domingo, 9 de setembro de 2018

Os Frutos Dourados do Sol


Acabei de ler “Os Frutos Dourados do Sol” de Ray Bradbury e adorei. Quando os críticos dizem que o autor é considerado o rei dos contos de ficção científica não dá pra negar. Prova disso são obras como “Crônicas Marcianas”, “O Homem Ilustrado”, “Fahrenheit 451” e, claro, “Os Frutos Dourados do Sol”.  Curiosamente, a maioria dos contos desse último não tem nada a ver com ficção científica. São histórias comuns do nosso dia a dia, mas que nas mãos de Bradbury acabam se transformando em enredos incríveis. É por isso que vou mais além ao classificar o talento desse escritor, pois na minha opinião ele não pode ser considerado apenas o rei dos contos de ficção científica, mas também um dos reis das histórias de suspense, policial, terror e ainda de fatos corriqueiros que fazem parte da rotina de vida de qualquer cidadão comum.
Dos 22 contos do livro, apenas cinco tem o status de ficção científica, quanto aos demais passeiam pelos gêneros policiais, suspense, terror e algumas banalidades. Êpa, pêra aí!? Eu disse banalidades? Sim, banalidades. Mas, com um porém; esses tais fatos banais vistos pela ótica de Bradbury se transformam em verdadeiras obras primas.
Comprei “Os Frutos Dourados do Sol” por causa de um único conto: “Um Som do Trovão”. Apesar de saber que poderia encontrar essa história facilmente na internet, queria tê-la à moda antiga, ou seja, impressa num livro para que eu pudesse manuseá-lo e depois guardá-lo em minha estante. Quando descobri que “Um Som de Trovão” fazia parte da coletânea de “Os Frutos Dourados do Sol” não pestanejei e comprei o livro imediatamente.
A medida que fui lendo os contos, percebi que grande parte deles não tinha nada a ver com ficção científica, mas ao invés de ficar frustrado,  acabei sendo engolido por aqueles fatos fictícios transformados em histórias e que poderiam, perfeitamente, estarem acontecendo comigo ao invés dos personagens da história.
É evidente – como acontece com todos os livros de contos de qualquer autor - existem os bons e também aqueles bem fraquinhos, mas garanto que  a maioria deles são ótimos.
Vou listar aqui, os contos que mais me agradaram. Aqueles que eu devorei com avidez. Anotem:
01 – A sirene do nevoeiro
Conto narrado em primeira pessoa e com um leve toque de terror. Dois amigos que trabalham e moram num grande farol localizado numa baía presenciam algo extraordinário numa noite fria de novembro. Atraído pela luz e pela sirene que ecoa no mar, algo misterioso sempre visita o farol em determinada noite do ano e depois vai embora. Só que nesta madrugada, durante a sua vinda, este ser estranho resolve fazer algo diferente e assustador.
02 – O pedestre
Em menos de cinco páginas, Bradbury já arremata a história. Aliás, essa é uma das características do autor: contos curtos e com finais abertos ou impactantes. O enredo se desenrola num futuro distópico onde a rotina das pessoas é assistir as suas enormes televisões e depois entrar em seus poderosos carrões e trabalhar. E só. Um escritor não se enquadra nessa rotina, já que ao invés de se entregar a televisão e aos carros, prefere  caminhar todas as noites pelas ruas da cidade. Por isso, ele acaba se dando mal.
03 – As Frutas do fundo da fruteira
Não só o melhor conto do livro – juntamente com ‘Um Som de Trovão’ – como também um dos melhores contos que já linha em minha vida. Bradbury dá uma aula de como manter o leitor grudado na trama. Você, simplesmente, não consegue desgrudar os olhos da história. No conto narrado em primeira pessoa, o protagonista que acabou de matar uma pessoa na própria casa dessa pessoa, se vê obrigado a eliminar todas as provas que possam incriminá-lo. Desesperadamente, ele começa a limpar tudo o que possa ter tocado na casa da vítima com o objetivo de apagar as suas impressões digitais. A cada impressão digital apagada, a sua angustia vai aumentando. A limpeza pode continuar para sempre.
04 – O menino invisível
A solidão é a premissa desse conto. Uma bruxa fracassada – os seus feitiços deixaram de dar certo – que vive na solidão decide enganar um garoto para que ele fique sempre ao seu lado como companhia. Ela ganha a atenção do menino dizendo que tem o poder de torná-lo invisível e após jogar um feitiço no menino,  bem...  as coisas não saem como o planejado. Achei o final bem melancólico.
05 – A máquina de voar
O autor nos transporta para a China no distante ano de 400 AC, onde um homem consegue voar, após ter criado um engenho sofisticado e fora da realidade para aquela época. Quando o seu feito chega ao conhecimento do imperador, o leitor é surpreendido com a atitude do monarca que decide fazer algo surpreendente.
06 – O papagaio de papel dourado e o vento prateado
História com toques infantis e muito divertida, mas que ensina uma grande lição de vida no final. Ah! É o segundo conto do livro que tem a China antiga como pano de fundo. Duas cidades vizinhas competem entre si para saber qual é a mais poderosa. O termômetro desse poder é ‘medido’ pelo formato de suas muralhas. Quando um imperador muda a aparência da muralha de seu reino, imediatamente o seu rival tem a mesma atitude. Esta competição cega vai ensinar uma lição muito importante para os dois monarcas.
07 – O bordado
Conto curtíssimo de apenas quatro páginas que arrepia o leitor por causa de seu impacto final. Três senhoras idosas ficam na varanda de uma casa bordando e conversando sobre algo misterioso que irá acontecer dentro de pouco tempo e que poderá modificar as suas vidas e também de outras pessoas. Quando você descobre o que é... então, vem o impacto.
08 – O grande jogo entre brancos e pretos
O título já entrega o conto. Durante todos os anos é realizado um jogo de basebol entre os hóspedes brancos de um hotel e os empregados negros. Tudo vai bem antes do jogo, mas depois que o árbitro apita, o clima começa a piorar, descambando para o inevitável caminho do preconceito. Neste conto escrito em 1945, quando a discriminação racial ainda persistia em diversos segmentos da sociedade americana, Bradbury mostrou toda coragem ao deixar evidente a sua posição anti-racista.
09 – O lixeiro
O conta fala de um lixeiro que apesar de não ter grandes regalias na vida se considera feliz com o seu trabalho que dá certa estabilidade à sua família. Esta rotina tranqüila muda no momento em que ele recebe a noticia de que será obrigado a recolher com o seu caminhão de lixo os corpos das vitimas de uma bomba atômica.
10 – Um som de trovão
Encerro a lista com o conto que fez com que eu comprasse o livro. Demais! Que narrativa! O enredo fala de uma viagem no tempo e as suas conseqüências através da extrapolação do ‘efeito borboleta’. Na trama, uma empresa denominada Time Safari, Inc. assegura que pode levar pessoas de volta no tempo de modo que elas possam caçar animais pré-históricos, tais como  o Tyrannosaurus rex. A fim de evitar um paradoxo temporal, eles agem com muito cuidado para deixar o curso dos acontecimentos intacto, visto que mesmo uma alteração mínima pode causar mudanças gigantescas no futuro. Os viajantes só podem abater animais que iriam morrer em breve, e não podem sair de uma trilha demarcada, que flutua acima do solo. Nenhum objeto pode ser removido do passado, e a única recordação permitida é uma foto do caçador ao lado do monstro morto. Tudo vai bem até que um dos caçadores decide desrespeitar as normas.
Taí galera, livraço! Recomendo muito a leitura. A boa notícia é que a obra pode ser encontrada facilmente nos sebos a preços módicos.

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