e o SBT – canal de Silvio Santos que estava em funcionamento há apenas quatro anos – colocava no ar o primeiro capítulo da minissérie “Pássaros Feridos” com Richard Chamberlain, na época um galã que arrancava longos suspiros da galera feminina. A polêmica história de um padre que é apaixonado por uma moça que conhece desde criança conseguiu uma verdadeira façanha naquele ano: vencer a toda poderosa Rede Globo de Televisão.
Silvio Santos que não era bobo (e continua não sendo) atrasava a exibição da minissérie – cujo horário normal era as 21H30min – para não bater de frente com a novela Roque Santeiro da concorrente platinada. Resultado: Quando ia ao ar, “Passaros Feridos” engolia TV Pirata, Tela Quente, Magnum, enfim qualquer programa que fosse exibido naquele horário. A surra era humilhante.
Esta minissérie exibida originalmente pela rede norte-americana ABC – antes de ter os seus direitos adquiridos pelo SBT – foi baseada no romance de Collen McCullough escrito em 1977. À exemplo da minissérie, o livro foi um estrondoso sucesso e vendeu 30 milhões de exemplares, sendo traduzido para vários idiomas. A edição mais recente do romance de McCullough foi lançado em 2012 pela editora Bertrand, mas a sua venda estava cotada em euros.
“Passaros Feridos” narra A história do padre Ralph de Bricassart, que passa a vida no dilema de seguir na vida religiosa ou abandoná-la e viver plenamente seu amor por Maggie, que conhece desde criança, quando ela foi morar numa fazenda na Austrália de propriedade de sua tia Mary Carson, apaixonada por Ralph. Maggie, depois de crescida, acaba se casando com Luke O'Neill, enquanto Ralph segue em sua escalada rumo ao papado.Os dois vivem infelizes.
Loucamente desejado há quase 40 anos, hoje essa jóia rara da literatura caiu no esquecimento de muitos leitores viciados nas chamadas obras teens.
03 – O Enxame (Arthur Herzog)
O livro de 1976, lançado pela Artenova é fantástico e volta e meia o releio ou então dou uma folheada em algumas partes. Herzog usou um método inovador na época, deixando de lado introdução, prólogo, prefácio e outros inícios convencionais de obras, para estampar na história, logo de cara, notícias de ataques de abelhas africanas em várias partes do mundo.
As duas páginas, antes do 1º capítulo, contem textos jornalísticos sobre os estragos provocados pelas abelhas, além de relatos que indicam o surgimento de uma nova espécie mortífera do animal.
Confesso que foi um golpe de mestre de Arthur Herzog, pois logo no prólogo, ele já consegue fisgar a atenção do leitor, apresentando escancaradamente o vilão: as temíveis abelhas africanas.
As abelhas de “O Enxame” são completamente do mal: traiçoeiras, nervosas, descontroladas, ferroando homens e animais, mesmo sem serem molestadas, pelo simples prazer de matar (ver mais na resenha do livro). 
O livro teve uma única edição no Brasil, a de 1976 publicada pela Artenova com a clássica capa de um enxame atacando uma metrópole, causando o maior alvoroço.
“O Enxame” agradou tanto a crítica literária quanto os leitores da década de 70, mas atualmente, é um ilustre desconhecido.
04 – Os Invasores de Corpos (Jack Finney)
Viciante! É dessa forma que classifico “Invasores de Corpos”. Jack Finney misturou terror e ficção científica com maestria. O livro respira tensão, medo e suspense, sem apelar para descrições sangrentas.
Enquanto os escritores convencionais ‘daqueles tempos’ – o livro foi lançado originalmente em 1954 -  ainda pegavam carona na idéia de H.G. Wells e o seu fantástico “Guerra dos Mundos”, elaborando histórias de invasões alienígenas com naves espaciais pilotadas por seres hediondos de outros planetas; Finney deu chute nisso tudo e rodou a baiana. Ele substituiu as naves espaciais e os viajantes interplanetários por  vegetais alienígenas que viajam pelo espaço durante milhares de anos em busca de um planeta onde pudessem se reproduzir, substituindo seres vivos. E então, as ‘vagens-aliens’ encontram a  Terra. Os organismos originais padecem, enquanto, de dentro de vagens gigantes, irrompem clones desprovidos de emoção. Cara!! Finney foi muito astuto. Imagine como uma idéia dessa natureza foi recebida naquela época. Devido ao seu tom revolucionário, “Invasores de Corpos” foi um verdadeiro blockbuster literário nos anos 50. No Brasil, a obra só teria a sua primeira edição em 1978 pela editora Record. Em 1984, a Abril Cultura relançaria a história. Os leitores ainda seriam brindados com mais duas edições três anos depois (1987): uma de bolso e outra normal pela Nova Cultural. Depois disso ‘Zéfini’, nenhuma outra editora dos tempos modernos decidiu republicar a revolucionária história de ficção científica de Finney.
05 – Memórias de um Cabo de Vassoura (Orígenes Lessa)
Orígenes Lessa surpreendeu os leitores brasileiros em 1969 ao lançar “Memórias de Um Cabo de Vassoura”. No livro, um cabo de vassoura com um afiado senso crítico conta a sua trajetória desde a transformação de árvore em madeira, até sua decepcionante incursão no mundo dos homens e seu destino de utensílio de limpeza.
Na realidade, o cabo de vassoura representa a classe social mais sofrida dos anos 60; ou será que você pensa que a coisa ‘tá braba’ somente no Brasil de agora? O livro de Lessa apresenta questões relacionadas a desigualdade social, por isso acabou se transformando numa espécie de porta-voz da geração mais sofrida daquela época.
Hoje, pouco se ouve falar sobre esse livro. Que pena.
06 – O Dia do Chacal (Frederick Forsyth)
Frederick Forsyth criou dois personagens muito carismáticos. O Chacal, apesar de ser considerado vilão, tem o poder de seduzir o leitor. Ele é tão inteligente e detalhista que em certos momentos da trama, sem perceber, você se vê torcendo por ele. Então, entra em cena Label, tão inteligente e detalhista quanto o Chacal, e lá vai você trocar de lado em sua torcida. Este vai e vem na ‘preferência popular’ – bandido-mocinho, mocinho-bandido –  para descobrir quem leva a melhor no final é constante. O carisma de Chacal e Label são fod...   
O “Dia do Chacal”  é baseado em um fato real: a tentativa de assassinar o presidente francês Charles de Gaulle, que aconteceu em 1963, por obra de Jean Batistien-Thiry. O carro onde estava De Gaulle chegou a ser metralhado. Thiry era um funcionário público francês insatisfeito em perder seu cargo na Argélia  em virtude da independência do país  promovida por De Gaulle.
Forsyth ‘agarrou’ esse fato para compor a sua trama, com algumas modificações, é obvio. A principal delas foi trocar um funcionário publico insatisfeito por um mercenário misterioso contratado com a missão de eliminar o presidente francês.
O livro de Forsyth foi publicado no Brasil em 1971 e devido a ótima receptividade ganhou mais 12 edições nos últimos 13 anos, a última delas em 2010 pela Bestbolso. Depois a euforia acabou e nos últimos seis anos nenhuma editora manifestou interesse em colocar, novamente, a obra no mercado.
07 – A Cabana do Pai Tomás (Harriet Bucher Stowe)
O livro de Harriet Bucher Stowe recebeu inúmeras adaptações para a TV e o cinema em vários países, inclusive no Brasil. A Rede Globo exibiu uma novela sobre o livro no período de 7 de julho de 1969 a 28 de fevereiro de 1970. O Pai Tomás foi vivido pelo ator Sérgio Cardoso que viria a morrer em 1972, aos 47 anos, vítima de um ataque cardíaco.
"A Cabana do Pai Tomás" é uma história de fé, coragem, determinação, perseverança e luta. Stowe passa ao leitor um sentimento de revolta e indignação ao apresentar detalhadamente o comércio "legal" de seres humanos e a forma bruta e selvagem com que os senhores tratavam os negros a fim de obterem mais lucros em suas propriedades.
Esta obra literária contribui intensamente para a abolição da escravatura. Basta observar que, dois anos depois de seu lançamento, surgiu o Partido Republicano, que abraçou a causa abolicionista. A autora chegou até mesmo merecer do presidente norte-americano, Abraham Lincoln, esta consideração: Foi a senhora que, com seu livro, causou essa grande guerra (a guerra entre os estados).
Uma pena ver um livro tão importante como “A Cabana do Pai Tomás”sem nenhuma edição recente.  A última foi lançada há 12 anos pela editora Madras.
08 – Presa (Michael Crichton)
Com certeza, “Presa” é o livro mais injustiçado de Michael Crichton. Enquanto a crítica especializada e milhares de leitores endeusam “O Parque dos Dinossauros”, “Mundo Perdido” e “O Enigma de Andrômeda”; “Presa” caiu no esquecimento.
Quando o livro foi lançado em 2003, aconteceu algo estranho, bem sui generis no meio literário. Vou tentar explicar. Todos que leram a obra de Crichton acharam-na magnífica. A crítica amou, mas em menos de quatro ou seis meses ninguém mais ouvia falar da obra! Falha de estratégia de marketing? De fato, não sei o que ocorreu. O que posso dizer é que o livro foi esquecido e acabou não vendendo o que merecia. Para que vocês entendam melhor, bastar dizer que o post que escrevi sobre o livro (ver aqui) em 2011 é o que tem menos acessos em todo blog, apenas: 66. Isto mesmo. Simplórios 66 acessos!
Aqueles que ainda não leram “Presa” estão perdendo uma das melhores leituras de toda a sua vida.
Crichton explora num ritmo frenético (tipo monta-russa) o polêmico tema nanotecnologia. Na história, um grupo de cientistas que realizam experiências com nanopartículas num laboratório isolado no meio do deserto de Nevada acabam cometendo um erro e uma nuvem dessas nanopartículas escapam. Em pouco tempo, elas vão se tornando inteligentes, auto-sustentáveis e auto-reprodutivas transformando os seres humanos em suas presas, em seu alimento.
“Presa” foi publicado uma única vez pela Rocco, em 2003. Depois disso, anything.
09 - Os Eleitos (Tom Wolfe)
“Os Eleitos” reproduz a história de pilotos de provas que se transformaram nos astronautas do primeiro projeto espacial americano. Tom Wolfe usa uma linguagem de fácil assimilação fazendo com que até mesmo os leitores que não estejam familiarizados com a história da corrida espacial americana compreendam perfeitamente o texto.
O filme baseado em “Os Eleitos” fez muito sucesso na época, 1983. A produção cinematográfica  tornou-se um clássico. Levado às telas em 1983, sob a direção de Philip Kaufman, com um elenco com nomes como Sam Sheppard, Ed Harris, Barbara Hershey, Dennis Quaid e Scott Glenn recebeu oito indicações ao Oscar (entre elas a de Melhor Filme), levou as estatuetas de Melhor Trilha Sonora, Melhor Som, Melhores Efeitos Sonoros e Melhor Montagem.
O livro de Tom Wolf só foi lançado no Brasil pela editora Rocco em 1988, cinco anos depois do filme e  vendeu o suficiente para ser reeditado por mais duas vezes, sendo a terceira edição datada de 1992.  Parou por aí.
10 – A Metade Negra (Stephen King)
Cara, livraço! “A Metade Negra” estourou em vendagens na data de seu lançamento por aqui: 1991. Na época, a editora Francisco Alves detinha os direitos de publicação das histórias de Stephen King no Brasil. Acredito que aquele foi um dos melhores períodos para os fãs de King, pois ele escreveu verdadeiras jóias lapidadas. Anotem aí: “Os Estranhos”, “Trocas Macabras”, “Os Livros de Bachman” e outros. “A Metade Negra”, é claro, faz parte dessa leva.
Que eu me lembre, parece que o livro só teve uma edição, a de 1991. Depois nadica de nada. Fico P. da vida quando vejo o mercado literário entupido de relançamentos de King ainda atuais. Caraca, a obra foi lançada em 2015 e mal chegou 2016, já temos reedições?! E quanto aqueles livros fenomenais – como “A Metade Negra” - que só tiveram uma oportunidade na vida e depois sumiram?

É decepcionante!

5 comentários:

  1. Mais um excelente post, Jam!
    Li apenas três obras dessas que você citou (O Enxame, Os Invasores de Corpos e A Metade Negra).
    É uma pena, realmente, que obras incríveis algumas vezes acabam caindo no esquecimento com o tempo, enquanto outras, panfletárias e sem conteúdo, ficam estampando listas de mais-vendidos.

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    1. Obrigado Tex. :)
      Fico muito triste quando obras bem superficiais acabam ganhando um destaque exagerado no meio literário, enquanto jóias raras caem no esquecimento. Como vc bem disse, várias dessas obras contemporâneas podem ser consideradas panfletárias.
      Ah! Tex, considere-se uma pessoa de muita sorte, pois vc foi um dos poucos que conseguiu ter na mãos "A Metade Negra" de Stephen King. Se tiver esse livro, guarde num cofre e jamais empreste (rsss)
      Grde abraço e volte sempre.

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  2. Bom post. Sugeriria também "os deuses vencidos " de Irwin Shaw - excelente romance da 2.a guerra

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  3. Desculpe o título acima - usei este email e o google selecionou esse título "blog de m...." foi uma brincadeira de muito tempo atrás. Sério gostei do post e o livro que falei "os deuses vencidos" vale a pena. PS não consigo trocar o título - criei este título de blog há uns meses atrás e quando seleciono "conta do google" sai esta maravilha .Desculpe de novo

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    1. Rsssssss. Sem problemas. Boa sugestão a sua; li "Os Deuses Vencidos" há algum tempo e gostei muito.

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