sábado, 26 de setembro de 2015

Thammy: Nadando Contra a Corrente

Não que eu seja sanguessuga, mas pela segunda vez em menos de um mês li um livro emprestado, novinho em folha, que caiu em minhas mãos ainda dentro da embalagem. O seu dono – o mesmo amigo que já havia me emprestado “Morri para Viver” – foi visitar a Bienal do Livro no Rio de Janeiro e neste dia estava acontecendo o lançamento de “Thammy: Nadando Contra a Corrente”, a biografia polêmica do ator e apresentador Thammy Miranda”, filho da cantora Gretchen. Resumindo: ganhei o prazo de dois dias para ler o livro e entregá-lo ‘são e salvo’ ao seu proprietário que estava com a sua lista de leitura bem atrasadinha.
Li o livro e gostei. “Nadando Contra a Corrente” é tão ou até mais polêmico do que “Morri para Viver” de Andressa Urach, mas com uma diferença: os temas – alguns até pesados – são tratados sem aquela ‘veia’ de sensacionalismo, numa linguagem franca, mas ao meu tempo leve.
Thammy foi muito feliz ao escolher Márcia Zanelatto para escrever a sua biografia. Não conheço o filho de Gretchen, mas ao lermos o livro imaginamos um Thammy divertido, questionador e sem papas na língua, abordando temas que tinham tudo para ser piegas e sensacionalistas, mas não são.  Não são por quê? Culpa (no bom sentido) da linguagem utilizada por Zanelatto. Enquanto “Morri para Viver” é denso e chocante de maneira escancarada; “Nadando Contra a Corrente” é denso e chocante, mas de uma maneira natural, mais ou menos assim: “Levei essa pancada  da vida, mas tudo bem, vamos levantar, sacudir a poeira e continuar tocando”; ao contrário daquele: “PQP! Que tombo! Que decepção! Essas coisas só acontecem comigo! Assim não dá!”. Capiche?
“Nadando Contra a Corrente” é uma represa sobre a vida de Thammy com todas as comportas abertas.
Ele descreve detalhadamente o seu drama no momento em que a mãe descobriu a sua sexualidade. Na época, o jovem tinha 16 anos, acompanhava Gretchen em shows pelo Brasil e estava apaixonada por uma produtora de televisão chamada Carla.
O trecho do livro em que Zanelatto revela como foi a reação violenta da mãe de Thammy ao descobrir  o romance da – na época – filha é muito forte:
"Gretchen deixou descer pelas mãos toda sua decepção, sua revolta. Sua mente estava turva, encharcada de decepção. Não tinha recursos, não tinha mais palavra que dessem conta do que sentia. Restava o gesto bruto. Pegou Thammy pelos cabelos e a atirou violentamente contra o chão. A raiva era tanta que ela poderia ter feito pior; com dificuldade, conseguiu se segurar. Mas nenhum tipo de agressão física poderia doer mais do que a única frase inteira que Maria Odete conseguiu dizer: "Eu preferia ter uma filha morta do que uma filha sapatão".
Se hoje, Gretchen aceita numa boa, a transformação sexual da filha, no início, a relação entre as duas foi bem conflitante, chegando a violência.
A mãe do artista e apresentador ainda aparece em outros trechos da obra, como no capítulo onde Thammy conta o período em que Gretchen se mudou para uma cidade do sertão de Pernambuco, após se casar com um sujeito “manguaceiro das cadela” que mamava um álcool terrível. A cantora estava numa fase decadente de sua carreira e se apresentava em  clubes, além de fazer pequenos shows. O ‘manguaça’ agredia a cantora tanto física quanto verbalmente, além de proibi-la de fazer as suas apresentações. Durante uma discussão, ele sacou uma arma e Thammy partiu para cima do homem implorando para que ele não matasse sua mãe. Disse que se Gretchen morresse, ela morreria junto. Thammy conseguiu impedir que uma tragédia acontecesse na família e enfrentou com a mãe, grávida de gêmeos, e os irmãos, uma viagem de ônibus de três dias com destino a São Paulo.
A percepção de estar em um corpo estranho também é destacada na biografia desde a infância do artista, quando ela pediu para a avó um Kichute, chuteira preta com travas, que fez sucesso entre os meninos nos anos 80. Ela adorava jogar futebol, correr e brincar de carrinhos. Ainda criança, a mãe a flagrou fazendo xixi em pé, mas pensou que a menina queria apenas chamar a atenção, pois ela estava grávida do segundo filho.
A decisão de fazer a mastectomia também é abordada em detalhes; além do momento de mais intimidade que ela teve com um homem. A autora conta que “Thammy tinha 16 e foi para um motel após uma festa à fantasia. O namorado estava fantasiado de Zorro. Ele queria transar, mas aí ele demorou no banho para esperar ele dormir. Depois foi a vez de ele entrar no banho e Thammy fingir que estava dormindo. Eles ficaram naquela negociação para não ter penetração e não teve. Esse foi o máximo que Thammy chegou com um homem”.
Além de sua intimidade e do passado cheio de preconceitos, “Nadando Contra a Corrente” ainda traz uma foto do artista nu onde mostra o peito após a retirada das mamas.
Enfim, galera; um livro polêmico, mas sem sensacionalismo.

Valeu a leitura. 

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