segunda-feira, 27 de março de 2017

Presos Que Menstruam

Após ter lido o livro de Naná Queiróz, cheguei a conclusão de que os presídios brasileiros não estão preparados para receber mulheres em cumprimento de pena. Cara, as nossas cadeias e penitenciárias foram concebidas para ‘abrigar’ homens; aliás, tudo – desde a construção física ao atendimento dado aos sentenciados, visa preencher as necessidades masculinas.
Se não vejamos: o kit-higiene mensal distribuído - tanto nos presídios femininos quanto nos masculinos - contém, entre outros itens, apenas dois rolos de papel higiênico, o que pode ser suficiente para um homem, mas nunca para uma mulher, que os usam para duas necessidades distintas. Fazem parte ainda desse kit, dois pacotes com oito absorventes cada, ou seja, uma mulher com um período menstrual de quatro dias tem que se virar com dois absorventes ao dia; uma mulher com um período de cinco, com menos que isso. Queiróz ouviu o relato de presidiárias que são obrigadas a sair catando jornal e pedaços de papel sujos no chão – com muita sorte, quando os encontram – para se limparem após as suas necessidades.
Por incrível que pareça, por causa do baixo número de presídios femininos construídos no Brasil, muitas mulheres ainda são encaminhadas para presídios mistos, sendo obrigadas a conviver em celas com homens, correndo o risco de serem estupradas. Outra informação alarmante é que até mesmo as presidiárias que acabaram de dar a luz, muitas vezes, são forçadas a dormir no chão, nessas celas, com os seus bebês.
Outro detalhe que deixa evidente o descaso com as mulheres que cumprem pena está relacionado aos sanitários dos presídios mistos e, pasmem, de algumas penitenciárias femininas, recentemente readaptadas, que não passam de um simples buraco no chão. Para essa situação inusitada vale até uma pergunta mais do que lógica: ‘Como uma detenta que esteja com a sua gravidez avançada conseguirá fazer as suas necessidades nestas condições... de cócoras?!!
Jornalista Naná Queiróz
‘Presos Que Menstruam’ explora ainda o drama das presidiárias que após serem trancafiadas pelos seus crimes acabam perdendo a guarda de seus filhos ou então daquelas que são obrigadas a dar a luz na prisão com o bebê já nascendo preso.
A autora do livro vai a fundo, fazendo uma viagem no âmago dos problemas enfrentados pelos presídios femininos e mistos de vários estados. Confesso que muitos relatos me deixaram estupefato devido às situações que de tão graves chegam a se tornarem surrealistas, como os casos de agressões de carcereiros e guardas em presidiárias que estão nos meses finais de gestação.
Alguns podem pensar que ‘Presos Que Menstruam’ não passa de um livro sobre vítimas do cárcere. Nada a ver, na realidade, a jornalista mostra os dois lados da moeda: o das presidiárias que entraram no mundo do crime contra a sua vontade e daquelas que são criminosas assumidas, tendo praticado atos terríveis, mas todas elas enfrentando o mesmo problema: conviverem em locais sem nenhuma estrutura capaz de atender as suas necessidades femininas mais básicas.
O livro de Queiróz não fica preso somente ao relato da situação das detentas dentro do presídio, mas também fora dele. Além do cotidiano no cárcere, a autora também revela os episódios que levaram essas mulheres à cadeia. Várias dessas histórias, de fato, conseguem prender a atenção dos leitores como por exemplo, o relato de Safira que entrou no mundo do crime após ver todas as suas tentativas de sobrevivência esgotadas numa sociedade regidas por normas legais. Sem ter o que comer, com um filho pequeno no colo, sem apoio dos pais ou marido, não enxergou outra possibilidade se não o de ingressar na marginalidade.
Há, também, a história daquelas que entraram no crime pelas portas do fundo, sem terem nenhuma culpa ‘no cartório’. São os casos de Júlia, estudante de Direito, que carregou a sina de se apaixonar por sujeitos errados, como seqüestradores e ladrões, sem saber o ofício dos namorados; e também da índia Glicéria que foi presa, injustamente, por participar de uma manifestação com outros índios de sua tribo a favor da demarcação de suas terras.
Até mesmo duas presas famosas dão as caras na obra. A autora descreve como é o dia a dia de de Suzane von Richthofen, condenada a 39 anos de prisão por matar os pais; e de Caroline Jatobá, acusada do assassinato de Isabela Nardoni, de cinco anos. Lesbianismo, sexo entre presas e guardas em troca de favores, além de outros temas polêmicos também fazem parte do pacote.
Um tipo de leitura pesada, mas que consegue prender o leitor da primeira a ultima página.
Recomendo.


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