sexta-feira, 28 de outubro de 2011

A Tormenta: A história real de uma luta de homens contra o mar

Se você esta louco para  ler “A Tormenta: A história real de uma luta de homens contra o mar” pensando se tratar de um livro que aborde apenas o drama dos tripulantes do barco de pesca Andrea Gail que naufragou na costa da Nova Escócia, após enfrentar uma violenta tempestade com ondas de mais de 30 metros, esqueça. O livro do jornalista Sebastian Junger é muito mais do que isso. A história do naufrágio do Andrea Gail ocupa uma boa parte da obra, mas não toda ela. “A Tormenta”, como o próprio título aponta, é a história de vários homens e mulheres que em outubro de 1991 enfrentaram uma tempestade criada por uma combinação de fatores que os meteorologistas a consideraram a “tempestade perfeita” ou a “tempestade do século”. A tormenta atingiu várias cidades de Massachusetts, mas a pior parte ficou reservada para os pescadores de espadarte do porto de Gloucester, principalmente aqueles que no momento do fenômeno se encontravam com os seus barcos em alto mar. É a história desses heróis e heroínas que Junger oferece – num cardápio de primeira – para os seus leitores. Neste contexto, o drama dos pescadores acaba se fundindo com a história dos paraquedistas de resgate, conhecidos por PRs, que muitas vezes são obrigados a driblar o terror de enfrentar ondas da altura de um edifício de 10 andares para poderem salvar vidas que estão por um fio no mar bravio.
Posso garantir que a partir do momento que você embarca nessa aventura jornalística não há como parar. Nem mesmo algumas explicações técnicas e cansativas sobre como se formam as grandes tempestades conseguem quebrar o ritmo da obra.
Junger inicia “A Tormenta: A história real de uma luta de homens contra o mar” nos apresentando a tripulação do Andrea Gail. Mais do que mostrar algumas características desses pescadores, o autor brinda os seus leitores com a rotina do dia a dia desses homens que entraram para a história de Gloucester. Passamos a conhecer Bobby Shatford, o rebelde com espírito de criança que mesmo tendo um pressentimento “agourento” com relação a viagem em alto mar, resolve encarar o desafio porque precisa do dinheiro para pagar os valores em atraso da pensão que deve para a sua ex-mulher. Só assim, ele poderá recomeçar a sua vida ao lado de Chris Cotton, o verdadeiro amor de sua vida. Um dos momentos mais emocionantes do livro é quando Bobby, antes do embarque no Andrea Gail começa a chorar no ombro de Chris dizendo que está fazendo aquela viagem por eles, mas que tem o pressentimento de que não tornará à vê-la nunca mais.
O gigante Murph, que apesar de suas maneiras rudes, quando vê o filho se transforma na maior das crianças, sendo capaz de atender qualquer pedido do garoto.
O tranqüilo e pragmático capitão do Andrea Gail, Billy Tyne que não acredita nas crendices naturais dos pescadores de Gloucester e trata a pesca profissional sem nenhum resquício de superstição.
À Bobby, Murph e Tyne somam-se os outros tripulantes do barco pesqueiro: Pierre, Moran e Kosco. Todos eles com personalidades distintas, mas com um pensamento em comum: conseguir muito dinheiro com a pesca de espadarte nesses 30 dias em que ficarão em alto mar.
Cena do filme "Mar em Fúria"
Ainda fazendo parte do núcleo da história relacionado ao Andrea Gail ficamos conhecendo o dono do barco, Bob Brown, empresário egoísta que só pensa em ganhar cada vez mais dinheiro à custa dos pescadores, dos quais faz questão de explorar até  a última gota. Brown prefere deixar de implantar melhorias no Andrea Gail, o que deixaria o barco mais seguro e menos propenso a acidentes, para embolsar o dinheiro pensando apenas em engrossar cada vez mais os seus lucros.
As mulheres também aparecem com destaque, como é o caso de Ethel, mãe de Bobby e também considerada a “mãezona” e conselheira de todos os pescadores de Gloucester; e Chris, amante de Bobby Shatford, mulher que não perde as esperanças de reencontrar o seu amado, mesmo após o desaparecimento do barco pesqueiro.
Sebastian Junger reconstitui através de depoimentos de outros pescadores, capitães de barco, familiares das vítimas e  especialistas em navegação marítima, os últimos momentos da tripulação do Andrea Gail quando eles enfrentaram o “olho” da “tempestade perfeita”. A narrativa de Junger é tão espontânea que ele consegue transportar o leitor para o suposto clima enfrentado pelos seis bravos pescadores. É como se estivéssemos no mesmo barco daqueles homens, lutando com ondas do tamanho de edifícios arranha-céus.
O livro apresenta várias hipóteses que podem ter contribuído para o naufrágio do Andréa Gail, desde falta de equipamentos de segurança até a infelicidade do capitão do barco ter apanhado acidentalmente a crista de uma onda gigante e assim, ter ficado sem “chão”, como os marinheiros costumam dizer. Mas nada se iguala a descrição do terror que os seis tripulantes devem ter sentido na eminência do naufrágio. Imagine você num barco pesqueiro, de madrugada, em completa escuridão, enfrentando ondas tão grandes que chegavam a cobrir as estrelas do céu! E mais, sabendo que o naufrágio de sua embarcação seria apenas uma questão de minutos. Pois é, muito provavelmente foi assim que aqueles seis bravos pescadores se sentiram em 27 de outubro de 1991. Junger vai fundo demais, chegando ao ponto de descrever como teria sido a morte por afogamento de Tyne, Shatford, Murph, Moran, Pierre e Kosco. Quando li essa parte de “A Tormenta”, juro que fiquei prá baixo, completamente “down”. Por isso, você que pretende encarar “A Tormenta” prepara-se para esse capítulo, pois vai precisar de muito sangue frio.
Sebastian Junger
Deixando agora de lado o Andrea Gail, vamos nos apegar a um outro núcleo do livro de Junger: os outros barcos que também enfrentaram a “tempestade do século” em alto mar. Junger conta como foi o “trabalho de leão” da tripulação e dos capitães dos barcos Hanna Boden, O Mary T,  Eishin Maru e Satori que lutaram contra a mesma tempestade que levou a pique o Andrea Gail, mas com a sorte de não terem dado de frente com o olho da tormenta. O ponto alto desse capítulo é a curiosa história do barco Satori que tinha apenas três tripulantes: um homem (capitão) e duas mulheres. No momento em que o “calo apertou” e o barco estava próximo de ir à pique quem assumiu o comando foram as mulheres, já que o capitão literalmente travou – física e mentalmente – no momento em que viu ondas com mais de 20 metros. Foi graças a coragem de Sue e Karen Stimson que tanto elas quanto o medroso capitão Leonard conseguiram se salvar do afogamento.
Em “A Tormenta”, Junger descreve ainda com riqueza de detalhes o trabalho de salvamento das tripulações dos barcos atingidos pela “tempestade do século”.  Ao tomar conhecimento que há barcos em alto mar correndo risco de naufragar, a Guarda Aérea Americana envia os seus modernos helicópteros de salvamento com paraquedistas de resgate, além de um jato Falcon. Por sua vez, a Guarda Costeira envia escunas e navios especializados em salvamento em situações críticas.
O livro descreve em profusão de detalhes a ação dos paraquedistas de resgate, homens da força de elite da Guarda Aérea Americana, capazes de pular da crista de uma onda com mais de 30 metros de altura para executar um salvamento em mar revolto. Junger conta como é a seleção e o treinamento desses nadadores de elite, como por exemplo, a obrigação – em determinada etapa do curso – do recruta ser amarrado nas pás de pouso de um helicóptero, com os olhos vendados, enquanto a aeronave amerissa no mar. Aqueles que conseguirem se soltar das cordas que os prendem ao protótipo de um helicóptero, antes de se afogarem, passam para a próxima fase do curso.
Portanto, como vocês puderam perceber,  “A Tormenta: A história real de uma luta de homens contra o mar’ não se resume apenas ao relato do naufrágio do Andrea Gail, mas sim a um contexto muito maior. É um relato de coragem e heroísmo de seres humanos que foram obrigados a vencer os seus mais terríveis medos para sobreviverem à fúria do mar. Culpa da “tempestade do século”.
Ah! Antes que me esqueça; em 2000, a Warner Bros comprou os direitos do livro de Junger para transformá-lo em filme. Nascia assim: “Mar em Fúria”, do diretor alemão Wolfgang Petersen. George Clooney viveu o capitão do Andrea Gail, Billy Tyne; Mark Wahlberg foi o rebelde e ao mesmo tempo sensível, Bobby Shatford e Diane Lane interpretou Chris Cotton. O filme não foi muito bem recebido pela crítica, mas mesmo assim, teve um sucesso razoável nas salas exibidoras. Mas cá entre nós: esqueça o filme; o livro é muito melhor.

Um comentário:

  1. Olá!

    Sou autor de 'O Pomo de Ouro' e gostaria de enviar o e-book dele para tua apreciação e possível inclusão na lista de leitura de teu blog. ;D Agradeço, pois, que informe um e-mail para o qual eu possa enviar o e-book. Por hora, segue o link do blog do livro para si: http://opomodeouro1.blogspot.com/

    Um grande abraço!

    Cordialmente,

    Augusto Branco

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