terça-feira, 16 de agosto de 2016

O Animal de Estimação e outros contos

“O Animal de Estimação e outros contos” do escritor mineiro Raphael Gomes é fantástico para aqueles que curtem a literatura fantástica. Trocadilhos à parte, como sou fã do gênero, amei o livro. Mas, novamente, alerto os leitores incautos: você tem que ser fã desse estilo literário.
Para aqueles que pensam que o “fantástico” na literatura ou no cinema são apenas fantasmas, assombrações, objetos que mexem sozinhos e por aí afora, se faz necessário esclarecer que o ‘buraco é mais em cima’.  Todo texto fantástico, desde comédias até terror e passando pelo humor negro, podem ter elementos inverossímeis, imaginários, distantes da realidade dos homens. Vamos lá, falando escrevendo mais claramente: mortos andando entre os vivos; árvores, pedras e animais que falam; pernas que andam  e raciocinam sem um corpo e etc e mais etc. Poderia ocupar esse espaço dando milhares de exemplos, mas acho que esses já bastam.
O livro de Gomes explora esse estilo com perfeição. Confesso que antes de ler fiquei um pouco temeroso por ser o fantástico um dos gêneros literários mais difíceis de escrever. Man, se o autor não dominar os fundamentos do estilo, com certeza, vai dar merda. É constrangedor, pelo menos para mim, ler algo que tão inverossímil que acabe se tornando patético. Muitas vezes, os autores se empolgam com os rudimentos do fantástico e se que esquecem que mesmo o inconcebível, precisa de um enredo e personagens críveis para sobreviver.
Por isso, passei a admirar esse autor porque ele conseguiu ‘rasgar o verbo’ no fantástico – mas rasgar de uma maneira exageradamente exagerada – sem foder todo o enredo. Os contos do livro de Gomes, mesmo tendo cabeças que vivem sem corpo, mulher minúscula que mora no armário de um homem, bebê que já nasce falando, um homem que é transformado em carvão para um churrasco entre a família, não caem no ridículo. A narrativa das histórias, algumas bem curtas,  fazem com que você se envolva com o personagem, sentindo a sua agonia ou então torcendo contra ou a favor. E conseguir esse feedback com os leitores quando se trabalha com elementos fantásticos é muito difícil, principalmente se o autor resolve ‘caprichar’ na dose do inacreditável, como fez Gomes.
No conto “Isabel A. Oliveira” me senti na pele daquela mulher que só tinha a sua cabeça! Pensei comigo: “Mêo, imagine eu acordando num hospital, após um grave acidente e percebendo que o meu corpo não existe mais, sobrando apenas a cabeça. Caraca! Que mal estar!
Em “O Animal de Estimação” que dá título ao livro, torci para que o dono de um bicho – sabe-se lá qual – encontrasse uma solução para evitar que o monstrengo continuasse crescendo de maneira incontrolável.
E o sujeito que descobriu que tinha ratos nascendo na cabeça! Imagine só, você  acordando e ao passar as mãos na cabeça descobre que ela se transformou num criadouro de roedores. Brrrr...
A obra tem 29 contos ligados pela temática do fantástico e do absurdo e com enredos que vão do humorístico ao onírico e ao angustiante. Prestem, também, atenção nas metáforas do absurdo real existentes em nosso dia a dia e que não vemos. Elas estão, digamos... embutidas nos contos. É o caso do cara pobre que só passa a ter importância na comunidade em que vive, após conseguir algum bem de consumo de valor ou então o individualismo crescente que faz com que só pensemos em nossos problemas, esquecendo de outras adversidades bem mais complicadas enfrentadas por pessoas próximas e etc.
Se você é fã do fantástico, leia. Com certeza irá gostar. De quebra ainda poderá refletir a respeito de preconceitos que estão arraigados em nossa cultura.

Inté!

Um comentário:

  1. Olá, José Antônio. Obrigado pela resenha. Agradeço muito os elogios! Grande abraço.

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