terça-feira, 19 de julho de 2011

Os contos do livro "O Incrível Homem que Encolheu"

Decepcionante. Esta é a definição certa, com raríssimas exceções, para o conjunto de nove contos escritos por Richard Matheson e que fazem parte do livro “O Incrível Homem que Encolheu”, relançado pela editora Novo Século. Pois é, jamais pensei que um dia fosse escrever algo assim sobre qualquer trabalho de Matheson, um escritor que eu considero tão mestre do terror quanto Stephen King. Mas como sempre tem a primeira vez...
Os contos de “O Incrível Homem que Encolheu” me ensinaram uma lição  por deveras importante: “que jamais devemos criar muitas expectativas sobre determinada obra, mesmo sabendo que o seu autor faz parte do chamado top-line de escritores mundiais”. Escritor é como qualquer outra profissão e por isso, estão sujeitos a – de vez em quando – errar a mão. E foi o que aconteceu com as “mini-histórias” criadas por Matheson e selecionadas pela Novo Século para completar o livro onde a grande vedete é o conto “O Incrível Homem que Encolheu”.
Excetuando “Pesadelo a 20.000 pés”, “O Teste” e “Encurralado”, a obra relançada pela Novo Século só vale, mesmo, pela brilhante história de “O Incrível Homem que Encolheu”. Esta sim, uma verdadeira obra prima.
Pesadelo a 20.000 pés
Cena do remake "Pesadelo a 20.000 pés" que
passou nos cinemas em 1983
Conto que vem logo depois de “O Incrível Homem que Encolheu”. A história segura o ritmo do livro dando a falsa impressão ao leitor que os próximos contos serão fantásticos. Matheson relata o drama de Arthur Jeffrey Wilson que após pegar um avião comercial percebe em pleno vôo, a existência de uma criatura horripilante – parecido com um duende ou um gremlin – na asa do avião tentando sabotar a turbina e assim, provocar a queda da aeronave. Mas toda vez que ele chama a aeromoça para ver o horroroso ser, ele simplesmente desaparece o que a leva a pensar que o Sr. Wilson estaria tendo alucinações. Um dos momentos que certamente irá arrepiar os leitores é quando o pobre homem, após ter fechado a cortina da janela do avião para “abafar” o seu medo, resolve abri-la de repente para verificar se o duende é, de fato, produto de sua imaginação. Então.... Arrrghhh... Arrepio só em lembrar.
Este conto foi adaptado para o seriado clássico “Além da Imaginação”, em 1963, tendo no papel principal o ator William Shatner, em sua fase pré-capitão James T. Kirk. O mesmo episódio ganhou um excelente remake para o cinema que recebeu o nome de “Além da Imaginação: O Filme”, em 1983. Achei a criatura do remake bem mais assustadora do que a da série clássica de TV. Para aqueles que ficaram curiosos não só em ler como também em assistir esse conto aconselho acessar o youtube que traz as duas histórias na íntegra. A primeira dublada e o remake em inglês.
O teste
Juro que ao terminar de ler esse conto fiquei numa angustia terrível. Acredite, “O teste” tem tal poder. Matheson foi muito sensível ao abordar a situação dos idosos num futuro distante e nos alerta para os problemas enfrentados pela terceira idade como a dependência familiar e o pouco caso dos filhos.
Tom Parker tem 80 anos e vive com o filho, a nora e o neto. O velhinho é ignorado por todos, principalmente pela nora que não vê a hora dele ser reprovado no teste. Deixe-me explicar melhor: nesse futuro sombrio, o governo criou um teste exclusivo para as pessoas que se aproximam dos 80 anos. Para efeito de controle populacional, eles são obrigados a passar por uma avaliação física e mental e os reprovados, simplesmente são eliminados. Isso mesmo, eles são mortos com uma injeção letal. Mas antes de serem levados para a câmara da morte, os velhinhos reprovados ainda ganham um “bônus” com 30 dias de vida para desfrutá-los ao lado de seus familiares. Cara! Vai me dizer que isso não é o tipo de leitura angustiante?! Mas o esperto Tom Parker prepara uma surpresa inesquecível para a sua família. Confesso que por pouco não chorei com o final da história.
O homem dos feriados
Após a leitura dos três contos – “O Incrível Homem que Encolheu”, “pesadelo a 20.000 pés” e “O Teste” – já estava chegando a conclusão que havia adquirido um verdadeira obra prima, ou seja, uma mina de contos antológicos de Matheson. Mero engano. As próximas histórias foram um poço de decepção, exceto “Encurralado”, como já disse no início desse post.
“O homem dos feriados”, com o perdão da palavra é “um pé no saco”. Acreditem: não posso publicar muita coisa sobre a história, pois estaria revelando o seu final. O autor escreve sobre um sujeito que trabalha numa agência que faz estatísticas sobre o número de pessoas que serão mortas nos feriados. O tal funcionário tem um método sui generis para descobrir com exatidão quantas vítimas morrerão, fazendo assim, uma previsão sem margem de erros. Um conto com menos de três páginas... antes não tivesse nenhuma...
Montagem
Imagine se você pudesse transformar a sua vida num filme, onde os fatos ruins passassem rapidamente ou até mesmo fossem eliminados. Quanto aos bons momentos; esses sim, seriam vividos intensamente. Bom não mesmo? Errado. Isto é péssimo e pode se transformar num verdadeiro pesadelo. Foi o que aconteceu com um jovem e desconhecido escritor que após um pacto incomum conseguiu concretizar esse desejo. Resultado: a sua vida se transformou num verdadeiro pesadelo. Detalhe: o personagem se esqueceu que um filme passa rapidamente, durando em média pouco mais de duas horas. Só o conto que não passa; quanto mais você lê, a história nunca termina. Então bate o desespero – já que sou do tipo de leitor que não gosta de abandonar um livro pela metade, mesmo sendo ruizinho – e a cada página lida, começo contar quantas ainda faltam para terminar o conto. O final é simplesmente risível. Uma errada de mão feia de Matheson.
O distribuidor
Um aparentemente ingênuo cidadão se muda para uma cidadezinha tranqüila e começa a fazer amizade com os seus vizinhos. Todos o recebem muito bem e dessa maneira ele passa a conhecer alguns segredos dessas pessoas. Então, a sua verdadeira personalidade vem à tona. É quando o Sr. Theodore Gordon começa a usar esses segredos para jogar um vizinho contra o outro causando um verdadeiro pandemônio no bairro e com conseqüências trágicas. Mas afinal, de contas, quem é na realidade o Sr. Gordon e porque ele age dessa maneira? Só mesmo lendo para saber. Li e não gostei.
Apenas com hora marcada
Não chega a ser ruim, digamos que seja apenas mediano. E coloca mediano nisso! Vale mesmo pela conclusão da história que chega a ser hilária. Um barbeiro e uma manicure nada convencionais recebem os seus clientes da maneira mais natural possível. Tudo correria muito bem se os dois não tivessem uma sociedade “pra lá” de curiosa com um médico fracassado. O curioso é que todos os clientes que vão fazer barba, cabelo e unhas saem ou chegam ao salão com uma dorzinha no corpo. Para saber a causa dessa dorzinha, só mesmo lendo o conto, que como disse, é apenas mediano.
A caixa
"A Caixa" (The Box) com Cameron Diaz foi baseado no conto
escrito por Richard Matheson
Não se iluda pensando que o conto de Matheson é semelhante ao filme com a Cameron Diaz exibido nos cinemas em 2009. Os dois são tão diferentes como água e vinho. No filme existe uma família formada por esposo, esposa e filho; já no livro no qual a produção cinematográfica foi baseada há apenas um casal. O filme de 2009 modificou totalmente a história escrita por Matheson, incluindo pitadas sobrenaturais e seres fantásticos que poderiam ser anjos ou demônios sob a forma humana. Tudo isso misturado com uma alta dose de ficação científica. Já o conto que está no livro “O Incrível Homem que Encolheu” é seco e objetivo, sem nenhuma firula. Mesmo assim, gostei muito mais do filme. Achei o conto simplório demais. Um casal do subúrbio recebe uma caixa de madeira com um grande mistério. A caixa possui um botão, que se pressionado, da direito à família de ganhar um milhão de dólares. Mas existe um preço para isso: no momento que o botão for apertado, uma pessoa de qualquer parte do mundo e que o casal não conhece irá morrer. Marido e mulher tem 24 horas para decidir de pressionam o botão ou não.
Encurralado
"Encurralado": Conto e filme podem ser
considerados verdadeira obras primas
No momento em que o desânimo estava tomando conta de mim por causa dos contos frustrantes do livro lançado pela Novo Século, eis que surge um verdadeiro “oasis” no meio do deserto arenoso de histórias de Matheson: “Encurralado”. Quem assistiu ao filme de 1971, dirigido por Steven Spielberg sabe do que estou falando... ou melhor, escrevendo.
O conto prende o leitor do início ao fim, principalmente aqueles que não tiveram a oportunidade de assistir ao filme e por isso mesmo, desconhecem a história. Matheson narra o drama de um homem de negócios dirigindo sozinho por uma estrada deserta e de repente se vê perseguido pelo motorista de um caminhão. Depois de algum tempo, ele chega a conclusão de que o misterioso caminhoneiro – que em nenhum momento mostra o seu rosto - quer matá-lo.
Xô, mosca!
Prefiro não comentar nada sobre esse conto; aliás, estou custando a acreditar que realmente foi Richard Matheson que o escreveu. Falar o que de um personagem que destrói o seu escritório tentando matar uma mosca que o estaria infernizando? Onde está o terror, o suspense, as reviravoltas no enredo? Onde?
O consolo para aqueles que decidirem comprar o livro da editora Novo Século é que “O Incrível Homem que Encolheu” é o maior dos 10 contos, tendo em média 200 páginas. Quanto aos demais são bem curtinhos, e por isso terminam logo...

8 comentários:

  1. O primeiro review ruim que vejo desses contos. De qualquer forma obrigado pelo serviço de utilidade pública =)

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  2. Muito triste a sua história! Você estava tão empolgado na resenha d'O Incrível Homem que Encolheu!
    Mas é assim mesmo, é difícil um livro de contos onde todos sejam bons.
    Isso aconteceu comigo em Fantasmas do Século XX, do Joe Hill. Eu sou muito fã desse autor, mas tem uns contos bem chatos no livro...
    Boa sorte na próxima!

    ^^

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  3. Pois é... verdade. Mas, pelo menos, se salvaram quatro: "Pesadelo a 20.000 pés", "O Teste", "Encurralado" e é claro "O Incrível Homem que Encolheu".

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  4. Olá,gostei do seu post.
    Tenho esse livro,porém discordo de você sobre alguns contos.
    Realmente "O Incrível homem que encolheu"é muito bom tem em média 200 páginas e já teria salvo mais da metade do livro(que no caso tem 343).
    "Pesadelo a 20.000 pés" é realmente ótimo um dos melhores contos do livro.
    "O teste" achei a história mediana.
    "O homem dos feriados"achei a história muito fraca e muito ruim.
    "Montagem"não gostei,achei bem fraca também(se bem que é melhor que a anterior).
    "O distribuidor"essa história eu discordo de você,pois achei ela bem interessante.Mostra a manipulação de um homem sobre seus vizinhos.
    "Apenas com hora marcada" bem mediana mesmo,porém achei melhor que "O teste".
    "A caixa" gostei muito,achei esse conto interessante.
    "Encurralado" é um conto maravilhoso,porém perdeu um pouco para mim pois já tinha assistido ao filme.
    "Xô mosca"definitivamente o pior conto,pois é um conto com cerca de 20 páginas e é compridinho em comparação com "O homem dos feriados" que é muito ruim também.Se é para fazer um conto ruim melhor que seja pequeno do que grande.Um cara destrói o escritório por uma mosca?Sem comentários.
    Resumindo: O livro é bom pelo fato de ter O incrível homem que encolheu,Pesadelo a 20.000 pés,O distribuidor,A caixa e Encurralado.Ruim por ter O homem dos feriados,Montagem e Xô mosca.O teste e Apenas com hora marcada ficam no meio,na minha opinião.
    Isso foi o que eu achei sobe o livro.
    Obrigado.

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  5. Olá José Antônio como vai? Adorei seu blog! Tenho esse livro e achei dua histórias do Matheson medianas: "O homem dos feriados" - muito entendiante e "Xô mosca". Os outros gostei bastante, principalmente "O distribuidor", "Pesadelo a 20.000 pés", "Encurralado" e "A caixa". Abraço!

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    1. Obrigado Gonçalves!
      É difícil encontrarmos um livro de contos, onde todos sejam considerados bons. Com Matheson não é diferente; mas os que se 'salvam' são ótimos.
      Abcs!

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  6. Bom, pra você ver como tudo é relativo. Eu já achei "O Homem dos Feriados" um dos mais interessantes. O Matheson é um dos poucos autores de sci=fi e sobrenatural que pega um caminho mais profundo, além da trama em si. Tanto em O Homem que Encolheu como O Homem dos Feriados a gente já percebe o embrião do que mais tarde seria Amor Além da Vida.
    Já o Encurralado, apesar de envolvente, do suspense todo, não chega de fato a lugar algum, porque não há um motivo nem sugerido e nem sobrenatural pra tanta perseguição. Como fica apenas no suspense pelo suspense, achei Stephen King demais pra mim.
    Mas concordo que o mais tocante é mesmo O Teste.
    O que vale é ler Matheson... Sempre.

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    Respostas
    1. Alessandra, como você mesma disse: "O que vale é ler Matheson... Sempre". Pena que em 2013 perdemos um dos gênios da sci-fi, mas ficou o seu legado.
      Grande abraço!

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