sábado, 3 de março de 2018

Misery – Louca Obsessão (Angústia)

Edição relançada recentemente pela Suma de Letras
Annie Wilkes, Annie Wilkes... Este nome que mergulhou o escritor Paul Sheldon no mundo da insanidade, chegando muito perto da loucura, também fará com que o leitor se sinta incomodado, muito incomodado. Este incômodo significa: raiva, medo, nojo e muito estômago embrulhado. É por isso que defino essa enfermeira psicótica como uma das personagens mais tenebrosas criadas por Stephen King, talvez, até mais do que o próprio Pennywise, o palhaço sobrenatural de “A Coisa” ou “It”.
Wilkies não é apenas louca, ela é má. Agora imagine uma pessoa má ao extremo e ainda psicótica. Certamente se você cruzar com alguém assim, o estrago será grande. E foi isso o que aconteceu com o personagem Paul Sheldon, um escritor famoso que após tomar todos os drinks os quais tinha direito, saiu dirigindo debaixo de uma tempestade de neve. Resultado: bateu o carro, quebrou as duas pernas, teve uma parada respiratória e... acabou sendo salvo por Wilkes que coincidentemente passava pelo local com o seu jipe. Triste Paul, para sofrer o que o coitado sofreu nas mãos da “Mulher Dragão” (este é o apelido que ela ganha durante a história), seria melhor deixá-lo morrer ali na estrada.
A enfermeira tresloucada do livro "Misery - Louca Obsessão", relançado recentemente pela Suma de Letras, leva Sheldon para a sua casa isolada no campo e lá resolve ‘cuidar’ de seu paciente. O escritor que é autor de uma série de romances de época que viraram Best-sellers acorda num lugar estranho numa manhã de inverno, com dores terríveis graças a sua bacia deslocada, o joelho esmagado e duas pernas quebradas.
Kathy Bates (Annie Wilkes), ganhadora do Óscar e James Caan (Paul Sheldon)
A sua cuidadora com vários parafusos soltos e um coração maléfico é uma robusta ( e bota robusta nisso) enfermeira que maneja habilmente remédios controlados pelo governo, além de alguns instrumentos de forma abusiva, entre eles um machado, um maçarico e uma faca elétrica. Annie Wilkes é uma mulher com um sentido distorcido do que é bom ou mau, certo ou errado. Para ela, por exemplo, que é fã incondicional dos livros da série Misery escritos por Sheldon, não é certo que sua personagem preferida, Misery Chastain, tenha sido morta por seu próprio criador – o que ela acaba descobrindo quando o ultimo livro de Paul chega ás livrarias.
Como deseja que o pobre autor seja a sua abelha operária, ela compra uma máquina de escrever, uma resma de papel, e exige que ele traga Misery de volta. Preso a uma cadeira de rodas, viciado em um remédio, trancado num quarto e sofrendo torturas terríveis, Paul não tem outra alternativa. Ele é o escritor mantido preso por sua fã numero um. Uma fã completamente louca.
“Angustia” ou “Misery” foi adaptado para os cinemas em 1991 e deu para Kathy Bates
Edição rara da Francisco Alves de 1987
– que viveu Annie Wilkes - o Oscar de Melhor Atriz, mas já adianto que a Wilkes das páginas é muito mais horripilante do que a personagem dos cinemas, diga-se de passagem, brilhantemente vivida por Bates.
Como escrevi no início desse post, King criou uma personagem capaz de superar Pennywise. Se o palhaço de “A Coisa” é maligno, Annie Wilkes é mais maligna ainda; se ele é louco, ela é ainda mais louca.
É evidente que não dá para descrever nenhuma das maldades que a “mulher-dragão’ faz com a sua vítima, caso contrário estaria recheando esse post de spoilers, o que posso dizer que é que as suas atitudes são ainda mais cruéis do que as cometidas no filme, que por si só já são assustadoras. Uma dessas passagens é a da marreta em que para punir Paul por ele ter tentado fugir, Kathy Bates amarra os seus dois tornozelos com uma corda e coloca no meio deles um calço de madeira. Depois, ela apanha uma marreta e ‘desce o sarrafo sem dó’ como se os tornozelos do escritor fossem uma bigorna. No livro, o castigo é completamente diferente e muuuiito pior. Juro que o meu estômago embrulhou e cheguei a ler as páginas meio que apressadamente para não ficar agonizado.
Como não bastasse essa bordoada, King ainda reserva outro castigo para o arrebentado personagem – que nessa altura do campeonato, mais se parce com um Judas malhado – que causa mal estar no leitor. Ok, basta dizer que deixei de usar faca elétrica na cozinha de minha casa. Arghhhhh!!
Cena da marreta no filme "Louca Obsessão" de 1991
Costumo dizer que King é um gênio; um escritor completo porque foge inteiramente do convencional. Para ele não tem graça criar um personagem que escolha os caminhos mais óbvios ou racionais quando precisam enfrentar uma situação adversa.  Com Paul Sheldon não foi diferente. No momento em que os leitores esperam que ele vá se vingar da enfermeira psicótica, pagando com a mesma moeda, ferindo a sua carne, eis que... Tcham! Tcham! Ele tem um idéia fantástica e descobre um meio de machucar profundamente Wilkies – deixando-a ainda mais arrebentada emocionalmente – sem usar nada que fira o seu corpo (a vingança na carne vem depois da vingança psicológica).
Somente  após a mulher ter ficado grogue com a pancada psicológica é que Paul parte para a retaliação física, usando para isso, parte do material empregado para desestabilizá-la emocionalmente. Ficaram um pouco confusos? Pois bem, leiam o livro ou assistam ao filme, já que essa parte final da produção cinematográfica é semelhante a obra escrita por King, e então entenderão o que eu quis dizer.
Um dos melhores livros que eu li do mestre do terror.
Ufa... suei frio em vários trechos.

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