quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Cinzarela e o sapatinho de vidro

Desculpem-me por minha opinião leiga sobre o assunto, mas acredito que o gosto pela leitura chega quando ainda somos aqueles pirralhinhos que mal aprendemos a andar. Se esses tais pirralhinhos tiverem pais que incentivem a leitura nessa fase – vejam bem, disse pais que incentivem a leitura e não pais que ‘gostem de ler sem nada fazer’, pois pouco adianta devorar zilhões de livros e deixar o filho grudado na frente da TV vendo desenhos e mais desenhos – com certeza se tornarão ávidos leitores.
Digo Escrevo isso porque mesmo após meio século de vida ainda recordo de alguns livros que li em minha fase de pirralhinho. Tá duvidando? Ok, vou provar pra vocês: “A Horta do Juquinha”; “As Aventuras de Hans Staden”, narradas por Dona Benta e “Pinóquio” – um livro maravilhoooooso de capa amarela com ilustrações enooormes e uma história fantástica onde o boneco de pau se envolvia numa trama de mistério num parque infantil. Lembro ainda que tinha muito sorvete no enredo e nas ilustrações. Aliás, ‘sorvetaços’ coloridos que me davam vontade de arrancar a página e comê-la (rs).
Cara, não pergunte como me lembro de ter lido todas essas histórias porque não sei; simplesmente não sei e só. São insights que chegam em minha mente e cada vez que eles ‘dão as caras’, sinto um prazer enorme e um gosto maior pela leitura. É por isso que disse no início do post que acredito que o gosto pela leitura surge nesta fase de nossas vidas. Novamente, me perdoe os pedagogos de educação infantil se eu estiver errado.
Bem, mas porque estou dizendo escrevendo tudo isso? Eu explico. Galera, há dois dias, recebi um exemplar de “Cinzarela e o Sapatinho de Vidro” da Poetisa, uma nova editora brasileira especializada em traduções literárias, principalmente histórias para crianças. Caraaaca! Que saudades bateu da minha infância.
Ao pegar o livro em minhas mãos, pensei na sorte das nossas ‘crianças-leitoras’ do século XXI, quer dizer... desde que tenham pais que incentivem a sua leitura, deixando a TV, um pouquinho, de lado.
O livro infantil lançado recentemente é muito bom e o seu projeto gráfico - guardadas as mínimas proporções - lembram o livro de capa amarela do Pinóquio que li há mais de meio século. A ilustradora Marcela Fehrenbach fez um excelente trabalho.
A Poetisa inovou na história de Cinderela e o seu famoso sapatinho perdido que percorreu o mundo ganhando tanta fama que acabou, até mesmo, indo parar nos antológicos estúdios da Disney.
A gata borralheira idealizada por Charles Perrault em 1697 sofreu mudanças ousadas e também necessárias para os dias atuais, deixando a personagem com um jeitinho brasileiro.
A história é a que você já conhece: irmãs más, uma linda fada, bailes românticos e um sapatinho perdido. O que o leitor não espera, porém é a tradução inovadora de kall Salles e o projeto gráfico de Fehrenbach que traz uma linda princesa morena (Uhauuu! Acredite se quiser: m-o-r-e-n-a! Quer homenagem melhor do que essa para nós brasileiros?!)
Cynthia Beatrice Costa, uma das editoras da Poetisa explica que quando o grupo envolvido no projeto refletiu sobre o visual da “gata borralheira à lá Século 21”, decidiu fugir do padrão loirinha-com-cara-de-gringa. Ela esclarece que o texto de Perrault não faz referência às características físicas da protagonista. Só diz que ela é linda. Então, a galera da Poestisa deve ter pensado numa garota de olhos grandes, cabelos volumosos, charmosa e principalmente morenaça da gema como a maioria das mulheres brasileiras.
Mas você deve, também, estar se perguntando: porque Cinzarela e não Cinderela? A explicação da Poetisa é que Cendrillon, o nome da personagem em francês, descende de cenze (cinza, em português), porque a personagem dorme sobre as cinzas de uma lareira. Dessa maneira, a editora decidiu que era hora de retraduzir o nome para algo que fizesse mais sentido em português, já que Cinderela é o nome da heroína em inglês. E, assim, surgiu “Cinza-Rela. Além do sentido, o nome mantém, também, a sonoridade da letra “R”, presente no original. Capiche?
Parabéns para a Poetisa pela coragem em modificar – com sucesso – uma história que ao longo desses séculos ganhou o status de antológica.
Agora, só resta aos pais fazerem a sua parte e apresentarem a “gata borralheira brasileira” aos seus futuros devoradores de livros.

Detalhes do livro
Título: Cinzarela e o sapatinho de vidro
Autor: Charles Perrault
Tradutor: Kall Salles
Ilustradora: Marcela Fehrenbach
Editora: Poetisa
Ano: 2015
Número de Páginas: 20
Formato: 25x27,8 cm.

Preço: R$ 34,90

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