quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

A Marca do Zorro

Há histórias simples que apesar de toda a sua falta de sofisticação e profundidade tem o dom de prender os leitores da primeira a última página. Uma dessas obras chama-se “A Marca do Zorro”, de Johnston McCulley, lançada em 1924. O livro é desprovido de todo aquele glamour existente em “Zorro: Começa a Lenda”, da escritora chilena Isabel Allende, mas tem algo muito importante que o transforma numa obra “deliciosamente deliciosa”. Este algo mais se chama: “Magia”; a essência que falta em muitos livros deixando-os, assim, com um enredo insosso e sem nenhum atrativo.  Não estou querendo dizer que a história de Don Diego e seu alter ego Zorro que foi inteiramente recriada por Allende careça desse algo mais. Longe disso; o que estou tentando explicar é que se trata de duas obras excelentes, mas com muitas diferenças entre si, como a água e o vinho, ou melhor, a água e o óleo que não se misturam.
Em “Zorro: Começa a Lenda”, Allende vai fundo nas origens do personagem. Ela faz uma opção perigosa, mas o resultado final da obra prova que ela acaba acertando em sua escolha. Allende pretere as cenas de luta, duelos de esgrima e disputas amorosas pela descoberta da identidade de Don Diego. Para a autora, muito mais importante do que a aventura é reconstruir a infância e a adolescência do fidalgo espanhol. Dessa forma, o leitor tem a oportunidade de saber quais foram os motivos que levaram Don Diego a se esconder atrás de uma máscara e de uma roupa negra para se transformar no famoso justiceiro. Mais do que isso: o leitor tem contato com a infância do pequeno “Dieguito”, como ele nasceu, quem era a sua mãe, suas peraltices de criança; e mais para frente, detalhes sobre o seu treinamento que o transformou num esgrimista beirando a perfeição. Mas para fazer essa viagem em busca da identidade do Zorro, Allende foi obrigada a deixar de lado a aventura. Acredito que esse projeto deu certo porque desde a criação do personagem há mais de 90 anos, ninguém havia se interessado em saber como eram a infância e os períodos pré e pós puberdade do Zorro. Isto é... até surgir Allende. Eu mesmo, quando optei pela leitura do livro, estava curiosíssimo em captar esses elementos. Por isso, talvez, tenha me esquecido da aventura.
Agora, com relação a obra de McCulley, o que vale, de fato, é a “AVENTURA” e com todas as letras maiúsculas. O enredo é uma verdadeira montanha russa permeado de duelos de espada, traições, paixões desenfreadas, vinganças e personagens caricatos, mas que convencem.
No livro de McCulley, o jovem fidalgo Don Diego Vega assume a identidade secreta de “El Zorro” (“a raposa”) para defender o povo explorado pelos soldados espanhóis que dominam a região de San Juan Capistrano, no México. O cavaleiro mascarado enfrenta os homens do Sargento Gonzales e cruza sua espada com o capitão Ramón na disputa pelo coração da bela Lolita Pulido.
Cartaz promocional do filme de Douglas
Fairbanks lançado em 1920
Quem lê esse enredo mais do que simples pensa, a primeira vista, que se trata de uma história infantil e sem atrativos. Mero engano. Para começar nunca vi descrição de duelos de esgrima tão bem narrados quanto os do livro de McCulley. O autor provou que é expert no assunto. Confira esses trechos e veja se não estou com a razão: “Zorro notou que seu adversário estava lutando muito melhor do que da outra vez na fazenda, na casa de Don Carlos Pulido. Viu-se forçado a lutar de um canto perigoso, e a pistola que segurava em sua mão esquerda para intimidar o governador e seu anfitrião o incomodava...” . “A espada de Zorro parecia valer por vinte. Investia de um lado para o outro, tentando encontrar uma brecha no corpo do capitão, pois estava ansioso para acabar com aquilo e ir embora...” “O ruído das espadas se chocando, da dança dos pés no chão, da respiração pesada dos combatentes naquele esforço de vida ou morte eram os únicos sons que se ouviam na sala...” Para que você tenha uma idéia do ritmo do livro, basta dizer que sobram cenas desse tipo em “A Marca do Zorro”.
Mas nem só de duelos vive o romance de McCulley. O triangulo amoroso formado por Don Diego, Lolita e o Capitão Ramón também é outro trunfo para prender a atenção do leitor. Don Diego pede a mão da moça ao seu pai, Don Carlos, mas o capitão Ramón também tem a mesma intenção e então, tem início a disputa dos dois pretendentes. Pobre Lolita que despreza e detesta a ambos: um eles é covarde e tem jeito de efeminado (Don Diego), enquanto o outro é um brucutu metido à machão. Na realidade, a moça só tem olhos para “El Zorro”, o justiceiro galanteador e mascarado que povoa os seus sonhos mais secretos, sem saber que o seu herói é na realidade o seu pretendente covarde.
Guy Williams, considerado o melhor Zorro
de todos os tempos (do seriado de TV) ao
lado de Johnston McCulley, criador
do personagem
Após a apresentação desse triângulo amoroso, não há como deixar de torcer pela união do casal Diego (Zorro) e Lolita. Quando li o livro, juro que parecia uma criança assistindo uma matinê, não vendo a hora do efeminado Don Diego se revelar de uma vez por todas para a sua Lolita. Ficava imaginando qual seria a reação de Lolita ao descobrir a identidade secreta do jovem fidalgo. Pode acreditar, o romance de McCulley tem esse poder. Cara, é duro você ver o Zorro na pele de Don Diego ser humilhado, espezinhado e ainda por cima ganhar fama de um “efeminado covarde”. E toda essa representação para que os vilões não descubram o seu disfarce. Então, quando ele se transforma no Zorro e faz de gato e sapato aqueles que o humilham enquanto Don Diego, deixando o “Z” cravado na testa ou no peito de seu oponente, Ihauuuu!!! A sala de leitura se transforma numa sala de cinema em dia de matinê. É bom demais. Se isso não for magia, não sei mais o que é. E acredite, a estória de Johnston McCulley tem esse poder.
Só por curiosidade, gostaria de lembrar que o personagem Zorro não nasceu em 1924 com o romance “A Marca do Zorro”. Ele é bem mais velho do que isso.
A Primeira Guerra Mundial deixou muitos estragos gerando uma onda de desânimo na maioria da população mundial. A ordem geral era apagar todos os rastros de destruição e recomeçar a vida. Diversão, diziam, era o que o povo mais precisava naquele momento. Então, os diretores da “Al Story Weekly que já haviam lançado – em papel barato – “As Aventuras de Tarzan”, de Edgard Rice Burrough, trouxe no dia 9 de agosto de 1919, o primeiro capítulo de “A Maldição de Capistrano”. A ação se passa na missão de San Juan Capistrano, onde Don Diego/Zorro lutam para libertar o povo explorado pelos militares espanhóis. Apesar de ser concebida para ser uma obra simples e de consumo rápido no período pós guerra, “A Maldição de Capistrano” tiraria do anonimato o escritor Johnston McCulley.
Capa original de "A Maldição de
Capistrano" lançada em 1919
Um dia, o ator Douglas Fairbanks levou “A Maldição de Capistrano” para ler na viagem de lua de mel de seu segundo casamento. Resultado: se encantou pelo personagem criado por McCulley e resolveu levá-lo para as telas. O filme ganhou o nome de “A Marca do Zorro” e foi lançado nos cinemas em novembro de 1920. Durante a filmagem de uma cena de duelo, Fairbanks teve a idéia que iria se tornar a marca registrada do herói: Zorro (Fairbanks) fez um “Z” no pescoço do capitão Ramón, comandante de uma tropa espanhola. O escritor McCulley gostou da idéia de Douglas Fairbanks e decidiu incorporar a novidade na aventura seguinte de seu personagem.
O filme de Fairbanks baseado em “A Maldição de Capistrano” fez tanto sucesso nos cinemas, que Johnston McCulley resolveu relançar a novela de 1919 – com algumas alterações, incluindo a marca do “Z” – cinco anos depois. Nascia assim o antológico romance: “A Marca do Zorro” que serviria ainda de inspiração para a famosa série de televisão chamada “Zorro”, produzida pelos estúdios da Disney na década de 50 e tendo no papel principal Guy Williams. O ator viria revelar que o livro era tão apaixonante e inspirador que acabou se transformando em seu companheiro inseparável. Nos intervalos das tomadas de gravação, Williams não largava da obra, apreciando sempre a sua leitura, mesmo já o tendo relido inúmeras vezes.
Agora me responda: será que um livro que chegou ao ponto de fazer Douglas Fairbanks financiar um filme e convencer a gigante (na época) United Artist a distribuí-lo em vários países não vale uma leitura?
Até!

Um comentário:

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