segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Sob a Redoma



Eu sempre cuidei das capas dos meus livros. Sei que há muitos leitores que se preocupam apenas com o conteúdo da obra e após terminarem a sua leitura, simplesmente a colocam em algum armário, baú ou então abandonam em algum lugar. Esses leitores não dão a mínima importância para o layout daquele conjunto de páginas protegido por uma capa e sobrecapa que passa horas, dias ou semanas em suas mãos e por isso mesmo, acabam lendo em qualquer lugar: na cozinha, enquanto cozinham; no restaurante, enquanto comem ou no banheiro, enquanto... já sabem, né (rs). Por culpa desses hábitos, a capa de seus livros são um verdadeiro desastre. Contém de tudo, desde gordura, riscos, rasuras e o escambau à quatro.
Cara! Podem me chamar de zeloso, prestimoso, caprichoso ou qualquer outro “ ‘oso’, que aliás eu odeio, mas uma coisa não posso negar: tenho um xodó incrível com as capas dos meus livros. Todos os dias, lá estou eu com um espanador nas mãos tirando o pó das ditas cujas, encapando ou restaurando as mais velhinhas, oriundas dos sebos, e por aí vai. Posso dizer que todas as capas das minhas obras literárias estão em dia com a conservação, excetuando uma: “Sob a Redoma”.
O livro está implodido. Capa amassada; rasurada; estropiada e lombada toda torta, igual a um carro desalinhado. Só pra lembrar que recebi o livro novinho em folha do pessoal da Suma de Letras. Encapadinho, sem nenhuma falha, enfim, zero bala. O livro ficou nesse estado porque a história escrita por Stephen King me obrigou – pela primeira vez – a quebrar um ‘caminhão’ de regras literárias particulares. Coisas do tipo: jamais fazer marcações à lápis na página de um romance; jamais ler enquanto estiver se alimentando, nem que seja um simples lanche (a tal da capa pode sujar); jamais ler no banheiro (com certeza irei chegar atrasado no serviço, sem contar que é uma P... falta de higiene) e etc  e mais etc.
“Sob a Redoma” tem uma história tão viciante e frenética que me obrigou fazer coisas que jamais tinha feito, como por exemplo: chegar atrasado no serviço por estar tão compenetrado na história. E... adivinha onde estava nesse momento? No banheiro!!
Podem acreditar, o novo e tão esperado livro de King tem esse poder. Aliás, o próprio autor quis que o ritmo da história fosse assim e como não bastasse, ele também foi obrigado, pela sua agente e revisora Nan Graham, a ficar com o pé ‘atolado’ no acelerador. O próprio King ressaltou isso no final do romance em ‘Nota do Autor’ quando diz: “Tentei escrever um livro que mantivesse o pedal no fundo o tempo todo. Nan entendeu isso e, sempre que eu aliviava, ela punha o pé em cima do meu e berrava: Mais depressa, Steve! Mais depressa!”. O resultado da vontade do autor com a pressão de sua agente só poderia resultar num enredo semelhante a uma montanha russa, o que ‘venhamos e convenhamos’ foge um pouco dos padrões de King que segue uma linha mais desacelerada, típica do gênero terror psicológico do qual é o mestre supremo.
O próprio The New York Times, cujos críticos literários não perdoam nem mesmo os grandes autores, acabou se rendendo a montanha russa de emoções que é “Sob a Redoma”. ‘Apurado e vigoroso desde o início. (...) Difícil de deixar de lado’. Essa foi a avaliação do respeitado jornal americano.
Um dos detalhes que me surpreendeu no livro, além do ritmo acelerado, foi a infinidade de personagens. Se não contei errado, “Sob a Redoma” tem em média 64 personagens, incluindo os cães. Cara! Escrever um livro com 15 ou 20 personagens já é complicado e quase sempre, grande parte deles acaba ficando em segundo plano; agora, escrever um romance com mais de seis dezenas de personagens e ainda ‘por cima’ conseguir fazer com que quase todos sejam protagonistas é praticamente impossível, certo? Não; errado. King conseguiu dar aos mais de 60 personagens de “Sob a Redoma” o status de protagonistas. Todos eles tem a sua importância na história. Desde o veterano de guerra Dale Barbara ao odioso vilão Big Jim, passando pelos cães Horace e Audrey, pelos quais me apaixonei. Como queria ter cães como aqueles.
“Sob a Redoma” conta a história de uma pequena cidade de aproximadamente dois mil habitantes que se vê envolta por um misterioso campo de força, os moradores percebem que terão, então, de lutar por sua sobrevivência. Pessoas morrem e são separadas de sua família com a repentina aparição da redoma. As conseqüências ficam ainda mais graves quando são expostas as conseqüências ecológicas da barreira e as maquinações de Big Jim, um político dissimulado que usa a redoma como um meio de dominar a cidade. Enquanto isso, o veterano de guerra Dale Barbara é reincorporado ao Exército e promovido a condição de coronel e juntamente com um pequeno grupo de destemidos moradores de Chester’s Mills tentam colocar um fim ao reinado de terror instalado por Big Jim que passa a se auto-declarar o chefe supremo da pequena cidade. Em meio a crise, o governo dos Estados Unidos, juntamente com Dale Barbara e seus amigos tentam descobrir a origem da redoma e destruí-la.
Como já disse no post anterior, Big Jim pode ser considerado um dos maiores e mais cruéis vilões da literatura. Muitas vezes me vi socando o ar por causa desse crápula. Aliás, acredito que o Sr. Jim Rennie ou simplesmente Big Jim é um dos principais responsáveis por essa montanha russa de emoções. Ele é capaz de destruir uma pessoa através de palavras ou então com as próprias mãos, que por sinal, são enormes. O que esperar de um sujeito capaz de quebrar o pescoço de uma senhora de terceira idade e ir embora assobiando, considerando-se um cara justo perante os olhos de Deus. Quer mais? OK. Que tal moer os dedos de um pobre infeliz pisoteando em suas mãos com os seus mais de 100 quilos? E mais, entrando em êxtase de prazer enquanto o moribundo uiva de dor! Ah! Tem outra atitude “filantrópica” de Big Jim: sufocar a própria mulher com um travesseiro até a morte. Mêo, acho melhor parar por aqui. E olha que o filho de Big Jim não fica atrás. Junior Rennie mata uma pessoa como se estivesse tirando a vida de um inseto. Quanto aos seus capangas, são ainda piores. É este grupo de pessoas que passa a mandar em Chester’s Mills tão logo surge a redoma isolando a pequena cidade do resto do mundo.
Um dia desses aconteceu um fato curioso envolvendo um colega e que à primeira vista achei engraçado, mas depois que mergulhei de cabeça no enredo de “Sob a Redoma”, entendi perfeitamente a atitude do Marquinhos, o tal amigo. Ele estava tão nervoso com o comportamento de Big Jim, mas tão nervoso, que a impaciência invadiu todas as veias de seu corpo. Ele acabou fazendo algo inimaginável e inacreditável para um leitor ‘sério e responsável’. Ele leu o final do livro!!! Isto mesmo cara! Ele apelou legal e foi em busca das últimas páginas do livro. Depois ele me disse: “Não dava pra agüentar as maldades daquele sujeito e quis logo saber se ele se dava mal no fim!
Pois é, ao ler o livro entendi perfeitamente a atitude do Marquinhos e olha que eu não lhe tiro a razão. O vilão de King é a própria essência do mal. Um ser bestial, mas ao mesmo tempo esperto e inteligente. O cara respira maldade. E aqui vai um spoiler. Ele se dá mal, sim! Perto do final do romance, ele recebe o ‘pagamento’ merecido pelas suas maldades. Mas apesar do seu castigo ter sido bem severo; os seus atos foram tão cruéis e bestiais que o leitor acaba desejando que ele tivesse uma morte bem mais agonizante.
Quanto a redoma vou evitar ficar escrevendo além da conta para não disparar mais um spoiler, o que seria um crime. Afinal de contas, ela é o enigma principal do livro. Quem teria criado esse poderoso campo de força isolando a cidade e os seus dois mil moradores do resto do mundo? Uma experiência alienígena? Um experimento do próprio governo americano? Ou será que a redoma teria sido criada por um dos moradores de Chester’s Mills? Essa dúvida é esclarecida bem antes do final do livro. Um pouco ‘pra lá’ do meio do calhamaço de quase 1.000 páginas, o autor já deixa uma pista no ar que faz o leitor chegar a uma conclusão óbvia.
Um dos pontos altos do livro é uma tragédia de proporções titânicas que ocorre em Chester’s Mills e que definirá o destino de muitos personagens importantes.
E quer saber de uma coisa?? Vou é parar por aqui, antes que a empolgação me faça revelar um festival de spoilers o que não seria nada legal. Finalizo dizendo escrevendo que “Sob a Redoma” superou todas as minhas expectativas e também as de Steven Spielberg que após ler o romance de King decidiu comprar os seus direitos para adaptação a uma série de televisão.
Preciso dizer algo mais?
Somente, boa leitura!

17 comentários:

  1. Parabéns pelo blog! Gostei e já estou seguindo. Também sou muito fã do Stephen King. Me identifiquei muito com este post, afinal, estou levando o "Sob a Redoma" pra cima e pra baixo. A capa do meu também não está das melhores, rsrsr... Só não consegui ler por completo alguns dos seus artigos do livro porque senti cheiro de Spoiler no ar e parei de ler imediatamente. Mas curti demais os assuntos abordados no blog.

    Sou um autor iniciante e publiquei o livro "O Sobrado da Rua Velha". Se quiser conhecer mais alguns detalhes da minha obra, acesse o site: http://osobradodaruavelha.blogspot.com.br/

    Evidentemente não chega nem perto do Stephen King, embora ele me inspire.

    Abraços,

    Jeremias Soares

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    1. Jeremias, acessei o seu blog, onde vc faz a divulgação do livro "O Sobrado da Rua Velha". Achei o enredo bem interessante. Tenho o maior respeito por escritores iniciantes que metem a cara, enfrentando um rol de barreiras para publicar as suas obras... e sem apoio de grdes editoras. E com vc não é diferente; te respeito muito pela sua coragem e capacidade.
      Qto a "Sob Redoma", acredito que muitas capas espalhadas por esse 'mundão afora' estão em precárias condições (rss).

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  2. OK. Me convenceu. Sob a redoma é meu próximo da lista.

    Abraço.
    gatosmucky.blogspot.com

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    1. Augusto tenho certeza de que irá gostar... Pelo que já te conheço - grande fã de S.K - o enredo irá de 'agarrar' com unhas e dentes. Aplicará bem bem os seus R$ 60,00, em média.
      Abcs!

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  3. Olá, seria possivel que você disponibilizasse o livro Sob a Redoma para Dowmload em formato pdf, doc ou txt?

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    1. Henrique, só faço postagens de comentários de obras.
      Abcs!

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  4. Estou nessas exato momento na página 777 e adivinha, meu livro também está horrível por esse mesmo motivo. Ainda eu vou sob a redoma está comigo.

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    1. E pode ir se preparando porque Spielberg já comprou os direitos de exibição do romance de Stephen King. Brevemente (espero) teremos uma série de TV.
      Abcs!!

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  5. O meu livro não teve tempo de estragar, li ele todo em um fim de semana. =D

    É simplesmente impossível parar. Quando cansei e resolvi dar uma pausa, faltando umas 200 páginas, não foi preciso nem 20 minutos pra descobrir que não havia mais nada que eu queria fazer que não fosse terminar o livro. E se eu não tivesse literalmente dormido em cima dele, não teria parado por nada. =D

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    1. Manoel, fantastic!
      Vc não cometeu nenhum exagero literário (rss). Devorar um livro de quase mil páginas em único final de semana é absolutamente normal qdo um dos autores, em questão, é Stephen King. Um adjetivo para "Sob a Redoma"? V-i-c-i-a-n-t-e!
      Abcs!

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    2. Pois é, não creio que tenha ofendido os deuses da literatura com minha pequena ganância.

      Até porque, não bastasse o efeito viciante dessa obra, adquiri no mesmo dia uma pequena coleção de livros medianos, obras de autores praticamente desconhecidos, incluindo mas não se limitando a: Drácula de Bram Stoker, A Tumba e Outras Histórias de Lovecraft, O Médico e o Monstro de Stevenson e Frankenstein de Mary Shelley.

      Isso também me ajudou a pisar fundo na leitura.

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    3. Fugindo um pouco do assunto do post só tenho a dizer que vc adquiriu um punhado de livros desconhecidos, cuja leitura será uma verdadeira incógnita. Afinal de contas quem conhece Stoker, Lovecraft ou Shelley? Autenticos desconhecidos. (rsss). Agora falando sério, Li "Drácula" e "A Tumba" e posso garantir que são ótimos. Drácula de Stoker é arrepiante. O capítulo em que três vampiras surgem durante a noite e tentam invadir um círculo sagrado criado pelo professor Van Helsing é de tirar o sono do mais corajoso dos leitores. Qto a Tumba, os contos "Entre As Paredes de Eryx" e "Aprisionados pelo Faraó" são 'calafriantes'... Veja aqui: http://livroseopiniao.blogspot.com.br/search?q=a+tumba

      http://livroseopiniao.blogspot.com.br/search?q=xixi

      http://livroseopiniao.blogspot.com.br/search?q=Dr%C3%A1cula

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    4. heheh... Pois é, eu me peguei surpreso por ainda não ter lido Drácula, O Médico e o Monstro e Frankenstein.

      Desde que me considero gente, ler tem sido o meu hobby (vício?) preferido e achei difícil acreditar que ainda não tinha colocado as mãos neles, alguns dos maiores clássicos da literatura arrepiante!

      Já com Lovecraft eu tenho uma relação mais antiga. O primeiro conto que li de Stephen King foi sobre uma máquina de passar roupa possuída por um demônio. É até difícil acreditar que eu consegui me apavorar tanto com uma máquina de passar roupa! Pesquisando sobre o autor, acabei indo parar em Lovecrat (e se um autor conseguiu inspirar alguém a fazer uma máquina de passar roupa ser apavorante, então ele deve ser bom), e a primeira obra dele que caiu em minhas mãos foi "A Cor que Veio do Espaço", que até hoje é minha obra favorita. A partir daí, pra sair devorando tudo dele que encontrei, foi um pulo.

      Também que já comecei a ler a Tumba (estou justamente no conto "Aprisionado com os faraós"), mas Lovecraft é um carinha difícil de ler muito de uma vez. Você corre sérios riscos de ter o cérebro implodido, ficar maluco e se arrastando por aí como umas das repugnantes e grotescas criaturas que ele tanto gosta de usar para nos apavorar.

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  6. Bom dia!
    Amo ler, leio praticamente tudo q me cai nas mãos e Sob a Redoma é fantástico, eu quase fiz como o seu amigo e fui ler o final, mas parei, respirei e continuei a ler, não cheguei na pg 400 ainda e o livro está com a capa um pouco ruim tb, e pior q o livro é emprestado da Biblioteca, capaz de eu ter de comprar um novo e entregar no lugar do q emprestei, veremos...

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    1. Boa leitura Dilma!
      Você ainda terá inúmeras surpresas nas próximas páginas... supresas apoteóticas, podes crêr. E deixe para ler o final no "final" (rss.

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  7. Sobre "uma morte bem mais agonizante" para Big Jim foi minha grande decepção do livro não via a hora de ver ele se ferrar, muito simples Carter que era esperto como não imaginaria... mandaria um foda-se e termina o serviço ele sim merecia o que aconteceu a Rennie... mas :/
    O livro é excelente gostei de ler ele, gostaria de saber qual outro livro voce me recomendaria?

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  8. Oi adorei.. muito obrigado, amei a maneira que vc usou para descrever essa resenha...me fez se interessar pelo livro....mas vc já leu o livro reverso... se trata de
    um livro arrebatador...ele coloca em cheque os maiores dogmas religiosos de
    todos os tempos.....e ainda inverte de forma brutal as teorias cientificas
    usando dilemas fantásticos; Além de revelar verdades sobre Jesus jamais
    mencionados na história.....acesse o link da livraria cultura e digite
    reverso...a capa do livro é linda, ela traz o universo de fundo.

    www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?

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