domingo, 15 de abril de 2018

O Terror


Algumas vezes sempre paguei caro pela minha sinceridade: ou perdi amigos, ou levei broncas imerecidas, ou fui taxado de ignorante ou tudo isso junto num balaio só. O Por que desse desabafo? É simples: por causa de “O Terror” de Dan Simmons. Na semana passada, após ouvir a minha opinião sobre o livro, uma antiga colega de escola soltou o torpedo: - “Para de falar bobagem, leia o livro direito, ele é ótimo!”. Este míssil disparado pela Sandra (nome verdadeiro da leitora – ela autorizou colocá-lo no post) foi pior do que um soco na ponta do queixo. Só não fui a nocaute porque o espírito do Muhammad Ali – que assimilava golpes dos adversários com uma resiliência incrível – baixou em mim naquela hora.
Por isso, depois da ‘rajada’ atirada pela Sandra fiquei meio cabreiro antes de escrever esse post. Na realidade, fiquei na dúvida: “escrevo ou não?”
- Quantas ‘Sandras’ irão ler o meu post? – pensei comigo. – Bem, seja o que Deus quiser; vou escrever e pronto. – conclui.
Como o livro vem sendo endeusado por críticos e leitores, talvez o que eu diga sobre o final da obra provoque a ira de ambos, como provocou a ira da Sandra.. Mas prefiro ser honesto com os seguidores desse blog – escrevendo o que, de fato, achei da obra – do que embarcar na onda e começar a falar bem de algo só porque quase todos estão falando bem desse algo.
Em tão vamos lá: as últimas páginas de “O Terror” mataram um enredo que vinha sendo desenvolvido de maneira magistral. As fatídicas últimas páginas foram um desastre. A história de Simmons tinha tudo o que é necessário para prender  a atenção leitor: ação, drama, mistério, pitadas de terror e algo mágico chamado ‘mesclagem de ficção com realidade’. Cara, Simmons fez algo de gênio.  Ele reinventou uma das mais fascinantes histórias da exploração marítima no século XIX.
O autor remonta com toques ficcionais a história real do evento que ficou conhecido como Expedição de John Franklin, ocorrida em 1845, uma das mais alucinantes odisséias marítimas da história, envolvendo uma tripulação de mais de 128 homens da marinha britânica em uma grande tragédia.
O explorador britânico, Sir John Franklin que comandava a expedição, e que partiu com dois navios – HMS Erebus e HMS Terror – buscava descobrir uma rota polar entre Atlântico e o Pacífico, bem acima do Círculo Polar Ártico. As embarcações afundaram no Ártico e só reapareceram em 2014 e 2016, respectivamente.
O destino do Erebus e do Terror permaneceu um mistério por 15 anos, até um barco contratado pela viúva de Franklin encontrar uma mensagem na ilha do Rei William, no extremo norte do Canadá, que dizia que seu marido e 23 membros de sua tripulação morreram no dia 11 de junho de 1847, em circunstâncias não especificadas.
Segundo dados colhidos por historiadores, constam que os 105 tripulantes sobreviventes seguiram a pé, mas diante da falta de suprimentos, também não conseguiram sobreviver.
Um grupo de pesquisadores canadenses encontrou na década de 1980, na região da ilha de Beechey, elementos da expedição que revelaram que os tripulantes morreram de frio, fome ou intoxicação por metais da comida enlatada. Havia também sinais de canibalismo.
Cara, imagine esse fato recheado com toques de ficção, além de personagens reais interagindo com outros inventados pelo autor?! Se a mistura for bem feita o resultado é um bolo de primeira qualidade. E foi isto que realmente aconteceu. Só que esse bolo preparado de maneira brilhante por Simmons ficou muito tempo no forno e assim, o seu desfecho acabou queimando.
O livro se desenrola de forma não linear entre cenas do primeiro inverno vivido pela equipe no mar e o período limite após uma decisão equivocada do comandante Sir Franklin em que os tripulantes acabam enfrentando barreiras gigantescas de gelo. Depois de uma série de acontecimentos sinistros, com o ambiente já beirando a insanidade, os navios passam a ser capitaneados por Francis Crozier, que precisa enfrentar, além do frio, da escassez de mantimentos e do desespero da própria tripulação, um inimigo perturbador - um predador desconhecido que fica a espreita no gelo, caçando e devorando as suas vítimas; uma criatura terrível e inteligente que está sempre um passo á frente das armadilhas preparadas pelos marinheiros.
A tal criatura do livro – apesar de reservar para os leitores muita ação e sustos – não passa de um pequeno complemento para o enredo de Simmons, onde o mais importante são os conflitos enfrentados pela tripulação dos navios Erebus e Terror. Temos o comandante que quer fazer da expedição um motivo para a redenção de um erro cometido no passado, por isso passa a tomar decisões precipitadas e que colocam em risco a segurança de todos os seus homens; temos o capitão linha dura que luta contra o alcoolismo e que  após uma série de tragédias passa a assumir o comando da expedição; temos o maléfico casal sodomita de marinheiros capaz de fazer as mais absurdas maldades, até mesmo matar por simples prazer; temos a mulher esquimó sem língua e com um misterioso passado; temos o médico humano e idealista que sempre encontra soluções de ultima hora para salvar vidas. Galera são muitos personagens fantásticos criados pelo autor.
Não existe nada mais maravilhoso no livro do que sentir a interação desses personagens tão ricos em sua essência. Os conflitos, as traições, as brigas, as reconciliações; os gestos de altruísmo, de amizade, enfim, um enredo inebriante. Quer dizer... até chegar o final insosso e decepcionante.
Na minha cabeça se passavam ‘mil e um finais’ diferentes para o Capitão Crozier – que assumiu o comando da expedição após uma série de eventos – e seus homens que conseguiram sobreviver durante parte da travessia do deserto ártico.
A união de Crozier com outro personagem acabou matando a história, pois a partir daí, o enredo começou a ganhar ‘ares’ mitológicos e abstratos, abandonando aquela realidade temperada com pequenos toques de ficção e que vinha predominando na obra. 
Achei um absurdo aquele ‘culto da língua’ perto final envolvendo esses dois personagens. Da mesma forma, também considerei patético o destino dado à criatura predadora – que destino? –  além da explicação para a sua origem. Resumindo moeram a linha real do romance e o transformaram num conto de “As Mil e Uma Noites”.
Se quiserem ler “O Terror”, leiam, pois trata-se de um livro fantástico; exceto o seu final murcho de decepcionante.

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